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278. Solidão sim; abandono não

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10.07.2023 | 2 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
278. Solidão sim; abandono não
“Aquele que beber da água que eu darei nunca mais terá sede” (Jo 4,14a)

"Quando chega a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água, não terá mais amargura
(Paulinho da Viola). 

Viver sem esperanças significa uma condenação pesada. Dia e noite, atormenta a alma aflita o desespero de não ver dias melhores no horizonte da vida. “O que fazer?”, nos perguntamos sem cessar a nós mesmos, quando tudo se torna escuridão e a desilusão campeia feito erva daninha na plantação de esperança que semeamos cuidadosamente no campo do coração. “Desilusão, desilusão...”, diria Paulinho da Viola. “danço eu, dança você, na dança da solidão”. Nenhum de nós está isento da experiência mais crucial da vida: a solidão.
Vivemos acompanhados de amigos e familiares, mas com a dor cortante de ser ontologicamente só. Morremos sozinhos ainda que alguém segure nossa mão e nos diga palavras de encorajamento. A vida transcorre como um hiato entre o nascimento e a morte, e, nesse espaço limitado, experimentamos a dor lancinante de ser só. 
No entanto, nem tudo são espinhos. No transcorrer da existência, a fé nos alerta: Não estamos sozinhos. Uma fonte que não se esgota canta alegre a esperança de dias melhores. Encharcados de fé, seguimos sem desanimar, pois não estamos sozinhos. Na dança da solidão, alguém bem maior do que nós nos acompanha e irriga nossa vida com seu amor desmedido.
Tenho meditado sobre a solidão. Amigas queridas confessam estarem sozinhas, mesmo quando acompanhadas de seus companheiros de muitos anos. Parece que esse espaço existencial não cabe a qualquer outro senão Àquele que tudo transcende, Àquele sentido maior, Àquele horizonte que se descortina e tudo ressignifica. Nem marido ou esposa, nem filhos ou netos, nem amigos ou companheiros queridos de jornada, nada ou ninguém parece dar conta de suprir o espaço negro de nossa solidão. Eu já perdi a ilusão e já me acostumei a ter essa lacuna no peito, pois ela diz respeito à condição humana. 
Quando olho para a população em situação de rua ou para as pessoas privadas de liberdade, me interrogo sobre a experiência da solidão de tantos e tantas cuja dignidade da vida foi ferida pelo sistema capitalista, injusto e cruel. Que vivamos com nossa solidão ontológica, a isso já me conformei. Mas que sejamos condenados ao abandono, isso é verdadeiramente inaceitável. Ninguém deveria ser condenado ao ostracismo nem a ficar à margem dos bens da vida! Esse sistema capitalista dá nojo e faz revirar as entranhas de quem tem um mínimo de noção da dignidade humana. 
Agarro-me à fonte da solidariedade, capaz de resolver muita tragédia e de dar esperança em meio ao caos. Ela se mostra uma fonte de água pura, que lava do egoísmo e revigora as forças do abatido. No entanto, como entender que cristãos convictos apoiem esse abandono e não se esmerem no combate a esse sistema devastador? Tem mistérios que a gente não decifra. Eternas contradições humanas...
Na conversa de Jesus com a samaritana, o evangelista João nos diz que Jesus é a fonte de água pura que não cessa de jorrar. A metáfora é ampla e faz pensar. Certamente ele não é uma fonte de água continuada porque se conformou ao sistema opressor de sua época. Se assim o fizesse, não seria uma fonte, mas um lago represado e podre cuja água não serve para beber e nem para banhar. Sua vida é água limpa e cristalina porque ele nos ensina que amor e fidelidade são também ontológicos, são parte da condição humana. Se a fraqueza humana leva ao abandono e à desilusão, a fé garante que não é na solidão que se encontra nossa morada definitiva, mas na convivência fraterna. Chego a pensar que a dança da solidão nos abduziu de modo a não mais acreditar na força intrínseca do humano. Mas é preciso resistir. Ainda que a vida nos convença que não tem jeito e que não há solução para o humano, é bom lembrar. Não é a existência humana que é inviável, mas o sistema capitalista que segrega e maltrata uma multidão em prol de benesses para uma minoria privilegiada. 
Nessa semana, o inominável foi condenado pelo STF a 8 anos de inelegibilidade. Ainda não é o que esperamos da justiça, mas essa decisão já nos arranca do desespero e nos mostra que, se a gente se organizar, essa solidão da vida vai doer menos. “Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura ... que arranca da amargura”. A vocação para a vida tem de ser maior que a pulsão para a morte. A capacidade de vivermos juntos e nos solidarizar tem de ser maior que a solidão e o abandono, ainda que essas experiências persistam! Andei bem desacreditada do humano, mas pequenas conquistas como essa que vimos acontecer no Brasil me faz esperançar de novo. Minha solidão diminui quando vejo que há mais gente pelejando para a vida não ser tão doída, especialmente para os mais vulneráveis da Terra.