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242. Não era de Deus

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31.08.2020 | 8 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
242. Não era de Deus

“Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’
entrará no reino dos céus” (Mt 7,21)


 


“Não era amor, ô, ô
Não era.

Não era amor,
era
Cilada
cilada cilada cilada

Cilada cilada cilada cilada”

(Grupo Molejo)


 


“São muitas emoções”, diria Roberto Carlos. Os dias correm ligeiros, entrecortados por notícias escandalosas envolvendo o nome de Deus. Primeiro, o João não era de Deus como se pensava. Os depoimentos de dezenas de mulheres mostraram que o vidente-curandeiro não tinha parte com o Deus que carrega no nome. Ao contrário, sua face perversa e sombria ficou conhecida, e a violência que infligia às mulheres se tornou escândalo no mundo. Uma primeira corajosa abriu a boca para denunciar e a bola de neve foi rolando e se agigantando, provocando verdadeira avalanche no mundo dos crédulos.


Depois, quando a gente se refazia do susto, vieram as suspeitas sobre o padre Robson, do Santuário do Pai Eterno. Lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, transações financeiras ilícitas etc.  O presbítero de cara meiga e angelical, adotado virtualmente como filho de inúmeras velhinhas indefesas, não parece ser o anjo de candura que a tela da TV mostrava. Se as acusações do Ministério Público não se confirmam, já o condenam o desvio de dinheiro para comprar o silêncio de chantagistas estelionatários; as enormes cifras; as fazendas compradas com dinheiro da associação; o avião “velho” para levar o padre às cidades vizinhas; a casa de descanso com piscina gigante, banheira de hidromassagem e mármore para todo lado; o narcisismo explícito nos tapetes do quarto e do banheiro em que aparece cravado o seu nome... A distância entre esse modelo de fé cristã e o evangelho de Jesus precisaria ser medida em anos luz, pois desconheço outra que dê conta da metáfora.


Ainda estonteados com a notícia do padre, veio outro golpe. A Flordelis não era flor que se cheire. Qual espinho venenoso, inúmeras vezes alfinetou seu marido com arsênico e, constatando que o companheiro era duro de matar, arquitetou um crime triplamente qualificado. Teria sido mais fácil se divorciar, mas o divórcio, por se tornar público, “jogaria o nome de Deus na lama”. No entanto, matar seria aceitável, pois supunha-se que o crime ficaria oculto. A trama que envolve o nome da pastora e cantora gospel, juntamente com onze dos mais de seus cinquenta filhos, deixa as séries policiais da Netflix no chinelo. A mulher virtuosa, mãe de uma multidão, ensinou bem os seus rebentos a seguirem seus passos.


E o golpe de misericórdia veio ainda mais recentemente quando ocuparam as manchetes o pastor Everaldo, líder do Partido Social Cristão, como principal articulador de desvio de dinheiro público no Rio de Janeiro, juntamente com seu comparsa, o governador e ex-juiz Wilson Witzel. O juiz não é justo como devia ser; dele, a justiça passa longe. E o pastor só pastoreava as ovelhas para retirar sua lã e se beneficiar de sua carne. Levando seu rebanho para o matadouro do caos da saúde, o líder do PSC tirou proveito até da pandemia e toda ocasião lhe era oportuna para lucrar um pouco mais.


Como disse Jesus “nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus” (Mt 7,21). Quão longe está essa “pseudo fé cristã” dos valores da boa nova anunciada por Jesus de Nazaré. Assédio e violência sexual; ostentação e enriquecimento ilícito; tentativa de assassinato e homicídio; desvio de dinheiro e formação de quadrilha. O país que tem líderes religiosos desse porte não precisa de mais bandidos. Quem tem esses cidadãos do bem como seus representantes não precisa de marginais. A máfia fica humilhada perto do crime dessa gente. Bem dizem por aí que “o pior malvado é o malvado religioso”. Diante desses escândalos, não temos como discordar da sabença de nossa gente.


Cada uma das figuras citadas se envereda por um caminho religioso. Cada um congrega numa igreja, mas no fundo todos eles têm a mesma religião: o dinheiro, o prazer perverso e o poder. Importa ter projeção, fazer fama e enriquecer-se. Importa possuir muitos bens, ser aplaudido, reconhecido como santo, elogiado pelas massas, venerado pelos frágeis... Quanto mais vulneráveis as vítimas melhor. São mulheres marcadas por sofrimentos e doenças; velhinhas indefesas e abandonadas diante da TV; multidão de pobres que buscam uma vida próspera pela intervenção divina, doentes da covid 19. Ovelhas ingênuas diante do lobo vestido em pele de cordeiro! Em vez de fugir dele, acolhem-no como pai espiritual, guru ou modelo evangélico. Dão a eles sua credibilidade, ajudam-lhes a fortalecer armas mortais que serão usadas contra si mesmas, pobres ovelhinhas. Dinheiro, muito dinheiro rolando pelos dutos da religião... E perversão, muita perversão gerando mais dinheiro; e depois mais dinheiro para encobrir as perversões e mais perversão para fazer crescer o bolo da fortuna.


