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74. As mulheres e poder ser

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11.11.2020 | 5 minutos de leitura
Tânia da Silva Mayer
Diversos
74. As mulheres e poder ser
Quem se importa hoje com a eleição de Joe Biden para o cargo mais importante da América do Norte? Os olhares do mundo inteiro repercutem, não o feito histórico do presidente mais votado em toda história norte-americana, mas a ascensão de Kamala Harris ao segundo cargo mais importante daquele país. As redes sociais manifestam esse clima ao ressoarem o discurso de Harris, no qual afirma ser a primeira mulher e a primeira negra a ocupar o cargo, mas que não será a última. Anos luz à frente dos norte-americanos, os brasileiros e as brasileiras elegeram e reelegeram uma mulher para o cargo mais importante da República, em 2010 e 2014. À época da sua reeleição, Dilma Rousseff respondeu à pergunta de uma menina se as mulheres poderiam ser presidentes, afirmando que sim, que poderiam sim. E nós sabemos que podemos.

A repercussão ou reverberação dos últimos acontecimentos ocorreu num momento no qual a impressa brasileira escancarava o criminoso comportamento do advogado, do promotor e do juiz do caso de Mariana Ferrer, que acusou o empresário André Camargo de Aranha de a ter estuprado durante uma festa em dezembro de 2018. A atitude criminosa em questão se qualifica na exposição da vítima – e na permissão de que assim se procedesse – ao constrangimento, à injúria e difamação durante audiência do caso. Além disso, é preciso recordar que nesse mesmo momento outros casos de estupro, feminicídio e outras violências cometidas contra as mulheres pululam nos noticiários, se pararmos para os ouvir bem. Nessa mesma esteira, alguns órgãos de imprensa brasileira já começam a noticiar um número maior de candidaturas de mulheres, principalmente negras, para cargos de vereadoras nestas eleições municipais, como é o caso de São Paulo.

Mas alguém pode estar se perguntando o que o exposto até aqui tem a ver com a teologia ou com a religião. Tem tudo, diríamos. A primeira coisa a se considerar é que a teologia, quando pretende discursar sobre Deus, não poderá fazê-lo sem olhar para a história de homens e mulheres. A segunda observação é a de que as crenças, sobretudo as religiosas, constituem matrizes fundamentais de comportamento social, de modo que influenciam diretamente na vida das pessoas. A terceira consideração a se fazer é que, por ainda ocuparem, grosso modo, \"relevante\" espaço de interlocução, as religiões assumem responsabilidades éticas que extrapolam seus cultos, incensos e liturgias cheias de louvores e piedade.

Nesse sentido, é preocupante o fato de que o cristianismo tenha ensinado até aqui – e continue a ensinar – uma leitura fundamentalista dos trechos bíblicos que abordam a problemática feminina, num total distanciamento da crítica histórica de surgimento de tais textos. A compreensão da mulher como a criatura que ocupa um segundo lugar, uma posição inferior ao varão, e que é tutelada por seu pai e marido, bem como criada unicamente para reproduzir e cuidar da casa, é fomentada por leituras bíblicas do tipo fundamentalista e levada adiante por um processo de reprodução à revelia do que as próprias mulheres entendem sobre si mesmas, sobre os seus corpos, suas potencialidades e sobre as funções que desejam ou estão dispostas a desempenhar nas relações que estabelecerem.

Nesse aspecto, é urgente a recuperação de uma teologia que consiga discursar tudo o que o mistério pascal de Jesus Cristo comunicou ao gênero humano e não somente à face masculina da humanidade. Pois há uma novidade nesse mistério que nos impede diametralmente de continuar supondo que haveria uma diferença qualitativa entre homens e mulheres capaz de impedi-las de ocupar espaços e desempenhar papéis sociais até então não pensados para elas. A Páscoa de Jesus sinaliza outro caminho possível de equidade, no qual tanto os homens quanto as mulheres acorrem à plenitude do ser como convite de acolhimento ao amor subversivo de Deus, que modifica compreensões mundanas de injustiça e desigualdade no interior das relações firmadas entre as pessoas.

Nesse aspecto, as igrejas cristãs, se desejam ser fiéis ao mistério pascal de Jesus Cristo, sua fonte e meta, devem ser fomentadoras de uma nova consciência, na Igreja e no mundo, que impeça o sistema de desigualdade dos gêneros contaminar as gerações futuras. Mas somente isso não é suficiente. Como orientadora desencadeadora de comportamentos, são obrigadas, por força pascal, a empenharem esforços, no aqui e agora dos nossos dias, no terreno do mundo e da Igreja, que sejam capazes de interlocucionar com o mundo de violência vivenciado pelas mulheres, propondo uma nova ética entre homens e mulheres definitivamente alinhada à revolução que o mistério pascal operou transistocaricamente suplantando as hierarquias que nos impediam de ocupar espaços de decisão e poder, que nos impediam de poder ser o que quisermos.