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453. REFLEXÃO PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,1-14 (Ano A)

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14.10.2023 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
453. REFLEXÃO PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,1-14 (Ano A)
A liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum propõe, para o evangelho, a leitura da parábola da festa de casamento do filho do rei – Mt 22,1-14. Com ela, conclui-se a série de três parábolas contadas por Jesus em seu primeiro confronto direto com as lideranças religiosas e políticas de Jerusalém. O contexto, portanto, é o mesmo dos dois últimos domingos. Jesus se encontrava em Jerusalém, vivendo a última etapa de seu ministério, e enquanto estava ensinando no templo, foi questionado pelos sacerdotes e anciãos a respeito da sua autoridade para ensinar e agir como agia (Mt 21,23-23). Em sua resposta, Jesus contou três parábolas sobre o Reino de Deus (ou dos Céus, como prefere Mateus), sendo a de hoje a terceira. Ao responder aos seus interlocutores, mais do que provar a sua autoridade, pois ele não tinha necessidade disso, Jesus queria mesmo era denunciar a hipocrisia e ilegitimidade com que os chefes de Israel exerciam o poder. O evangelista recorda isso como advertência para as comunidades do seu tempo e do futuro não reproduzirem o modelo de religião que Jesus contestou.

Como a contextualização já foi bastante enfatizada nos dois últimos domingos, não é necessário repeti-la minuciosamente hoje. Contudo, é importante recordar que a parábola lida hoje se destaca sobre as outras duas da série, lidas na liturgia dos dois últimos domingos: a do pai e os dois filhos (Mt 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-43). Nelas, o ambiente retratado, ao qual o Reino era comparado, pertencia ao mundo agrícola. Na de hoje, o Reino dos Céus é comparado a um banquete, mais precisamente a uma festa de casamento do filho de um rei. Portanto, retrata um ambiente urbano. Enquanto a imagem da vinha, predominante nas duas primeiras, possuía um significado mais restrito, com mais poder de impacto para a cultura semita, a imagem de um banquete possui um significado bem mais universalista, podendo ser compreendida com mais facilidade também em outras culturas, embora o casamento em si seja uma imagem muito empregada para representar a relação entre Deus e Israel. Convém recordar, ainda, que essa parábola se encontra também no Evangelho de Lucas, embora localizada num contexto diferente e com algumas diferenças internas (Lc 14,15-24).

O primeiro versículo nos insere diretamente no contexto, e nos faz perceber que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado, embora a tradução do texto litúrgico não expresse bem isso, ao afirmar que «Jesus voltou a falar em parábolas» (v. 1). Essa expressão dá a entender que houve uma interrupção no discurso. Conforme o contexto narrativo do Evangelho e a língua original do texto – o grego – a tradução mais adequada para essa expressão introdutória seria “Jesus continuou falando em parábolas”. O auditório é o mesmo das duas parábolas anteriores: os sumos sacerdotes e anciãos do povo, ou seja, a elite religiosa de Jerusalém, e não houve interrupção entre a parábola anterior e a de hoje que conclui a sequência. A propósito do auditório, deve-se recordar sempre que, independentemente de quem sejam os interlocutores diretos de Jesus no contexto narrativo, neste caso os sacerdotes e anciãos, os destinatários primeiros do ensinamento são sempre os discípulos e discípulas de todos os tempos. À medida em que continua falando em parábolas, Jesus provoca ainda mais os seus adversários, devido ao aspecto enigmático que as parábolas possuem, deixando-os pensativos.

