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455. REFLEXÃO PARA O 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,34-40 (Ano A)

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28.10.2023 | 12 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
455. REFLEXÃO PARA O 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,34-40 (Ano A)
A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum continua apresentando Jesus em Jerusalém, vivendo a etapa final do seu ministério, marcada por uma série de confrontos e disputas com as classes dirigentes e os grupos mais influentes da vida política e religiosa de Israel. O texto selecionado para este dia – Mt 22,34-40 – compreende a disputa sobre o maior dos mandamentos. Trata-se de um episódio pertencente à tradição sinótica, ou seja, consta nos três evangelhos sinóticos (Mt 22,34-40; Mc 12,28-34; Lc 10,25-28), embora cada versão possua características próprias, correspondentes às necessidades das comunidades destinatárias e às perspectivas teológicas dos respectivos evangelistas. Em Mateus e Marcos, o episódio localiza-se no contexto do ministério de Jesus em Jerusalém, sendo que em Mateus a tonalidade polêmica é mais evidenciada. Em Lucas, esse episódio situa-se no contexto do caminho de Jesus para Jerusalém, funcionando como motivação para a famosa parábola do bom samaritano (Lc 10,30-35), omitindo-se também a tonalidade mais polêmica, tão evidenciada por Mateus. A ênfase mais polêmica em Mateus é consequência da situação das suas comunidades, na época da redação do seu Evangelho, em meados dos anos oitenta do primeiro século, quando havia forte disputa, e até rivalidade, entre os membros do movimento cristão e os membros da sinagoga, quase todos pertencentes ao movimento dos fariseus.

A série de polêmicas entre Jesus e os grupos hegemônicos de Israel, em Jerusalém, começou com a corajosa denúncia à transformação do templo em casa de comércio e covil de ladrões (Mt 21,12-17), logo após sua entrada triunfante na cidade. Daquele momento em diante, cada passo de Jesus passou a ser milimetricamente vigiado. Havia uma espécie de consórcio entre os diversos grupos hegemônicos – sacerdotes, anciãos, herodianos, saduceus, fariseus, escribas – com o objetivo de colocar Jesus em situações constrangedoras, até encontrar motivos para condená-lo, seja por subversão política seja por transgressão religiosa. Havia até rivalidades entre alguns desses grupos, mas tendo Jesus como inimigo comum, eles se uniam por conveniência no intuito de derrotá-lo. Esses grupos se alternavam no confronto: quando um deles ficava sem argumentos, outro entrava em cena com uma questão ainda mais embaraçante. Os primeiros grupos a confrontá-lo diretamente foram os sacerdotes e anciãos, questionando com que autoridade Jesus ensinava no templo (Mt 21,23-27). A esses, Jesus respondeu com uma série de três parábolas (Mt 21,28–22,14), deixando-os sem argumentos, pelo menos momentaneamente. Em seguida, entraram em cena os fariseus e os herodianos, questionando sobre a legitimidade do pagamento do imposto romano (Mt 22,15-22), a quem Jesus também deixou sem palavras. Depois, entraram em cena os saduceus perguntando sobre a ressurreição, com a estranha parábola da mulher que ficou viúva sete vezes, cujos maridos eram todos irmãos (Mt 22,23-33); também a eles Jesus deixou calados. À exceção da disputa com os saduceus, todas as demais foram lidas na liturgia dos últimos domingos.

O texto lido hoje mostra uma nova investida dos fariseus, o grupo mais preparado em relação ao conhecimento da doutrina e da Lei. Inclusive, a maioria dos mestres da Lei pertenciam ao grupo dos fariseus. Como a questão tratada no evangelho de hoje refere-se à Lei, e o principal interlocutor de Jesus é um fariseu mestre da Lei, tudo aponta para um embate bastante acirrado. No entanto, a disputa é resolvida rapidamente, devido à prontidão e coerência de Jesus em sua resposta. Eis o início do texto: «Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo» (v. 34). As primeiras palavras do texto já denunciam o complô: os grupos agiam em comum acordo, de modo que se um deles falhasse, o outro já estaria pronto para agir, mostrando que havia um verdadeiro cerco a Jesus. Ele tinha feito calar os saduceus na disputa sobre a ressurreição (Mt 22,23-33), um episódio saltado pela liturgia. Diante disso, os fariseus percebem que fica cada vez mais difícil vencê-lo com argumentos, por isso se preparam melhor dessa vez, reunindo-se em grupo para traçar uma melhor estratégia, provavelmente para elaborar uma pergunta mais difícil e escolher o mais capacitado entre eles para perguntar. O fato de provocar uma reunião entre eles demonstra o quanto Jesus tinha se tornado perigoso para eles, devido à sua mensagem libertadora humanizante.

