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119. Tributo de gratidão

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23.05.2022 | 5 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Diversos
119. Tributo de gratidão
“Não há maior amor do que dar a vida por seus amigos” (Jo 15,13)

Era uma manhã de fevereiro quando, ao pé da escada que levada ao andar de cima, ele parou junto de nós, disfarçado de homem comum, como Jesus junto aos discípulos de Emaús.
Perguntara simplesmente: “Tu, quem és? De onde vens?”. Éramos três mulheres leigas cursando teologia na FAJE – Faculdade de Filosofia e Teologia dos Jesuítas – em meio a muitos homens, todos religiosos ou seminaristas. O português corretíssimo na segunda pessoa e o sotaque de estrangeiro me impressionaram.
Já fazia um ano que transitávamos pelos corredores cursando disciplinas da Filosofia, como propedêutico para a Teologia. Entrávamos e saíamos às pressas de uma sala a outra, bastante desbussoladas como um barco à deriva. Ninguém nos notara, a não ser alguns poucos colegas com quem travamos tênues relações de companheiros de estudos.
Foi quando ele chegou. Ao nome que pronunciamos como resposta à sua indagação, ele sorriu com lábios encobertos por barba espessa e olhos azuis da cor do mar. Parecia um papai Noel saído do mundo encantado das crianças, apesar de lhe faltarem as roupas típicas do bom velhinho.
Não sei se minhas colegas de curso sabiam quem nos dirigia a palavra. Eu, apesar dos 40, nem imaginava quem era. Entrei na FAJE para cursar Teologia depois de 16 anos dedicados à vida pastoral e missionária nas paróquias por onde andei, como Caetano Veloso em Sampa, sem lenço e sem documento. Vim parar na Faculdade dos Jesuítas motivada por um presbítero com quem trabalhava há 11 anos. Como uma menina interiorana e ingênua, subi os degraus do sonho: fazer teologia. Não tinha a menor noção de onde eu estava; carregava comigo apenas o desejo de conhecer melhor a fé para dar suas razões e melhor servir a igreja de Deus. Foi aos poucos que os nomes João Batista Libanio, Francisco Taborda, Carlos Palácio, Johan Konings e tantos outros fizeram sentido para mim.
Passado o intensivão das disciplinas Introdução à Bíblia (com Claudio Paul) e Introdução à teologia (com João Batista Libanio), começamos em março o curso regular e lá estava ele na sala de aula ensinando Redação e produção de texto teológico. Guardara nossos nomes e, vez ou outra, quando estes o escapavam, sabia perfeitamente dizer de onde viéramos. Foi amor à primeira vista, consolidado ao longo dos anos como uma amizade sincera e duradoura. Era inimaginável ver um belga ensinado português com tanta paixão pela língua e com tal segurança nesse ofício em que milhões de brasileiros tropeçam e assassinam a gramática.
Logo de começo, ele ficou atento aos meus escritos. Estimulava-me: “Escreves bem. Deves prosseguir escrevendo!”. E assim, de texto em texto, de aula em aula, fomos criando laços que extrapolam as margens da relação professor-aluno.
Como eu fazia Teologia de manhã na FAJE e Filosofia à noite na PUC (para completar o curso já iniciado como exigência para a Teologia), tive a sorte de ser aluna da querida professora Silvia Contaldo, cuja competência e bondade me cativaram nos primeiros dias de aula. Ao saber que eu estudava na FAJE e era aluna do Konings, na primeira oportunidade comentou com ele sobre a aluna em comum. Como Jesus, sempre pronto para um jantar e um bom vinho, ele foi logo dizendo: “Precisamos selar essa coincidência com um bom vinho”. Marcamos o encontro na casa da Silvia e, desde então, nasceu a tribo, um espaço para ser, e também não-ser, sem preocupação com juízos. 
A princípio éramos só nós três, um vinho e uma massa. Depois de anos, o grupo foi se alargando, como quem ama e não consegue guardar o amor só para si. Acolhemos outros no calor dessa amizade e, para mim, a tribo se tornou um farol em meio à escuridão da cidade grande, nem sempre hospitaleira com os peregrinos.
Já no último ano da Teologia, eu não sabia muito bem o que viria depois. Amigos me incentivavam a enfrentar o mestrado, mas o limite financeiro não permitia sonhar. Era preciso rezar e discernir os caminhos. Numa manhã, quando eu saía da capela da faculdade, nós nos esbarramos numa esquina rumo às salas de aula. Perguntou-me: “De onde vens?”. “Da capela”, disse eu. “Estava rezando pra saber o que fazer da minha vida quando terminar o curso de Teologia”. Como um pai que acolhe as dúvidas do filho mesmo grande, segurou minhas mãos entre as suas, e disse: “Se não fizeres o mestrado, será um pecado”. Eu, sempre piedosa e não queria pecar, decidi naquele momento: “Farei o mestrado”. 