Eis, então, a parábola: «O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho» (v. 2). Trata-se de uma imagem impactante para o imaginário semita, embora não chegue a ser novidade na linguagem bíblica, pois os profetas já tinham anunciado a consumação dos tempos messiânicos com a imagem do banquete (Is 25,6-10). É uma imagem que evoca amor, alegria, fraternidade. Aqui, Jesus dispensa a linguagem litúrgico-religiosa. Não faz menção a sacrifício, nem a culto, nem a peregrinações, nem a um templo, mas a uma festa comum a todos os povos e culturas. E a festa por excelência, na antiguidade, era a festa de casamento, sobretudo no mundo oriental. Era uma festa que durava em média sete dias, podendo ser ainda prolongada, a depender das condições econômicas dos noivos. No caso da parábola, sendo o casamento do filho de um rei, a duração seria bem maior, assim como a comida e a bebida seriam da melhor qualidade possível. Dessa imagem usada por Jesus, evocamos, de imediato, algumas das mais importantes características do Reino: a alegria, o amor e a perenidade.

A festa em si, é sinônimo de alegria e fartura, ainda mais preparada por um rei. É certa a abundância de comida e bebida, música e muita alegria entre os convivas. O fato de ser uma festa de casamento, lembra o amor, elemento indispensável para a vida da comunidade. Sendo uma festa com duração de sete dias ou mais, lembra a perenidade: um tempo completo e perfeito, que transmite uma ideia de eternidade. De fato, pelo costume de durar uma semana ou mais, as festas de casamento eram tidas como festas sem fim, tamanha a grandeza e o cuidado com que eram preparadas. Por isso, a festa de casamento, literalmente bodas – em grego: γάμος = gamos – era a mais bela de todas as festas, inclusive sonhada por tanta gente. As pessoas, na antiguidade, aguardavam com ansiedade um convite para uma festa assim. Era o momento de exibir roupas, adornos e exagerar na alegria, inclusive na bebida (Jo 2,1-12), como atesta a própria Bíblia. É surpreendente que seja com esse tipo de festa que Jesus comparou o Reino, ao invés de uma reunião litúrgica, como vigília ou procissão.

Além de um ensinamento para o presente, com essa parábola Jesus dá uma verdadeira lição sobre a história da salvação aos seus interlocutores, considerando o significado da imagem e o próprio enredo da parábola. Diz ele que o rei «mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir» (v. 3). Aqui, Jesus recorda aos seus interlocutores que foi Israel o destinatário predileto de Deus, a quem foram enviados os profetas, os quais não foram ouvidos. O povo de Israel, portanto, é representado na parábola pelos primeiros convidados. A recusa ao convite de um rei equivale a uma rebelião. Nesse caso, Jesus enfatiza a rebelião de Israel aos apelos de seu Deus. Um povo fechado, de coração duro, que não escuta o seu Senhor. Mas, como Deus não desiste do seu povo, e nem da humanidade, eis que o convite continuou sendo feito até que, aborrecidos pela insistência do rei, os primeiros convidados passaram da indiferença à violência, chegando a matar os emissários do rei (vv. 5-6). Com a insistência do convite e a recusa dos destinatários, Jesus apresenta uma síntese de toda a história da salvação, denunciando Israel e advertindo os seus seguidores de outrora e de sempre a não repetirem o mesmo.

Diante da recusa dos convidados, que agiram não apenas com indiferença, mas também com violência, chegando a matar os empregados que saíram para convidá-los (v. 6), o rei toma uma decisão drástica: «O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles» (v. 7). Esse versículo tem gerado muitas discussões entre os estudiosos. Certamente, é um acréscimo da comunidade de Mateus, pois não consta na versão desta parábola do Evangelho de Lucas. Alguns vêem aqui uma alusão à destruição da cidade de Jerusalém e do seu templo pelos romanos, no início dos anos 70 d.C., um fato já consumado na época da redação do Evangelho de Mateus, escrito já em meados dos anos 80 d.C. De acordo com essa explicação, a destruição de Jerusalém teria sido um castigo por ter rejeitado o Messias. Contudo, o atual estágio da pesquisa já não admite tal hipótese, embora o conflito entre a comunidade cristã e a sinagoga estivesse muito aceso quando Mateus escreveu o seu Evangelho. Insistir com ela seria alimentar o antissemitismo. Os anúncios de castigo na linguagem bíblica funcionam como advertência. Aplicá-los a fatos históricos concretos não passa de oportunismo. A atitude do rei aqui descrita exprime sua indignação pela rejeição sofrida e, aplicada à comunidade, visa advertir os ouvintes/leitores que a vida fora do banquete, ou seja, fora do Reino, é totalmente privada de sentido.

