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249. Futuras elegias

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15.12.2020 | 9 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
249. Futuras elegias

“A esperança não decepciona, porque o amor de Deus
foi derramado em nossos corações
pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5,5).


“Vou negando as aparências,
disfarçando as evidências
Mas pra que viver fingindo
se eu não posso enganar meu coração?”

(Jose Augusto Cougil / Paulo Sergio Kostenbader Valle)

Se tem algo que parece absurdo a essa altura da pandemia é o movimento antivacina. Nem com todo esforço cognitivo, uma pessoa razoável pode entender as razões – ou a falta delas – que levam os adeptos do movimento a se postarem desse lado da história. Milhões de mortos no mundo inteiro são a triste testemunha da letalidade do vírus. Ajuntam-se a essa evidência os hospitais superlotados, os profissionais de saúde exaustos, a crise econômica mundial, a corrida de empresas farmacêuticas e de pesquisadores em busca de um tratamento eficaz. Mas nada parece convencer essa gente da necessidade urgente de vacinar toda a população para evitar males ainda maiores. Os negacionistas continuam se manifestando nas redes sociais e nas ruas, fazendo um papelão vergonhoso que vai desde “inocentes” performances de mau gosto até graves ameaças a autoridades e profissionais de saúde que militam pela causa da vacinação.
Sabemos que não são um grande número, mas o fato de existir uma única pessoa que nega a crise sanitária atual e que se recusa a ser vacinada já é de causar estarrecimento. A não ser que uma pessoa sofra de aicmofobia, que se caracteriza pelo medo irracional de agulhas ou injeções, nada, absolutamente nada, justifica esse movimento. Infelizmente não é por medo de agulha que os antivacinistas rejeitam uma possível vacina anticovid e pleiteiam a não obrigatoriedade da mesma. Fosse esse o diagnóstico, o problema seria menos grave pois uma boa terapia resolveria a fobia. Mas não. É por pura ideologia, por uma compreensão equivocada da vida e da política, algo que beira à lavagem cerebral e à insanidade mental, que essas figuras exóticas engrossam as fileiras do movimento.
No Brasil, a vacinação da população mostra sua letargia. O Ministério da Saúde, governado por militares totalmente ineptos para o cargo e completamente subservientes ao presidente da república, apresentou um plano de vacinação cheio de lacunas, muito criticado pelas autoridades no assunto. Numa disputa política prejudicial à população, o governo de São Paulo e o governo federal se digladiam atrasando o processo. Para compensar a catástrofe, as redes sociais cuja função parece ser confundir e imbecilizar os humanos, dissemina o vírus das fake news, tão prejudicial quanto o coronavírus. É de ficar estarrecido e completamente em estado de desalento diante do caos que se configurou. Quando uma nau não tem capitão, o destino é ir de encontro ao rochedo mortífero.
Nesse momento em que escrevo, já são quase 200 mil vidas ceifadas pela covid-19 no Brasil e não demora para os indicadores nos escandalizarem ainda mais, pois as previsões para janeiro – depois das festas de final de ano – são muito tenebrosas. No momento, perdemos unicamente para os Estados Unidos e para a China, mas ganhamos sem nenhum páreo o concurso do índice de letalidade da doença. Não há um dia sequer que a gente viva sossegada sem observar o número crescente de vítimas,assim como a curva em ascendência da contaminação. Apesar disso, as ruas continuam cheias, os bares permanecem lotados e as festas clandestinas atraem jovens de todas as idades e classes sociais. As areias das praias parecem formigueiros, com crianças, jovens e adultos brincando de relaxar em plena crisesanitária. E os comércios? Viciados em compras, os consumidores avançam sobre as bancas dos shoppings como famintos de guerra sobre a mesa posta enquanto os profissionais de saúde, exauridos pelo excesso de trabalho, pedem socorro.
