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454. REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – M 22,15-21 (Ano A)

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21.10.2023 | 14 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
454. REFLEXÃO PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – M 22,15-21 (Ano A)
O evangelho lido na liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua ambientado em Jerusalém, mais precisamente nas dependências do templo, onde Jesus viveu a fase mais tensa e intensa do seu ministério. Na verdade, até a conclusão do ano litúrgico, que já se aproxima, o evangelho será tirado desse contexto. O texto lido hoje – 22,15-21 – abre uma série de controvérsias ou disputas dos fariseus com Jesus. Trata-se da disputa sobre a legitimidade do imposto a César, um episódio que consta também em Marcos e Lucas (Mc 12,13-17; Lc 20,20-26), embora a versão de Mateus possua mais particularidades. Os fariseus já tinham sido os principais opositores de Jesus na Galileia, desde o início do seu ministério, e continuam sendo também em Jerusalém, juntando-se a outros grupos que fazem complô, até a aliança final com os romanos que terá a morte de cruz como desfecho. Esses grupos – fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos, herodianos – se alternavam nas tentativas de emparedar Jesus e silenciá-lo, até forjarem sua condenação. Enquanto nos últimos três domingos o confronto direto se deu com os sacerdotes e anciãos, que saem de cena momentaneamente, outros personagens entram em evidência, nesse caso são os fariseus, mas sempre com os mesmos propósitos de questionar e deslegitimar a autoridade de Jesus ensinar e agir de maneira livre, humanizante e libertadora.

Os questionamentos dos sacerdotes e anciãos tinham um viés mais político, pois viam o ensinamento de Jesus como uma ameaça ao poder que exerciam. Já as questões levantadas pelos fariseus são mais relacionadas à doutrina, sobretudo em relação à interpretação da Lei, embora o caso retratado no texto de hoje possua também uma acentuada dimensão política. Como sabemos, logo ao entrar na cidade de Jerusalém, Jesus fez uma grande denúncia contra a situação em que se encontrava o templo: uma casa de oração transformada em covil de ladrões (Mt 21,12-17), estendendo essa denúncia a todos os que mantinham a religião como instrumento de exploração e dominação, que eram a casta sacerdotal e os anciãos do povo, especialmente. A primeira seção dessa denúncia foi ilustrada por três ricas parábolas, lidas na liturgia dos últimos três domingos: a) O pai, os dois filhos e a vinha em Mt 21,28-32; b) Os vinhateiros homicidas em Mt 21,33-43; c) A festa de casamento do filho do rei em Mt 22,1-14. Com essa série de parábolas, Jesus denunciou a ilegitimidade do poder exercido pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém, ao mesmo tempo em que afirmava sua condição de messias e único autorizado a falar e agir em nome de Deus, o seu Pai. Ao desmascarar o sistema religioso vigente, Jesus deixava claro o seu projeto de restituir ao Pai aquilo que o poder político-religioso tinha roubado: o ser humano e sua dignidade em todas as dimensões. Para isso, ele propõe o Reino de Deus como única alternativa e realidade que possibilita ao ser humano viver em plenitude e abundância.

A proposta de Jesus soava absurda para a elite de Jerusalém, de modo que quanto mais ele falava, mais essa elite se organizava para pôr fim à sua vida. Como as três parábolas recordadas deixaram os chefes – sacerdotes e anciãos – sem palavras, novos grupos entram em cena com o mesmo propósito: provocar em Jesus uma autocondenação, armando-lhe ciladas. Dessa vez, foram os fariseus quem armaram a cilada, como atesta o texto: «Os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra» (v. 15). O plano consistia em colocar Jesus em situação constrangedora e, assim, acusá-lo publicamente. Queriam eles que o próprio Jesus entrasse em contradição e fosse desmoralizado, dando motivo para ser acusado seja no âmbito religioso ou no campo político. Por isso, procuram aliados para a execução do plano: «Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes» (v. 16a). A existência de discípulos dos fariseus revela o quanto o movimento era organizado, inclusive com escolas de formação para rabinos. Esse dado é exclusivo de Mateus; nos outros dois sinóticos fala-se apenas dos fariseus junto com os partidários de Herodes, sem referência à categoria de “discípulos” dos fariseus. O dado reflete a situação da comunidade de Mateus, na época da redação do seu Evangelho, em meados dos anos oitenta, quando havia uma forte polarização entre as escolas rabínicas e o movimento dos discípulos de Jesus.

O que mais chama a atenção, no entanto, é a aliança dos fariseus com os partidários de Herodes, pois eram grupos rivais, considerados até inimigos. O acordo dos dois grupos ou movimentos mostra que a conveniência leva adversários a se unirem quando há um inimigo comum. Os herodianos, como eram chamados os membros do partido de Herodes, constituíam o grupo de apoio público à dominação romana, e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como um abomínio, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que ressuscitasse o reino davídico-salomônico, para libertar Israel da dominação romana. Mesmo assim, pagavam convenientemente todos os impostos exigidos por Roma para evitar o rótulo de rebeldes e subversivos, como os zelotas. Apesar de contrários à dominação romana, não apresentavam nenhum tipo de resistência. O jogo de conveniência entre fariseus e herodianos é imagem do plano futuro que levará Jesus à morte; significa a religião e o império unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado para os dois: Jesus de Nazaré.

