14. A re-significação da solidão e do sofrimento

“Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?” (Mt 27,46)
Um grito de lamento e dor ecoa na cruz. O peso da solidão humana se faz sentir no abandono da morte, e Jesus grita. É o grito de todo ser humano, de um existente que é um ser abandonado na sua solidão. Nasce sozinho, vive seu drama existencial sozinho – ainda que seja pleno de amores e relações profundas! – e sofre e morre sozinho, sem chances de dividir aquilo que é só seu.
Para entender o abandono, o sofrimento e a morte de Jesus, é preciso olhar sua vida. Todo sofrimento que Jesus enfrentou durante sua vida, até aquele que culmina em sua morte, precisa ser entendido na lógica de sua missão, marcada pela doação e pela fidelidade. Assim, sua cruz é para os cristãos um incentivo à fidelidade e não um elogio ao sofrimento.
Por muitas vezes, os cristãos entenderam mal o sofrimento de Jesus, como se ele tivesse valor por si mesmo, independente do restante da sua obra. Mas não! Uma coisa completa a outra. Ao desempenhar sua missão, Jesus conquistou a simpatia do povo, mas ganhou também a aversão das autoridades da época que passaram a persegui-lo, decretando sua morte. Se quisesse evitar a morte, Jesus precisaria encerrar sua missão, calando-se para sempre. Se quisesse completar sua missão, precisaria ser corajoso e enfrentar seus perseguidores. Foi o que fez. Escolheu o caminho da lógica da sua missão e da sua vida.
Mas Jesus não caminha para a morte por simples resignação. Não cruzou os braços diante das perseguições. Ao contrário, relutou e contestou o sofrimento. Fugiu da morte quanto pode, evitando arriscar-se em público.
Não caminha para a morte por achar que o sofrimento é salvífico ou por amor ao sofrimento. Sua entrega não é dolorismo. Enfrentou a dificuldade que se apresentou em seu caminho de forma incontornável só para não se afastar de sua missão.
Ele sofre, mas de cabeça erguida. Não enfrenta a morte como um fracassado, porque sabe que sua morte não é fracasso, apesar do fracasso aparente que ela transmite. Fracasso seria não ter coragem de ir até o fim de sua missão, cedendo às pressões.
Jesus também não aceita a morte como uma simples fatalidade, coisa do destino ou algo semelhante. Sabe que não há nenhuma força mágica nem mesmo divina que o force a sofrer. Escolhe seu caminho. Poderia evitá-lo se não se importasse com a coerência de sua vida. Sabe que toda sua paixão é consequência do caminho escolhido.
Enfim, Jesus sabe que vai sofrer. Mas não pensa que tudo será motivado por uma espécie de capricho de Deus. A vontade de Jesus é que ele seja fiel à sua missão. Deus não quer a morte de seu Filho, nem seu sangue para apagar sua cólera divina, até porque Deus é amor (1Jo 4,16).
Então, se o sofrimento e a morte de Jesus não podem ser ditos como nenhuma das possibilidades acima, como compreendê-los? O que eles sinalizam? A paixão de Jesus e sua morte são sinais de vitória. Apesar de perseguido, ele leva sua missão até o fim. É a vitória da coragem sobre o medo de se doar. É sinal da fidelidade máxima de Jesus, comprovada com o máximo sofrimento e a máxima doação. É sinal do máximo amor daquele que não reserva nada para si, mas se entrega totalmente para bem do outro.
Então, Jesus se entrega e morre! Morre sozinho, abandonado, sem amigos, sem parentes, sem ninguém, ainda que estivesse cercado por muitos. Morre sem auxílio humano e sem auxílio divino. Até o Pai parece tê-lo abandonado. Está só. É um ser só, porque é humano. Assumiu a condição humana em sua máxima radicalidade, até na solidão. E o Pai não pode sofrer nem morrer por ele. É a ele que cabe esta passagem, porque ninguém pode tomar do outro a solidão que lhe é própria. Por isso ele grita! E, no seu grito, a humanidade inteira geme e chora, sentindo o peso da solidão que a encabula.
E, de fato, a solidão já encabulou e continua encabulando muita gente. Ela já foi tema da reflexão dos filósofos e motivo de inspiração dos músicos. Foi transformada em versos pelos poetas e trazida para os altares da fé, nos sermões inflamados da Semana Santa. Foi motivo de separação para uns casais e motivo de união para outros. Mas nunca foi vencida, aniquilada, destruída. É uma constante na vida humana, uma marca da existência. Ecoa nos versos do Poeta português o drama da solidão:
Durmo, desperto e sozinho
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho
–
Um movimento sem lida...
Durmo, desperto e sozinho.
(Fernando Pessoa)
Mas é na cruz do Nazareno que a solidão tem sua expressão máxima e toma re-significação. É lá, no monte Calvário, que o Abandonado assume o abandono de todos e faz ecoar em cada coração a certeza da ressurreição: ”Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). O ser humano continua sendo solitário, mas sua solidão não é mais vazia, inócua, inútil. Sua solidão, sua vida sofrida, dá-se na presença daquele que venceu a morte e vive no meio de nós.
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