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120. Laudatio in honorem Johan Konings

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31.05.2022 | 4 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Diversos
120. Laudatio in honorem Johan Konings
Falar sobre o professor e padre Johan Konings por ocasião de seus 80 anos é uma honra. Agradeço, assim, em primeiro lugar ao corpo diretor da Faje que me concedeu essa oportunidade que me alegrou profundamente.
Conhecendo-o um pouco, sei que é avesso a todo tipo de louvação ainda que seja em relação ao seu trabalho acadêmico, cuja fama ultrapassa os limites latino-americanos. Para não contrariá-lo com um rosário de elogios, vou mostrar o avesso do que já é conhecido, sua sabedoria e sua excelência no campo do ensino e da pesquisa da teologia. 
Como professor de Novo Testamento e estudioso dos Escritos Joaninos, pe Johan Konings está bem familiarizado com o Jesus às avessas do Evangelho de João, a Palavra divina que se faz carne. Enquanto os Evangelhos Sinópticos optam por mostrar a transfiguração do Nazareno no monte, com vestes tão resplandecentes que nenhuma lavadeira poderia fazer igual, o Evangelho de João escolhe mostrar o Filho de Deus na carne, tirando o manto da glória e usando um avental no ato de lavar os pés dos seus amigos. Trata-se de uma transfiguração às avessas, ou seja, o avesso da glorificação. Se, com esse relato, os Sinópticos antecipam a glória do Filho de Deus antes de sua ressurreição, João faz diferente: abre o livro da glória com a cena mais inusitada de toda a Escritura Cristã. Em vez de mostrar a glória ao modo do mundo, João mostra a glória ao modo do Pai: uma glória que não é aparência fugaz, mas é a substância das coisas, ou seja, é serviço e dedicação amorosa aos seus amigos.
Essa imagem joanina diz muito sobre o professor Johan Konings, cuja vida dedicada ao trabalho da docência em teologia se constitui uma verdadeira lavação de pés. Em vez de descanso e conforto, JK, como costumamos chamá-lo, preferiu as madrugadas insones para a produção de grandes obras, que, sem abnegação, renúncia e obstinada determinação, jamais teriam vindo à luz. Quantas vezes recebi e-mails seus que eram registrados antes do clarear do dia! Quem empreenderia a supervisão e o acompanhamento da tradução da bíblia da CNBB com tanto afinco e por tantos anos se não estivesse disposto a renunciar a horas e horas de sono e de descanso? Quem se aventuraria à tradução do Denzinger – essa obra hercúlea – se não tivesse convencido de que este instrumento de trabalho nas mãos dos teólogos era preferível a muitas horas de descanso? Quem se daria ao trabalho de fazer uma sinopse dos Evangelhos e da Fonte Q se não estivesse disposto a abrir mão do lazer, do entretenimento e do bem estar próprio? Essas obras não são fruto de uma tarde de trabalho, nem de um ano de pesquisa, mas de uma vida dedicada ao estudo da Sagrada Escritura. São o sinal de um amor apaixonado pelo texto sagrado, característica que sempre marcou a vida acadêmica de JK. A FAJE e a teologia do Brasil só tem a agradecer.
Mas, como se não bastassem essas obras gigantes, com o mesmo amor e a mesma paixão, JK empreendeu a tarefa de escrever o delicioso “Ser Cristão” ou a “A bíblia nas suas origens e hoje”, que são instrumentos teológico-pastorais de grande relevância para a formação dos leigos. Não seria possível aqui elencar tudo que ele escreveu, todo trabalho que empreendeu, mas, de todo seu legado, sou particularmente encantada com sua obra “Evangelho de João: amor e fidelidade”. Como discípula sua, ministrando a disciplina Escritos Joaninos no Instituto Santo Tomás de Aquino, fui apelidada pelos alunos de Konings de saias. Eu não tenho a pretensão de ser merecedora do pseudônimo, mas ele mostra como bebi nessa fonte e como fui marcada pelo pensamento bíblico-teológico de meu professor de Evangelho de João. E, assim como eu, dezenas e centenas e talvez milhares bebemos dessa fonte e saciamos nossa sede de conhecer a Escritura por intermédio dele, para ver essa sede atiçada de novo e retraduzida no desejo conhecer ainda mais.
Mas, se é para falar do avesso, devo lembrar o Jk das mesas, das ceias, aquele que não costuma recusar um convite para comer e beber, como Jesus, o Nazareno. Em torno da mesa, seu avesso se torna mais visível. Quem não sabe de seu histórico de biblista, tradutor, escritor e professor jamais diria que ele é o Johan Konings que assina todos essas obras gigantes. Ao se pôr à mesa com os amigos, a gente só desconfia de que ele não é um mortal qualquer quando, na sua simplicidade, abre a boca para dizer algo. Mais ou menos como Jesus, ele nos leva a perguntar: “De onde vem essa sabedoria toda? Não é ele um boêmio de boinas, bebedor de vinho e comedor de massas? Não comemos e bebemos com ele em torno das mesas mais simples? Não é ele nosso companheiro de viagens e de pequenas aventuras por essa Minas Gerais”. Seu português impecável e seu conhecimento da literatura e da cultura brasileira, especialmente da cultura mineira, quase nos fazem crer que ele é um de nós, que nasceu em nossa terra e andou pelos grandes sertões e veredas de Minas. Por alguns instantes, a gente esquece que ele teve de cruzar o mar para chegar aqui, para se fazer mineiro conosco. Todos que têm a alegria de ultrapassar a circunscrição da academia e puderam se tornar um “com-JK”, ou um “tribalista” como costumamos falar, sabe da preciosidade desses encontros. 
Certamente, esse avesso da glória acadêmica é ainda mais visível para seus irmãos jesuítas, que desfrutam diariamente de sua companhia. Aliás, até na Companhia de Jesus, sua trajetória foi ao avesso. Primeiro foi professor do Colégio Jesuíta em Porto Alegre, e só depois enveredou-se pelos caminhos da Companhia de Santo Inácio. Já homem feito, com carreira acadêmica sólida, vestiu o avental dos formandos e começou tudo de novo. E, na contramão do processo esperado, se fez jesuíta, tão jesuíta que não parece um jesuíta. Um pouco como o bispo de Buenos Aires, Jorge Bergolio, que tão jesuíta se intitulou Francisco e se tornou o mais franciscano dos seguidores do Pobrezinho de Assis. A vida de Jk é feita de avessos. E talvez a beleza de sua vida seja bem esta: na simplicidade de seus dias tão normais, mostra-se com clareza sua genialidade.
À sua família, agradecemos por nos dar esse belga tão genial. Talvez a família de JK não tenha a dimensão do quanto a sua presença, entre nós, se faz e se fez no amor fraterno.
Aos jesuítas, agradecemos por terem nos oferecido um professor dessa envergadura, por terem sido dadas a ele as condições de se dedicar à pesquisa e ao ensino, especialmente na nossa querida FAJE.
Aos irmãos e às irmãs na e da vida, aos de sangue ou de vida religiosa, agradecemos por o acolherem, por o hospedarem em seus corações. Parafraseando o apóstolo Paulo, “mesmo sem o saber, hospedamos um anjo”, não de candura e pureza como os anjinhos barrocos de Ouro Preto, porque Jk sabe ser bravo e empreender querelas quando a causa o toca, mas um anjo bom e sábio, que transforma em leveza e sabedoria tudo que ele toca.  
Querido padre Konigs, querido professor! Desejamos-lhe muita saúde e muitas alegrias. Receba, para sempre, nosso abraço, nosso respeito e nossa admiração.
Bendita seja a sua vida!

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