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226. Leite condensado

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23.11.2021 | 1 minutos de leitura
Frei Antônio Fabiano
Poesia
226. Leite condensado
um rio de leite condensado escorre.
não é doce esta notícia.
são milhares de afogados.
quero cortar os pulsos
mas não há lâmina possível!
escrever é inócuo, inútil, inútil,
i ne vi tá vel...
dói e a culpa de escrever
em cima de não sei quantos mil cadáveres
dói mais, dói outra vez, dói de novo, dói muito, dói
para sempre...
não é retórica. não é.
destroços de um país não é retórica,
não é sequer poesia!
se eu fingir que nada aconteceu
os mortos voltam?
odeio a letra, rasgue o poema!
se for adiante, vai chafurdar em lama,
vai se afogar em merda!
não consigo respirar, não consigo respirar,
não consigo respirar...
asfixiado
sou a sombra de um morto; adiado,
deambulo, perambulo...
trôpego caio. bêbado caio. desequilibrista caio.
não há respiradores aqui,
não há insumos aqui,
não há hospitais aqui,
não há onde caibam tantos doentes...
um curativo gigante não cobre minha ferida!
de morte a não caber estão cheios
os cemitérios, necrotérios, frigoríficos
tudo a empilhar corpos.
em surdo silêncio
rompemos
a barreira do som...
meus tímpanos estouraram!
durmo e acordo e em meu pesadelo
desfilam generais de mil estrelas.
ó pátria amada!
puta que pariu!
há sangue sem cor, suor e dor,
cheiro de urina e fezes por toda parte...
há ódio em mãos que me afagam,
as bocas que me beijam têm serpentes
no lugar de dentes.
há flores murchas e,
em mil pedaços de cores, afetos cortados, laços
partidos.
como uma ideia fixa
eu não consigo respirar...
eu não consigo respirar...
eu não consigo respirar...
a carne preta e viada é arrastada pelas ruas,
espancada, vilipendiada,
vendida a preço de banana,
vendida a preço de cachaça,
deixada em becos, praças, calçadas...
(mas não se pode dizer que houve chacina na favela).
come-se leitão à pururuca
em palácios e quarteis.
estou pelo avesso...
vomitei. vomitei.
eu avisei