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123. Que saudade do senhor!

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20.06.2022 | 4 minutos de leitura
Frei João F. Júnior - OFMCap
Diversos
123. Que saudade do senhor!
Belo Horizonte, 04 de setembro de 2021 

Querido padre Konings,
 
Que saudade do senhor! 
Ainda trago na memória o cheiro daqueles inícios de tarde, quentes como este início de primavera, em que me sentava debaixo dos flamboyants para esperar o início das aulas. Vinha de outra faculdade e não deixava de me sentir um pouco estrangeiro – por olhar de alguns e por próprio deslocamento. O senhor mal me conhecia, a não ser pela indicação insistente de uma amiga querida e a memória remota de Prudente Nery, meu irmão ilustre. E, ainda assim, antes mesmo que eu cumprisse os trâmites formais da admissão, o senhor já tinha me acolhido entre seus discípulos. Lembro-me dos gracejos inevitáveis, nas intermináveis apresentações dos pós-graduandos, a cada início de semestre: “Meu nome é João, pesquiso o Evangelho de João, sob orientação do Prof. João Konings”. E os risos encobriam, em parte, meu constrangimento e o estranho sentimento de me sentir um estranho. Foi entre um café amargo e outro ainda mais deliciosamente amargo, entre uma e outra reunião naquele quarto cercado de graves e volumosos livros, que aos poucos o senhor me ajudou a encontrar lugar – no curso e na vida. 
Afinal, era sempre isso que sobrava, no fim de tudo: a vida. Certamente era por isso que o rigor da pesquisa dividia tempo com as taças de vinho da Tribo. “É o que temos”, nos ensinou a dizer outra amiga querida. E eu, “tão jeca” – como me definira para aquela nossa amiga, no primeiro convite para comparecer a tão nobre agremiação 
– compreendi que a Tribo era exatamente o lugar de assumir nossa “jequice” (de Caratinga, de Teixeiras, de Carangola, da Bélgica ou daqui mesmo...) e a partir dela descortinar vida, sempre e apesar de tudo. Saudade também disso, neste tempo tão estranho em que até os brindes se dão à distância. 
Mas, de todos os dias que me marcaram em nossos encontros, um deles trago como “espinho na carne”, cujo benéfico incômodo até hoje me mantém de pé, cada vez que penso em entregar os pontos. Um dia cujo significado o senhor certamente não conhece inteiramente. 
Era dezembro de 2016 – o final do terceiro semestre do mestrado, quando já vesperava o início da terrível contagem regressiva para a defesa da dissertação, seguramente no final do semestre seguinte. Era já aquele dezembro. Muito antes, tínhamos firmado o calendário dos trabalhos e eu assumira os compromissos próprios de um discente esforçado, apesar das lacunas imensas que trazia. Tropeçava no grego durante suas aulas, patinava na hermenêutica, dividia o tempo entre mil coisas, algumas exigidas e outras inventadas. E, num piscar de olhos, naquele ano tão difícil, era já aquele dezembro. E, num despertar da lucidez que me faltava, o senhor me chamou para um encontro da orientação. Inesperadamente. 
Cheguei no início da tarde, como sempre. Naquele dia, subi trêmulo as escadas e me sentei no lugar de sempre, entre os livros. O suor escorria gélido dentro da camisa. E o senhor me perguntou onde estava o texto da dissertação, sobre o qual trabalharíamos naquela tarde. Até hoje não sei se o senhor realmente esperava o texto ou se, àquela altura, já tinha compreendido o que estava acontecendo. Eu engoli seco e comecei a explicar que não tinha nada, uma linha sequer, para lhe apresentar. Havia o esquema, no exato ponto em que o havíamos deixado, há quase um ano, e só. Não me lembro bem o tipo de explicação que tentei dar. Devo ter recorrido aos muitos trabalhos que tive e aos expedientes exaustivos de cúria. É possível que tenha culpado provincial, formador e não sei mais quem, dito do quanto minha fraternidade não compreendia a exigência da pesquisa e não respeitava minha dedicação acadêmica. Enfim, me lembro apenas