79. Ficar firme

“Completando os dias para sua ascensão,
Jesus manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém” (Lc 9,51)
“Eu não gosto daquelas pessoas
que aquecem seus corações
com esperanças vazias”
(Simone Weil)
A determinação e a coragem são virtudes admiradas e desejadas de longa data. No Evangelho de Lucas, aparece uma expressão bem bacana acerca da disposição de Jesus de enfrentar tudo e todos, para chegar em Jerusalém, seu destino final. “Ele manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém”, traduzem algumas bíblias. Literalmente, poderíamos dizer que “Jesus endureceu o rosto”, preparando-se para as bofetadas que viriam, ou ainda, que ele “fechou a cara”, no sentido de não se distrair com nada ao longo do caminho que pudesse demovê-lo de sua decisão.
Ficar firme não é tarefa das mais fáceis. É difícil continuar firme na fé, quando tudo parece dizer “des-acredite; é pura ilusão!”. É quase impossível ficar firme na esperança, quando tudo nos diz: “Não há mais esperanças. Tudo está perdido!”. E ficar firme no amor, quando tudo nos diz: “Não vale a pena esse heroísmo. Hoje é cada um por si e Deus – se existir – por todos!”? Tem horas que a única solução é fechar a cara, como Jesus, e seguir em frente, sem olhar sequer para os lados.
Vivemos tempos difíceis no país. Crise econômica gigante; maior ainda a crise moral e política. Não há mais ética, nem decoro! Só oportunismos dos carreiristas exploradores e manipulações das informações por parte da mídia. Como disse um amigo, temos: “um governo que está difícil de a gente defender; uma oposição que é impossível apoiar e uma imprensa na qual não dá para acreditar”. O que fazer? Desistir? Jogar a toalha ou chutar o balde, como diz a gíria? Não! É hora de endurecer o rosto para as bofetadas e seguir resoluto, exatamente como fez Jesus. “Amanhã há de ser outro dia”, cantou Chico Buarque em tempos da tenebrosa ditadura. Não percamos a esperança e a fé num país melhor. Não desanimemos de amar e de viver a vida ética que a fé cristã propõe, ainda que tudo nos mostre que a corrupção tem vencido a decência! É preciso ficar firme.
Quando Jesus subia para Jerusalém na sua grande viagem descrita por Lucas, alguns fariseus vieram lhe dizer no caminho que desistisse de seu propósito: “Sai e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te” (Lc 13,31). Primeiramente, desconfiamos das boas intenções dos fariseus, quando trazem a Jesus a notícia de que Herodes quer matá-lo. Querem mesmo poupar o mestre de Nazaré ou querem usar Herodes como escudo para fazê-lo desistir de ir a Jerusalém detonar o sistema religioso que eles defendem? Não é de hoje que esse artifício é usado pela oposição. Com discursos de defesa da vida, manipulam dados para tirar os fortes do caminho e continuar mandando e oprimindo como sempre fizeram. Melhor desconfiar desses “falsos amigos”. Não querem o bem de Jesus, nem do povo. Querem que ele se mostre um fraco e seja desacreditado por seus seguidores.
Jesus é esperto, não se deixa manipular. Responde prontamente aos fariseus com a dureza que a hipocrisia merece: “Ide e dizei àquela raposa: Eis que eu expulso demônios e efetuo curas, hoje e amanhã. E, no terceiro dia, tudo será consumado!” (Lc 13,32). Ou melhor: “Tô nem aí para Herodes. Sigo meu caminho, fazendo meu trabalho enquanto posso fazê-lo. Na hora em que não puder mais fazê-lo, será a consumação. Terei feito o que dava para fazer”. Bem diz um amigo querido: “Quem faz o que pode, faz o que deve”. Jesus segue seu caminho sem dar ligança para Herodes ou para os fariseus. Não aceitou ser manipulado pelos fariseus que, como meninos de recado, vieram tentar intimidá-lo em nome de Herodes.
Não é à toa que Lucas coloca esse relato no capítulo 13, somente depois de ter dito que Jesus fez o firme propósito de ir a Jerusalém. Lucas quer mostrar que nada, nem ninguém vai tirar Jesus do propósito feito. Tendo endurecido o rosto, segue em frente pronto para as pancadas.
Ao longo da jornada, é preciso endurecer o rosto, como Jesus. Fazer o firme propósito de não desistir, de ir até nossa Jerusalém, o lugar onde nossa vida será exposta em oblação. Jesus segue seu caminho, mesmo sabendo o que o espera em Jerusalém: intriga, oposição, provavelmente morte. No atual momento do Brasil, que nos resta a fazer senão o mesmo que fez o Mestre de Nazaré? Como não endurecer o rosto no firme propósito de acreditar no país, na democracia, na justiça, na liberdade? Como não seguir em frente, firmes na esperança de dias melhores? Como não seguir senão amando e insistindo no amor como única possibilidade de vida digna? Não nos enganemos com esperanças vazias, disse Simone Weil, mas também não paremos de acreditar. Lembremo-nos de Chico Buarque: “Inda pago prá ver a manhã renascer qual você não queria...”. Em tempos de noite alta, quando a aurora de um novo dia parece utopia que nunca será alcançada, cantemos “inda pago prá ver a manhã renascer...”. Haverá um amanhecer, ainda que tardio. Nada é para sempre, nem mesmo o mal que assola o país. Continuemos apostando no amanhecer. E cantemos com a esperança de Geraldo Vandré, “Vem, vamos embora que esperar não é saber; quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
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