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252. REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 4,21-30 – Ano C

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29.01.2022 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
252. REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 4,21-30 – Ano C
A liturgia deste quarto domingo do tempo comum propõe a continuidade da leitura do episódio programático envolvendo Jesus na sinagoga de Nazaré, em sua primeira manifestação pública entre os seus parentes e conterrâneos. Ao invés de “discurso programático”, é preferível chamar de “episódio programático”, já que o discurso propriamente dito foi muito curto, embora tenha gerado um sério conflito, ao qual o evangelista dá bastante relevância. O texto para hoje – Lucas 4,21-30 – começa com o mesmo versículo que tinha encerrado no domingo passado: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabaste de ouvir” (v. 21). Ora, o que hoje se cumpriu foi a passagem de Isaías 61,1-2a que Jesus tinha acabado de ler: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor”. A autoapresentação de Jesus como profeta e cumprimento das promessas e profecias do Antigo Testamento causou surpresa e espanto entre os seus conterrâneos, como se vê na sequência do texto.

Conforme já recordamos no domingo passado, essa não foi a primeira manifestação pública de Jesus, mas a primeira em Nazaré, e a primeira registrada pelo evangelista Lucas. Antes desse episódio, a fama de Jesus já tinha se espalhado pela Galileia (cf. Lc 4,14), o que prova que seu ministério já estava em andamento. Porém, ele ainda não tinha pregado em Nazaré, a aldeia onde tinha se criado (cf. Lc 4,16). Tendo sua fama se espalhado por toda a Galileia (cf. Lc 4,14), obviamente tinham chegado notícias a seu respeito também a Nazaré, gerando curiosidade e expectativa entre os seus familiares e conterrâneos. Por isso, a primeira reação dos devotos judeus de Nazaré, frequentadores da sinagoga, foi de admiração, como mostra o texto: “Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boa. E diziam: “não é este o filho de José?” (v. 22). Certamente, essa admiração estava acompanhada de uma boa dose de desconfiança, sobretudo por causa da ousadia de Jesus, ao aplicar a profecia de Isaías à sua própria pessoa e missão; também pelo corte na leitura, uma vez que ele não leu o trecho do texto profético que anuncia um dia de vingança da parte de Deus, o que é incompatível com a promoção da justiça e da libertação plena que ele veio trazer.

O questionamento espantoso – “não é este o filho de José?” – mostra que os conterrâneos de Jesus não viam nele as características do Messias que esperavam: um guerreiro libertador, promotor da luta armada para expulsar os romanos e reconstruir o reino davídico. Como filho de José, ele não deveria passar de carpinteiro, como o pai, segundo a mentalidade conservadoras dos habitantes de Nazaré. Conforme a cultura semita, o filho deveria procurar imitar o pai ao máximo possível. Embora sedentos de libertação, os nazarenos absorveram a ideologia do poder dominante: não acreditavam na força transformadora e libertadora dos pequenos; esperam que a libertação viesse de fora, quando na verdade está dentro de cada um e cada uma que se sente portador do “Espírito do Senhor”, como Jesus (cf. Lc 4,18-19 = Is 61,1-2); os nazarenos se comportam como cegos que não querem enxergar e cativos que não querem se libertar. Como estavam no ambiente cultual, a sinagoga, esperavam que Jesus, pregando, reforçasse os dogmas e tradições daquela religião, que exigisse mais fidelidade aos preceitos da lei, que fizesse ameaças e exigências morais, como faziam os demais pregadores do seu tempo. Pelo contrário, Jesus não fez nada disso; apenas anunciou um mundo novo, propôs transformações urgentes, para “hoje” (cf. Lc 4,21), sintetizadas nas imagens da profecia de Isaías: cegos recuperando a vista e oprimidos sendo libertados; nesse mundo novo, proposto por Jesus, os protagonistas não são os poderosos, mas os pequenos que se deixam conduzir pela força transformadora do Espírito: os pobres, cativos, cegos e oprimidos, como síntese dos destinatários preferenciais do Evangelho.

Percebendo que na admiração dos seus conterrâneos estava também a desconfiança, o próprio Jesus se antecipa e revela a reprovação deles, como mostra Lucas: “Jesus, porém, disse: “Sem dúvidas, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum” (v. 23). Mais uma vez, o evangelista deixa claro que Jesus já tinha começado seu ministério antes de ir a Nazaré, inclusive fazendo sinais e milagres em Cafarnaum, cidade por quem os habitantes de Nazaré alimentavam uma certa rivalidade. Ora, Cafarnaum estava localizada às margens do mar (lago) da Galileia, era uma cidade comercial pela qual transitavam pessoas de diversas origens, consideradas impuras; era uma cidade aberta ao paganismo, algo inconcebível para a população conservadora de Nazaré. Jesus conhecia essa situação e percebeu que seus conterrâneos não aceitavam que ele realizasse sinais em uma cidade de costumes tão pouco dogmáticos. Por isso, denuncia a cegueira e prisão ideológica em que viviam seus conterrâneos, os mais necessitados do seu anúncio libertador, embora não reconhecessem.

O evangelista torna o episódio paradigmático e programático em todos os sentidos: toda a dinâmica da vida de Jesus é resumida e antecipada aqui; inclusive, o uso do provérbio “médico, cura a ti mesmo”, é uma antecipação do escárnio que Jesus sofrerá na cruz: “salva-te a ti mesmo” (Lc 23,37-39). Das tradições de Israel, a que Jesus reivindicava constantemente para si é a tradição profética; as tradições da lei, que serviam somente como instrumento de dominação da elite sacerdotal de Jerusalém, ele as contestará com veemência, ao longo de seu ministério. Toda a sua vida pública se alinhará aos profetas que, incansavelmente, anunciaram um mundo novo, denunciando tudo o que impedia a sua plena realização, principalmente as injustiças sociais e a hipocrisia religiosa. É claro que, mesmo absorvendo a tradição profética de Israel, Jesus faz um filtro dessa tradição: acolhe em sua vida a mensagem de esperança, o espírito de denúncia das injustiças, mas rejeita o desejo de vingança, conforme se percebe pelo trecho ignorado por ele em Isaías, que prometia uma vingança de Deus sobre os inimigos (cf. Is 61,2b), como recordamos domingo passado. Aos inimigos, Jesus recomenda o amor e a prática do bem (cf. Mt 5,44).