Como o plano era apanhar Jesus pela palavra, eis a investida deles: «Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências» (v. 16). Todas estas palavras elogiosas faziam parte do plano. São palavras que demonstram respeito, admiração e conhecimento da pessoa de Jesus, mas pronunciadas ironicamente por pessoas falsas e mal-intencionadas. Se, de fato, reconhecessem Jesus como mestre, não estariam armando-lhe ciladas. Pelo contrário, aceitariam sua mensagem libertadora e sua proposta de vida. Essa descrição correspondia mesmo à identidade humana de Jesus era: um homem sincero, autêntico e verdadeiro, que não julga pelas aparências. Inclusive, é o maior elogio que Jesus recebe no Evangelho de Mateus. Nem mesmo seus discípulos jamais dirigiram-lhe palavras assim. Contudo, era um elogio falso, pois não correspondia ao que eles – os fariseus, sobretudo – pensavam de Jesus. Na verdade, o falso elogio não passava de um pretexto ou um passo a mais para chegarem ao golpe final, com a pergunta tendenciosa e maliciosa: «Dize-nos, pois, o que pensas: é lícito ou não pagar imposto a César?» (v. 17). Era aqui aonde eles queriam chegar, imaginando estar colocando Jesus em um beco sem saída. E, realmente, a situação era desfavorável para Jesus, pois ele deveria opinar sobre um dos temas mais delicados da vida cotidiana do povo judeu da época.

Na verdade, a questão do imposto é uma questão difícil de lidar em todas as épocas. Já foi motivo de muitas guerras e rebeliões, sobretudo na antiguidade, inclusive em Israel. por isso, os cobradores de impostos eram pessoas tão odiadas naquele tempo, como retratam os evangelhos. Poucos anos antes da atuação de Jesus, houve uma revolta na Galileia contra Roma, liderada por Judas, o Galileu, cuja motivação foi o aumento dos impostos. Dessa revolta, nasceu o movimento dos zelotas, que pregava a lutava armada contra a dominação romana. Com a pergunta sobre o imposto, portanto, os adversários de Jesus imaginavam deixar Jesus sem possibilidade de saída. Se respondesse que é lícito pagar imposto a César, Jesus estaria agradando aos herodianos e, consequentemente, sendo conivente com a dominação romana e seu sistema de exploração. Ao mesmo tempo, estaria ganhando a antipatia das multidões que até pouco tempo lhe tinham aclamado na entrada de Jerusalém (Mt 21,1-11), passando a ser considerado um traidor do seu povo. Além disso, estaria reconhecendo o senhorio de César, ou seja, do imperador romano. Se respondesse que não é lícito pagar o imposto, agradaria às multidões, ao povo simples que o acompanhava e, ao mesmo tempo, anteciparia a sua condenação como um rebelde e subversivo político. Recusar pagar o imposto significava declarar guerra ao sistema dominante. O que seus adversários queriam era um motivo para condená-lo a partir da sua resposta: respondendo sim, seria condenado pelo povo e pela religião como traidor; respondendo não, seria preso e condenado imediatamente pelo império. A pergunta, portanto, refletia um plano que parecia perfeito.

Exatamente por ser verdadeiro e não julgar pelas aparências (v. 16), Jesus não caiu na armadilha seus adversários, e logo os repreendeu, desmascarando-os: «Jesus percebeu a maldade deles e disse: ‘Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?” (v. 18). Nessa resposta, o autor emprega duas palavras duras para caracterizar os adversários de Jesus: maldade (em grego: πονηρία – poneria) e hipócritas (em grego: ὑποκριταί – hipocritai). Isso quer dizer que os fariseus e herodianos, juntamente com os adversários da controvérsia anterior, eram pessoas más, falsas, dissimuladas, mascaradas e, por isso, não mereciam nenhuma credibilidade. Estavam agindo por conveniência para encontrar uma maneira de eliminar Jesus, esperando que ele mesmo pronunciasse palavras que servissem de prova para a sua condenação. Como já tinha acontecido em outras ocasiões, Jesus se sobressai de uma situação desconfortável e termina deixando seus adversários em apuros: «‘Mostrai-me a moeda do imposto!’ Levaram-lhe então a moeda» (v. 19). Diante de questões delicadas, Jesus nunca dava respostas simples como “sim” ou “não”, mas provocava uma reflexão mais profunda, como tinha feito pouco tempo antes com os sumos sacerdotes, contando-lhes três parábolas, ao invés de responder diretamente ao questionamento sobre a sua autoridade. E o que os interlocutores queriam era uma resposta com um sim ou um não.

