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259. Discernir os problemas

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10.01.2022 | 3 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
259. Discernir os problemas
“A vereda dos justos é como a luz da aurora,
que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pr 4,18)

“Ó luz do Senhor, que vem sobre a terra,
inunda meu ser, permanece em nós”
(Frei Luiz Turra)

Desde pequenina, aprendi com meu pai que é preciso distinguir os problemas. Há um grupo de problemas incontornáveis com os quais devemos aprender a lidar. E há outro tipo de problemas que devemos combater, ainda que ao preço da própria vida. Quantas vezes ouvi do velho sábio a frase “cabeça não é só para pôr chapéu; pensa antes de fazer”. Sobre os problemas que deveriam ser eliminados, ele dizia: “Não seja fraco. Erga a cabeça e recomece!”. Sobre os problemas incontornáveis repetia à exaustão; “não bata de frente com o inimigo!” ou “não dê murros em ponta de faca!” ou ainda “bater de frente com o mais forte é burrice”. 
Meu pai era um jeca, de uma roça de Guaraciaba-MG. Fizera somente o primeiro ano primário no paiol da fazenda de meu avó juntamente com outras crianças da redondeza, quando passara por lá um professor itinerante. Sabia fazer contas como ninguém e lia razoavelmente, mas tinha uma escrita muito precária, reduzindo-se a fazer anotações dos nomes dos filhos e dos bezerros com suas datas de nascimento na porta dos frágeis guarda-roupas da casa. 
A falta de escolaridade não impediu meu pai de desenvolver um espírito de sabedoria e uma inteligência refinada. Era um engenheiro nato; sabia canalizar os córregos e, com uma roda d’água, colocava energia dentro de casa pra aquecer e iluminar sua família numerosa: a esposa e oito filhos. 
Meu pai se foi cedo. O trabalho duro e os maus tratos desse mundo capitalista ceifou sua vida ainda com 69 anos. Nós já estávamos criados, como ele costumava dizer, mas gozamos pouco de sua companhia quando de fato poderíamos lhe dar mais conforto e cuidados. Morreu em paz deixando um legado de amor e sabedoria, que ainda hoje ilumina nossa vida. 
Quando a gente envelhece, um fenômeno estranho começa a se desenvolver. O cérebro seleciona memórias: ensinamentos, fatos, lembranças, gostos, cheiros, manias... E fica, na maioria das vezes, um legado precioso, que não sabemos muito bem como herdamos, mas que – como a genética – faz parte da nossa vida e não podemos dispensá-lo. Tenho experimentado isso já nos meus 57 anos. Sobraram na memória algumas pérolas: o gosto refinado de minha mãe pela beleza e pelo asseio, a sabedoria de meu pai para resistir em tempos de crise, a consciência da própria dignidade e da dignidade dos outros, o dever de lutar pela justiça ainda que seja ao preço da dor etc. 
Quando me mudei para o apartamento no qual moro – um térreo com área para cultivar minhas plantas, aptidão aliás herdada de minha mãe – deparei-me com um problema quase sem solução: morcegos urbanos aos montes, que, na calada da noite, faziam da minha área externa a sua latrina. Meu ap se localiza num bairro de periferia, cheio de casas com terreiro e muitas árvores que, pouco a pouco, vão sendo derrubadas e, consequentemente, os morcegos se sentem desalojados de seu habitat natural. Assim meio sem nicho para se abrigar, eles procuram novas alternativas de moradia nas áreas construídas e invadem os quintais das casas. 
Além de ter medo desses mamíferos roedores – medo infundado segundo minha sobrinha bióloga, pois são herbívoros e logo são inofensivos –, o produto final da coexistência pacífica com os mesmos é um desagradável cheiro de urina e fezes nojentas por todo lado. Fezes, muitas fezes, de modo que a cozinha externa e a lavanderia viviam imundas, irritando-me ao extremo, pois, dentre os oito irmãos, eu herdara à assíntota o gosto de minha mãe pela limpeza e pela arrumação.