Os nomes das operações policiais também trazem a curiosa marca da religião: em nome de Deus; Lc 12,12: “nada há oculto que não venha a se revelado”; Vendilhões... Pequenas amostras de como os não-religiosos podem nomear melhor os fenômenos duvidosos da religião que os seus especialistas. Enquanto pessoas de fé, incluindo padres, bispos, teólogos e outros líderes, classificam os fenômenos de piedade, de milagre, de expansão da fé, os investigadores ligam o desconfiômetro e sentem o cheiro de enxofre que exala desses lugares sagrados. Um olhar apurado faz ver o que se esconde atrás dos bastidores.


Triste saber que esses envolvidos em escândalos recentes não estão sozinhos na jornada do crime. Qualquer pessoa minimamente avisada já desconfiava dessas figuras. Um homem semianalfabeto se torna um milagreiro e faz fama no mundo. Não precisa ser Sherlock Holmes para saber que tem treta por trás dessa aura de sagrado. Um padre de teologia mais que duvidosa e sem formação acadêmica na área da comunicação vira figura famosa na mídia e tudo que o envolve é de projeções megalômanas: sino de seis milhões, casa luxuosa, fazendas... Não é preciso ser James Bond, o agente 007, para sacar que tem algo errado. Uma pastora e cantora gospel sem nenhuma expressão se torna deputada e tem o marido assassinado. Não é preciso ser Ágata Christie para saber que essa trama amorosa com final criminoso tem o dedo da família. Um pastor, líder de partido que leva o nome de Cristo, está coligado com os perversos da Terra, inclusive com um governador de crueldade mais que conhecida. Não é preciso arquitetar uma missão impossível nem protagonizar o papel de Tom Cruise para desmantelar esse castelo de areia. Dá para intuir que não é cristianismo, é “cilada, cilada, cilada”, como canta o grupo de samba Molejo.


O problema é que fazemos vistas grossas; não queremos ver porque é grande demais para nossos pequenos olhos. Como desmascarar essa gente, cujas costas são protegidas por autoridades do país? Não têm eles parte com os poderosos? Não são eles seus cupinchas e aliados? Não ocupam eles os lugares de poder? A milícia tomou conta do país e nos depenou. Não vai sobrar uma só riqueza, uma só floresta, um só povo, uma só cultura. Não vão sobrar nem a fé, nem a esperança. Assaltaram-nos e levaram não só nosso dinheiro, nosso direito a uma vida digna e minimamente razoável; roubaram nosso nome, nossa esperança, nossos símbolos, nossa gramática simbólica, nossas palavras... Ficamos sem léxico para falar do Brasil e da fé, pois as palavras que tínhamos não dão conta mais da genuína experiência de patriotismo ou da verdadeira experiência cristã de Deus. Nossa esperança foi sequestrada e nossa fé abduzida. Vamos ter de reinventar a fé cristã, ou seja, retomar as origens mais antigas. A história tem nos ensinado que o modelo vigente está carcomido nas bases. O edifício é grande e poderoso, mas seus alicerces são de barro.


E enquanto líderes religiosos de matriz cristã crescem e ganham projeção escondendo perversões de todo tipo, as religiões afro-brasileiras seguem estigmatizadas como demoníacas. Numa clara atitude de supremacia branca e de rejeição ao diferente, os terreiros de candomblé e umbanda ardem em chamas. Os novos modelos familiares são entendidos como ameaça à fé e a família tradicional da Flordelis é exaltada. A menina estuprada é xingada de assassina e tem sua vida exposta, enquanto os mais de cinquenta filhos da deputada criminosa são vistos como bem-aventurados. A escola do crime já foi o tráfico ou o presídio, mas estes ficaram no chinelo quando comparados com organizações que levam o nome de Deus. Crime mesmo, daqueles de fazer corar e prender o fôlego da gente, atualmente, aprende-se nos centros religiosos do Brasil. Neles se abrigam perversões que fazem corar os mais pervertidos dos humanos. Mesmo com tudo isso, a gente segue resistindo.  “Só de sacanagem”, como escreveu Elisa Lucinda, a gente insiste em crer apesar de ser grande a vontade de abdicar desse nome profanado, o de cristãos.