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256. Quando o feitiço vira contra o feiticeiro

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15.03.2021 | 7 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
256. Quando o feitiço vira contra o feiticeiro
“No dia em que os inimigos dos judeus esperavam dominá-los, aconteceu o contrário:
os judeus venceram seus adversários” (Est 9,1)

“Se um dia é da caça; o outro é do caçador”
(Dito popular)

A Sagrada Escritura é uma coletânea de causos e sabenças, de leis e preceitos, de contos e novelas, de relatos recolhidos da experiência de um povo que se abriu pra o apelo de seu Deus. Considerada pelos cristãos como texto inspirado e que tem em si uma mensagem salvífica, ou seja, a revelação divina, a Escritura carrega em seu bojo de tudo um pouco, pois diversa é a vida e rica de possibilidades. Nela encontramos desde os Evangelhos repletos de ternura e do cuidado de Jesus com os pobres excluídos, até alguns livros novelísticos coloridos de puro sangue, que mais parecem um telejornal de quinta que expõe a vida humana e suas fragilidades. É bom que seja assim, pois fica claro que nenhuma realidade humana escapa aos cuidados de Deus.
Uma das pérolas da Escritura é o livro de Ester, muito pouco conhecido dos cristãos e cujos relatos aparecem na liturgia por ocasião de festas marianas. Faz-se um paralelo entre a rainha judia, que encantou o rei Assuero com sua beleza e sedução, com Maria, a mãe de Jesus, que encontrou graça diante de Deus. Maria de Nazaré, a pobre menina de um povoadinho da Galiléia, adquiriu traços de rainha e ganhou o título de Nossa Senhora. Infelizmente, o precioso texto dos judeus ficou reduzido a isso: uma prefiguração mariana. Mas não é bem assim. O livro tem força própria e não depende do paralelo entre Ester e Maria para ter valor e nos deixar preciosas lições de vida.
Num texto carregado de violência, de vingança e de acerto de contas entre as partes em conflito, o que escandaliza muita gente pudica, perpassa uma mensagem importante: o feitiço pode virar contra o feiticeiro. A obra data provavelmente do período persa, apesar de alguns estudiosos situá-lo no período helenístico de Antíoco IV, feroz perseguidor do judaísmo. Faz uma clara defesa da fé javista e mostra como, entre tramas maquiavélicas, Deus acode o justo.
Um dos protagonistas do livro é Amã, um funcionário real, cujo ódio destilado contra os judeus parece não ter fim. Suas manobras vão desde pequenas mutretas para se promover a uma arapuca diabólica para matar todos que atravessam seu caminho. O alvo são os judeus, a quem destina matar e extirpar da terra. Trata-se de uma novela bíblica, que não pode ser levada ao pé da letra, mas cuja sapiência foi reconhecida por nossos antepassados na fé.
Sem revelar que era judia, Ester candidatou-se a esposa do rei Assuero, cuja esposa-rainha, Vasti, não se deixava domar nem se submetia a seus caprichos. Cansado da personalidade irritante de sua esposa, o rei se pôs a procurar uma mulher que lhe fosse cara. O tio de Ester preparou a sobrinha para assumir a vaga e, como não lhe faltavam encantos, ela conquistou o coração do soberano.
Enquanto isso, Amã, uma espécie de primeiro ministro, perseguia, maltratava e distribuía crueldade aos judeus, especialmente a Mardoqueu, o tio de Ester. Sua ardilosidade chegou ao ponto de conseguir uma autorização do rei para assassinar todos os judeus, numa execução sumária em todo canto do reino. Ester, solidária à sua gente, não se fez de rogada nem se omitiu. Aproveitou de sua posição de rainha e, num belo dia, quando estava marcada a chacina, convenceu o rei a salvar sua gente, revelando-se judia. O feitiço virou contra o feiticeiro e Amã, de braço direito do rei, passou a perseguido e teve sua vida ceifada. Nasce aí a festa de Purim, ou Festa das Sortes, porque a reviravolta aconteceu no dia que fora sorteado para a matança do povo oprimido. Apesar de seu teor claramente nacionalista, a história contada no livro serve ainda hoje de inspiração para todos aqueles que creem que a verdade prevalecerá e, por isso, não se deixam abater na sua esperança.
