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251. REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 1,1-4; 4,14-21– Ano C

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22.01.2022 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
251. REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 1,1-4; 4,14-21– Ano C
A partir deste terceiro domingo do tempo comum, a liturgia começa, de fato, a leitura semi-contínua do Evangelho de Lucas, como é característico do ano litúrgico C. O texto proposto para este dia – Lucas 1,1-4; 4,14-21 – contém duas partes: o prólogo do Evangelho (1,1-4) e o primeiro trecho do discurso programático de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21), inaugurando a sua vida pública e pregação. Embora separadas por três capítulos, é inegável a unidade entre as duas partes do evangelho de hoje, sobretudo no contexto do uso litúrgico. Ora, como o “Evangelho da Infância” (cf. Lc 1,5 – 2,52) e os relatos da missão de João Batista e do batismo de Jesus (cf. Lc 3) já foram lidos durante os tempos do advento e do Natal, e o episódio das tentações será lido na Quaresma (cf. Lc 4,1-13), é justo que o evangelho de hoje tenha essa composição (1,1-4; 14-21).

Lucas é o único evangelista que abre a sua obra com um prólogo literário; vale lembrar que o prólogo de João (cf. Jo 1,1-18), é exclusivamente teológico. Um prólogo é o conjunto de considerações iniciais que antecedem o texto propriamente. Literalmente, significa “antes das palavras” (em grego προλογος = prólogos) ou seja, é o que antecede o escrito, e visa anunciar o plano da obra: tema, método, destinatário e objetivos, de forma breve e objetiva. Era um elemento fundamental na literatura greco-romana da antiguidade. Lucas escreve seu evangelho cerca de cinquenta anos após a ressurreição de Jesus, quando já não havia mais nenhum apóstolo vivo, as testemunhas autênticas dos acontecimentos narrados. Ele reconhece não ser o primeiro a escrever sobre Jesus: “Muitas pessoas já tentarem escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra” (1,1-2). Além das tradições orais que circulavam nas comunidades, nessa época já haviam sido escritos o Evangelho segundo Marcos, mais concentrado nas ações de Jesus, e um outro, de origem desconhecida, mais focado nas palavras de Jesus, denominado pelos estudiosos de “Fonte Q”, ambos utilizados por Mateus e por Lucas.  

Lucas não se dá por satisfeito com o material existente escrito por outros, e resolve também escrever o seu: “Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo” (1,3). Como bom conhecedor das necessidades do seu tempo e dos seus leitores futuros, ele reconhece a necessidade de apresentar um escrito mais consistente, organizado e ordenado, não para contrapor, mas para reforçar o que já era utilizado na catequese das suas comunidades, personificadas pelo desconhecido destinatário Teófilo. Certamente, novas dúvidas surgiam a respeito de Jesus. O que era anunciado nas comunidades, embora sólido, pois fora transmitido pelos apóstolos, as “testemunhas oculares”, já não era mais suficiente. Era necessário, por isso, uma mensagem mais consistente para Teófilo “verificar a solidez dos ensinamentos que havia recebido” (1,4). É isso o que motiva Lucas a escrever a sua obra; a maior prova da sua consistência é a continuidade em Atos dos Apóstolos: não bastava dizer como Jesus viveu e o que ele fez, mas também mostrar como as primeiras comunidades viveram a sua mensagem após a ressurreição e ascensão.

A propósito de Teófilo, muito tem se discutido a seu respeito; devido ao uso da forma de tratamento “excelentíssimo ou ilustre” (em grego: κράτιστος – kratistos), cogitou-se que Teófilo fosse um alto funcionário do império romano, convertido ao cristianismo. Essa posição continua sendo defendida pela maioria dos estudiosos, até hoje, embora não haja unanimidade. Considerando o nome “Teófilo” (em grego: Θεόφιλος – Theófilos), cujo significado é “amigo de Deus” em grego, um número também considerável de estudiosos defende que se trata de um personagem fictício, no qual o evangelista projeta o leitor ideal da sua obra, ao mesmo tempo em que faz uma crítica velada à filosofia, tão difusa no mundo greco-romano. Ora, filosofia significa “amor ou amizade à sabedoria, ao saber”, e filósofo (em grego: φιλόσοφος = filósofo) significa “amigo da sabedoria”. A verdadeira e necessária amizade para Lucas, portanto, não é com a sabedora grega, tão difundida na época, mas com o Deus revelado em Jesus. Por isso, o objetivo principal de sua obra é que cada leitor e leitora se tornem autênticos(a) “Teófilos”, ou seja, amigos(a) de Deus.