A parábola continua a sua sequência natural no versículo oitavo: «Em seguida, o rei disse aos empregados: ‘a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela’» (v. 8) A conclusão do rei é uma acusação ao fechamento dos primeiros convidados – Israel – à não aceitação do convite, ou seja, à conversão. De fato, é notório, ao longo da história, o quanto a mensagem profética foi rechaçada em Israel, sobretudo pelas autoridades religiosas. A falta de dignidade dos convidados foi comprovada pela indiferença e violência com que trataram os enviados do rei. Porém, a rejeição dos primeiros convidados não muda os propósitos salvíficos de Deus para com a humanidade inteira, ou seja, não levam o rei a desistir da festa. Ora, a imagem da festa de casamento expressa, de modo condensado, a totalidade dos bens messiânicos, com abundância de amor, alegria e fraternidade. É uma das melhores imagens aplicadas ao Reino, pois simboliza a vida plena. Por isso, o rei não desiste dela, assim como Deus não abre mão do seu projeto de Reino. Ser digno ou indigno de participar da festa é uma questão de aceitação dos valores do Reino, o que passa pela assimilação da mensagem dos profetas e de Jesus, para a comunidade cristã.

Tendo constatado a rejeição – indignidade – dos primeiros convidados, o rei toma uma decisão que corresponde à insistência de Deus e à perenidade de sua oferta de vida plena para toda a humanidade: «Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes» (v. 9). Podemos considerar esse o versículo central de toda a parábola. Aqui está o embrião de uma Igreja-comunidade em saída! A expressão “encruzilhadas” significa o encontro com as periferias. A expressão usada na língua original do texto significa a literalmente a saída da cidade (em grego: διεξόδος – diecsódos). Portanto, faz parte do vocabulário do êxodo e evoca libertação. Era na saída da cidade onde ficavam todas as pessoas de atividades “vergonhosas”, ou seja, o que era considerado escória da sociedade, como prostitutas, mendigos, assaltantes e doentes considerados impuros. Quem não tinha acesso aos bens que a cidade oferecia, incluindo os serviços religiosos, ficava nas encruzilhadas. Eram as pessoas descartadas pela sociedade da época, mas destinatárias da libertação oferecida por Jesus, com sua mensagem humanizante. Esse versículo é um convite claro para que os seguidores e seguidoras de Jesus se voltem para as margens, para as periferias. Aqui, de modo definitivo, é apresentada a nova dinâmica do Reino, destacando seu aspecto inclusivo: todos os que forem encontrados devem ser convidados! Acabou o tempo das distinções, dos rótulos, das separações.

Finalmente, o convite tornou-se efetivo: quando foi endereçado a todos, sem distinção: a maus e bons. O resultado foi este: «a sala ficou cheia de convidados» (v. 10c). Enquanto os enviados dirigiam-se a uma elite privilegiada e indiferente, a sala permaneceu vazia. Somente quando saíram para as margens o convite encontrou adesão. Aqui está um alerta da comunidade de Mateus para as comunidades de todos os tempos. O convite, ou seja, o anúncio, deve ser feito a todos e todas, sem distinção alguma. Maus e bons são convidados para o Reino. Porém, aceitar o convite-anúncio comporta exigências e compromissos da parte dos convidados. Considerando a trama da parábola, para a gente simples das encruzilhadas o convite para uma festa de casamento de um filho de rei não passava de um sonho muito distante, como foi a proximidade de Jesus com os pecadores, prostitutas, leprosos, crianças. Nunca um mestre tinha se misturado tanto com o povo simples quanto Jesus. Por isso, a parábola se torna metáfora do seu ministério inclusivo e próximo de todos. A sala cheia, portanto, é imagem de um mundo justo, fraterno e igual, como é o Reino de Deus.

