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251. Desejo de jiló e quiabo

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02.02.2021 | 7 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
251. Desejo de jiló e quiabo
“Ainda continuas na tua integridade?
Amaldiçoa a Deus e morre de uma vez” (Jó 2,9)

“Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações.
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes…”
(Chico Buarque)

O livro de Jó é uma novela e um dos mais intrigantes escritos bíblicos. Rico, bem sucedido, cheio de saúde e com família numerosa, o personagem Jó – que quer dizer hostilizado – passará por sérias tribulações que vão desde a perda de seus animais e de suas propriedades até a perda de sua família e de sua saúde. Apesar das pelejas, Jó busca forças na fé para permanecer na fidelidade, mesmo quando tudo faz pensar que Deus o abandonou. Se Jó se mantém íntegro diante dos acontecidos, não é o caso de sua esposa que – cansada de ver a lama na qual o marido foi jogado – aconselha a ele a amaldiçoar a Deus e a morrer de uma vez. Representante da teologia da retribuição, a mulher de Jó – que nem nome tem – aparece no texto como uma insensata. A lógica é: se Deus premia os bons e castiga os maus, então por que Jó – tão íntegro – passava por toda aquela série de horrores? Ou Jó não era tão santo assim, ou Deus não protege nem poupa os justos das adversidades da vida. Ora, se Deus não serve para nos trazer saúde e prosperidade, logo é um Deus inútil. Essa era a lógica da teologia reinante.
De fato, manter-se fiel na fartura não é problema. Não é à toa que o cristianismo foi raptado por perversos com a mentalidade da mulher de Jó. Crer é muito mais fácil para o rico que para o oprimido, cujos direitos básicos negados fazem pensar que Deus não se importa com o sofredor. Instrumentalizada a religião, Deus se tornou álibi das falcatruas dos poderosos e da triste sorte dos pequeninos. Perpetuada na história com novas roupagens, a teologia da retribuição foi nomeada teologia da prosperidade e hoje seduz os empobrecidos com promessas de bênçãos financeiras.
Apesar de tudo, Jó – cuja teologia dista anos luz da teologia da retribuição – permanece firme na fé. Espera a morte, pois está frágil e sem apoio, mas morrerá como um justo e não como um ignóbil traidor. Jó prefere ser hostilizado e ridicularizado que abandonar seus princípios e convicções mais profundas.
A situação política e econômica do Brasil, especialmente de 2016 para cá, tem se comportado como uma máquina mortífera que derruba infinitos Jós de seu lugar de conforto. Falência, desemprego, fome, abandono, descaso com a saúde e a criminosa gestão da pandemia aumentam o número de famintos, de miseráveis e de pessoas abaixo da linha de pobreza. Difícil não se comover com o testemunho mostrado no último Fantástico (31 de janeiro de 2021) de uma senhora de 56 anos que, diante da contínua panela vazia, aguarda a morte como uma dádiva capaz de abrandar a dor. Mas antes de entregar-se nos braços da irmã morte, sonha comer quiabo e jiló passados na gordura, ingredientes culinários de baixíssimo valor financeiro que agradam o paladar do brasileiro.
Enquanto isso, o presidente da república – cuja função deveria ser proteger e amparar os mais fragilizados do país – age como a mulher de Jó, destilando sarcasmo e desprezo pelo sofrimento alheio. O dinheiro dos cofres públicos que deveria ser aplicado em projetos sociais vai para a cueca de deputados e senadores venais que garantem a vitória do presidente na Câmara e no Senado. Um bando de abutres sem escrúpulos. Sonegam impostos, legislam em causa própria e debocham da democracia. Não temem a Deus nem a ninguém; não tem medo de punição pois a justiça do país é só fachada; riem da nossa cara e proferem blasfêmias falando falsamente em nome de Deus.
Um triste retrato do país pode ser registrado desde as periferias, onde há muito Jó morrendo desamparado. Sem auxílio emergencial e com a crescente inflação, o Bolsa Família não é capaz mais de garantir a compra de uma cesta básica. Aumenta a população de rua, pois o aluguel se tornou luxo para alguns poucos. O gás tem preço de ouro e o jeito é improvisar uma trempe na calçada para cozinhar com restos de madeiras o pouco que se tem para não definhar de vez. Triste realidade brasileira, onde o presidente declara em alto e bom som que não vai restaurar o programa de auxílio emergencial em plena pandemia e que não pode fazer nada porque o país está quebrado, mas tem dinheiro para comprar os parlamentares com emendas e ministérios.
Falar de vergonha é pouco. Já não é mais uma questão de ficar corado de rubor, mas de ver acesa no interior de nossas consciências a justa fogueira da revolva. Uma ira santa toma conta de quem tem um mínimo de bom senso e não admite compactuar com essas monstruosidades. Como Jesus diante dos vendilhões do Templo, é hora de virar a mesa dos cambistas e libertar a população do jugo opressor. Toda revolta e indignação são bem vindas para alimentar o ânimo democrático. Se não há quiabo e jiló para se pôr na panela da D. Maria, há indignação e ira suficiente para alimentar nosso espírito de luta.
Infelizmente, a pandemia não favorece a resistência e, exatamente por isso, o governo não tem interesse em imunizar a população. Quanto mais ameaçados pela pandemia, mais somos obrigados a ficar em casa e evitar aglomerações. O vírus se tornou aliado do plano de morte do governo, pois elimina os indesejáveis – velhos, doentes, índios e pobres – e diminui as despesas da previdência e os gastos com projetos sociais. Para que dar auxílio emergencial para um bando de gente imprestável e inútil que só onera os cofres públicos? Enquanto isso, a farra da goma de mascar e do leite moça segue entupindo barrigas opulentas. Alimentamos com dinheiro do contribuinte um bando de parasitas que mana nas tetas do governo sugando toda riqueza da pátria mãe gentil. Uma elite podre e sem escrúpulos vive na balbúrdia comendo, bebendo e se divertindo com o dinheiro dos cofres públicos.
Não há limites para a exploração. Muito menos para a contradição. A população de rua não pode dormir debaixo do viaduto, pois um jardim de pedras pontiagudas foi implantado para evitar que ali se estabeleçam. Meninos nos semáforos imploram por uma moeda enquanto deveriam estar em projetos sociais e na escola. Meninas se prostituem, vendidas pelos próprios pais, para trazer uma renda mínima para a família. O país é devastado por enchentes e por queimadas; e os pobres são as maiores vítimas da perversidade dos seus governantes. Somos pisoteados todo dia por inescrupulosos governantes. Resta-nos a resistência de Jó, que mesmo no fundo do poço não abriu mão de suas convicções. O segredo é seguir em frente e armar o bote. Uma hora o caçador se descuida e a gente o põe pra correr. Não podemos esquecer o que diz o dito popular: “um dia é da caça; outra do caçador”. Hoje foi dia dos caçadores, mas amanhã será outro dia. Sigamos esperançando...