Na segunda parte do evangelho de hoje, nós temos a inauguração solene do ministério de Jesus na sinagoga de Nazaré, em dia de sábado. Mas, antes disso, o evangelho nos oferece outras informações bastante importantes, como a declaração de que “Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito” (4,14a). Ora, no batismo, Jesus fora confirmado como portador do Espírito Santo (cf. 3,21-22); o mesmo Espírito pelo qual fora concebido no ventre de Maria (cf. 1,35); após o batismo, fora conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde foi tentado pelo diabo (cf. 4,1-13). Foi, portanto, do deserto, após as tentações, que Jesus voltou para a Galileia, a região mais empobrecida e explorada de Israel, onde tinha se criado, e onde inicia sua vida pública. O mais importante aqui, para o evangelista, é mostrar que tudo o que Jesus faz e para onde vai, é motivado pelo Espírito Santo. Quando o Espírito Santo faz de uma pessoa o seu ninho, toda a vida dessa pessoa será conduzida pelo Espírito e, consequentemente, seu agir será genuinamente libertador. De todos os evangelistas, Lucas é o que mostra essa dinâmica com mais clareza, no Evangelho com Jesus, e em Atos com a comunidade cristã.

É importante recordar que, como mostra o texto de hoje, embora o episódio da sinagoga de Nazaré seja o primeiro descrito após o batismo e as tentações, essa não foi a primeira pregação pública de Jesus, pois diz o evangelista que sua fama já tinha se espalhado: “e sua fama espalhou-se por toda a redondeza” (4,14b), pois “Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam” (4,15). De fato, os outros evangelhos sinóticos relatam uma ida de Jesus a Nazaré, com pregação na sinagoga, já no auge do seu ministério na Galileia. Logo, Lucas localiza esse episódio logo no início do ministério de Jesus por interesses teológicos e literários, com a finalidade de transformá-lo na introdução programática da vida pública. Mas, considerando que Jesus já foi pregar na sinagoga de Nazaré já no auge de seu ministério, é natural que essa pregação tenha sido esperada com bastante expectativa, até porque era lá onde viviam seus parentes e pessoas mais conhecidas. Portanto, eram grandes a expectativa e a responsabilidade.

Assim, diz o texto que “Ele veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura” (4,16). O sábado era o dia de culto por excelência, para o povo judeu, aliás, continua sendo. O culto na sinagoga acontecia logo pela manhã, pois era grande a ânsia do judeu para escutar a Lei, os Profetas e receber as bênçãos de Deus. Porém, o dia santo para o seu povo, será o dia preferido de Jesus para criar polêmicas com o seus conterrâneos e irmãos de religião, como mostram os evangelhos e, em especial, esse, como veremos na liturgia do próximo domingo, no qual será lida a continuação do episódio (cf. 4,21-30). O evangelista faz questão de mostrar Jesus iniciando sua pregação “na sinagoga em dia de sábado”, como também farão os seus discípulos-missionários em Atos dos Apóstolos (cf. At 13,14; 17,1-2; etc). Porém, é na sinagoga, o lugar de culto, onde a sua mensagem será mais rejeitada, conforme acontecerá também com os discípulos-missionários em Atos dos Apóstolos. Assim, o evangelista confirma Israel como destinatário primeiro da salvação, ao mesmo tempo em que justifica a abertura aos pagãos: Israel, ou seja, os judeus, majoritariamente, rejeitam, se fecham à Boa Nova de Jesus.