E a intenção da reunião dos fariseus é logo denunciada pelo evangelista, ao dizer qual o objetivo da pergunta: O objetivo da pergunta é muito claro: «e um deles – um mestre da Lei – perguntou a Jesus, para experimentá-lo» (v. 35). A tradução litúrgica omite a especificação “mestre da Lei” ou “legista” (em grego: νομικὸς - nomikós), mas é importante recordar, pois demonstra a relevância da pergunta e a intenção do grupo que queria emparedar Jesus. Não é qualquer fariseu que faz a pergunta, mas um especialista, alguém muito preparado, tendo em vista que nas questões anteriores Jesus tinha deixado seus interlocutores sem palavras. E a intenção da pergunta é muito clara: colocar Jesus à prova, ou seja, tentá-lo. Embora a tradução litúrgica empregue o verbo experimentar, o que melhor corresponde à língua original do texto é tentar. Inclusive, é o mesmo verbo empregado no episódio das tentações para descrever a ação de satanás (em grego: πειράζω – peirázo) no início da vida pública de Jesus (Mt 4,1). Com isso, o evangelista recorda que, do início ao fim, a vida de Jesus foi marcada pela tentação, pelo confronto com os inimigos, opositores do Reino, sendo que na maioria das vezes são as próprias pessoas religiosas que assumem o papel de satanás; às vezes, são os próprios discípulos, como Pedro, a quem Jesus chegou a chamá-lo explicitamente de satanás (Mt 16,23).

Escolhido a dedo pelo grupo, o fariseu mestre da Lei faz uma pergunta interessante, teologicamente, mas ao mesmo tempo maliciosa, tendo em vista as intenções de tentar Jesus. Eis a pergunta: «Mestre, qual é o maior mandamento da lei?» (v. 36). A falsidade deles, pois aquele que interroga o faz em nome do grupo, já é perceptível pela introdução da pergunta: chama a Jesus de mestre (em grego: διδάσκαλος – didáskalos) sem reconhecê-lo como tal. A especialidade dos fariseus, sobretudo dos que se especializavam, era exatamente o estudo minucioso da Lei e dos mandamentos. Com essa pergunta eles não pretendiam aprender algo novo, mas fazer Jesus cair em contradição até ser acusado de blasfemo e transgressor da Lei. Nas escolas rabínicas, essa pergunta era muito frequente e gerava grandes debates. Isso porque tinham elaborado um catálogo com 613 mandamentos, encontrados na Torá, divididos entre 365 proibições, correspondentes à quantidade de dias do ano, e 248 obrigações, que correspondiam ao número de partes do corpo, conforme a mentalidade semítica vigente. Diante de um número tão alto, sendo difícil até a memorização, surgiam muitas perguntas a respeito. Ora, não sendo possível observar todos, quais seriam os essenciais? Havia uma diversidade de posições: entre os fariseus, predominava a ideia do sábado como o maior mandamento, com a alegação de que até Deus observava esse mandamento (Gn 2,2-3; Ex 20,8-11; Dt 5,12-15). Inclusive, já tinham entrado em conflito com Jesus, ainda no seu ministério na Galileia, acusando-o de relativizar o sábado (Mt 12,1-13). Outros grupos consideravam que o essencial era a observação do decálogo (Ex 19,3-17; Dt 5,6-21). E outros, ainda, defendiam a igualdade entre todos os mandamentos, uma vez que todos tinham a mesma origem divina.

Como se sabe, desde o início da sua vida pública, Jesus tinha demonstrado muita liberdade ao interpretar os mandamentos e toda a Lei, colocando sempre o bem da pessoa e da criação acima de qualquer preceito. E isso tinha comprometido a sua reputação no ambiente religioso da época. Por isso, os fariseus imaginavam que com essa pergunta teriam argumentos para deixá-lo em situação difícil, uma vez que Jesus já tinha fama de relativizar a Lei e até transgredi-la. Mas, como sempre, ao invés de incompleta, a resposta de Jesus vai muito além do que lhe fora perguntado: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento!» (v. 37). Jesus encontra uma resposta que transcende o decálogo, ao mesmo tempo em que o sintetiza. Essa resposta encontra seu fundamento justamente no credo de Israel, o “Shemá”, que os fariseus tão bem conheciam: «Escuta, ó Israel: O senhor é nosso Deus e único Senhor! Por isso, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força» (Dt 6,4-5). Com pequenas modificações, Jesus confirma que o ser humano deve amar a Deus com o máximo de si. Como ele mesmo diz, «esse é o maior e o primeiro mandamento» (v. 38), qualificando-o com dois adjetivos de valor absolutos: maior (em grego: μεγάλη – megále) e primeiro (em grego: πρώτος – protos), significando aquilo que é essencial e irrenunciável. Porém, a resposta de Jesus não visa uma hierarquização dos mandamentos, mas uma denúncia: enquanto os fariseus buscavam classificar os mandamentos, Jesus diz que basta viver a genuína fé israelita, da qual eles se achavam os primeiros guardiões. O “Shemá”, enquanto credo de Israel, era proclamado duas vezes ao dia pelos fariseus, ao amanhecer e ao anoitecer, mas na verdade eles não viviam aquilo que proclamavam. Se vivessem em comunhão com Deus, não ficariam presos a preceitos e nem teriam Jesus como inimigo.

