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244. A falta dos perfeitos

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20.10.2020 | 6 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
244. A falta dos perfeitos

“Sai depressa pelas praças e ruas da cidade
e traze os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos’” (Lc 14,21).

“Oh, busco a parte que falta em mim,
 a parte que falta em mim.
Ai-ai-iô, assim eu vou,
 em busca da parte que falta em mim””
(Shel Silverstein)”

O assunto já caiu no esquecimento, pois, na overdose de malfeitos da política necrófila de nosso país, uma perversão se sobrepõe à outra sem nos dar tempo para refletir cuidadosamente sobre os fatos. Essa é uma tática perversa de manipulação das consciências, pois sabe-se que é preciso tempo para gerir as novidades. Como diz Paul Ricoeur, é preciso tempo entre o presente e o passado, que ele chama de tempo da memória, para deixar cair no terreno do coração as sementes lançadas. Sem esse intervalo, não é possível saber qual fruto será colhido. Da mesma forma, não se pode viver de forma sã sem o tempo da promessa, sem um hiato entre o hoje e o amanhã, que faz nascer a esperança e a alimenta. Falo da nova política de educação do ministro Milton Ribeiro, que propõe a separação dos alunos com necessidades especiais. Ela causou mal-estar, gerou desconforto, mas a estranheza que experimentamos não é proporcional aos estragos que certamente fará. Um retrocesso de peso; uma maldade sem precedentes com aqueles que deveríamos proteger, pois são os mais pequeninos de todos, conforme nos ensina o evangelho de Jesus.
Foram anos de esforços tentando superar preconceitos, ajudando a sociedade a conviver com o diferente, e, numa canetada só – com direito a registro na história – os “perfeitos” condenaram ao ostracismo os que são considerados uma aberração da natureza. Triste realidade a brasileira, na qual o mal grassa no campo e na cidade, como afirmaram os profetas. Não há um, nem um sequer, entre os que fazem parte desse governo, que não estejam tomados pela maldade e pela mais completa ignorância.
Segundo a moral cristã, quanto mais indefeso o ser ofendido e oprimido, maior o pecado do malfeitor. Também para a justiça brasileira é assim. Se uma pessoa é assediada e violentada, comete-se grave crime contra ela; mas se esta pessoa era um vulnerável, o crime tem agravantes. Estamos todos cansados de saber, pela fé cristã ou pelo bom senso da razão, que os fragilizados precisam de defesa. No entanto, nem a fé nem a razão governam mais as consciências dos poderosos deste país, apesar de muitos deles recitarem de cor e salteados alguns versículos da bíblia. É o caso do ministro-pastor, que além de espumar preconceitos contra pessoas homoafetivas e contra professores, deu agora para legislar a favor do mal. Sua boca ostenta imbecilidades, e seu coração perverso se torna conhecido toda vez que ele faz um pronunciamento.  
Convivi muito tempo com um amigo querido, que cedo nos deixou e partiu para a casa do Pai. Dele ficaram montanhas de saudades e uma pilha de sabenças, que faço questão de conservar. Uma delas era: “neste momento da história, a regra é: quanto pior, melhor”. De fato, tinha razão meu amigo que via a imbecilidade e a crueldade imperarem entre nós. Tenho refletido sobre isso e tenho observado como os maus prosperam. Cresce assustadoramente o número de pessoas despreparadas nos cargos públicos; ganham visibilidade youtubers da ignorância; multiplicam-se os influenciadores digitais que nada tem a ensinar; caem no gosto popular os programas de TV que exaltam a violência e a bobice; multiplicam-se feito erva daninha os teólogos de araque, que falam peremptoriamente de Deus e o mundo sem nenhum preparo para tal. Assim como o guru do governo atual, Olavo de Carvalho, se intitulou filósofo, muitos outros se autointitulam teólogos e mestres na fé sem nunca terem se sentado numa cadeira da academia de teologia. Mais assustados ficamos quando notamos que os mais picaretas são exatamente os que mais tem chances de crescer nesse universo de ultradireita fascista.
A política de segregação do ministro da educação é espantosa. Foram anos de luta no Brasil para gerar consciência mínima acerca da inclusão, da necessidade de se viver de forma respeitosa com o diferente, e vemos tudo despencar pela ribanceira com um único decreto segregacionista. Não se trata apenas de um passo atrás na caminhada, mas de um retrocesso de anos na história. Voltamos ao tempo em que ser diferente é crime, como já foi inaceitável ser canhoto e como ser gay era coisa do diabo. Estamos a um milímetro de uma política higienista que faz morrer os que têm alguma deficiência física, algum traço de estranheza que fuja ao padrão branco, heterossexual e de perfeição idealizado pelos “puros”. Fico estarrecida só de pensar. A história já mostrou do que os “puros” são capazes de fazer, inclusive manipulando a consciência dos crentes.  
Em meio a tantos assaltos sofridos, espero que as igrejas cristãs não se calem, que não compactuem com os absurdos que vão ganhando legalidade entre nós. Todo aquele que de fato é seguidor de Jesus há de continuar defendendo a inclusão das pessoas com necessidades especiais, como nos ensina o evangelho de Lucas. Em vez de segregados e excluídos, os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos são os convidados do grande festim (Lc 14,21).  
A inclusão educa a sociedade para a pluralidade, ensina a ajuda mútua entre os humanos, fortalece o cuidado com o mais frágil e arranca a todos de seu pedestal de “perfeição”. Quem tem mais a lucrar com uma política de inclusão não são somente os que vivem nas periferias existenciais, mas os que se acham já incluídos. Uma educação inclusiva educa, em primeiro lugar, os que pensam que não tem necessidades especiais. Nesse caso, a não-falta é sua falta maior. Quanto mais se entende portador de todas as faculdades e possibilidades, menos se compreendeu que a vida é falta e debilidade por definição. Os completos, aqueles que não são capazes de viver com as fissuras e vagas dos outros, revelam a imensidão de sua lacuna; são todos um buraco negro onde a vida não flui generosamente; fingem ser completos pois tem medo da parte que lhes falta. Não há nada de errado em se admitir que somos todos portadores de necessidades especiais. Ou, como escreveu João Júnior, “não tem problema admitir as quebraduras. E reconhecer que, quase sempre, a gente está meio que aos pedaços, num esforço enorme de se reconhecer em todos eles e nas frágeis costuras de sentido da existência”. Se a gente tem essa honestidade, certamente trabalharemos pela inclusão de todos ou, se não, teremos todos de viver eternamente segregados.