O culto da sinagoga iniciava com a proclamação do “Shemá” (“Escuta, ó Israel: Iahweh nosso Deus...” cf. Dt 6,4), a oração do povo de Israel, por excelência, e depois era feita a leitura de um texto da Lei, o ponto alto da liturgia e, em seguida, lia-se um texto dos profetas e se fazia uma pequena homilia. Embora a estrutura fosse fixa, o seu desenvolvimento era bastante flexível: para a leitura dos textos proféticos e a homilia, priorizava-se pessoas de fora ou filhos da terra que moravam longe, e que se encontravam no povoado de passagem; isso se dava, sobretudo, nos pequenos povoados, onde a população era mais rude e carente de novidades, como Nazaré, por exemplo; após o homilia, o pregador podia até perguntar se alguém na assembleia teria algo a acrescentar (cf. At 13,15). Até então, Jesus era um filho ilustre: sua fama tinha se espalhado (cf. 4,14), mas os seus conterrâneos nazarenos ainda não conheciam sua pregação.

Como, certamente, havia muita expectativa entre os conterrâneos e parentes de Jesus para ouvi-lo, deram-lhe a oportunidade de fazer a leitura e a pregação naquele sábado: “Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor” (4,17-19). O texto citado por Lucas como lido por Jesus é Isaías 61,1-2a, um anúncio de salvação e consolo ao povo recém-libertado do cativeiro da Babilônia. O primeiro objetivo do evangelista, aqui, é apresentar Jesus como cumprimento e intérprete autêntico das Escrituras. À luz das Sagradas Escrituras, Jesus confirma sua vocação e missão de ungido, o messias de Deus para libertar definitivamente o seu povo. É importante perceber até onde o evangelista mostra a leitura de Jesus: ele não lê a passagem completa do texto profético! Depois do anúncio “do ano da graça do Senhor”, o profeta anuncia o “dia da vingança de Deus” (Is 61,2b). O Deus que Jesus veio revelar é somente amor, compaixão, justiça e misericórdia!

O evangelista deixa claro que a Boa Nova de Jesus está em continuidade com o anúncio de libertação feito pelos antigos profetas de Israel, mas com sinal claro de ruptura. O segundo objetivo é apresentar, de modo sintético, o programa de Jesus: o que ele veio anunciar e quais são os seus destinatários primeiros. Assim, o evangelista alerta sua comunidade a não perder de vista esse aspecto: os primeiros destinatários da mensagem de Jesus são os pobres, os prisioneiros, os cegos e os oprimidos; essa lista representa os marginalizados e necessitados de um modo geral. Ao longo da história, obviamente, esse elenco de categorias de pessoas é ampliado, à medida em que outras categorias de pobres e excluídos são geradas. É  a essas pessoas que a comunidade cristã deve olhar e dar atenção, em primeiro lugar. E a prioridade a essas pessoas é o critério de verificação se uma comunidade eclesial é fiel ou não ao programa de Jesus. Ora, a mensagem de Jesus comporta mudanças radicais, enfatizadas no texto pelas imagens da “libertação dos cativos e recuperação da vista aos cegos”; por isso, não é uma doutrina, nem um conjunto de fórmulas, ritos e normas, mas um programa de vida que comporta ações transformadoras.

O evangelista Lucas valoriza muito os pequenos detalhes e gestos de seus personagens, sobretudo de Jesus, através dos quais enriquece a sua teologia. Por isso, observa que, “Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele” (4,20). Sentar-se, nesse contexto, é o gesto de quem tem autoridade para ensinar. O gesto de fechar o livro é explicado pelo versículo seguinte, quando começa a pregação: “Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (4,21); significa que a Escritura se cumpriu, o Antigo Testamento se concluiu e, de agora em diante, a comunidade cristã tem um único horizonte: Jesus e o seu Evangelho. Surpreende a brevidade da pregação de Jesus: ele não inventa nada, apenas mostra a Escritura se tornando vida. A partir da Escritura, mostrou as situações concretas da vida que precisam de transformação, e se a Escritura não for instrumento de libertação, não sentido a sua existência.

É para Jesus que a comunidade deve olhar, ou seja, deve orientar-se somente pela sua mensagem. O “hoje”, termo tão caro para Lucas, significa a urgência do Reino de Deus e da salvação que esse comporta. “Os pobres, cativos, cegos e oprimidos” não podem mais esperar. É necessário, portanto, “fixar os olhos” atentamente em Jesus, ou seja, tê-lo como única fonte de vida, configurar-se a ele e ser também sinal e instrumento de “libertação” e “recuperação de vista” para os “pobres, cativos, cegos e oprimidos” de hoje e de sempre.
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