102. Senhor problema

“No mundo tereis aflições.
Mas tende coragem!
Eu venci o mundo” (Jo 16,33)
“Problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e, aos domingos,
saem todos a passear:
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas"
(Paulo Leminsk)
Por várias vezes já reclamei com amigos e pessoas mais chegadas acerca do acúmulo de problemas: aflições diversas, questões de saúde, problemas de ordem afetiva, desentendimentos no trabalho, apertos financeiros... Quem aguenta tudo isso? Costumo dizer que “enquanto estamos atolados em um problema, os outros deveriam esperar sua vez na fila”. Bem que podia ser assim: Quem tem filho fazendo vestibular não poderia ter problemas financeiros. Quem tem problemas sérios de saúde na família não poderia ter aborrecimentos no trabalho. Quem sofre por um amor perdido não poderia receber ofensas, nem dos de casa nem dos de fora. Quem mata sete leões por dia para sustentar seus filhos com honestidade não poderia ser ofendido no trânsito, nem destratado por ninguém, nem ficar doente. E assim vai. Mas não! Meu pai tinha razão: “Desgraça é coisa covarde; nunca vem sozinha: anda sempre acompanhada de outras desgraceiras!”, dizia o sábio homem do campo. Os problemas não dão folga. As aflições são muitas. Tenho observado essa sobreposição de pelejas e fico indignada ao ver que, mal combatemos uma aflição, outra já está a postos investindo contra nós, numa luta incansável. Eu mesma já passei por períodos em que o mundo parecia desabar sobre minha cabeça. Haja força para tantas batalhas!
Foi por acaso que outro dia, encontrei os versos do poeta Paulo Leminsk. Eu já o conhecia, já sabia de seus escritos irreverentes e bem-humorados, conhecia uma ou outra tirada certeira que ele nos deixou como legado de sua pena. Mas foi bem por acaso que me deparei com os versos acima e me encantei com tamanha beleza e singeleza. O senhor problema tem família grande; ele próprio, sua senhora e seus probleminhas não descansam nem nos domingos. Não há feriado nem dia santo de guarda para a família problema, que está sempre a passear procurando a quem atormentar. E, muitas vezes, somos nós as vítimas. Numa distração da vida, a família nos encontra, nos rende e nossa existência se vê atropelada da noite para o dia, sem nunca mais voltar ao normal. Nessas horas, lembremo-nos do que disse Jesus: “Na vida tereis aflições, mas coragem! eu venci o mundo”.
Durante muito tempo, vivi iludida de que a vida com Jesus seria bela e calma: como um jardim florido, sem cactos ou outras espinhosas. Achei que o mar seria sempre beleza e calmaria, sem tempestades ou tormentas. A fé parecia-me um escudo de proteção, capaz de defender-me das intempéries da vida. Esqueci-me do que Jesus tinha dito no Evangelho de João (ou li somente o que convinha à minha ilusão?). Não foi fácil descobrir essa realidade sem cair no desânimo e na descrença. Foi preciso um trabalho interior para aceitar a vida como ela é; um esforço gigante para não deixar o edifício da fé ruir, uma abertura sem limites para a ação do Espírito...
Com o passar do tempo, a fé vai amadurecendo. Ainda bem. Vão caindo os véus da ingenuidade e a leitura dos Evangelhos toma novo sentido. O que já era belo fica mais belo ainda. E, se algumas paredes da fé antiga se transformam em ruínas, é para dar lugar a edificações ainda mais firmes e mais seguras. A devoção piedosa cede espaço para uma esperança corajosa e intrépida, capaz de sustentar a gente nas situações mais inesperadas. As práticas religiosas ganham nova significação e se esvaziam se não realizadas em nome do amor. Os adereços da fé despencam. A maquiagem religiosa se vê lavada nas águas amargas da tribulação. Uma força estranha, como disse Roberto Carlos, aquela que vem desde dentro, rompe sem pedir licença e, quando menos esperamos, lá estamos nós superando as dificuldades ou convivendo harmoniosamente com o senhor problema e sua família complicada. Chega a ser impressionante nossa capacidade de adaptação, de luta, de resistência... Só pode ser coisa de Deus!
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