vagamente. Porque, no fundo, as verdadeiras explicações eu não poderia dar: não saberia explicar o quanto minha vida tinha desabado naquele ano; não teria palavras para descrever como o chão de meus passos tinha se aberto e engolido grande parte do meu caminho; não poderia lhe narrar a desventura de minhas verdades, às quais eu, ingênuo, tinha penhorado meu futuro – e perdido. Não, não seria possível falar da vertigem de estar diante do abismo, sem saber como recuar, quase me convencendo de que o fundo seria o único lugar onde colocar fim àquela tempestade. Estava em frangalhos, perdido, como uma criança entregue de novo aos velhos desamparos que já haviam consumido tantas noites de sono. 
Enquanto eu tentava explicar, dando nós no vento, o senhor apenas me olhava. E do brilho agudo desses olhos azuis, naquele momento como uma navalha, eu nunca mais me esqueci. Quando, finalmente, me rendi ao seu silêncio, o senhor me olhou ainda mais uma vez. Suspirou e disse: “Joãozinho, parece que não é só lá em Brasília que anda faltando seriedade”. E virou-se para o computador. E só isso. Desesperei-me, literalmente, por não saber o que esperar. A busca levou vários minutos, em completo silêncio. Os livros, muitos e graves, me olhavam em silenciosa repreensão. Senti-me de novo estranho e estrangeiro, como um usurpador de um lugar que não devia nunca ter me atrevido a ocupar. Um impostor, era isso que eu me sentia! Já imaginava que o senhor buscasse um “termo de demissão do orientando” ou coisa parecida, mas não perguntei. Engoli o silêncio, gole a gole, à espera. E, depois de muita procura, o senhor disse apenas: “Não encontro seu projeto”. É claro que eu o tinha e, no instante seguinte, estava sobre a mesa. O senhor o abriu, com a paciência de quem o fizesse pela primeira vez, e me perguntou, apontando para um dos capítulos: que tal começarmos por aqui? 
Eu não podia acreditar. Enxuguei o começo das lágrimas e me esforcei, com a sinceridade que há muito eu desconhecia, para compreender e me comprometer com a nova proposta. Prometi lhe enviar um capítulo ainda naquele dezembro e outro em fevereiro, deixando os meses seguintes para o terceiro, o quarto e as revisões. Fomos à biblioteca, o senhor me deu os livros e as chaves para abri-los rápido. Na porta, ainda lhe perguntei, como que para ter certeza de ter compreendido certo: “O senhor acha que ainda dá tempo?”. “Tem que dar tempo” – foi a resposta. E nos separamos. No carro, quando acomodei os livros comportadamente no banco de trás, chorei um choro diferente daquele que vinha chorando nas últimas semanas. Pois me dava conta de que naquele momento, quando nem eu mais acreditava (Na pesquisa? Na capacidade? Na vida? Em mim?), o senhor acreditou. E, mesmo que fosse apenas por isso, eu também precisava acreditar. 
Naquele dia, eu toquei o fundo do poço. Mas foi o meu “Galicanto”, que me acordou daquela noite fria e apontou o caminho de volta. O texto que resultou desse itinerário, é verdade, reflete todas as quebraduras de sua construção apressada. Mas a reversão daquele processo de dilaceramento e de implosão de mim mesmo, esse sim foi o mais precioso e o mais durável. No fim, mais uma vez, o que sobrou foi a vida. 
Obrigado, Pe. Konings, por não me deixar pelo caminho, por não “perder a nenhum desses que lhe foram entregues”. Aquele 08 de agosto, há 4 anos, não foi só a defesa da dissertação, mas a celebração de uma longa travessia que alcançou margem ao seu lado, onde ganhou forças para prosseguir a outras tantas que viriam. 
Sempre digo, quando me refiro àquele meu irmão ilustre, ao senhor ou a essa nossa amiga querida, que os mestres não são aqueles que nos ensinam “conteúdos”, apenas. São de fato mestres aqueles que nos ensinam “olhares”. A esses não é possível deixar de amar, pois sempre os traremos dentro de nossos olhos. Obrigado por isso. 
Abraço saudoso, 
Joãozinho. 

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