No começo, pensei poder eliminá-los. Fiz de tudo que me fora recomendado, desde comprar aqueles aparelhos elétricos que emitem correntes magnéticas às quais eles são avessos, até defumar toda a área com um produto estranho com cheiro de churrasco. Nessas tentativas, pendurei objetos tais como enfeites e sacolas, que se mexiam com o vento noturno, a fim de espantá-los. A área continuava suja de fezes e pior: tornara-se feia devido aos adereços supostamente com poderes mágicos contra os morcegos. Eu tentei tudo que me ensinaram e que achei disponível na internet: tecnologia, rezas e mandingas, Mas a natureza venceu, porque os animaizinhos assustadores precisam de um lar e o meu era bem bonito; confesso que eles têm bom gosto. Foi quando já exausta da luta inglória, minha sobrinha bióloga recomendou-me simplesmente parar de brigar com os morcegos. Não valia a pena tanta peleja. Se eles não são bem-vindos na minha casa, que eu deixasse a luz do quintal acesa, pois esses parentes dos ratos detestam claridade e, com certeza, me dariam sossego. Foi uma solução tão fácil, que pareceu ingênua. Mas acreditei em quem entende do assunto. Desde então, uma lâmpada fraquinha fica acesa a noite inteira e nunca mais meus vizinhos de cara vampiresca fizeram de meu quintal a sua latrina.
Tenho aprendido com esses episódios da vida. Bater de frente com os morcegos era derrota na certa, mas conviver pacificamente com eles, cada qual no seu canto, era uma solução possível. A sabedoria de meu velho pai fizera morada na mais nova de suas netas, que me aconselhara a parar de brigar com os roedores de cara feia. Uma solução simples e prática. Desde então, tenho encarado esses animaizinhos como inimigos que não podem nem devem ser confrontados. Devem ser mantidos a uma distância razoável de forma que podemos monitorá-los com a claridade de nossa luz.
Uma lâmpada acesa é capaz de fazer milagres que nem as rezas nem a tecnologia deram conta de realizar. Uma luz na escuridão, mesmo que pequena, produz grandes feitos. Pode ser a luz da fé, sempre chama a iluminar as noites, ou a luz da consciência, sempre guia dos humanos de boa vontade. Não importa se a motivação é uma crença religiosa ou simplesmente a crença na vida. O importante é que essa luz seja suficiente para nos ensinar o bem viver, para nos arrancar das trevas do egoísmo e da ganância e nos colocar no reino da partilha e da vida fraterna.
Nesses últimos anos – não só no Brasil, mas praticamente no mundo inteiro – os morcegos humanos saíram dos recônditos mais escuros e mostraram sua cara maligna nos quintais de nossa vida pública. Nesse ano de eleição, o desafio será ainda maior no enfrentamento desse tipo de gente. Não sabemos como eliminá-la definitivamente do poder, nem temos condições para tal. Teremos de distinguir entre os assustadores herbívoros e os malignos chupadores de sangue. Quanto aos primeiros, aprenderemos a conviver com eles, pois, além de muitos, já estão afeiçoados ao quintal da casa brasileira e não vão se espantar com qualquer mandinga ou artefato da razão. Haveremos de fazer alianças mais que necessárias, sempre guiados pela luz do bom senso. Vamos acender a luz da consciência política, coisa que esses políticos não toleram, pois fica à mostra sua face maligna. Quanto aos outros, os vampiros do povo, devem ser combatidos com rigor; devem voltar para os esgotos de onde vieram ou serem aprisionados devidos aos males que disseminam. Não devemos desanimar, mesmo que conheçamos derrotas. Para nosso consolo, existe a vacina antirrábica para o caso de alguma picada. Tratado caso por caso, esses chupadores de sangue não haverão de disseminar mais seus males. Que fique acesa a nossa lâmpada!

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