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255. A certeza dos ignorantes

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02.03.2021 | 9 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
255. A certeza dos ignorantes
“Feliz aquele que encontrou a sabedoria.
Ganhá-la vale mais que negociar a prata; e seu fruto, mais que o ouro” (Sb 1,13-14)

“Quem não conhece mais do que o carro de bois
não pode ditar normas para circular numa via expressa”

(Roger Leaners)

Vivemos a era da imbecilidade. Quanto pior melhor; quanto mais ignorante, mais sucesso. É só abrir as redes sociais e lá estão os doutores do nada arrotando arrogância e dando aulas sobre o que não lhes compete. Quanto maior o desconhecimento do tema, com mais convicção e arrogância defendem suas ideias.
Lembro-me dos tempos em que frequentei grupo de jovens. Um cônego com grande retórica e conhecedor de técnicas de oratória orientava nosso grupo. Certa vez, descuidou-se de seu discurso e nós pudemos ler seu texto. No canto das folhas digitadas à máquina, algumas anotações a mão chamaram a atenção da molecada. Para nossa surpresa, encontramos a seguinte inscrição: “Bater na mesa e levantar a voz, pois o argumento é fraco”. Na época, a gente riu a valer e não deu muita ligança. Hoje o rabisco no canto da página faz todo o sentido.
Em tempos de youtubers milionários que nada fazem além de “encher linguiça e conversar fiado”, a gente se põe a repensar a vida. O que é um influencer digital? Quase sempre é um ignorante por conta própria que fala sobre tudo sem saber de quase nada. Têm milhões de seguidores, mas não produz conhecimento. Mas não pensemos que esse é um privilégio do meio da moda, da música, da política etc. Hoje temos os famosos youtubers da fé: Padre Paulo Ricardo, Bernardo Kuster e tantos outros, muitos outros. São líderes carismáticos, freiras cantoras, frades dançarinos, bispos pops, associações de leigos com suas lideranças, pastores, cantores de músicas gospel etc. Pessoas que se dizem defensoras da tradicional fé cristã, inclusive dentro da Igreja católica. Grupos que se acham donos da verdade com direito a peitar 300 bispos da CNBB, difamar a Campanha da Fraternidade, renegar o papa e envenenar milhões de cristãos ingênuos e sem preparo teológico, cuja formação não é suficiente para desvelar suas falácias.
Normalmente são os jovens que dão a cara a tapa nesses vídeos polêmicos em confronto com a fé da Igreja. Meninos que mal saíram das fraudas e nem sabem fazer xixi no vaso direito. Ainda estão treinando a mira e enquanto isso, a gente leva urina na cara. Alguns são recém convertidos. Vieram de outras denominações e, uma vez assumida a fé católica dos grupos integristas, acham-se os salvadores da Igreja e não percebem o papel ridículo que desempenham. A CNBB tem tido paciência com essa gente e evita confrontos. A minha já se esgotou há muito tempo e não gasto meu latim me justificando diante de suas críticas. Não lhes dou crédito nem tolero suas verborreias. De repente, todo mundo se tornou teólogo, e aquele coroinha de ontem se tornou o sabichão das coisas de Deus, verdadeiro doutor da Igreja e defensor fiel da sã doutrina. Quanto mais insensato, mais ofensas. Quanto mais sem conhecimento, mais invectivas, mais anátemas, mais rótulos de comunistas e abortistas colocam em seus adversários.
Desconhecem o que escreveu Marcelo Gleiser. Quanto maior a ilha do conhecimento, maior o limite com o oceano da ignorância. No caso dos influenceres digitais da fé, isso fica muito claro. O jovem tem contato com alguns poucos documentos da Igreja e decorou umas partes do catecismo, uma ilha minúscula do grande acervo do Magistério da Igreja. Como conhece pouco, não sabe que desconhece. Sua ilha é seu mundo e, por medo do mar bravio, fica confinado no seu território sem se aventurar em águas mais profundas. Olha pra sua ilhazinha e já se sente o pequeno príncipe de seu planeta. Vive em torno de seu umbigo, aprisionado por sua insegurança. Não percebe que os limites do conhecimento da fé revelam exatamente nossa incapacidade de abarcar a verdade de Deus, que nos transcende, nos ultrapassa e, por isso mesmo, não pode ser apreendido ou abarcado.
Certa vez, enfrentei uma cena cômica. Fui dar um curso de catequese em uma cidade da redondeza. No meio do curso, um rapazinho sacou – literalmente – o Catecismo da Igreja Católica da cintura, levantou-se e me ameaçou, afirmando ser eu um instrumento de satanás para destruir a fé da Igreja. Na hora, a gente não sabe se ri ou se chora. No alto de meus 54 anos, com vida dedicada à Igreja e à evangelização desde os 18, uma graduação em Teologia, um mestrado em Bíblia e um doutorado em Teologia da Práxis Cristã, fui rebaixada a mera herege. O pirralho tinha 17 anos e era catequista há apenas 10 meses, mas já era expert em catequética e em teologia, é claro. Não discuti, muito menos me expliquei. Com essa gente de QI de pitanga não há diálogo, nem há explicação que convença. Estão dominados pelo espírito de divisão; só sabem espalhar cizânia no meio do trigo. Tenho pena e raiva ao mesmo tempo dessa gente.
