235. Da cruz à suástica

“Se rasparem a minha cabeça, minha força me abandonará
e eu ficarei fraco como qualquer outro homem” (Jz 17,17)
“Mas é preciso ter força,
é preciso ter garra,
é preciso ter gana sempre”
(Milton Nascimento)
Foi notícia na mídia, dias atrás, o processo que o presidente do Brasil decidiu mover contra o cartunista Aroeira. Com a sutileza e a esperteza dos mineiros, o desenhista retratou Bolsonaro pintando uns traços na cruz, transformando-a numa suástica, famoso símbolo do nazismo.
Não é de hoje que cartunistas e outros desenhistas usam sua arte para denunciar as tramas da política. Foi assim no tempo da ditadura militar quando Henfil com seu traço desafiou o poder autoritário dos generais. Com seus desenhos, artistas conseguem retratar tão bem a situação do país que chega a ser constrangedor. De fato, a charge de Aroeira trouxe à tona o que todos já sabiam: a instrumentalização da fé para fins escusos pelo grupo dominante do nosso país. Parece que, desenhando, ficou mais fácil visualizar o que o grupo miliciano que assumiu o poder no Brasil tem feito: com alguns jargões da fé cristã e alguns versos da Bíblia manipulam as consciências mais frágeis e ingênuas ou dão livre vazão à maledicência de alguns Judas da fé, falsos pastores que matam, roubam e exploram suas ovelhas.
Ao ver a relação que a fé cristã, na sua versão pseudopentecostal,assumiu com o poder político não é possível para um biblista não se lembrar do caso de Sansão e Dalila. Conta o livro dos Juízes que, em tempos de opressão filisteia, a esposa estéril de Manué ficou grávida por obra do Senhor. Os filisteus eram povos ameaçadores, pois dominavam a arte dos metais. Tornaram-se um inimigo temido, com suas machadinhas e facões. Era preciso que viesse alguém forte e valente à altura do inimigo para colocá-lo para correr.
Desde a gestação já estava prometido que Sansão seria consagrado ao Senhor e, por isso, uma navalha jamais lhe deveria raspar a cabeça. Sua longa cabeleira seria o distintivo de sua fidelidade e, consequentemente, a força do Deus de Israel estaria com ele. Não é incomum na Sagrada Escritura esse tipo de relato no qual uma virgem ou uma estéril concebe. Realçando a impossibilidade do nascimento, reforça-se a atuação divina e a missão do recém-nascido. É o caso de Isaac, de Samuel, de João Batista, de Jesus. Trata-se de um típico relato de heróis. Nas pelejas do nascimento e da infância, já está dita a vitória futura. O mesmo aconteceu com Moisés, que escapou da impiedade do faraó, ou com Jesus, que se safou da morte por ocasião do massacre de Herodes.
Nasceu o menino e a vida confirmava sua missão na valentia do rapaz. Esquartejava um leão como se estrangula uma frágil galinha. Matou trinta homens como se esmaga um formigueiro. E sua fama ia se espalhando. Doutra feita, Sansão capturou trezentas raposas e pôs fogo em suas caudas. E, noutra ocasião, com um queixo de burro, matou três mil filisteus.E assim vai. De ferrolhos e portões que o jovem arrancava como se fosse um pé de alface tirado da terra, até a destruição de inimigos incontáveis, Sansão fazia proezas.
Mas não há forte que não se renda às seduções do amor e da paixão. Pelo menos é o que mostram os filmes e os relatos populares. Desta sina não escapam nem o grande Alexandre nem o forte Lampião. Todos os valentes guerreiros se tornam crianças carentes no colo de uma paixão. Aconteceu que o jovem Sansão se apaixonou por Dalila. Não demorou para que os filisteus tramassem um golpe. Sendo o forte guerreiro aniquilado de desejos, os filisteus ofereceram dinheiro a Dalila para descobrir os segredos da força do inimigo. E, como diz o ditado popular que “há mais força em duas tetas que em duas carretas”, seduzido pelos encantos de Dalila, Sansão caiu na arapuca.
É bem verdade que o valentão resistiu no começo, mas diante das chantagens da beldade, entregou a pérola: sua força vinha de seus cabelos.Numa noite, embalado pelo amor de Dalila, Sansão dormia gostosamente quando a mulher fez cortar as sete tranças de seu homem.