Se o ponto de partida para o conflito com seus conterrâneos foi a leitura de Isaías 61,1-2, seja por reivindicar o cumprimento em sua vida, seja por omitir o anúncio da vingança de Deus, Jesus aprofunda ainda mais esse conflito com os exemplos dos profetas Elias e Eliseu: “De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel, no entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”. (vv. 25-27). Com esses dois exemplos, Jesus mostra que a palavra e a ação de Deus não são posses de um povo ou de um grupo, mas que seu amor é universal. A viúva de Sarepta, favorecida por Elias com a multiplicação da farinha e do azeite e pela ressurreição do seu filho (cf. 1 Rs 17), é uma prova de que o critério para o amor de Deus não é a religiosidade da pessoa, mas a necessidade e abertura para acolher os seus dons. Da mesma forma, o exemplo de Naamã (2 Rs 5), um leproso, chefe do exército do rei de Aram, reino inimigo de Israel; esse leproso foi curado por Eliseu, o profeta sucessor de Elias. São dois exemplos muito significativos, que enriquecem toda a teologia de Lucas e esclarece, antecipadamente as opções de Jesus: o exemplo da viúva e do leproso, ambos favorecidos pela atuação de Elias e Eliseu, resume a opção preferencial de Jesus pelos pobres e oprimidos, de quem as viúvas e os leprosos são representantes modelos.

Ainda a respeito dos profetas citados, é necessário fazer mais algumas considerações. Elias foi o profeta mais respeitado e venerado pelo povo judeu. Foi o mais zeloso em relação ao monoteísmo e à fidelidade ao Deus único e libertador; no entanto, não aprisionou esse Deus nos esquemas da religião; o levou também para fora dos limites de Israel. Seu sucessor, Eliseu, também não negou o amor libertador de Deus a quem era visto como inimigo do seu povo. Com esses dois exemplos, Jesus anuncia a tônica da sua mensagem: a Boa Nova não conhece limites, não é propriedade de nenhuma pessoa, de nenhum um grupo e de nenhuma instituição religiosa; é graça e dom para quem quer conhecer e receber. Essa dinâmica será mostrada de modo ainda mais claro no segundo volume da obra de Lucas – Atos dos Apóstolos – que mostrará a Palavra crescendo, se multiplicando e rompendo todas as barreiras e condicionamentos socioculturais e religiosos.

Parece que os exemplos de Elias e Eliseu foram o estopim para o conflito: “Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos” (v. 28). E. como consequência do acirramento dos ânimos, os nazarenos frequentadores da sinagoga partiram para a ação violenta: “Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício” (v. 29). Quer dizer que a rejeição foi completa, total; não expulsaram apenas da sinagoga, mas da cidade e, tudo isso, em dia de sábado (cf. Lc 4,16). Assim, o evangelista denuncia os perigos do fundamentalismo religioso de todos os tempos. Com uma mentalidade fechada em tradições e preceitos, os judeus de Nazaré repudiaram a proposta libertadora de Jesus. Nessa cena, o evangelista projeta a paixão, que acontecerá em Jerusalém; inclusive “inventa”, propositadamente, um monte para Nazaré, sendo que ela estava numa planície; o objetivo é teológico, para compará-la com Jerusalém e fazer uma prefiguração da paixão: Jesus será condenado pelos chefes religiosos de Israel, num monte, fora da cidade. Podemos dizer que nesse episódio o evangelista transforma a pequena Nazaré numa miniatura de Jerusalém, e o conflito de Jesus com os seus habitantes em uma síntese de todo ministério de Jesus. O principal acento, no entanto, está nos responsáveis: pessoas religiosas, extremamente zelosas, fiéis observantes dos pormenores da lei. Se ao invés de ter lido um texto profético e interpretado em perspectiva libertadora, como Jesus fez, e tivesse reforçado um dos tantos “dogmas” da religião judaica ou explorado um dos preceitos mais moralistas da Lei, a reação do auditório teria sido o aplauso, certamente.

Com o último versículo, o evangelista deixa claro que não são as forças conservadoras e opressoras que tem a última palavra; por mais perversidades que pratiquem, essas forças, representadas no texto pelos frequentadores da sinagoga de Nazaré, não conseguem deter a força da Palavra e do Espírito do Senhor que movia Jesus: “Jesus, porém, passando no meio deles, continuou o seu caminho” (v. 30). Jesus supera a primeira tentativa de assassinato da qual foi vítima, simplesmente “passando pelo meio e continuando o seu caminho”. Também superará a cartada final da classe dirigente, sacerdotes e governador (Anás/Caifás e Pilatos), com a ressurreição, para continuar “passando no meio” através da Palavra, a qual abre sempre caminhos de vida, de esperança e de libertação, temática que Lucas desenvolve com mais precisão em Atos dos Apóstolos. É assim que também hoje deve continuar fazendo a Igreja: passando pelo meio das situações de morte, denunciando as injustiças e transformando as realidades pela força do Espírito e da palavra profética da qual é portadora. Se desviar destas situações é transgredir o Evangelho. É preciso passar pelo meio, sem medo, denunciando e transformando.
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