Apesar de todo apelo de infectologistas e epidemiologistas, nada é capaz de frear o furor que orienta os indivíduos negacionistas. Eles estão por toda parte, ainda que nem todos rejeitem as possíveis e prováveis vacinas. É só entrar num supermercado e lá está a moça do caixa com a máscara no pescoço. O açougueiro está com o nariz de fora e reclama se eu o advirto a usar corretamente a máscara. No banco, as gerentes dão o mau exemplo, trabalhando sem a proteção necessária, enquanto o ar condicionado circula e contamina os clientes. Nas ruas, velhos e novos passeiam com seus cachorros com o precioso instrumento de proteção pendurado na orelha. E, para meu maior escândalo, ministros, deputados, senadores e assessores de gabinetes transitam qual cortejo mortífero atrás do capitão caveira, fazendo aglomerações sem utilizar as tão recomendadas máscaras de proteção. Tem até um vereador, o segundo mais votado de Belo horizonte, que dá a cara em vídeos bizarros dizendo da ineficiência de todas as medidas de proteção. Argumento: Se a máscara protege, para que distanciamento social? Se o distanciamento social protege, para que quarentena? Se a quarentena funciona, por que dizem ter tantos mortos? Conclusão: a pandemia é invenção de alguns poucos, que, no interesse de dominar o mundo, manipulam as consciências e atemorizam a população. Nada disso é verdade; são números falsos: os hospitais não estão lotados nem o sistema de saúde beira o colapso.
Constatado o grau dessa negação nas inúmeras cenas do cotidiano, meu inconsciente me obriga a cantar o dia inteiro a canção Evidências, eternizada na voz de Chitãozinho e Xororó: “Vou negando as aparências, disfarçando as evidências...”. Por mais que eu me esforce para obter livramento, ela insiste em me perseguir como o destino a Édipo conduzindo-o de volta à sua mãe Jocasta. Não tem prece, mandinga ou benzição que me alivie. Já pedi ao Deus de Jesus Cristo, a quem amo e sirvo, para me ajudar a extirpar esse carma, mas ele apenas permanece ao meu lado sorrindo com olhos de ternura e compaixão, segurando minha mão. Tenho rezado a ele, não porque eu me iluda acerca de uma solução mágica para os males que nos assolam, mas simplesmente para me manter em comunhão com seu projeto de vida. Sigo crendo que a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações. Insisto em prece para que eu não me canse de ser razoável, para que a fadiga não me domine e para que, na força do seu Espírito, eu siga resistindo. Persisto distinguindo fé de crença ingênua, e esperança de ilusão. Mas, confesso, não está nada fácil. O Natal se aproxima e a passagem do ano já dá sinais de estar logo ali. E as evidências apontam para o pior começo de ano da nossa história, pois o gráfico de contaminação não costuma enganar. Indóceis às advertências dos especialistas, muitos continuam comprando passagem para viajar e vão fazer as festas de final de ano como se nada estivesse acontecendo. Obstinados em tradição natalina e ávidos de festejos, lá vai uma multidão de jovens levando covid-19 para seus pais e avós, sem medo de que seja o último encontro.
Sou do grupo pequeno daqueles que se impuseram uma dura rotina de isolamento social. Desde muito antes do aumento de casos, que parece configurar uma segunda onda, já tinha tomado a decisão de não passar o natal com aqueles que tanto amo. Pela primeira vez na minha vida, passarei o as festas finais apenas com os que convivem dia e noite comigo em minha residência. Bem cedo armei uma árvore de natal e coloquei enfeites pela casa para que me ajudassem a entender que os festejos do Menino Jesus acontecerão na quietude do meu lar, sem muitos presentes, sem o som de tantas vozes queridas e sem a algazarra do reencontro anual da família, que chega a reunir 25 a 30 pessoas. Fi-lo não só por mim, mas também para incentivar meus irmãos e sobrinhos a fazerem o mesmo, a ficarem quietos em seus lares sem o afã de celebrar essas datas.
Para quem está impregnado da fé crista, não pode haver celebração mais bela que preservar a vida, que cuidar do mais frágil, do mais vulnerável. O dia 25 de dezembro é só uma data, assim como o dia 31 de dezembro e primeiro de janeiro. Trata-se de números no calendário para contar os tempos e marcar as fases. Na liturgia católica cantamos no advento, tempo que antecede o natal: “para nós na eucaristia o natal se adiantou. Se ele se adianta na celebração litúrgica, também se adia para o momento oportuno do reencontro, quando, uma vez vacinados, poderemos correr para o tão esperado abraço. Não vejo a hora de me lançar nos braços de amigos e parentes a quem amo, mas exatamente porque os amo não o farei ainda. Continuarei recolhida no meu canto, sabendo que sou privilegiada por ter casa e aconchego enquanto tantos não os têm.Não quero entoar um cântico fúnebre depois das festividades natalinas. Não sou afeita a elegias; prefiro os hinos de natividade às exéquias que nos esperam nos primórdios de 2021. Por enquanto, sigo resoluta no isolamento social, e canto com o genial Chico César: “Eu vou tomar vacina, quem não quiser que tome cloroquina. Não vou passar vergonha, quem não quiser que escute esse pamonha. Estou já de braço esticado, como que amarrado, pra tomar esse pico. Se o vírus me pega e me agarra, cadê minha marra, como é que eu fico? Não brinco carnaval, nem um tico”.

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