Os longos cabelos de Sansão eram sinal de um voto feito a Deus, o chamado nazirato. Os nazireus eram separados do povo por votos específicos que eram feitos ao Senhor, tais como deixar os cabelos crescerem e não comer todo tipo de alimento. Ao descrever a força de Sansão presente nos cabelos, o autor sagrado nos faz ver que a força do gigante não vem de si mesmo, mas do Deus a quem ele se consagrou.
A informação preciosa das origens hercúleas de Sansão foi parar na mão de inimigos cheios de artimanhas, que, detectando a fraqueza do valente, dominaram-no e prenderam-no num cárcere onde, escravizado, trabalhava a girar a mó de um moinho.
Passado o tempo, cresceram os cabelos de Sansão que, esquecido na prisão, recuperou sua força. Daí para a vitória foi só um passo. Num dia de festança dos malvados, quando se reuniam três mil filisteus, Sansão, com seus longos cabelos, se posicionou entre duas colunas do edifício e destruiu as colunas, matando a si mesmo e aos inimigos.
O texto é uma narrativa envolvente e cheia de detalhes. Uma verdadeira saga que decorre da entrega ingênua de Sansão à sedutora Dalila até seu trágico fim entre os escombros do edifício e os cadáveres filisteus. Detalhes novelescos à parte, a narrativa bíblica tem seus encantos e uma dose de sabedoria ímpar: não há forte que se mantenha de pé quando os inimigos são capciosos e se disfarçam de amores. Tomados de encantos, ficamos frágeis e perdemos nossa fidelidade Àquele que é nossa força.
Voltemos à charge de Aroeira. Não é de hoje que qualquer pessoa de bom senso percebe que a força da cruz foi domada pela crueldade implacável de nazifascistas. Primeiro parecia aos desavisados um amor com promessas de futuro, daqueles arrebatadores que terminam um dia em violência à mulher e feminicídio. Como cantam os sertanejos, “entre tapas e beijos, é ódio,é desejo, é sonho, é ternura”. Ainda assim prosseguem na relação perigosa sob a égide da tragédia anunciada. Alguns advertem, insistem, aconselham, denunciam, metem a colher na briga de marido e mulher, mas daí a pouco estão eles de novo em lua de mel que não demora em se transformar num mar de sangue.
No começo, encantados com promessa de um país cristão, não faltaram líderes que se entregassem à sedutora Dalila. Não perceberam que nas palavras doces que prometia concessões de rádios e TVs residia o perigo. Era difícil resistir ao encantado mundo da primazia da fé cristã sobre as demais. Trata-se de um conto de princesas que já se mostrara bem mais parecido com um conto de vampiros, como acontecera em tempos de cristandade.
Assim, milicianos capturaram nossos símbolos cristãos, nossa Escritura, nossos valores e nossas esperanças. Abduziram milhões de pessoas desavisadas e acorrentaram-nas nas amarras de fake news. Descobriram as fragilidades de nossa fé cristã, advinda de uma clareza teológica quase nula. Abusaram da crença em um Deus intervencionista, fizeram discursos de defesa da vida concentrada na rejeição ao aborto, arrancaram versículos bíblicos de seu contexto e defenderam o armamento da população, a negação dos direitos humanos, o fim do comunismo, posto como o verdadeiro e único inimigo da fé. Espalharam notícias falsas, tacharam de comunistas os verdadeiros profetas e demonizaram o sonho da fraternidade por medo do comunismo.
Lá se foi nosso cabelo cortado com máquina zero e cá estamos nós há algum tempo rendidos ao fracasso, cegos e decadentes como o velho Sansão. Aroeira tem razão. Nossa cruz se tornou suástica: instrumento de libertação e vida para todos,a fé cristã virou arma de destruição e aniquilamento dos pequenos.
Mas nem tudo está perdido para quem crê na força do Deus de Jesus Cristo. Quando menos se esperar, a fé haverá de mostrar sua força. Esquecidos nos porões da humanidade, ressurgiremos como Sansão sacudindo as paredes desse reino de barro. Não ficará torrão sobre torrão, pois o Senhor é nossa força e salvação. Nem que seja sob o preço do martírio, haveremos de derrubar esses malfeitores e por às claras as palavras sedutoras das Dalilas da fé.
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