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122. Querido JK

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14.06.2022 | 4 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Diversos
122. Querido JK
 Querido JK
Nesse ano de 2021, tão sombrio por causa do isolamento social imposto pela pandemia e pelo desgoverno do país, fico refletindo sobre o enigma da amizade. Aproximam-se seus 80 anos e, no auge de meus 57, olho para trás e vejo que 19 anos têm a marca de sua amizade e de sua sabedoria. Sou grata a Deus por isso e reconheço que a amizade entre uma aluna e um professor surpreende os expertos em humanidades e contraria as previsões das cartomantes e dos videntes mais críveis. 
Era bem improvável que ficássemos amigos. Primeiro porque nascemos em países imensamente distantes e, segundo, porque estudar na FAJE não estava no meu Plano A. Mas, porque a vida roda feito moinho e pião, como canta Chio Buarque, depois de muitas reviradas do destino, aprouve a Deus fazer a gente se encontrar em BH. E, nesse encontro, um esbarrão na esquina da Teologia nos aproximou. Qual semente no deserto depois da chuva, veio a surpresa: uma amizade inesperada brotou. 
O senhor, homem, padre, de idade avançada, belga, com sobrenome imponente e difícil de pronunciar, experiência internacional, falante de várias línguas, conhecedor dos clássicos e biblista de primeira linha. Eu, mulher, leiga, uma jeca de Minas, com sobrenome de jardim, sem nunca ter tirado o pé do Brasil, com reduzidos dotes na área de línguas estrangeiras, leitora voraz de gibi e de poesia, estudante de teologia e amante da Escritura. 
Mas a amizade veio e firmou os pés no terreno do coração. Fez como os ipês em pleno agosto, pré-anunciando a primavera de uma relação que seria duradoura e se tornaria guia para minha jornada pessoal. A desigualdade das partes, em vez de comprometer os laços, serviu para reforçar a ternura e incentivar o respeito. E, mesmo que parecesse estranho a alguns, seguimos amigos. 
Certa vez, não sei se lembra disso, o senhor me falou que a amizade é como uma onda de rádio. Quando as pessoas se encontram, se conhecem e se reconhecem como sujeitos, logo sentem se a onda de um vai se harmonizar com a onda do outro no ajuste fino da amizade. Adorei a metáfora e eu a tenho conservado comigo. Acho- a acertada e entendo que, de fato, a amizade é pura graça. Eu mesma não entendo como nossas ondas se ajustaram sem maiores esforços, na maior gratuidade, como tudo que é bom e belo na vida. 
Nosso primeiro encontro foi nos corredores da FAJE. Não fora fácil entrar na instituição. No primeiro contato, meu entrevistador me desanimou de prosseguir com o projeto de fazer teologia. Disse que a FAJE exigia muitas horas de estudo, que eu era aluna sem recursos financeiros e com necessidade de trabalhar para me manter. Além disso, a FAJE era para religiosos, casos raros para leigos já aposentados, com a vida feita, que lá não era para gente como eu etc. e tal. Obstinada a entrar para a Teologia, quando o professor abriu a porta para me dizer não, aproveitei o descuido e forcei a entrada. Meti o pé na porta e entrei. Quando dei por mim, já estava lá no meio dos jesuítas, mais perdida que cego em tiroteio. 
Na FAJE, as dificuldades para me manter foram inúmeras, e só perseverei graças a seu incentivo. O senhor deve se lembrar de que, em pleno sabático em viagem para a Bélgica, recebeu um e-mail do pe. Nilo, dizendo das dificuldades que eu enfrentava para pagar meu último semestre de Teologia. Por pouco, eu não interrompi minha graduação, mas o senhor interveio e conseguimos achar um caminho plausível para encerrar o curso. 
No mestrado, não foi diferente. Depois de 16 anos de serviço voluntário na igreja, não tinha como pagar uma pós-graduação em uma faculdade particular. Foi então que o senhor se mostrou ainda mais solícito, sempre pronto a me ajudar. Sem bolsa suficiente para me manter, era preciso trabalhar e estudar ao mesmo tempo. E foi o senhor quem me abriu as portas da revisão de textos e da tradução de livros, dando-me condições de prosseguir com meus estudos. 
Chegando ao doutorado, a peleja não ficou mais fácil. Ao contrário, a vida ficava cada dia mais exigente com os cuidados com minha mana, cujo problema de saúde o senhor conhece tão bem. Era preciso conseguir uma bolsa melhor ou não seria possível prosseguir. Sempre atento, falou-me de uma instituição estrangeira que ajudava alunos de nível superior. Foi assim que, com o apoio do padre Ulpiano, conseguimos a bolsa do PROLIC, que garantiu minha permanência na FAJE por mais 4 anos no doutorado. Ao todo foram 10 anos na Faculdade de Filosofia e Teologia dos Jesuítas, de forma que sou filha da FAJE e herdeira de seu legado. 