Há espaço para todos no banquete do Reino, sobretudo depois de Jesus ter aberto as suas portas com sua mensagem e práxis humanizantes. Contudo, as pessoas são livres e podem se autoexcluir, ao não fazer comunhão com os demais. É esse o sentido do convidado que não portou o «traje de festa» (v. 11), uma imagem importante, mas fácil de ser distorcida. Ora, caso se tratasse de uma veste real, nenhum dos convidados estaria apto, afinal, todos foram pegos de surpresa com o convite feito de última hora. Através da percepção do rei, o evangelista, chama a atenção da sua comunidade, fazendo uma advertência que serve para as comunidades de todos os tempos: não basta estar na sala, participar de reuniões e atos litúrgicos, receber sacramentos, sem disposição para a vida comunitária. O traje de festa é, aqui, o sinal de unidade entre os convivas do banquete e, portanto, dos membros da comunidade cristã: a prática das bem-aventuranças – síntese da justiça do Reino –, o conteúdo programático do discipulado no Evangelho de Mateus. Todas as pessoas são convidadas e podem entrar na sala de festa, mas só permanece quem se abre ao espírito das bem-aventuranças. É o “revestir-se” de Cristo, expressão que foi inserida nas fórmulas de batismo desde as primeiras comunidades cristãs (Rm 13,14; Gl 3,27).

A reação do rei ao convidado sem o traje de festa parece violenta (vv. 12-13), mas apenas reflete o uso do gênero literário apocalíptico, tão empregado na época entre os rabinos e utilizado também pelos pregadores cristãos das primeiras gerações. Equivale à destruição da cidade diante da rejeição dos primeiros convidados, como vimos anteriormente (v. 7). Não significa um castigo propriamente, mas, dentro da pedagogia divina, indica uma advertência. Visa evidenciar o perigo da autoexclusão do próprio convidado. A ausência do traje de festa é, portanto, a falta de abertura e disposição para “revestir-se” de Cristo, ou seja, é o fechamento ao espírito das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). As bem-aventuranças são o caminho da felicidade e da realização plena. Quem as vive, permanece no banquete do Reino; quem não as vive, priva-se de viver plenamente feliz e realizado, e é isso o que a imagem tão forte indica: perder o sentido da vida. Ter os pés e as mãos amarrados, chorar e ranger os dentes (v. 13), é a imagem do desespero último do ser humano. Só é desesperado quem não aceita participar do banquete da vida. Não se trata de uma descrição, mas de uma comparação, como é toda a parábola. Não aceitar participar do banquete com alegria, amor e justiça é, portanto, privar-se da vida em plenitude.

O evangelista ensina, com tudo isso, que o simples fato de alguém participar de uma comunidade ou igreja não é sinal de nenhuma garantia de vida. Só vive plenamente quem aceita fazer comunhão e põe em prática o programa de vida de Jesus. A parábola é concluída com uma nota proverbial explicativa: «Porque muitos são os chamados, e poucos são os escolhidos» (v. 14). Mesmo dentro da comunidade, lugar do início da concretização do Reino, há sérios riscos de alguém ficar privado de vida plena. O evangelista enfatiza exatamente isso: não basta ter sido convidado ou convidada, afinal, todos são, indistintamente: bons e maus. O importante é, ao sentir o chamado, conduzir a vida segundo o programa de vida daquele que chama. Portanto, a expressão «poucos são os escolhidos» significa que nem todos escolhem participar e permanecer no banquete do Reino, porque nem todos tem a disposição de viver à maneira de Jesus.

Todos são chamados, mas só participa plenamente da festa, ou seja, do Reino, quem porta o traje das bem-aventuranças, sinal único e distintivo dos cristãos e cristãs. O certo mesmo é que Deus quer a sala cheia; para as igrejas e comunidades eclesiais precisam ir às encruzilhadas e fazer o convite com amor, alegria diálogo e espírito de acolhimento.