E assim foi. Nossa paixão pela Sagrada Escritura reforçou os laços de amizade e não deixou faltar assunto nas reuniões da tribo. No aconchego dos encontros, dávamos continuidade às aulas auxiliados pela clareza do vinho, impondo à professora Silvia Contaldo a temática que fazia nossos olhos brilharem. 
Entrei para o mestrado e fui orientada por ele. Orientada e apoiada no esforço de superar os limites financeiros que me impediam de voar mais alto. Ele me ajudou a conseguir uma bolsa de estudos, me confiou os primeiros trabalhos de revisão de textos e de tradução, me acompanhou pacientemente no exercício de pesquisadora. Nos anos seguintes, esteve comigo como orientador também de meu doutorado; acompanhou-me na peleja para conseguir um espaço como professora de teologia em BH, um campo extremamente generificado, com excesso de testosterona e pouca progesterona.  
Nesse ínterim, muita coisa aconteceu e ele estava sempre nas cercanias. Em 2018, estava por perto quando meu sobrinho de 19 anos foi assassinado. Na missa de sétimo dia, estava entre os leigos sentado como tantos amigos e conhecidos num banco da igreja, participando de nossa dor e dividindo-a com minha família. Em 2010, quatro dias depois do falecimento de minha mãe, ele me ligou para saber como eu estava. Eu acabara de saber que uma de minhas irmãs havia enfartado e falecido, quando eu saía para o hospital com minha irmã mais nova, acometida por uma doença degenerativa e da qual sou cuidadora e tutora desde que cheguei a Belo Horizonte. Ao ouvir a notícia, ele disse apenas: “Acalma-te. Chegarei em 20 minutos”. E assim ele passou a manhã toda de mãos dadas com minha mana na sala da casa, acalmando-a, enquanto eu resolvia questões práticas para nosso traslado rumo ao funeral. Ele só saiu de minha casa, quando um amigo chegou para nos levar para nossa terra natal onde seria o sepultamento.
Assim, dia após dia, ano após ano, fui aprendendo a amar e a respeitar aquele homem misterioso, cujo nome de biblista ultrapassava os oceanos e cuja simplicidade não condizia com tanta fama. Apesar da amizade, mantinha-me no lugar de discípula, sempre reverente e atenta à sua voz. Até que, um dia, ele falou-me: “Tu sabes que és a única pessoa próxima que me chama de senhor?”. Eu fiquei desconcertada e pedi licença para continuar a fazê-lo. Ele sorriu e o assunto morreu num abraço.
Ao longo desses anos, aprendi um pouco de tudo com ele, principalmente humildade. Certa feita, num evento de grande porte da Igreja de Belo Horizonte, ao final, lá estava o biblista de papo com um presbítero da Igreja. Um seminarista veio tomar a bênção ao padre diocesano, mas não reconheceu o jesuíta. Então, voltando-se para ele, disse-lhe: “E o senhor, quem é?”. Sabendo como Jesus o que se passava em seu coração carreirista, com olhar de fina ironia, pe. Konings estendeu a mão e respondeu: “Prazer, João”. E ficou o dito pelo não dito. O seminarista ignorou o João ninguém e seguiu bajulando aquele que poderia garantir seu futuro no seminário.
Os ensinamentos do mestre não pararam por aí. Sua mente brilhante irradiava sabedoria e seu coração exalava bondade. Com ele aprendi a dirigir em BH; conheci a Serra da Piedade e Caeté sob sua guia; viajei a São Paulo numa longa e deliciosa viagem de carro com direito a PF de caminhoneiro no caminho. Iniciou-me na vida tribal, ensinando-me a apreciar um bom vinho e me aproximou de pessoas que se tornaram caras para mim. Raras vezes perdeu a paciência e, quando o fez, foi na confiança de que a relação de amizade suportava tais excessos.
No campo acadêmico, incentivou-me a ser revisora de textos e me fez escrever meu primeiro artigo, que foi publicado em parceria com ele. Acreditou no meu potencial de escritora, apoiou-me em meus empreendimentos teológicos e me fez refletir sobre os rumos da educação no país, preocupação que o consumia.
Com ele, aprendi mais que ser biblista e teóloga. Aprendi a transitar com segurança em Belo Horizonte e a seguir sem medo os caminhos que a vida oferece. Aprendi a formatar textos e a usar com habilidade o Word. Aprendi a apoiar os alunos na arte da escrita e nos estudos teológicos. Aprendi a proximidade respeitosa entre mestre e alunos. Aprendi o valor de uma boa amizade e que os laços de fraternidade superam barreiras de nacionalidade, de idade e de competência acadêmica. 
A ele, meu eterno tributo de gratidão. Serei sempre sua discípula..., como escreveu no livro “Evangelho de João: amor e fidelidade” com o qual me presenteou. Guardo-o e também uma boina displicentemente esquecida em minha casa, como relíquias preciosas. 
Saudades do eterno JK!

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