Diante do acontecido, fiz como Jesus nos Evangelhos. Quando diante de pessoas com esse espírito, Jesus não retrocedeu nem deu conversa. É o caso de Pedro, no Evangelho de Marcos, que chama Jesus de lado ao ouvir o primeiro relato da paixão e quer ensinar ao mestre de Nazaré qual deve ser seu destino. Jesus simplesmente o repreendeu dizendo: “Vai para trás de mim, satanás” (Mc 8,33). Pedro havia saído do caminho do discipulado e estava querendo “ensinar o vigário a rezar a missa”. Jesus o repreendeu severamente, colocando-o no lugar do qual ele nunca devia ter saído. Também em Lucas, a gente vê cena parecida. Quando os samaritanos não quiseram receber Jesus e os discípulos na Samaria, Tiago e João, os dois irmãos valentões apelidados de filhos do trovão, ameaçaram fazer descer fogo do céu sobre a cidade (Lc 9,51-560. Um claro sinal de abuso do poder religioso a eles conferido quando escolhidos para pertencer ao grupo dos Doze. Não estavam dispostos a dialogar nem a compreender as razões da recusa dos samaritanos, que – cansados de tanta opressão da parte dos judeus – não queriam abrigar representantes desse sistema opressor em suas terras. Jesus não se irritou com os samaritanos, mas com os dois “doutores da Igreja”, que se achavam acima do bem e do mal. Então lascou-lhes uma repreensão e seguiu sua viagem.  
Na Bíblia, o verbo traduzido por repreender, quase sempre se refere ao demônio ou aos demônios. São eles que merecem repreensão. Quando diante de um possesso – possessão não entendida como hoje no senso comum –, Jesus reprende os espíritos impuros com a ordem: “Cala-te e sai deste homem”. Não batia boca; não tentava lhes convencer do contrário, nem perdia tempo justificando sua práxis pastoral. Simplesmente repreendia e seguia seu caminho fazendo o bem, sem se abalar com as críticas ou enfrentamentos.
Sou da teoria que todo diálogo é importante e que toda tolerância é bem-vinda. Mas não há diálogo com os intolerantes, nem tolerância com quem quer dividir a comunidade de fé. Já é conhecida a máxima do filósofo Karl Popper, que afirmava que é possível tolerar tudo, menos a intolerância. No caso dos youtubers da fé, é preciso energia. São católicos diabólicos que não toleram a diversidade e querem passar a régua colocando todos na mesma forma da burrice teológica. Alguns usam a expressão “cisma silencioso” para falar desses conflitos dentro da Igreja. Cisma porque é uma divisão; silencioso porque não é assumido publicamente, não foram publicamente excluídos da comunhão, apesar de não experimentarem comunhão com os caminhos da Igreja há muito tempo.
Em tempo de internet, esse cisma é tudo, menos silencioso. As redes deram voz aos doutorzinhos da fé, aqueles formados pelo WhatsApp e pelo Facebook. Nunca estudaram a fé a fundo; não conhecem um palmo além do nariz, mas – como dizia meu pai – são verdadeiros bicos de sapato. Estão à frente de tudo, esbravejando, xingando e anatematizando quem pensa contrário. Fazem muito barulho, mas são biscoito de polvilho: não enchem barriga. Só servem para distrair a gente enquanto a viagem da vida transcorre.
Diante da pluralidade e da multirreferencialidade da sociedade atual, impera a insegurança. Qualquer um que fala mais alto parece ter o cajado na mão e logo arrebanha ovelhas.  Os católicos, sem maiores formação na fé, deixam-se enganar pelos falsos pastores. Seria de esperar da liderança da Igreja uma atitude firme nessa hora, uma palavra decisiva de afirmação do caminho traçado pela Igreja. Quem quer bem, quem não quer amém, dizia minha mãe. Não se trata de uma justificativa diante das acusações desses meninotes, muito menos de um retrocesso nas conquistas alcançadas, como é o caso da Campanha da Fraternidade Ecumênica desse ano. Os fiéis querem ouvir a voz mansa e calma do pastor, mas decisiva e forte, que põe os lobos em pele de cordeiro para correr. Seria bom lembrar que Jesus repreendia quem saía do caminho da fé, como Pedro no relato de Marcos. Satanás não entende argumentação lógica, nem tem bom senso para dialogar. Satanás tem de ser repreendido e colocado de volta no seu lugar. No caso dessa juventude que está aí se achando doutor da Igreja, o lugar deles é no banheiro treinando a reta da urina. Enquanto nos aspergirem com suas ignorâncias, não há diálogo com eles.