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245. Entre a misericórdia e o sucesso

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02.11.2020 | 7 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
245. Entre a misericórdia e o sucesso
“Sede misericordiosos, como vosso Pai do céu é misericordioso” (Lc 6,36)


“Deus não me chamou para o sucesso.
Ele me chamou para um ministério de misericórdia”
(Madre Tereza de Calcutá).

Tenho procurado por toda parte sinais para continuar crendo e esperando, conforme nos ensina a fé cristã. Mas confesso que esse é um trabalho hercúleo, muito exigente mesmo, principalmente no que diz respeito à misericórdia. É como procurar uma agulha no palheiro. A lama na qual a humanidade se afundou não nos permite muito otimismo e tornou-se inevitável viver sob a névoa do desalento. Procurar o sucesso em vez do bem comum, o êxito em vez da solidariedade, o prazer em vez do bem-estar social é tentação que não poupa os cristãos.
Vislumbro ao longe Tereza de Calcutá pelas ruas e tento achar seus rastros. Ela segue derrotada, mas solidária, cuidando dos descartáveis do mundo, do lixo humano, da escória cujo rosto não desejamos ver. Nas ruas de Roma, vejo Francisco, o bom pastor. Ele abraça uma porção de ovelhas feridas e as leva para serem cuidadas. Não busca sucesso, mas o exercício da misericórdia. No encalço deles, farejo sinais de esperança para continuar crendo. Mas como cantou a esquecida Kátia, “não está sendo fácil viver assim”.
Os descontentamentos vão se somando como uma areia que é despejada num pires e a misericórdia está ameaçada. Tendo formado um cone de areia, este se desmancha. Mas, como os absurdos e as crueldades não cessam, a areia continua sendo despejada no pires até formar outro cone, que de novo se desmontará e assim por diante. Sou um pires de areia em constante formação e desmonte. Espero resistir por mais tempo, mas a resiliência tem limites. Quando um elástico é esticado por alguns segundos, em seguida voltará ao seu estado anterior quando a tensão é minimizada. Mas se a gente o estica e solta, estica e solta, estica e solta inúmeras vezes, chegará um momento em que ele estará relaxado. Terá perdido sua resiliência. E será seu fim.
Tenho medo de “meu elástico” da misericórdia estar se afrouxando. Sofro só de pensar em ficar indiferente ao sofrimento dos doentes da covid-19, em me acostumar à exploração dos ricos sobre os pobres, de não ficar mais chocada com a imagem urbana dos desvalidos que fizeram da rua a sua casa. Tenho horror de pensar que a cueca cheia de dinheiro do vice-líder do governo não me cause repugnância e que a religião do mercado possa ser aceita por minhas convicções cristãs como uma representante de Cristo.
Tem sido motivo de rugas pensar que posso me afeiçoar a essa sociedade machista e misógina, que posso me conformar com a perseguição aos LGBTs e que a coisificação do outro se torne lugar comum para mim. Arrepio só de pensar que a anulação das mulheres, dos negros, dos índios e de outras populações vulneráveis se torne algo que não me faça mais corar de vergonha e não revire minhas entranhas. E rezo àquele que é manso e humilde de coração: “Dá-me um coração misericordioso para não aceitar esse modelo de sociedade que mata os pequeninos e garante o sucesso dos grandes”.
Acostumamo-nos ao feio, ao rude, ao tosco, à imbecilidade e à perversão. Acostumamo-nos ao egoísmo, à corrupção, aos abusos, à violência.Começa a fazer parte de nossa prática cotidiana a indiferença. Trata-se de uma autodefesa e, a princípio, parece não haver culpa nisso. A pressão é tanta e tão insistente que não temos tempo de processar os absurdos a que somos submetidos, de forma que já não somos capazes de repudiá-los com a energia de antes. O elástico da esperança parece ter afrouxado pois foi esticado além do possível e a energia da solidariedade, de tanta ebulição, se evaporou.
Vivemos um pesadelo sem fim. A cena do político com dinheiro na cueca me assombra no escuro do quarto. Juntamente passa um vulto assustador: um presidente debochando de sua gente, incentivando a homofobia e humilhando o povo. Depois, numa sucessão, como num filme, vejo o SUS ameaçado e a saúde por pouco privatizada. Pessoas choram em frente às unidades de saúde e as doenças antes controladas escapam da caixa de Pandora e saem para o ataque. De repente, um ministro toma posse no supremo, mesmo tendo diversas irregularidades no currículo. Que susto! Um homem de Deus toca um sino de 15 milhões e os pobres da terra entregam seu óbulo para pagar a conta. Passado o estrondo, ouço tilintando o barulho das moedas de ouro caindo na cofre da dama de rosa. No canto do sonho, três moleques espalham fake news e se contorcem de tanto rir. Seu deboche me ameaça como a “Mão da Biluca” na infância. Armo o punho para dar um soco na cara dessa gente e parece que vou acordar.
Mas, como alguns pesadelos persistem, não tenho sossego. Vejo o coronavírus sofrendo mutação e a vacina cria asas e se esvai como poeira ao vento. Do Brasil, dou salto à Europa e vejo comércios e barreiras fechadas novamente. Tento ultrapassar os limites, mas são cercas resistentes e eu, assustada, fico quieta sem ação. Em seguida, um terremoto sacode meus alicerces. Sinto a casa caindo, pessoas pedindo socorro e eu, mesmo soterrada, devo estender a mão a outro mais afundado nos escombros do que eu. Sem mais, vejo sangue escorrendo no chão cristalino de uma Igreja e pessoas esfaqueadas que se arrastam à procura de abrigo. Ao longe, vislumbro um monstro vermelho com topete enorme; está sobre um palanque proferindo impropérios e ameaçando as nações. Já percebo já estou em outro continente numa viagem surreal que não termina. É o dono do mundo, aquele que rege o preço da gasolina e do arroz com feijão. A inscrição “Nós acreditamos em Deus” se descola da cédula e vem em minha direção feito lança que dispara da flecha. Num golpe rápido me desvio, mas não saio sem feridas, e vejo cristãos aniquilados por ela. Insisto em tentar reparar os estragos da perversão, mas sou derrotada.
Acordo assustada e cansada de ser adulta. Desejo um colo de mãe para espantar os pesadelos, mas durmo exausta de novo, sôfrega entre um pesadelo e outro. Finalmente, na madrugada, um sonho bom. Vejo um menino num cocho entre palhas me acenando e me convidando para deitar em seu berço improvisado. O passar dos dias torna sua imagem mais próxima e mais clara e, pouco a pouco, começo a sentir o cheiro de sua fragrância. Ele tem o cheiro do mato verde e da terra molhada pela chuva. Sem palavras diante do mistério, sou tomada pelos versos do poeta português e faço minha última prece: “Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano e deita-me na tua cama. E conta-me histórias, caso eu acorde para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é”.