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Escândalo de arrepiar

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28.05.2026 | 3 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Curiosidades
Escândalo de arrepiar
A bíblia está cheia de textos intrigantes, sejam as regras cultuais e alimentares ou os relatos de violência extrema. Mas um dos relatos mais escandalosos do Antigo Testamento talvez seja Gn 19,30-38, o caso das filhas de Ló, que resolvem embebedar o pai e ter relações com ele. O objetivo, diz o texto, é ficarem grávidas pois estavam ficando solteironas e sem descendência, coisa abominável naquele tempo. E Ló será a vítima da armação. Logo Ló, coitado, o único justo de Sodoma, sobrinho de Abraão e muito considerado pelo patriarca da fé.

Primeiro, para entender o texto, é preciso saber que uma mulher que não gerava filhos não tinha futuro promissor. A mulher estava sempre sob a custódia de um homem: seu pai, seu irmão ou seu marido. As filhas de Ló estão vendo o pai envelhecer; ele não lhes arranjou marido. Elas temem o futuro, pois não terão herança, não terão pensão, não terão nada... nem irmão para cuidar delas, o que já seria coisa muito desagradável viver na dependência de irmãos. Resta fazer qualquer trama para garantir posteridade, pois os filhos serão sua garantia: eles cuidarão delas conforme ordena a lei divina de honrar pai e mãe.

Dito isso, outro passo importante é preciso começar o texto pelo fim. Os versículos 36 a 38 mostram as filhas de Ló concebendo e dando à luz não apenas dois filhos, mas dois povos: Moab e Amon. Trata-se claramente de um relato etiológico, ou seja, um relato com finalidade de explicar um costume, uma lei, a origem de um povo ou uma intriga antiga. É o caso de Gn 32,22-32 em que, por meio da ferida na perna de Jacó em luta com o anjo, se explica o motivo pelo qual o povo israelita não comia o tendão do nervo da coxa dos animais (Gn 32,33). E são muitas as etiologias da bíblia.

No caso de Gn 19, o relato quer explicar a origem de dois povos inimigos de Israel. A pergunta é: “Se todos vêm de Deus, por que alguns são nossos inimigos?”. A resposta é simples: “Uns são povos impuros, vieram do incesto de pai e filhas, como é o caso de Moab e Amon”. Ora, sendo inimigos de Israel, como esse mesmo povo poderia dar aos vizinhos adversários uma origem digna? É preciso afirmar sua “impureza originária” para justificar a constante animosidade entre eles. 

Assim, com perícia e sagacidade, o autor sagrado cria uma trama genial. Elabora uma história e coloca a origem de Moab e Amon no incesto, algo que praticamente todas as culturas sempre condenaram. Se essa gente vem do incesto, logo fica justificada a violência contra eles. 

Não é preciso nem dizer que não se trata de um relato factual, mas de um recurso literário, uma etiologia, para explicar ao mesmo tempo a origem desses povos e a intriga antiga entre eles e os israelitas.
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