228. Renovação

“Onde estiver o vosso tesouro,
aí estará também o vosso coração” (Mt 6,21)
“É preciso ofertar o amor mais sincero,
o sorriso mais puro e o olhar mais fraterno”
(Thiago Brado)
Nos últimos meses, fomos tomados por uma grande estranheza. A notícia de que um vírus ameaçava a vida humana foi paulatinamente tornando-se assunto na mesa, no local de trabalho e nos noticiários. Em pouco tempo, já não se falava em outra coisa que não o COVID-19. O que antes parecia um problema da China havia chegado ao nosso país, pois a pandemia estava instalada no mundo inteiro.
Movidos pelo desejo de proteção da vida e de manutenção da saúde, fatos normais do cotidiano como encontrar os amigos para comer juntos, saudar alguém com um abraço afetuoso, ou dar aquele aperto de mão passaram a não ser interditados. Tudo para evitar a disseminação do vírus, cujo grau de propagação se dá em escala geométrica.
A rotina das pessoas no mundo inteiro foi transformada. Reinventamos o modo de trabalhar, estudar e rezar. As infindáveis reuniões que exigiam nossa presença foram se tornando dispensáveis ou realizadas no sofá de nossas casas com o auxílio das inúmeras ferramentas virtuais.
Os professores, que antes repudiavam o uso dos celulares nas aulas, viram-se obrigados a ceder à tecnologia e a realizar seus cursos por meio dos “infernais” aparelhos tecnológicos. Até mesmo nosso modo de rezar mudou. Com os templos fechados para as celebrações, tivemos de redescobrir que cada um é igreja, templo vivo do Espírito Santo. Algumas pessoas, que nem sabiam o nome do vizinho, ofereceram-se para fazer serviços, como compras nos supermercados, para preservar os mais vulneráveis: velhos, doentes e outras pessoas do grupo de risco. As sacadas dos prédios tornaram-se palanques de artistas anônimos que buscam, com seus dons, alegrar e manter a esperança em tempos tão incertos.
Externamente e organizacionalmente tudo mudou. Mas a pergunta que merece reflexão é: e internamente, como essa situação reverberou em mim, em nós, na comunidade humana? Será que o distanciamento social me alertou para a importância da presença do outro? O impedimento de abraçar terá me recordado o quanto é grandioso receber o carinho por meio de um abraço? A impossibilidade de ir ao templo fazer minhas orações e encontrar a minha comunidade paroquial me despertou para a necessidade de me fazer mais presente e comprometido com ela?
Esses são alguns dos questionamentos que devem ser feitos por cada um de nós. É preciso perceber que o momento pelo qual passamos apresenta-se, acima de tudo, como um convite à transformação do nosso modo de viver. Seria uma tragédia humana maior que a pandemia sair dessa situação do mesmo modo que antes; não é razoável viver tudo isso e retomar a vida no ponto em que ela foi interrompida pelo acometimento da covid-19. É chegada a hora de redescobrir aquilo que realmente é importante em nossas vidas. Tenho esperança que a pandemia sirva para nos ensinar a valorizar aquilo tem real valor para nós, aquilo que deve ocupar os espaços mais sagrados do nosso coração, aquilo que é nosso tesouro. Parece que o costume de higienizar as mãos ficará incorporado na rotina pós-pandemia. Juntamente com ele, quem sabe incorporamos o hábito salutar de faxinar o íntimo de nós mesmos? Alimento a utopia de um mundo mais fraterno; é só esperança, mas não custa sonhar. A crise vivida agora não nos ensinará que a vida de um está implicada na vida do outro? Não nos fará ver que promover o bem de todos é também investimento nos projetos pessoais? O nosso coração é grande, cabe muita coisa, mas nem tudo merece habitar nele; pequenas limpezas diárias podem evitar a propagação do vírus do egoísmo e da avareza. É hora de reinventar nosso modo de vida. Esse modelo de humanidade em que “cada um cuida de si” está falido. Está faltando é coragem para decretar sua falência e pagar aos pobres a dívida social que lhes foi imputada. Com um pouco de coragem e ousadia, dá para a gente se aventurar em outros modelos de humanidade.
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