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480. REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 10,11-18 (ANO B)

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20.04.2024 | 13 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
480. REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DA PÁSCOA – JOÃO 10,11-18 (ANO B)
O evangelho do quarto domingo da páscoa é sempre tirado do capítulo décimo do Evangelho de João, no qual Jesus se auto apresenta como o único, bom e autêntico pastor das ovelhas. Em cada ano, se lê um trecho diferente, mas sempre do mesmo capítulo, apresentando sempre a imagem do pastor a Jesus. Por isso, esse domingo ficou tradicionalmente conhecido como o «domingo do Bom Pastor». Por causa disso, de modo muito oportuno, o então Papa Paulo VI o instituiu também como o «dia mundial de oração pelas vocações». Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico B, o texto específico é Jo 10,11-18. Por sinal, de todo o capítulo, esses são os versículos que mais insistem na apresentação de Jesus como pastor. O cenário da narrativa é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo, durante uma das festas judaicas de peregrinação, embora não fique claro qual delas, se a festa das tendas ou a da dedicação do templo (cf. Jo 7,1-10; 10,22). É importante perceber que o evangelista João faz as principais manifestações de Jesus coincidirem com as festas de Israel para enfatizar sua condição de oposição e alternativa à estrutura religiosa do seu tempo.

Faremos hoje a contextualização em dois níveis: num nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e, em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no conjunto do Quarto Evangelho. A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente em nada ao décimo capítulo do Evangelho de João. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada «parábola da ovelha perdida» (Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas ovelhas e se deixa conhecer por elas. Jesus é um pastor que humaniza e educa para a liberdade.

Também é importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (Ez 34,11). Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após esse discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (Jo 10,39). A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protegê-lo.

A nível de contexto literário, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito entre Jesus e os fariseus (Jo 9,1-41). Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida para desmascará-los. É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir da imposição e do medo. O cenário do episódio é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo. Olhemos, pois, para o texto.

Feita a contextualização, olhemos para o texto, cuja profundidade é evidenciada já a partir do primeiro versículo: «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas» (v. 11). Com a expressão “Eu sou” (em grego: Ἐγώ εἰμι – egô eimí) Jesus recorda a sua condição divina, pois essa é a fórmula clássica de revelação de Deus, como tinha se revelado a Moisés (cf. Ex 3,14). O evangelista João tem um grande zelo por essa expressão, e só permite que ela seja pronunciada por Jesus, em sua obra. Assim, ele afirma que Jesus possui a identidade libertadora de Deus, e é a libertação e vida plena que ele está oferecendo, ao revelar-se como pastor autêntico. Por sinal, a expressão «bom pastor» não expressa tudo o que o texto diz na língua original. O evangelista emprega um termo que significa mais do que bondade, para expressar a qualidade de pastor que é Jesus. O termo empregado significa belo (em grego: καλός – kalós), não em relação às aparências, mas no sentido de completude, autenticidade, perfeição, realidade única; é o mesmo adjetivo empregado para qualificar o vinho novo das bodas de Caná (cf. Jo 2,10), que representa a superioridade da nova aliança em relação à antiga. Possui, portanto, uma função substitutiva. Isso quer dizer que só Jesus é pastor autêntico. Não existem outros pastores além dele; se existiram antes, perderam a validade depois dele. E a história mostra que os que vieram antes dele eram mais mercenários do que pastores.

E o que explica a qualidade única do pastoreio de Jesus é a capacidade de dar a vida pelas ovelhas, o que pressupõe um amor ilimitado. De fato, a primeira atitude que justifica a bondade ou beleza de Jesus enquanto pastor é a doação da vida. Ele é pastor belo/bom porque dá a vida, antes de tudo. E a palavra-chave de todo o texto é exatamente o verbo dar (em grego: τίθημι), repetido cinco vezes nesta passagem (vv. 11.15.17.18). Esse verbo pode ser traduzido também como doar, oferecer, entregar. No versículo 18, esse verbo aparece duas vezes, sendo que numa delas está traduzido por entregar. É importante recordar que, ao apresentar-se como aquele que dá a vida, Jesus não se refere apenas a sua morte de cruz. Na verdade, a morte na cruz foi o resultado ou consequência do seu doar vida continuamente. Durante toda a sua vida, ele deu vida às pessoas com quem se encontrou, principalmente as mais necessitadas. A sua vida foi uma doação contínua de vida. Ele doou vida aos pecadores e pecadoras a quem acolheu, aos doentes a quem curou, aos possuídos a quem libertou. Reduzir sua doação de vida à sua morte na cruz seria negligenciar sua missão de enviado do Pai para fazer plenamente sua vontade e revelar seu rosto com transparência. E o Pai o enviou para dar vida ao mundo. A morte na cruz, portanto, foi consequência de sua fidelidade, do seu dar-se plenamente, por amor. De fato, só o amor motiva alguém a fazer a da vida um dar-se contínuo, como ele fez. E a vida de quem dá vida não se acaba, se torna sempre mais viva, nem a morte consegue destruí-la, é vida que se eterniza. Por isso, dar a vida deve ser um imperativo também quem acredita em Jesus e recebeu vida em seu nome, quem vivificou-se pelo seu amor, pelas suas palavras.

