REFLEXÃO PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21 (Ano A)
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01.08.2026 | 14 minutos de leitura
Evangelho Dominical

Concluído o discurso em parábolas (Mt 13), o qual fora lido nos últimos três domingos, a liturgia prossegue com a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, propondo para este décimo oitavo domingo o relato do episódio conhecido popularmente como a “multiplicação do pães” – Mt 14,13-21. De todos os gestos de Jesus considerados milagres, esse é o único relatado nos quatro evangelhos, com seis versões ao todo, já que em Mateus e Marcos aparece duas vezes (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,30-44; 8,1-9; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13). Esses dados indicam a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, preferiu-se contá-lo integralmente várias vezes, embora cada uma das versões apresente certas particularidades. Com o progresso da exegese, o título convencional de “multiplicação dos pães” tem caído em desuso, preferindo-se expressões alternativas como “a multidão saciada” ou simplesmente “milagre da partilha dos pães”.
Hoje, lemos a primeira versão de Mateus e, como sempre, iniciamos considerando o seu contexto. O texto localiza-se praticamente na metade do evangelho; além da importância que esse dado evidencia, quer dizer também que Jesus já realizou muita coisa, pois o seu ministério já estava bem avançado, basta olhar um pouco para trás e perceber isso: três dos cinco discursos já foram proferidos (Mt 5–7; 10; 13), os discípulos já foram enviados em missão, muitas curas já foram realizadas. Portanto, mesmo que não se compreendesse totalmente o que ele fazia e nem se aceitasse completamente o que Jesus proponha, a sua mensagem se popularizava cada vez mais, e as multidões que o seguiam atestam isso. Logo, tornava-se cada vez mais necessário que Jesus deixasse clara a natureza do seu messianismo, que não correspondia aos anseios nacionalistas e triunfalistas da época. Por isso, ele procurava cada vez mais evitar atitudes que pudessem insinuar triunfalismos em seu ministério. Tudo isso aponta para o cuidado com que esse episódio chamado de “multiplicação dos pães” deve ser lido e interpretado.
O contexto imediato é fornecido pelo próprio texto, na versão litúrgica, que recorda o evento anteriormente narrado, a morte de João, o Batista, por ordem de Herodes: «Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado» (v. 13a). Com efeito, a expressão inicial – “quando soube da morte de João Batista” – não pertence propriamente ao texto, mas foi acrescentada pela liturgia, com claros fins didáticos, a fim de situar o ouvinte-leitor e o pregador, sobretudo. Na língua original, se diz apenas que Jesus ouviu, o que vem expresso pela forma verbal grega “akússas” – ἀκούσας. Lendo diretamente na Bíblia, o leitor percebe que aquilo que Jesus ouviu foi a notícia da morte do Batista. Ora, apesar das diferenças, era inegável a proximidade entre Jesus e João Batista. Com efeito, Jesus nutria grande afeto por João, mesmo não correspondendo ao ideal de messias violento e justiceiro que ele tinha anunciado (Mt 3,1-12). Inclusive, o reconheceu como o maior entre os nascidos de mulher e como profeta (Mt 11,7-14). Na verdade, Jesus reconhecia a continuidade entre a sua missão e a de João e o considerava seu mentor, não obstante as divergências. Por isso, inevitavelmente, a morte de João mexeu com Jesus, ainda mais pela forma cruel como aconteceu. Daí, a necessidade de retirar-se, não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento. O lugar deserto e afastado seria ideal para esse recolhimento que, certamente, seria marcado pela oração profunda, pela reflexão e, talvez, até pelo choro.
O detalhe do “lugar deserto e afastado” é muito significativo na tradição bíblica. Como se sabe, o deserto não é apenas um espaço geográfico; é lugar de silêncio, prova e encontro com Deus. Foi no deserto que Israel aprendeu a depender do Senhor e recebeu o maná para o caminho (Ex 16). Ao retirar-se para o deserto e ali alimentar a multidão, Jesus se apresenta como aquele que inaugura um novo êxodo: reúne um povo disperso e o alimenta com o pão que vem de Deus. Jesus não conseguiu ficar sozinho com seus discípulos porque «quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé» (v. 13b). O movimento das multidões em busca de Jesus demonstra o quanto ele já estava conhecido e o bem que ele fazia. As multidões o seguem porque ele tinha respostas para as suas necessidades. Abandonadas e exploradas pelas lideranças religiosas e políticas, as multidões recebiam atenção e cuidado de Jesus (Mt 9,36–10). O seu olhar era diferente, marcado pela compaixão: «Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes» (v. 14). As multidões até se anteciparam, chegando primeiro ao lugar deserto. Ao vê-las, Jesus não foge e nem as expulsa, mas se enche de compaixão. Numa ocasião anterior, o evangelista disse que ele sentiu compaixão ao ver as multidões abandonadas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,36); agora, ele diz que Jesus encheu-se de compaixão. Quer dizer que a compaixão ocupa todo o ser de Jesus, faz parte da sua essência.
