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33. Esperar contra toda esperança

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23.06.2015 | 5 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
33. Esperar contra toda esperança

“Espera com paciência...” (Eclo 2,2)



 “Se você não se atrasar demais,

posso te esperar por toda a minha vida.”

(Oscar Wilde)



Sob o céu nublado e triste, olha a mulher pela janela do tempo à espera daquele que ama: o marido, o filho, a mãe que se foi... O menino brinca agitado querendo sorver da companhia dos amigos a máxima felicidade, enquanto desconfiado olha para os lados à espera a mãe que vem ao seu encontro. O rapaz apaixonado espera um e-mail, um toque no telefone, uma mensagem sinalizando que seu desejo de presença é compartilhado. Estamos sempre esperando: esperando um filho, esperando um amigo, esperando a hora certa, esperando dias melhores, esperando coragem para tomar decisões... Esperar é arte capciosa, que exige leveza, determinação e paciência. Esperar é atitude de quem tem esperança.


Há esperas tristes, cujas demoras são sofridas: esperar morrer aquele que já agoniza quase sem vida; esperar acabar o amor que já quase não pulsa; esperar uma má notícia já praticamente certeira; esperar o resultado de um investimento que já nasceu fadado à falência... Nesses casos, resta sofrer as esperas...


Há esperas deliciosas: esperar o reencontro de quem a gente ama; esperar a hora do abraço, do carinho, da ternura... Se tem algo que me faz feliz é esperar alguém que amo no aeroporto ou na rodoviária. Viver os controvertidos sentimentos que permeiam as vésperas da chegada; contar as horas que passam lentamente; olhar no relógio e tornar a conferir se já chegou a hora de ir ao encontro; tomar banho, pegar a condução e partir para buscar aquele que chega; e lá esperar e esperar e esperar pacientemente, na esperança do reencontro. É bom esperar, tão bom quanto ser esperado. Chegar de uma viagem cansativa e, em meio à multidão, encontrar sorrisos conhecidos, braços que acenam e se abrem para o abraço, lábios que murmuram seu nome, rostos que se iluminam com sua chegada! São coisas que não têm preço!


Certa vez, depois de exaustivas viagens a trabalho, no final daquela série sem-fim de voos, ao descer no aeroporto, dois amigos queridos me esperavam no desembarque. O voo havia se atrasado um pouco, mas eles esperavam sorridentes e – às vésperas de minha chegada – escreveram belos versos que me ofertaram em nosso reencontro.



“O espaço entre o escuro e a luz, 

O instante entre o olhar e o toque, 

Entre o dizer e o silêncio, 

Entre o nada e o tudo, 

É suprido pelo abraço que se antecipa

Nos passos que se aproximam.”



Têm toda razão meus amigos: esperar o encontro já é – de alguma forma – o encontro antecipado. Na expectativa do encontro, o encanto acontece; o coração se nutre de esperança e celebra a espera.


Bem dizia Exupéry: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade!Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... ”. Feliz a espera que gera preparo do coração. A esperança de quem espera é pura bem-aventurança!


Lembro-me com saudades de uma amiga que, depois de três anos sem ver a família, voltou ao seu encontro num país longe daqui. Ainda no avião, disse ela, ter sentido uma felicidade inimaginada. Bastou ver as luzes da cidade acesas, para se sentir pisando aquele chão, abraçando sua família, recebendo seus abraços, seus sorrisos... Ela me contou que nunca havia pensado poder ser tão feliz assim. Aqueles minutos de espera, enquanto o avião não aterrissava, eram tão plenos de esperança que pareciam eternos e eternizavam sua alegria de reencontrar os seus.


As Sagradas Escrituras louvam a esperança e bendizem aqueles que sabem esperar. Abraão, o pai da fé, esperou o cumprimento da promessa que Deus lhe havia feito: ser pai de muitos filhos e ver crescer uma descendência. Mas a esterilidade de Sara não parecia favorecer sua espera. Também o tempo avançado de seus anos fazia-o querer desistir de seu intento. Foi preciso esperar contra tudo e contra todos. Paulo chega a dizer na Carta aos Romanos que Abraão esperou contra toda (des)esperança (cf. Rm 4,18). Mas, na confiança daquele que lhe havia feito a promessa, Abraão continuou esperando. Acreditou que valia a pena investir suas forças no Deus da Aliança, e esperou. Nasceu-lhe um menino, cujo nome recebido dos pais simboliza a bem-aventurança da esperança cultivada: Isaac – motivo de graça ou de riso. Nosso pai da fé foi feliz na sua espera. Viu crescer em seus braços o fruto de sua esperança.


Resta a nós esperar como Abraão. Nossa espera não é vã: um motivo de graça – de riso – nos será dado, a própria graça da esperança, que é capaz de iluminar os dias maus e alimentar os ânimos abatidos.





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