Após apresentar-se como pastor bom/belo, capaz de dar vida, Jesus mostra o seu oposto, o que não deve ser seguido nem imitado entre os seus seguidores: «O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa» (v. 12). O termo mercenário, que se tornou tão pejorativo, equivale simplesmente a empregado, assalariado; aqui, representa a hierarquia religiosa de Jerusalém. Enquanto o pastor cuida das ovelhas por amor, a ponto de dar a vida por elas, o mercenário cumpre suas funções por pagamento e não chega a arriscar a vida por elas. Em situação de perigo, ele deixa o rebanho a mercê, «pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas» (v. 13). Aqui, Jesus chega ao ponto alto de sua crítica à hierarquia religiosa de Jerusalém. Aos sacerdotes do templo não importava a situação do povo, pois eles pensavam apenas nas ofertas que recebiam. Viviam uma relação meramente mercantilista, sem nenhuma sensibilidade para o cuidado do povo, pois não eram movidos pelo amor. Por isso, deixavam as ovelhas à mercê dos lobos. O lobo é imagem das forças de morte, exploração e injustiça que ameaçam a comunidade e a humanidade de um modo geral. Nesse contexto específico, representa o império romano. Ao invés de combatê-lo, a religião comandada por mercenários prefere aliar-se ou fugir dele. No caso da religião praticada no tempo de Jesus na Palestina, havia conivência e conveniência entre as autoridades religiosas e o império romano, de modo que mercenário e lobo conviviam muito bem, espoliando as pobres ovelhas de Israel. É importante recordar que as denúncias de Jesus às estruturas da sua época são válidas para todos os tempos.

Na sequência, Jesus explica como se dá sua relação de pastor com as ovelhas: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem” (v. 14). Esse conhecimento recíproco sempre foi desejado por Deus ao longo da história: ele conheceu a Israel e deixou-se conhecer por ele, mas Israel rejeitou o conhecimento (Os 2,22; 4,1; 6,3.6; Na 1,8; Jr 31,34), por isso perdeu o seu rumo. Conhecer, na linguagem bíblica, não se trata de um ato cognitivo, mas de uma relação íntima e recíproca, motivada pelo amor, semelhante a de Jesus com o próprio Pai: «Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas» (vv. 14-15). A intimidade de Jesus com as suas ovelhas é atestada pela sua capacidade de amar até dar a vida. Enquanto os sacerdotes do templo pensavam relacionar-se com Deus através do sangue de animais derramado em sacrifício, Jesus se relaciona através do conhecimento recíproco, ou seja, mediante o amor. E esse modelo de relação, ele quer universalizar: «Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir» (v. 16a). Aqui está a abertura de horizonte. Pelas circunstâncias, o pastoreio de Jesus começa por Israel – o redil ao qual o texto se refere –, libertando o povo dos mercenários (dirigentes religiosos) e enfrentando o lobo (império romano). Mas é necessário, através da comunidade cristã, estender essa missão a todo o universo, ao longo da história.

A abertura universalista recorda que nenhuma religião pode delimitar o alcance do amor de Deus: também as pessoas que não fazem parte do redil pertencem a Deus e são amadas por ele. E, como diz Jesus, também «elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor» (v. 16b). Temos aqui o “sonho da unidade” sendo plantado por Jesus. A expressão «um só rebanho e um só pastor» não significa simplesmente a adesão de todo o mundo a um único sistema religioso, submetendo-se a uma única liderança. Significa, acima de tudo, um projeto de fraternidade universal, com inclusão, tolerância, justiça e solidariedade; é um mundo novo, construído a partir do amor. Par isso, é necessário que a voz inconfundível de Jesus ressoe em todo o universo e seja ouvida, mas expressa pela linguagem do amor, jamais através de proselitismos e imposição. De fato, a voz de Jesus não é um som, não é um eco, mas é o seu estilo de vida, seu jeito de amar, enfim, é a sua própria pessoa. Espalha essa voz no mundo, portanto, quem vive e ama à sua maneira, e não quem faz proselitismos em templos, praças e esquinas, repetindo fórmulas e mensagens ameaçadoras. A voz de Jesus só pode ser ouvida se pronunciada com amor. Por isso, não é tão difícil, nos dias atuais, identificar onde essa voz deixa de ser pronunciada.

Jesus volta a ressaltar sua unidade com o Pai: «É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente» (v. 17). Ora, é esse amor recíproco e incondicional que fundamenta e sustenta a relação entre Jesus e o Pai, e que é oferecido a toda a humanidade. Ao Pai, agrada a generosidade de Jesus: ele dá a sua vida livremente; a recebe novamente porque sabe que dar a vida por amor é, na verdade, estendê-la, torná-la eterna. E a vida eternizada pelo amor se torna indestrutível, resiste até mesmo à morte. Por isso, de modo bastante categórico, Jesus declara: «Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo» (v. 18a). Não se trata de um mero entreguismo, nem de destino, nem de acidente; é consequência e consciência de suas escolhas, e sua grande escolha foi viver ilimitadamente o amor, e o amor incondicional não mede consequências. A expressão «tenho o poder de entregá-la e de recebê-la novamente» (v. 18b) significa a plena consciência de estar amando com um amor igual ao do Pai. Inclusive, foi isso que o próprio Pai lhe pediu: «essa é a ordem que recebi do meu Pai» (v. 18c). Como se vê, Jesus recebeu do Pai a ordem de amar até dar a vida. É isso o que ele pede aos seus seguidores e seguidoras de todos os tempos: viver em profundo amor entre si e com ele, de modo que a comunidade cristã seja, de fato, a primeira instância do sonho de «um só rebanho e um só pastor», como embrião de um mundo novo.

Que o Pastor Bom, autêntico e único, inspire vocações que façam ressoar a sua voz no mundo, suscitando colaboradores e colaboradoras para o seu pastoreio. Em tempos tão difíceis, é essencial que sua voz seja ouvida, sobretudo no combate aos mercenários e lobos que se tornam cada vez mais agressivos e numerosos. E para colaborar com o pastoreio de Jesus é necessário deixar-se conhecer por ele, deixar-se amar e segui-lo.