Pequenos detalhes não me escapam à memória. Quando eu comecei a revisar textos para a editora Loyola por sua indicação, o senhor me perguntou que dicionário e gramática eu usava. Respondi que nenhum, pois não os tinha em casa. Anotava as dúvidas para depois discuti-las com algum amigo ou professor ou para pesquisar na biblioteca em ocasião oportuna. Saí nesse dia da casa dos professores da FAJE com um dicionário Houaiss e com a gramática do Napoleão. 
Depois, no mestrado, quando eu dava aulas em Mariana, me perguntou se eu levava meu notebook para lá para aproveitar as tardes escrevendo. Eu disse que não, pois não tinha notebook. Eu aproveitava o tempo para estudar, fazer fichamentos, para depois ajuntar tudo isso num trabalho exaustivo que consumia todo o fim de semana. Não demorou muito e o senhor me ligou dizendo que soubera de uma verba para ajudar alunos de pós-graduação a comprar material. Foi aí que comprei meu primeiro notebook. 
Outra vez – lembra-se? – fora à minha casa no bairro Fernão Dias e vira que eu não tinha uma cadeira boa para passar tantas horas em frente ao computador. A cadeira era baixa para a altura da mesa. Sem rodeios, o senhor pegou o dicionário do Houaiss com o qual me presenteou e o colocou sobre ela. Me pediu uma almofada e improvisamos um assento. Trabalhei assim com o bumbum no dicionário por um ano inteiro, até o dia em que, tendo passado para o doutorado, o senhor me intimou a comprar uma cadeira digna de uma pesquisadora. Dada a ordem, obedeci e o dicionário voltou ao seu uso original. 
Nesses anos de convivência iniciada na sala de aula e extrapolada para a cozinha de nossas casas, sua presença tem sido um diferencial. 
Alegro-me quando escuto sua voz do outro lado da linha falando com sotaque inconfundível um português impecável. Ou quando podemos nos encontrar para simplesmente conviver, comer juntos, beber um vinho. Ou para trabalhar, pensar teologia, escrever, discutir caminhos... Ou ainda somente para chorar as mágoas e ver renascer as forças que já estavam no finzinho. Na jornada de resistência que essa vida louca impõe, compartilhar esperanças é a forma mais certeira de continuar vivo e são. Quantas vezes já sem forças fomos revigorados pelo dom da fraternidade! 
Uma das fontes de nossa amizade foi sem dúvida a paixão pela Escritura Sagrada. Dois amantes de Bíblia não esgotam nunca o assunto. Tem sempre uma intriga bíblica, uma estranheza do texto, que precisa ser iluminada por uma boa conversa. Além disso, a ocasião de estar com um conhecedor das línguas originais da Escritura não pode ser desperdiçada. Então, tanto quanto me foi dada a oportunidade, fiz o que os Evangelhos ensinam. Aproveitei a intimidade da Tribo para perguntar em particular o que no meio da multidão não ficara tão claro. Assim, nos bastidores da FAJE, a aula continuava em torno da mesa da amizade, na minha casa ou na casa da Silvinha. O bom discípulo está sempre com o mestre, como os “com-Jesus” dos Evangelhos. Esse privilégio de aprender sempre mais com o senhor não tem preço. Muito obrigada! 
O discipulado, porém, não ficou restrito ao âmbito acadêmico e teológico. Um bom discipulado diz respeito mais à vida que à escola. Sou grata também porque tem me ensinado muito além de conhecimentos bíblicos. Tem sido desde muito o mestre da vida. E “como uma escrava com os olhos fitos nas mãos de sua senhora” (Sl 123,2), tenho me esforçado para não perder seus movimentos, para não deixar escapar sua presença e para ter ouvidos atentos para suas palavras. Procuro não desperdiçar nem um minuto de sua companhia. Obrigada porque jamais me privou de sua sabedoria. Deixou e deixa que eu beba dessa fonte que oferece generosamente a todos que a desejam. 
Por fim, JK, quero agradecer por não me julgar, não me reprimir, não me constranger com regras pesadas, por respeitar meus tempos, meus dramas, minhas quebraduras mais profundas. Esses 20 anos em BH ficaram mais leves graças à sua presença e foram também mais divertidos por causa de seu humor refinado. Fez toda diferença ter o senhor por perto. Por ter me estendido a mão até aqui, obrigada! 
Um abraço carinhoso, 
A discípula, Sol

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