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247. Saudades de talião?

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24.11.2020 | 6 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
247. Saudades de talião?
“Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,
queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, contusão por contusão”(Ex 21,24-25)

“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação”

(Renato Russo).

A famosa lei de talião (ou de retaliação) “dente por dente, olho por olho” ainda escandaliza muita gente. Realmente, depois de Jesus ter ensinado a nova Torá no sermão da montanha, com a fórmula “Ouvistes o que foi dito... Eu porém os digo...”, não é possível mais ao cristão pensar em vingança ou ficar na pura observância das antigas prescrições.  
A lei de talião ganhou má fama. Tornou-se o símbolo da brutalidade, da ignorância e da violência. O que muitos talvez não saibam é o quanto ela foi importante para os povos antigos, inclusive para os nossos antepassados na fé, o povo hebreu. Em terras sem lei, o “olho por olho, dente por dente” significava uma grande evolução humana, ou seja, uma passagem da vingança desmedida para um justo acerto de contas entre as partes.
Antes da lei de talião, vigorava a revanche desmedida. Se uma pessoa agredia a outra e lhe causava arranhões, a vítima exigia reparação dos danos recebidos até mesmo com a morte do agressor. Se uma pessoa dava um murro na boca de alguém e lhe quebrava os dentes, o desdentado partia para cima e dava o troco cem vezes mais àquele que usara de violência com ele. Nesse cenário, a lei de talião representou um salto ético sem precedentes. Ensinou que a violência deve ser contida e que nenhuma força deve ser absoluta, colocando a vida em risco.
Com o passar dos anos, a fé no Deus de Jesus Cristo, que é puro amor, ensinou aos crentes que, para além da vingança equiparada, o perdão é o melhor caminho e a convivência fraterna a melhor opção. A teologia da retribuição, tão presente no Antigo Testamento, foi superada pela teologia da gratuidade, da qual Mateus fala lindamente no capítulo 5, versículos de 38-48. Além do mais, no discurso eclesial do capítulo 18, o mesmo evangelista insiste na prática do perdão, cujo limite deve ser o infinito. Pedro, achando que estava no ápice da expressão religiosa quando anunciou a possibilidade de perdoar sete vezes, ficou pasmo ao saber que não sete, mas setenta vezes sete é a medida do perdão (Mt 18,21-22).
Os anos se passaram e, ao contrário do que a utopia da modernidade previa, a humanidade não caminha para melhor. Aquela reta linear que partia de baixo e se lançava para as alturas, numa projeção evolutiva da convivência humana, esbarrou na ignorância, na ganância e na estupidez e voltou-se vertiginosamente para baixo de novo, riscando no céu da existência humana uma parábola côncava de boca pra baixo.
A bondade, o bom senso e a convivialidade fraterna estão em queda livre. Tornou-se chique fazer escândalos, xingar, destratar, agredir e até matar por motivos torpes. Basta ter a cor da pele diferente, para que o outro seja alvo de rejeição e violência. Basta estar em partido político que faz oposição para que seja alvo de fakenews e sofrer toda espécie de difamação. Basta que o modo de vida não seja o padrão esperado pela classe dominante, para que o outro seja jurado de morte e violentado nas esquinas das ruas. Regredimos para muito aquém do “olho por olho, dente por dente”, que previa um equitativo acerto de contas entre as partes em conflito. Atualmente não é preciso sequer ofender ou agredir uma pessoa para ser alvo de violência. Basta estar vivo. Basta ser pobre, preto, ou mulher, LGBT, índio, quilombola etc. Com sua determinação em viver, os vulneráveis ameaçam os que se acham donos do mundo, pois entendem-se como uma classe superior de quem as riquezas estão a serviço.
Nessa semana, perdemos o sono com mais uma cena de brutalidade e violência praticamente gratuita. Trata-se da morte do negro João Alberto, no supermercado Carrefour. Não é a primeira vez que o tal supermercado cai nas redes sociais deixando à vista a sua política segregacionista e seu descaso pela vida. João Alberto, depois de ter feito suas compras, desentendeu-se com uma funcionária. Esta, por sua vez, pediu ajuda dos seguranças, que bateram nele até mata-lo. Uma atitude de tamanha covardia que é impossível assistir a cena sem ficar com os olhos rasos d’água. Para justiçar o injustificável, alguns querem tornar culpada a vítima. João Alberto teria desferido um soco em um dos seguranças, o que justificaria o espancamento e a asfixia da vítima.
A técnica de manchar a memória da vítima não é estranha a nós no Brasil. A mulher violentada é culpada porque usava roupas provocantes ou tinha fotos sensuais; o negro assassinado é culpado porque estava andando na rua àquela hora do dia; a menina assassinada em sua casa é culpada porque ninguém mandou morar na favela; a vereadora assassinada é culpada por que ninguém mandou mexer coma milícia que governa o país; o pobre desabrigado é culpado porque foi imprudente e construiu seu casebre em área de risco...  Querem culpar João Alberto por seu próprio infortúnio. Depois do tal “estupro culposo” da Mari Ferrer, não duvido que os algozes sejam inocentados e que algum juiz metido a deus diga que não foi assassinato, mas suicídio: João Alberto pediu para morrer.
Sonho com o dia em que o perdão semeado pelo evangelho floresça e dê frutos no coração da humanidade. Uma utopia que insisto em alimentar com pequenos gestos e palavras de esperança todos os dias. Mas enquanto o governo de Deus não se torna realidade, sinto saudades do tempo em que o “olho por olho, dente por dente” era a lei máxima. Se essa prevalecesse, o máximo que aconteceria é hoje ter João Alberto entre os seus com um olho roxo, uma vez que os seguranças alegam que ele desferiu o soco primeiro. A ignorância reina soberana
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