Vivemos tempos sombrios. O que não falta no Brasil de hoje é uma porção de Amãs, carreiristas profissionais, que planejam subir ao poder, mesmo que seja ao custo do massacre de uma nação. Não é de hoje que assistimos ao declínio do país, cujo primeiro empurrão ladeira abaixo foi o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Roussef, tramado por um Amã carreirista e misógino que não suportou perder as eleições para uma mulher. Depois deste, cada dia aparece um novo Amã tramando contra nossa gente. Tem um que era presidente da Câmara dos Deputados e fez delação premiada só de vingança, porque a presidenta não aceitou fazer negociações escusas com ele e a sua laia. Depois, o golpe maior veio com um marreco de uma republiqueta de bananas lá do sul do país. Era um juiz desconhecido, que sonhava com ascensão e carreira política. Tramou um julgamento com apoio da imprensa, mas já tinha o veredito estabelecido antes de apurar as provas e ouvir as partes. Sabia que o golpe aplicado tiraria o maior líder do país do páreo das eleições e isso significaria a ascensão de um político de carreira, sem nenhuma significância e com menos escrúpulos que significatividade ainda.
O país acreditou em suas lorotas e o líder foi preso; saiu de cena por honradez e amor à verdade, vendo seu país despencar em queda livre. Mas que importa se o país despenca precipício abaixo quando os interesses pessoais do juizeco e de uma elite inescrupulosa está em jogo? Era preciso fazer bem feito o mal feito planejado. Tudo nos conformes da lei, com o Supremo e tudo. Amã tramou o dia da queda do inimigo e planejou tim-tim por tim-tim a sua ascensão nacional. E quase deu certo. Amã se tornou o braço direito do perverso rei Assuero, ocupando o cargo de ministro da justiça.  
Como a terra é redonda e o mundo gira como um pião – Chico Buarque já cantou isso em tempos de ditadura –, chegou o dia da vingança. O povo oprimido, personificado no líder nacional, viu o dia amanhecer de novo. A esperança renasceu, pois, como cantou o sambista, “camarão que dorme a onda leva, hoje é dia da caça, amanhã do caçador”. Um ministro do Supremo Tribunal – cujas razões reais ainda desconheço – resolveu tirar o processo do líder nacional das mãos da máfia da Lava Jato e o ex-presidiário ficou elegível de novo enquanto o juizeco passou a ser réu no mesmo tribunal.
Ainda é cedo para realizar a “Festa de Purim”, mas – com Amã desmascarado – crescem as chances de o Brasil começar a subir a ladeira da qual ele despenca desde 2016. Já podemos celebrar pequenas vitórias e nos alimentar de ideais de humanidade em plena pandemia, pois, em meio a tão grande crise, estava mesmo difícil conjugar o verbo esperançar. Por todo lado, a ignorância e a perversidade reinam e o preço de tudo isso é o massacre dos pobres, muitas vezes com o aval de muitos que se dizem bons cristãos e patriotas.
Não somos dados a vingança nem a desejar mal a ninguém, até porque a fé cristã nos convida ao perdão e ao amor ao inimigo. Mas sonhamos com o dia em que o juiz de araque estará atrás das grades, bem onde ele costuma colocar quem atravessa seu caminho carreirista, juntamente com o Hitler Tropical que faz o desmonte do país. A sabedoria do livro de Ester não tem prazo de validade e a esperança é a última que morre. Está lançada a sorte. Que se faça justiça a quem planejou matar o povo pelo puro prazer de conquistar o poder. As gerações futuras celebrarão a Festa de Purim, afinal a história é implacável.