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250. Entre festejos e funerais

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12.01.2021 | 7 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
250. Entre festejos e funerais
“Tocamos flauta para vós e não dançastes.
Entoamos cantos de luto e não chorastes” (Lc 7,31).

 “Já não se morre de velhice
nem de acidente, nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença”

(Cecília Meireles)

2020 se despediu entre festejos e funerais. Fora um ano atípico, cheio de temores e dores cujas causas são diversas. As lutas cotidianas dos pobres, dos negros, das mulheres e das muitas minorias subalternizadas foram exponencialmente aumentadas devido à crise sanitária que assola o mundo.
A pandemia, acrescida da incompetência e da perversidade dos governantes brasileiros, fez do ano passado um marco na vida do país: comércios e escolas fechados, isolamento social, desemprego, inflação, 200 mil mortos... Uma triste marca do descaso da liderança do Brasil deixada pelo coronavírus. Certo é que a gente não via a hora de virar a página, de recomeçar, de abrir a agenda de 2021, na doce ilusão de que os momentos difíceis ficariam para trás com o ocaso de 2020.
Animada pela tradição das festas de final de ano, uma multidão sem par deu jeito de demarcar a passagem. Vimos apenas a ponta do iceberg nas redes sociais que noticiaram as festas clandestinas. Desde grandes nomes públicos como o jogador milionário Neymar até anônimos com churrasco na laje, um número assustador de pessoas se aglomerou na noite da virada. A TV mesclava noticiários de festejos e funerais. O gráfico de infecção e mortes por covid 19 deu meia volta e apontou para as alturas, quando pessoas insensíveis faziam a contagem regressiva para recepcionar o ano novo como se nada estivesse acontecendo. As imagens das festas em Pipa e são Miguel do Gostoso, praias do Rio Grande do Norte, são o retrato da indiferença e do descaso das autoridades e de muita gente em relação à dor de tantos outros.
Se tem uma virtude que a Bíblia exalta e registra como marca divina é a compaixão. Deus teve compaixão de seu povo escravo no Egito e se empenhou em libertá-lo. O mesmo Senhor teve compaixão de Nínive, a cidade pecadora que Jonas percorreu anunciando a Palavra de Deus. Jesus, o Filho de Deus, teve compaixão dos pobres e lhes deu pão, se solidarizou com os cegos e fez-lhes ver, sentiu a exclusão dos leprosos e se pôs a curá-los, incomodou-se com o lugar de exclusão das mulheres e se posicionou a seu favor...
A compaixão pode ser caracterizada como aquela capacidade empática de perceber a dor do outro e de se colocar no seu lugar. Trata-se de uma revirada nas entranhas, que leva a agir positivamente em prol do sofredor. Diante das angústias do outro, é preciso fazer comunhão e se deixar atingir. Um coração sensível é capaz de tal proeza, enquanto um coração egoísta ou indiferente não se encontra sujeito a tal empatia. Já era assim no tempo dos escritos sagrados. Continua assim ainda hoje.
O livro de Jonas trabalha bem essa dimensão da compaixão. A cidade de Nínive, capital da grande inimiga de Israel, a Assíria, parece merecedora do castigo divino pois persegue o povo eleito e o aniquila. Jonas, muito contra a sua vontade, acabou indo profetizar nessas terras e não poupou ameaças e invectivas contra aquela gente. Prometeu o castigo divino e permaneceu impassível diante do arrependimento e da conversão dos ninivitas. Somente o Deus de Israel foi capaz de se compadecer e perdoar Nínive. O sofrimento alheio não lhe era indiferente e a dor dos assírios atingiu em cheio o seu coração. A capacidade empática de Deus irritou Jonas, cujo escudo protetor era a indiferença. Desolado e cheio de autopiedade, o profeta às avessas exigiu de Deus a mesma indiferença em relação ao povo da cidade. Deus não deu ligança para o chororô de Jonas. Seu pranto de pirraça não podia gritar mais alto que a dor de toda aquela gente.
Esse relato da Escritura mostra claramente como a indiferença não é uma alternativa para quem crê. Faz parte da dinâmica da fé a compaixão, pois é com compaixão que Deus olha para nós e por causa dela nos cobre com o manto de seu amor infinito. Não faltam exemplos bíblicos de que a indiferença não é uma atitude cristã. O sacerdote e o levita que desciam de Jerusalém foram duramente criticados por causa de sua indiferença ao sofrimento do homem caído no caminho de Jericó. À indiferença dos discípulos frente à multidão faminta, Jesus disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. E na parábola das ovelhas e dos cabritos descrita por Mateus, a indiferença ou a compaixão em relação aos sofredores são determinantes na hora do juízo.
Fico estarrecida de ver esse cristianismo da indiferença se alastrar feito erva daninha no campo do trigo da fé. Pessoas religiosas, cheias de práticas piedosas e cujos lábios não cessam de proferir fórmulas da tradição cristã, esqueceram-se da marca registrada da compaixão que determina a pertença ao Deus de Jesus Cristo. Em grandes ou pequeninas festas, cantaram e dançaram como se o assustador número de 200 mil mortos não assombrasse a sociedade brasileira. Verdadeiros vetores assassinos se espalharam pelas cidades contaminando inocentes, familiares e amigos principalmente, sem pensar na consequência funesta da pandemia.
Passados quase quinze dias, os festejos se tornaram quimera e os funerais subiram na ribalta. Assistimos a hospitais lotados, com caminhões frigoríficos na porta para armazenar os corpos, e sistema de saúde em colapso com profissionais do ramo simplesmente exaustos, pedindo socorro. Para tentar conter os malefícios do vírus, prefeitos e governadores tomam iniciativas tardias, que não são mais capazes de salvar nossa gente da morte. Da parte do governo federal, restam impropérios contra a mídia e fake news acerca das vacinas. Postagens do presidente desacreditam a “vacina chinesa”, que segundo sua teoria da conspiração são capazes de implantar um microchip nos brasileiros para favorecer o comunismo ou até mesmo fazer gente virar jacaré. O líder maior do país presta um verdadeiro desserviço à população brasileira e tornou-se ameaça poderosa contra nossa frágil democracia. Paralelamente ao “sinto muito pelas 200 mil mortes”, ele passeia de barco e dá um showzinho nas praias de São Paulo, causando mais aglomerações. Mostra sua total psicopatia social; não é capaz de solidarizar-se com a dor de ninguém, a não ser com a sua e a de seus familiares, tão perversos quanto ele.
Apesar de toda campanha contra a imunização dos brasileiros, as vacinas vêm chegando trazendo uma réstia de esperança. Como um riacho, suas águas frescas vencem caminhos tortuosos e abrem espaço para desaguar no mar. A pressão popular e o apoio dos cientistas brasileiros rompem os diques colocados pela perversidade e pela incompetência da liderança, mas é duro saber que ainda milhares de pessoas deverão perder a vida para o inimigo invisível até que todos sejam imunizados. Nenhum de nós está protegido; nenhum de nós tem uma armadura protetora. Estamos todos sujeitos a fazer parte da lista dos inumeráveis. Podemos nos tornar mais um número da triste estatística dos que vieram a óbito por causa da covid 19. São as festas de final de ano cobrando a conta. Passados os gritos alegres dos festejos do réveillon, restam o silêncio e o pranto dos funerais. Tomara Deus que não entoemos esses cânticos fúnebres em nossas famílias! Todo cuidado é pouco.
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