Como estavam na área interna do templo, espaço considerado sagrado, não era permitido circular ali com a moeda romana. Por isso, havia as bancas de câmbio de moeda na entrada do templo. Jesus começa a desmascará-los daí, e eles que tinham armado a cilada, são agora os que caem: na moeda romana havia a figura e os títulos do imperador com seu reconhecimento divino inscritos: “Tibério César, Augusto filho do divino Augusto, Sumo Sacerdote”. A figura e a inscrição gravadas na moeda poderiam ser consideradas como idolatria, pois transgredia o primeiro mandamento do decálogo (Ex 20,4), conforme a interpretação rígida dos fariseus, os mais fiéis observadores da Lei. Jesus, ao ver a moeda, perguntou-lhes: «De quem é a figura e a inscrição desta moeda?» (v. 20). Eles não tinham outra resposta senão admitir: «De césar» (v. 21a). Ora, os mesmos que demonstravam observar a Lei com tanta fidelidade, eram os primeiros a transgredi-la, pois, a moeda era uma forma de propaganda do império e da pessoa do imperador como ser divino e absoluto. Certamente, os adversários ficaram desconcertados, talvez até arrependidos da pergunta, uma vez que a armadilha tinha falhado. Como a pergunta tinha sido se era lícito ou não pagar o imposto, a resposta de Jesus vai muito além disso. Se seus adversários carregavam a imagem de César, participavam da sua dominação, eram adeptos do sistema. Logo, não havia motivo para questionar se era lícito ou não o imposto, pois eles já estavam a serviço de César. Aqui, César não é um nome próprio, mas um título. É o símbolo do poder e dominação romana.

Ao longo de seu ministério, Jesus já tinha manifestado sua posição frente ao império romano e a todo sistema injusto de poder, como a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. O embate anterior com os sumos sacerdotes demonstra isso. Sua resposta a tudo isso foi a proposta do Reino de Deus. Ele já tinha rejeitado a política falsa da “pax romana” logo no início de seu ministério, com a proclamação das bem-aventuranças, e na continuação do discurso da montanha tinha desmascarado a prática religiosa dos fariseus, ensinando o jeito certo de relacionar-se com Deus (Mt 5–7). Agora deixa ainda mais claro o seu posicionamento com a sua resposta: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (v. 21). A tradução do lecionário se equivoca ao empregar o verbo dar; na verdade, o verbo empregado na língua original do texto corresponde a restituir ou devolver (em grego: ἀποδίδωμι – apodídomi), uma vez que a César nada deve ser dado, mas apenas devolvido, tendo em vista que nada dele é bom e, por isso, ninguém deve reter para si o que é dele. A resposta de Jesus parece complexa, à primeira vista, e fácil de ser distorcida, como foi por muito tempo e continua sendo.

Com essa clássica afirmação, que na verdade é um imperativo, Jesus não estabeleceu duas esferas de poder, uma temporal e outra espiritual, nem traçou a harmonia das relações entre estado e igreja, como frequentemente se tem interpretado. A ordem para devolver a César o que lhe pertence consiste em abandonar tudo o que não condiz com o Reino. Nesse sentido, o imposto passa a ser apenas um aspecto de uma realidade muito mais ampla e complexa. É necessário deixar de compactuar com a lógica imperial de um modo geral. Isso exige uma consciência nova e uma atitude vigilante constante. É necessário construir uma nova sociedade a partir de perspectiva e lógica diferentes, substituindo o poder pelo serviço, com uma nova justiça baseada no amor. Devolver a César o que é dele exige um esforço da comunidade, a começar por uma autocrítica. Muitas lideranças religiosas parecem combater o poder de César para assumir o seu lugar. Essa mentalidade estava presente em alguns dos primeiros discípulos, na comunidade de Mateus e tem estado em muitos momentos da história do cristianismo.

Devolver a Deus o que lhe pertence é restituir o ser humano, imagem única de Deus, à sua dignidade originária, incluindo o cuidado com a criação inteira. A religião do templo de Jerusalém e o império romano tinham roubado o que Deus fez de melhor: o ser humano, transformado em produto, em mera mercadora, pela combinação dos poderes político-econômico-religioso. A mercantilização do ser humano fere e nega a sua dignidade. Esse foi um problema denunciado pelos profetas desde os tempos de Amós, o qual denunciou que o ser humano tinha se tornado um produto comprado ou vendido por um par de sandálias (Am 2,6; 8,6). Esse ser humano que tem a imagem de Deus, tem de ser, de novo, humanizado e devolvido a Deus; a moeda com a figura de César seja restituída a César, juntamente com toda a lógica perversa do império.

A opção pelo Reino apresentada por Jesus torna-se cada vez mais exigente, à medida que a sua vida vai sendo ameaçada. Longe de ser uma via conciliatória entre duas realidades, a frase imperativa de Jesus é um convite à reflexão e a uma tomada de posição. A comunidade cristã deve se posicionar diante dos acontecimentos, eliminando de suas bases e estruturas tudo o que não pertence à lógica do Reino, ou seja, o que não é de Deus. Se Jesus tivesse buscado conciliação entre o projeto de César e o de Deus, não teria morrido na cruz.