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266. Horizonte de promessas

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14.03.2022 | 2 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
266. Horizonte de promessas
“Olhai os pássaros do céu” (Mt 6,26)

“Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão”
(Chico Buarque de Holanda)

Nota-se com facilidade o crescente número de pessoas usando óculos, especialmente para leitura. Eu mesma, desde que me ingressei na vida acadêmica, nunca mais pude sobreviver sem esse acessório. Primeiro, veio um leve desconforto na hora dos estudos. As letras não tinham mais a nitidez antiga, e o esforço para ler um texto, seja impresso ou na tela, ficava cada vez maior. Foi difícil admitir que eu precisava de óculos, mas, uma vez colocados sobre os olhos, nunca mais pude viver sem eles. Um horizonte se abriu diante de mim e, como muitos, me perguntei: “Como eu sobrevivi sem eles todo esse tempo?”. 
Interrogava-me sobre o crescimento do número de pessoas usando esse artefato, quando uma médica explicou-me sobre a sobrecarga de trabalho que estes órgãos, os olhos, têm enfrentado. Segundo a jovem oftalmologista, os olhos trabalham com dois tipos de músculos: alguns entram em exercício para enxergar de perto e outros para longe. Acontece, porém, que, com a exposição frequente diante da tela dos computadores, nossos músculos de perto se encontram fadigados e, já exaustos, os músculos de longe começam a fazer o trabalho dos de perto. Assim, atuando além do que devem (os que são para perto) ou numa área que não lhes é própria (os que são para longe), os músculos ópticos ficam exauridos, e os óculos são o único modo de descansá-los diante de tanto trabalho. Para evitar o desgaste da visão, recomendou exercícios diários, tais como, de dez em dez minutos, abrir e fechar os olhos várias vezes. Além disso, os olhos devem sair da tela a cada uma hora e, depois de algumas piscadelas, o leitor deve mirar para o horizonte, olhando ora para longe ora para perto. 
Achei a explicação curiosa e não pude evitar a comparação com a vida. Mergulhados num presentismo sufocante, marca registrada de nosso tempo, vivemos sem esperança futura, especialmente depois que a epidemia e a guerra entraram no nosso cotidiano. Por todo lado, limites nos são impostos, e nossa capacidade de ver a vida se torna mais reduzida. Somos consumidos pelas urgências presentes: trabalhar, pagar as contas, gerir os problemas, safar-se de outros ainda maiores etc. Tudo aqui e agora, antes que o capitalismo selvagem nos devore. Estamos exauridos e nossos músculos existenciais para perto já não dão conta da demanda atual. Estamos há muito usando os músculos de longe para nos ater a questões que estão debaixo de nosso nariz. Não nos resta tempo nem energia para olhar além e esperar dias melhores. Tudo parece tão sombrio e tão nublado que não vale a pena continuar esperançando por dias melhores. 
Sem espaço entre o presente e o futuro, somos massacrados pelo cansaço. Nossa vida anda esgotada. Nosso corpo anda fatigado. Nossa alma – aquilo que nos anima – não se alimenta mais da contemplação e está morrendo de inanição. Os sinais de adoecimento estão por todos os lados: dores no corpo, alergias, insônia, depressão, ansiedade, pânico... Nosso organismo está pedindo os óculos da esperança ou uma pausa para mirar o sonho, dar asas à imaginação e descansar. Precisamos tirar os olhos do aqui e agora e exercitar a esperança de dias melhores. Uma piscadela de ternura para descansar da fadiga. Uma pequena pausa para reencontrar o horizonte de esperanças. Sem isso, não vamos sobreviver nesses tempos maus.
Como sou biblista, não me escapa a sabedoria dos evangelhos. Quando Jesus adverte os seus seguidores sobre os perigos de ajuntar tesouros inúteis, que a traça e a ferrugem corroem e os ladrões podem roubar (Mt 6,19-21), convida-os a olhar para os lírios do campo e as aves do céu (Mt 6,26.28). É preciso parar de olhar pequeno. Uma fugidinha da labuta cotidiana para olhar além devolve a paz e revigorar os ânimos. Pode ser uma ocasião de lazer, um piquenique, uma caminhada, uma voltinha de bicicleta, um banho de cachoeira... Quem sabe um momento de prazerosa leitura ou algum tempinho de convivência com a pessoa amada? Brincar com os filhos, os netos, os sobrinhos... Virar criança por uns instantes. Para quem gosta de plantas ou de animais, seria bom gastar tempo com eles. Um papo com alguém bacana pode ajudar a recuperar a esperança e, se for acompanhada de um vinho, a conversa fica ainda melhor. Um trabalho voluntário cuidando dos mais vulneráveis, por mais estranho que pareça, faz a gente acreditar de novo na vida. E uma boa noite de sono tem o efeito de nos fazer olhar descansadamente para o futuro na manhã seguinte. Lírios do campo e aves do céu estão por toda parte; resta-nos voltar nossos olhos para eles, ainda que o sistema nos obrigue a andar com limitadoras viseiras. Essas escapadelas são transgressões do cotidiano com o condão de nos devolver um horizonte de promessas. 

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