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262. Sobre estereótipos e preconceitos

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31.01.2022 | 2 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
262. Sobre estereótipos e preconceitos
“Ai de vós, fariseus hipócritas!” (Mt 23,27)

“De onde menos espera é que vem!”
(Sabedoria popular)

Contou-me, certa vez, um professor que, numa noite, ao retornar de uma comunidade eclesial na qual trabalhava, viu dois rapazes negros, de boné e estereótipo nada convencional vindo em direção contrária à sua. Imediatamente, pensou: “Vou ser assaltado!”. Ele foi tentado a pegar o caminho de volta, mas não havia tempo hábil para tal. Então, escondeu seu celular e seguiu em frente tremendo nas bases, já prevendo que seria roubado. O pobre homem suava frio só de pensar no futuro próximo. De repente, no cruzamento da rua, surgiu inesperadamente um outro jovem, desta vez branco, bem vestido e com cabelos bem cortados. O professor suspirou aliviado pensando: “Graças a Deus, terei uma companhia para terminar o trajeto da rua em segurança”. Para sua surpresa, o suposto salvador da pátria anunciou o assalto ao transeunte levando-lhe o celular e a carteira. Num misto de susto e de medo, suas pernas bambearam e ele agachou para se recompor. Vendo o homem desfalecido agachado na calçada, os dois jovens suspeitos se aproximaram desejosos de entender o que acontecera e lhe deram socorro, acompanhando-o em segurança até sua residência. Bem diz a sabedoria popular: de onde menos espera é que vem”.
Histórias como essa não são raridade. Vez ou outra, estamos sendo surpreendidos não pelo assaltante, mas por nossos preconceitos. Nascidos e criados numa sociedade racista e classista, somos automaticamente induzidos a pensar que os jovens negros e pobres são vagabundos e delinquentes, verdadeiros meliantes que deveriam ser punidos unicamente por serem quem são. Aprendemos a não gostar de certos tipos de cabelo ou de cortes de cabelo, de alguns estilos de roupa, de algumas peles especialmente das muito tatuadas etc. E fomos domesticados para achar belo e confiável outro tipo de estereótipo: o branco do cabelo liso, pele limpa e olho claro. Julgamos o produto pela embalagem, por puro preconceito com algumas delas. 
Desse mundo de preconceitos, surgiram expressões como “a coisa tá preta”, “lista negra”, “denegrir” e outras, sempre com sentido negativo, todas elas oriundas da pele negra de nossos antepassados africanos. Quem nunca ouviu a expressão “fez um serviço de preto” para dizer do mal feito ou “preto de alma branca” para dizer de um negro confiável? Quanto racismo! E não é só com nossos irmãos negros que a língua é cruel revelando o que a sociedade muitas vezes tenta esconder. Por anos a fio, repeti duas tristes expressões: “judiar” para dizer maltratar e, quando alguém pisava no meu pé, eu repetia; “o de baixo é meu; o de cima é do judeu”. São chavões que aprendemos na infância e nem sabíamos que eram preconceituosos com os judeus, revelando verdadeiro antissemitismo. O que me pergunto é: Por que, apesar de tudo que Hitler e o nazismo alemão fizeram, nunca nos ensinaram a conjugar o verbo “alemanizar” para dizer de crueldades e outras perversões? Por que nunca nos ensinaram a dizer “tá na minha lista branca” em vez de lista negra, uma vez que foram os europeus quem dizimaram nossas populações indígenas? 
Nesse caminho da perversão mental, estigmatizamos os mais fracos: os pobres, os negros, os índios, os jovens das periferias, as putas, as travestis e os LGBTQIA+. Condenamos seu modo de viver, de vestir, de falar, de cantar, de dançar, de amar, de comer e até de se pentear. Nossa constituição mental é feita de preconceito sobre preconceito, de racismo sobre racismo; tudo cimentado com a argamassa da conivência social. Fica difícil pensar fora dessa caixinha já formatada, toda arquitetada para nos fazer sentir confortáveis, apesar dos desconfortos que causamos aos outros. Tornamo-nos indiferentes a outros modelos de vida, a outros modos de viver. E pior: nos opomos a eles considerando-os impuros e piores do que nosso próprio estilo de vida alienado, incapaz de ver além do próprio umbigo.
Fico me perguntando como agiria Jesus nessa sociedade perversa na qual professamos a fé sem nenhuma culpa ou incômodo diante dessas perversões sociais. Também a religião cristã – infelizmente – se afeiçoou a essas configurações e estas passaram a fazer parte de seu perfil. São atitudes desprezíveis aos olhos do Deus de Jesus Cristo, mas não sei o porquê não incomodam mais. Lembro-me com saudade dos ensinamentos dos profetas, de Amós chamando as madames cheirosas e dondocas do Sul de vacas de Basã, assim como de Miquéias emitindo vaticínios para os ricos que dormem nas camas de marfim. Onde foi que nos perdemos? Onde foi que nos desviamos dos ensinamentos do Bom Mestre, que elogiou o samaritano excluído e ainda por cima criticou o levita e o sacerdote? Quando foi que deixamos de ouvir o apelo de Jesus que nos mandou ocupar os últimos lugares em vez dos primeiros? Quando foi que ficamos surdos, incapazes de ouvir sua palavra que nos adverte como aos fariseus hipócritas? Será que rasgamos os Evangelhos e queimamos os Profetas? Não há uma única palavra da Escritura que salve se nós insistimos em justificar nossas crueldades em nome da fé. Deus é amor e não perversão, preconceito e outras maldades.
Já estamos a passos largos de 2022, que somado a 2021, resulta numa tragédia que só pode ser comparável ao que vimos acontecer em tempos de colonização e assalto às Américas. Mais de 620 mil mortos pela covid e um número infindo de negros da periferia exterminados pela polícia. São tempos catastróficos para os pobres e excluídos. Hoje mesmo, um senhor que veio buscar os recicláveis me disse que está difícil conseguir um número suficiente dos mesmos, pois estes estão sendo disputados, tamanho o crescimento da fome e da miséria no Brasil. Espero sinceramente que em 2022 – ano de eleição – possamos repensar nosso modelo social e colocar nossa religião para ser provada no fogo da solidariedade e do amor. Saberemos se fomos aprovados como seguidores de Jesus quando fecharmos a contagem das urnas! 

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