Compaixão significa um amor visceral; é um comover-se no mais profundo do ser que resulta em ação concreta de libertação. O verbo empregado pelo evangelista é muito expressivo. Mateus usa o grego splanchnízomai (σπλαγχνίζομαι), derivado de splánchna (σπλάγχνα), “entranhas” ou “vísceras”. Na mentalidade bíblica, as entranhas eram consideradas a sede dos afetos mais profundos. Por isso, dizer que Jesus “encheu-se de compaixão” significa afirmar que ele foi tocado nas profundezas do seu ser. Não se trata de uma emoção superficial, mas de um estremecimento interior que o move imediatamente à ação em favor dos necessitados. Esse olhar compassivo revela também o modo como Deus olha a humanidade. Enquanto as estruturas sociais costumam avaliar as pessoas a partir do poder, do mérito ou da utilidade, Jesus as vê a partir da necessidade e da dignidade. Seu olhar antecede qualquer exigência moral: primeiro acolhe, cura e alimenta; depois convida ao discipulado. Essa ordem é fundamental para compreender o Evangelho. Por isso, ele “curou os que estavam doentes”. Por doentes, o evangelista emprega um termo (em grego: arostos – άρρωστος) que compreende todas as pessoas frágeis, e não apenas os doentes fisicamente. São todas as pessoas destinatárias privilegiadas da misericórdia de Deus: doentes, aflitas, pobres, abandonadas, exploradas. Como o Evangelho de Jesus é um programa de vida completo, que contempla a vida em todas as suas dimensões, todas essas classes de pessoas são as primeiras contempladas. Por isso, a reação de Jesus ao ver essas pessoas foi encher-se de compaixão.
Diferente de Jesus foi o que os discípulos sentiram: «Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!”» (v. 15). Pela referência ao entardecer, supõe-se muita coisa já realizada naquele dia. Certamente, muito contato físico de Jesus com o povo, muito toque, muita escuta e muitas palavras proferidas; tudo ao contrário de quem estava procurando ficar sozinho. A reação dos discípulos parece ser de preocupação e cuidado com Jesus, mas na verdade é de indiferença e pouco compromisso com as multidões. A tendência deles é lavar as mãos diante das necessidades dos outros. Aconselham Jesus a mandar as multidões embora e que cada um “se virasse” para conseguir o alimento necessário, propondo, desse modo, a lógica do mercado. A atitude dos discípulos permanece muito atual. Também hoje, diante da pobreza, da fome e das diversas formas de exclusão, é comum pensar que cada pessoa deve resolver sozinha os seus problemas. Jesus, porém, rompe essa mentalidade e convoca os discípulos a assumirem responsabilidade concreta. A comunidade cristã não pode limitar-se ao espaço do culto; deve tornar-se lugar de solidariedade concreta.
Apesar do tempo de convivência e aprendizado, os discípulos ainda não tinham absorvido a mentalidade de Jesus; ainda não tinham assimilado a lógica da partilha e da solidariedade. Diante disso, a resposta de Jesus é praticamente uma repreensão: «Jesus, porém, lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”» (v. 16). Como se vê, Jesus compromete os discípulos. Em vez de lavar as mãos diante das necessidades dos outros, os seus discípulos devem sentir-se responsáveis. A comunidade cristã não pode assistir indiferente ou passivamente à fome no mundo. Biblicamente, a fome é também uma doença que deve ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. A mensagem de Jesus é um programa de vida que contempla também a dimensão material, inegavelmente. Portanto, saúde e pão devem ser prioridades na comunidade cristã.
Talvez indignados ou envergonhados com a advertência de Jesus, «Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”» (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa, provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. A quantidade era pequena, mas total, era tudo o que tinham. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade. Logo, não se trata de números reais, mas de simbologia. Independentemente da quantidade, é como se os discípulos dissessem a Jesus que tudo o que tinham era insuficiente para o grande número de pessoas que estavam ali. Porém, Jesus não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que têm: «Jesus disse: “Trazei-os aqui”» (v. 18). O problema começa a ser solucionado aqui, quando Jesus pede que os discípulos coloquem à disposição tudo o que têm, apesar de pouco. É isso o que Jesus espera das comunidades de todos os tempos. O pouco que cada um possui deve ser colocado a serviço de todos e, assim, o que é pouco se torna muito. Quando cada um apresenta o seu pouco, é premissa de fartura.
