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280. Recolhendo sabedoria

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25.09.2023 | 2 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
280. Recolhendo sabedoria
“Não jogueis pérolas aos porcos” (Mt 7,6)

"Pra bom entendedor, meia palavra basta.
(Dito popular). 

Os Evangelhos colocam na boca de Jesus uma porção de ditos populares, certamente muito frequentes na vida do seu povo, na sua época. São máximas normalmente provenientes da sabedoria popular; resultado da observação da vida, de suas mazelas e de seus mistérios. Quem nunca ouviu falar que “é mais fácil um camelo passar no fundo da agulha que um rico entrar no Reino (Lc 18,25)? E a outra “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 9,13), alguém conhece? São frases que transmitem conhecimentos acumulados ao longo de anos e que não se perderam por causa da tradição. Os evangelistas recolhem muitas delas e as atribuem ao mestre popular de Nazaré.
Com meu pai, aprendi uma infinidade desses ditos sapienciais e conservo-os comigo. Alguns deles, nunca ouvi em outra boca a não ser na dele. Atualmente, tenho aumentado minha lista coletando frases impactantes de amigos próximos. Numa viagem à Bahia, escutei de um amigo esta delícia: “Há duas coisas que detesto com todas as minhas forças: frango branco e o capitalismo”. Esse dito tem me socorrido diariamente. Na primeira contrariedade digo: “Há duas coisas que detesto com todas as forças: isso e o capitalismo”. Isso pode ser desde frango branco, sem corar devidamente, até gente enxerida, implicando com minha vida. Pode ser a extrema direita arrotando patriotismo ou uma pessoa desperdiçando água lavando a calçada. Fato é que, de todas as coisas que detesto, o capitalismo, ou mais apropriadamente chamado de “capetalismo”, está sempre no topo da lista. Estou para conhecer coisa mais perversa que a ditadura do capital.
De uma amiga querida aprendi que “mais vale um gosto realizado, que um vintém guardado”. Essa lição tem me ajudado a expandir algumas fronteiras da modéstia econômica. Advinda de família pobre e sempre comedida com os gastos, sempre tive dificuldades de gastar dinheiro comigo mesma. A regra da economia nunca valeu para os meus queridos, especialmente familiares mais fragilizados. Agora, depois de muito esforço, estabeleci para mim que alguns gostos não podem ser protelados. “A vida é curta e o mundo é pequeno”, canta Alcione. Num piscar de olhos, já temos mais passado que futuro; mais remédio na bolsa que ilusões no coração; e mais previsão de dores que de alegrias… Realizar alguns pequenos sonhos, como uma pequena viagem ou um bom show, ajuda a manter a chama do bom humor acesa.
Outro dia, escutei uma máxima que me divertiu bastante. Um colega de trabalho saiu furtivamente da reunião pelo sistema remoto, sem dizer uma palavra. Apenas sua foto ficou lá, como se ele estivesse presente. Ao lhe dirigir a palavra, um silêncio sepulcral reinou, até que alguém denunciou que ele tinha escapado: “Fulano é como peido escapulido, quando você pensa que ele está dentro, já saiu há muito tempo". Eu ri solto da criatividade do povo. 
Uma máxima que ficou consagrada nos últimos anos de Brasil foi: “Faz arminha que passa”. A qualquer aborrecimento que algum perverso sofre e faz careta mostrando desagrado, repito baixinho a frase anterior. Nem sempre posso falar em voz alta, mas – graças a Deus! – pra pensar, a gente ainda é livre, mesmo que não seja para dizê-lo em alto e bom som.
Certo é que ditos se mostram benditos quando, plenos de sentido, conseguem falar aquilo que nem sempre nossas palavras conseguem expressar. Fico de ouvidos atentos coletando a sabedoria popular; são verdadeiras pérolas que não podem ser jogadas aos porcos, máxima atribuida a Jesus em Mt 7,6.