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30. Astrofísica da existência

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02.06.2015 | 5 minutos de leitura
Frei João F. Júnior - OFMCap
Crônicas
30. Astrofísica da existência

“Antes que volte o pó à terra, de onde veio,

e o espírito retorne a Deus que o concedeu...” (Eclo 12,7)


 

"Sabe o que estes ponteiros querem te dizer, meu filho?

Cada vez que eles andam

‘um a mais, um a mais, um a mais’,

na verdade estão te dizendo:

‘um a menos, um a menos, um a menos’."

(Mário Peixoto)



Dizem que o universo faz barulho. Verdade que não é bem um barulho, mas muito mais uma onda, uma radiação que se propaga em todas as direções... Isso já tinha sido previsto antes, mas só foi confirmado em 1965, pelos estudiosos norte-americanos Arno Penzias e Robert Woodrow Wilson. É também verdade que eles não procuravam nada disso. Entretinham-se num estudo sobre transmissão via satélite, a serviço de uma companhia telefônica. Nada mais trivial. Mas todos sabemos: as trivialidades mais cotidianas são, por vezes, as condições mais promissoras para o encontro do mais essencial de nós mesmos... Quem nunca se deu conta daquilo que realmente importava, exatamente no momento em que menos procurava? E quem nunca se encontrou, nas curvas da monotonia banal, com o abismo mais fundo de si mesmo?


Os dois estudiosos avançavam em suas pesquisas; mas, em algum momento, passaram a se incomodar com um chiado, no fundo de suas transmissões. Um ruído baixo, discreto, mas que em sua constância era capaz de irritar. Trocaram os aparelhos por outros mais sofisticados, mas o barulho ainda continuava. Realinharam as enormes antenas... e nada. Espalharam-se no meio científico as cômicas fotos dos dois, sobre as antenas, varrendo os ninhos de pombos, na esperança frustrada de pôr fim ao ruído que atrapalhava sua comunicação. Mas nada punha fim àquele desagradável e misterioso inconveniente. Finalmente, os dois se deram conta de que estavam diante, simples e assustadoramente, da radiação cósmica de fundo. Isso lhes renderia o Prêmio Nobel de física em 1978.


A possibilidade dessa radiação havia sido postulada em 1948, por George Gamov. Em poucas palavras e a grosso modo: seria um eco do big Bang. A grande explosão originária dispersara uma quantidade enorme de energia – toda a energia do universo – e iniciara o movimento cósmico que, hoje sabemos, não terminou. E, como não há um centro “geográfico” para a expansão do universo, o resultado é que a memória de seus primeiros instantes se encontra registrada e expressa numa radiação que se propaga em todas as direções – e que é audível, quem diria, em nossos pobres aparelhos eletrônicos. Ou seja, o universo carrega em si o eco de sua origem; uma lembrança permanente de que, um dia, ele não existia; uma memória contínua e insistente de sua radical condição finitude.


Conosco acontece algo semelhante. Nós também possuímos uma “inconformidade existencial de fundo”. Para além das dores que as voltas da vida nos rendem, muito para além das frustrações e dos descontentamentos que inevitavelmente experimentamos, parece existir em nós algo como uma dor, que lateja mesmo nos momentos de maior alegria e realização. Uma sensação de inacabamento, talvez; de incompletude, de falta que não pode ser sanada. Uma ausência que não é saudade (pois saudade é presença que transcende presenças), uma dor que não é doença, uma radical sensação de abismo intransponível e de fosso intamponável. Sim, habita-nos uma inconformidade essencial, uma inquietude originária, que talvez seja, simplesmente, a consciência de nossa condição de finitude.


Em alguns momentos, essa dor se veste de outras dores, a ponto de quase a ignorarmos. No drama de uma doença, na insatisfação de um erro, no arrependimento de um mal causado, na frustração de não conseguir demonstrar o amor que gostaríamos, no constrangimento de falharmos, na vergonha de não sabermos, na angústia de nos perdermos, no medo de não existirmos, na tragédia de morrermos... Mas são apenas invólucros, roupagens circunstanciais de uma dor muito mais profunda e incurável em sua raiz. Pois não há nada que nos retire esta necessária condição, este nosso modo de ser: tivemos um início e o fim nos aguarda; em cada momento estamos agrilhoados às estreitezas de nossa história; não nos é dado ver para além das dobras de nosso próprio mistério; somos finitos.


Portanto, assim como as estrelas do céu, e num tempo infinitamente menor, experimentamos um cansaço derradeiro, que um dia será definitivo. Mas nem por isso as estrelas deixam de brilhar. Ainda que caminhem necessariamente a tornarem-se não mais que uma sombra escura no céu, insistem em pontilhar as noites cósmicas com sua luz e a aquecer prodigamente um universo igualmente finito e terrivelmente frio. Seremos nós, então, a protestar contra a finitude radical de todas as coisas? De modo algum... A certeza da finitude pode bem ser a frustração de nossas ilusões de onipotência, de nossas falácias de perfeição. Mas pode também soar como irrecusável convite a uma vida vivida com aquela intensidade que produz efêmeras centelhas de eternidade. Talvez, seja essa a mais preciosa nobreza da existência.