10. A questão da Ecologia ou a Ecologia em questão

Na consciência do percurso natural do Cosmos, o poeta português rezava seus versos e pensava em morrer em paz. Nada ameaçava a prodigalidade da natureza, que na primavera faria o milagre da vida, independente da presença humana.
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que a Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
(Fernando pessoa)
Na dinâmica harmoniosa da vida, a natureza se mostra pródiga, fazendo da Terra um lugar hospitaleiro. Nasce a planta com o calor do sol que brilha e com a chuva que cai. Logo-logo, na primavera, desabrocha a flor que encanta os olhos e, daí a pouco, ela já é um grão. O grão é semente jogada no campo. Germina e, em breve, no outono, é tempo da colheita. As vagens ficam cheias, os animais pastam, dão cria e alimentam homem e mulher. A morte os visita com seu beijo e, voltando para a terra, adubam o solo que começará de novo seu ciclo.
É só observar bem, e a vida presente na Terra revela suas próprias leis. A biodiversidade se mostra, presente nos diversos ecossistemas. A interdependência dos seres soa como uma orquestra harmoniosa. Os princípios de sustentabilidade, presentes no cosmos, se fazem notar. É só saber lê-los:
O sol sustenta a energia dos ciclos ecológicos.
A matéria circula continuamente no ciclo da vida.
Nenhum ecossistema produz resíduo:
o resto de um é alimento para outro.
A biodiversidade assegura a resiliência dos ecossistemas.
Na teia da vida e da cadeia alimentar,
entre competição e dominação,
percebe-se a cooperação dos seres
da mesma espécie e de outras espécies.
Há relações, interconexões, interdependências e intercâmbios de todos os seres bióticos e abióticos. Na biodiversidade dos seres, tudo concorre para a sustentação da vida no planeta. A Terra é uma casa comum e saber ler o dinamismo dessa casa, sua economia, é ecologia. Não é à toa que este termo é composto de duas palavras gregas: oikos, que significa casa, e logos, que quer dizer reflexão e estudo. O termo ecologia pode, então, ser definido como a ciência que reflete sobre a casa comum (oikos), o planeta Terra, procurando entender como ela funciona e como todos os seres vivos se interagem nela. Desta forma, ecologia não abarca apenas a natureza (ecologia natural), mas também a cultura e a sociedade (ecologia humana, social, etc). Ela enfatiza o enlace que existe entre todos os seres naturais e as culturas. Sublinha a rede de interdependência de todos os seres entre si, constituindo a totalidade ecológica. Pois o que faz o discurso ecológico ser singular não é o estudo de determinadas espécies ou de partes do meio ambiente, mas o estudo das inter-relações que todas as espécies têm com o meio. É uma visão holística! Um ser vivo não pode ser compreendido isoladamente, mas sempre em sua relação com o todo, compondo um elo na imensa corrente cósmica.
Para colocar a ecologia em pauta hoje, faz-se mister levantar a questão da sustentabilidade. A sustentabilidade é entendida, no geral, como a possibilidade de vida de todos os seres. Para que esta possibilidade seja real, é preciso ler os seus princípios presentes no cosmos e respeitá-los. Mas como conjugar a sustentabilidade com o progresso e a tecnologia? Será possível pensar em comunidades sustentáveis? Sem dúvida, construir comunidades sustentáveis é um desafio para a sociedade moderna que se organizada em torno do capital e do lucro. Mas esse é um esforço que se faz urgente. Estado, sociedade civil e cada pessoa são convidados a repensar o paradigma sobre o qual a sociedade se assenta. Será que este modelo se sustenta? Garantirá ele a vida do planeta para as gerações futuras? Que qualidade de vida é possível ser pensada a partir deste paradigma atual? São questões que não podem ser caladas.
E, diante das catástrofes ecológicas registradas no último século, o poeta português, que antes podia morrer em paz sabendo que a vida – tão natural! – seguia seu curso, faria hoje não um poema, mas um lamento fúnebre ao ver a devastação que homem e mulher fazem sobre a Terra. A primavera – tão certeira! – já não desponta mais com tantas garantias.
Só adotando uma ética do cuidado como norma de vida, nas gerações futuras, os pais poderão dizer a seus filhos: “Olhai os lírios do campo e as aves do céu!” Será só fazer um passeio pelos campos limpos e preservados do Planeta e eles mesmos verão o que nossos olhos com alegria já contemplaram extasiados um dia. A biodiversidade dos seres estará presente para quem quiser ver, como também toda vida que pulula no Planeta Terra.
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