E Jesus continua sua resposta, demonstrando, como sempre, que vai além daquilo que lhe fora perguntado: «o segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’» (v. 39). Ora, ninguém perguntou a Jesus qual era o segundo maior mandamento. Mas ele prossegue com a resposta para desmascarar os fariseus e esclarecer ainda mais a essência da sua mensagem, ensinando como deve ser a autêntica relação com Deus. Aqui, ele cita o livro do Levítico (Lv 19,18b). É importante perceber a introdução: “é semelhante”, quer dizer, é equivalente, está no mesmo nível. Para Jesus, o amor a Deus não pode ser separado do amor às pessoas; aqui está a singularidade e a novidade do seu ensinamento. É evidente que ele não inventa esse segundo mandamento, pois já estava na Lei. Mas ninguém antes dele tinha ousado considerar o amor ao próximo no mesmo nível do amor a Deus. Inclusive, o conceito de próximo na Lei era restrito ao compatriota, o membro do mesmo povo, embora as leis de Israel protegessem o estrangeiro melhor do que as leis de qualquer outra nação antiga. E Jesus já tinha ensinado que até aos inimigos deve-se amar (Mt 5,44). Portanto, é inegável a novidade do seu ensinamento.

Enquanto os fariseus procuravam classificar os mandamentos, focando em minuciosidades, Jesus toma o todo da Lei e dos profetas e faz a sua própria síntese, conforme relata o evangelista, na conclusão: «Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos» (v. 40). Aqui, faz-se necessário mais um esclarecimento de nível semântico: o verbo traduzido por depender possui um significado ainda mais intenso. Literalmente, significa pendurar/suspenso (em grego: κρέμαται – krematai). Inclusive, é o mesmo verbo empregado por Lucas, no discurso de Pedro na casa de Cornélio, ao afirmar que Jesus foi «pendurado/suspenso no madeiro» (At 10,39). Isso quer dizer que toda a Lei e os profetas estão pendurados no duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo. Uma vez separados esses dois mandamentos, toda a Lei e os profetas desmoronam, caem por terra, ou seja, perdem o sentido. É na síntese desses dois mandamentos que a Lei e os profetas se apoiam e podem constituir regra de vida com sentido, não apenas para o povo judeu, mas para a humanidade inteira, em todos os tempos. Ora, Os fariseus queriam distinguir preceitos, e Jesus mostrou a unidade e coerência da Lei e dos profetas. Sem essa visão de conjunto, a religião excluía e até matava. Ao mostrar que o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo, Jesus prega a unidade, coesão e coerência na comunidade. É provável que a conclusão da resposta também tenha sido ainda mais chocante para os fariseus, ao colocar os profetas no mesmo nível da Lei, no conjunto das Escrituras. Por mais que os profetas fossem estimados pelos fariseus, para eles o valor da Lei era absoluto, incomparável a qualquer outro conjunto de livros sagrados. E Jesus os iguala, coloca-os no mesmo nível.

Jesus dá um passo muito importante com a sua resposta, o que já era referendada pelo seu jeito de viver. A sua vida foi toda marcada pelo amor intenso ao Pai e pelo amor concreto ao próximo, cuja demonstração fora mais visível na sua relação com as pessoas marginalizadas e excluídas da época, sobretudo pela religião. Por isso, respondeu de modo tão enfático, sobretudo, no que diz respeito ao próximo: o ser humano é colocado em uma tríade, cujo centro é o próximo, conforme a ordem da resposta: Deus – Próximo – Eu. Essa relação tríade deve ser guiada por um amor semelhante, para ser verdadeiro. Com isso, Jesus deixa claro que só há uma maneira de demonstrar que amamos a Deus e a nós mesmos: quando o próximo ocupa o centro da nossa vida. O próximo é, portanto, o critério do amor a Deus e a si mesmo.