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60. A força da subordinação

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15.12.2015 | 4 minutos de leitura
Rafael Emanuel Neves
Crônicas
60. A força da subordinação

“Subordinai-vos...

por causa do Senhor” (1Pd 2,13).



 “Vou bem, que amo sempre,

e amo cada vez mais

é essa minha maneira torcida e reticente,

e espero uma resposta;

mas que não tarde [...]”

(Carlos Drummond de Andrade).



O mundo acompanha, com pesar, a perseguição aos cristãos na Síria, atualmente. Lamentamos não somente porque são cristãos, mas porque qualquer manifestação de intolerância religiosa é deplorável. Muitos sírios estão migrando de seu país, onde construíram sua vida, sua história, seus valores. Deixam suas terras onde conservam a memória de seus antepassados e sua identidade pessoal. Os que migram de sua terra- mãe se encontram em diáspora e se tornam minoria em terra estrangeira.


Porém, aos que permanecem em sua pátria (Síria) e professam a fé cristã, resta-lhes a coragem de continuar vivendo e, na fé, encontrar, ou mesmo continuar encontrando, forças para viver. A primeira Carta de Pedro (1Pd), no século I, procurou ajudar os cristãos, perseguidos pelo Império Romano, a se manterem firmes no Senhor. Aconselhou a seus destinatários a subordinação à instituição humana, não por mera submissão, mas como estratégia de sobrevivência. O conselho do escritor parte da subordinação do próprio Jesus Cristo, que se sujeitou à condição humana, condição de escravo, aliás. Ora, o conselho do autor da Primeira Carta de Pedro não quer alienar seus ouvintes; quer apenas ser realista. Sabe que frágeis e oprimidos como são os cristãos a quem escreve, não lhes resta outra opção a não ser viver santamente a esperança de que o caos do momento presente irá passar, tornando-se cosmos um dia, afinal não “há mal que dure para sempre”, como disse Santa Tereza.


Continuar firme não é coisa fácil. Manter a esperança é tarefa árdua. Subordinar-se a outrem é coisa para fortes. Ver morrer entes queridos e amigos, arriscando-se a perder a própria vida, por causa da fé em Cristo, é atitude que exige esperança e fé. Esperança que, num futuro, haverá liberdade de expressão da fé sem repressões; fé que o Ressuscitado está conosco na luta diária. É próprio do cristão a fé e a esperança. Mesmo quando se encontra no olho do furacão, o cristão permanece firme, pois sabe que não está sozinho. O amor lhe dá forças.


Manter-se firme no Senhor só é possível em nome do amor, e de um amor maior. Escreveu Drumond: “vou bem, que amo sempre, e amo cada vez mais”. O amor é força que nos faz seguir em frente, mesmo em meio às tribulações. A fé, dom precioso, ressoa em nosso interior à espera de uma resposta: “mas que não tarde”, desejamos nós! É inevitável a recordação da afirmação do Evangelho de Mateus: “Felizes sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,11-12).


Aos cristãos perseguidos na Síria sem possibilidade de encontrar saída para a situação presente, fica o conselho da Primeira Carta de Pedro: encontrar no exemplo de Cristo a força para submeter-se, não por covardia, mas por pura valentia audaciosa. A nós, fica a exigência de acolher aqueles que se tornaram refugiados, amparando-os em suas necessidades. Às autoridades que podem fazer algo para desmontar essa máquina de interesses e guerras, desafiamos com uma invectiva profética: “Ai daqueles que tramam maldades; que mesmo repousando em suas camas planejam crueldades. E, logo que o dia amanhece, executam seus planos malignos, pois têm poder para isso” (Mq 2,1-2). A todos que esperamos dias melhores, resta-nos cantar, sem constrangimento, como Renato Russo: “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã”...