É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome, o que se faz pela partilha, mas tudo deve passar por Jesus. Primeiro, devem apresentar a ele o que têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Na continuação, diz o evangelista que «Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões» (v. 19). Como se vê, Jesus toma a iniciativa e age como verdadeiro pastor, ao contrário dos líderes religiosos e políticos que tinham explorado e abandonado as multidões (Mt 9,36). Inclusive, todo este relato tem como pano de fundo o Sl 22(23), no qual o salmista reconhece Deus como o pastor que alimenta o povo e o faz descansar num prado verdejante (grama), como aqui.
O gesto de fazer a multidão sentar-se na grama também merece atenção. Sentar-se à mesa, na cultura bíblica, é sinal de comunhão e igualdade. Jesus não distribui alimento a uma massa anônima; ele constitui uma assembleia. De fato, no Reino de Deus ninguém come isoladamente. A refeição partilhada antecipa a comunhão fraterna que deve caracterizar a Igreja. Os gestos de Jesus com os pães e os peixes antecipam a eucaristia, mas vão muito além de um rito: olhar para o céu – abençoar – (re)partir – dar/distribuir. São os passos que a comunidade cristã não pode parar de dar, não apenas como rito semanal, mas como vivência cotidiana, sobretudo onde e quando há multidões famintas de pão. Por isso, a dimensão eucarística do relato não pode ser separada da partilha concreta. A mesma comunidade que celebra o pão repartido no altar é chamada a repartir o pão da mesa cotidiana. Quando a Eucaristia não transborda em solidariedade, corre-se o risco de reduzir o gesto de Jesus a um rito sem consequências históricas concretas, sem efeito humanizante.
Como resultado da partilha, aliás, de todo um processo, o resultado foi este: «Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios» (v. 20). Recordemos que houve todo um processo, o que não seria necessário caso se tratasse de um puro gesto sobrenatural de Jesus. De seu olhar compassivo, Jesus conferiu responsabilidade aos discípulos, provocou neles a disposição de colocar em comum tudo o que tinham, gesto que inevitavelmente motivaria também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, até a partilha que deixou todos satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade. A abundância é gerada quando ninguém considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. E a primeira necessidade do ser humano é o alimento, o pão de cada dia. No final, ainda sobrou, o que foi tudo recolhido. O alimento é sempre um dom de Deus, e o que é dom de Deus não pode ser desperdiçado. O recolhimento das sobras ensina ainda o cuidado com os dons recebidos. A abundância gerada pela partilha não autoriza o desperdício. Num mundo marcado simultaneamente pela fome de milhões e pelo descarte excessivo de alimentos, esse detalhe do Evangelho adquire forte atualidade ética. Respeitar o alimento é respeitar o trabalho humano, a criação e o Deus que sustenta a vida. O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, há alimento para todos e todas. Essa não deve ser uma prática ocasional, mas um modo permanente de viver.
No final, a referência ao número dos que se alimentaram, o que também é um número simbólico que significa uma grande quantidade: «E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças» (v. 21). Entre o número inicial de dons disponíveis para a partilha e a multidão alimentada há uma enorme diferença. Com isso, o evangelista quer ensinar que os resultados são sempre surpreendentes quando se põe em prática o que Jesus ensinou, e reforça o convite para a comunidade não ter medo de partilhar o que tem. O último dado considerado é a menção do evangelista às mulheres e crianças, o que reforça ainda mais a importância da partilha, pois significa que havia uma multidão incontável, e que a partilha gera sempre abundância. Somente Mateus faz essa observação. Apesar de sutil, é um aceno à inclusão. Mulheres e crianças eram consideradas categorias insignificantes, na época. O evangelista ensina, com isso, que a comunidade cristã é aberta a todos. Na verdade, as pessoas historicamente marginalizadas são as preferidas no programa do Reino.
O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, como encontrar solução para o problema da fome. A comunidade não pode esperar ter todas as condições ideais para viver o programa do Reino; é vivendo-o que ela cria condições de vida, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso! Sem negar as outras dimensões da existência humana, o evangelista insiste que a fé não pode ignorar a fome concreta de pão. Jesus não separa cuidado espiritual e cuidado material: ele cura, acolhe e alimenta. A comunidade que o segue é chamada a fazer o mesmo, confiando que Deus continua gerando abundância quando seus filhos e filhas aprendem a repartir.
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