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82. Em memória dos santos inocentes, num país que assassina crianças

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29.12.2020 | 3 minutos de leitura
Felipe Magalhães Francisco
Diversos
82. Em memória dos santos inocentes, num país que assassina crianças
Narra o Evangelho de Mateus a fuga da Família de Nazaré para o Egito, por ocasião da perseguição do rei Herodes ao prometido Rei dos Judeus. Depois que os magos do Oriente foram ao palácio - lugar até então óbvio onde deveria estar um futuro rei - Herodes, vendo seu poder sob risco, coloca-se a perseguir e matar todos os recém-nascidos e os menores de dois anos: tentou arrancar aquilo que era sua ameaça pela raiz (cf. Mt 216). Essa narrativa é o que chamamos de história exemplar: um recurso literário, muito comum na literatura judaica, que visa, por meio de um causo, retomar tradições antigas importantes, ressignificando-as.

O recém-nascido Jesus, sob os cuidados de Maria e José, foi exilado de sua própria terra, para não ser morto. Há duas histórias do Antigo Testamento que podemos perceber, inscritas por trás dessa narrativa: a de José do Egito, que havia sido deixado por seus irmãos para morrer, e que acabou sendo levado para ser escravo, depois tornando-se motivo de salvação para os hebreus; e a história de Moisés que, para não ser morto também num genocídio, havia sido deixado numa cesta por sua mãe, no rio, a fim de que fosse salvo. Moisés foi o braço de Deus, para a libertação dos hebreus da escravidão do Egito, além de ter sido o responsável por muito contribuir para o nascimento da identidade daquele povo. O recém-nascido Jesus, aos olhos do evangelista Mateus, é o novo José e, mais simbólico ainda, o novo Moisés: \"Do Egito chamei meu filho\" (Os 11,1).

A família de Jesus pôde fugir (literariamente, fundamental para a continuidade da história) da perseguição. Segundo a narrativa, um sem número de outras famílias não puderam. O dia 28 de dezembro, no calendário litúrgico católico, é dedicado à memória destes santos inocentes, assassinados pelo apego ao poder dos poderosos, que se ameaçam até pela fragilidade das crianças. São contados como mártires: inocentes, não tiveram suas vidas poupadas; acabaram por contribuir para o cumprimento da história da salvação, ao expor a crueldade do poder.

No Brasil, todos os anos a história exemplar narrada por Mateus toma forma tragicamente. A fracassada guerra ao tráfico condena à morte crianças, muitas vezes atingidas enquanto brincavam. As chamadas \"balas-perdidas\", infelizmente, sempre têm destino: pobres e pretos, jovens e crianças. É a força do Estado a serviço da morte: um Estado que é sempre mínimo para os pobres e favelados; muitas vezes, bem menor que o mínimo. Uma bala de fuzil capaz de assinar, de uma vez só vez, duas crianças que faziam aquilo que deviam, brincar, num país onde o governo atua para facilitar a importação de armas e munição, mas que odeia a educação e a cultura.

São inocentes que têm a vida roubada. E, por vida, compreendemos não apenas a capacidade de respirar. São, também, todas as potencialidades; são histórias abruptamente interrompidas. Ninguém merece ter sua vida tirada, independentemente de quantos crimes possa ter cometido. Assassinar crianças e naturalizar isso é uma crueldade que nos desumaniza a todos e todas. Um país que tem por prática corriqueira assassinar suas crianças, e privar tantas outras de uma vida digna, não tem futuro possível. É preciso destronar os Herodes; é preciso seguir a estrela que aponta para a vida. Que a memória dos santos inocentes brasileiros nos inspire a cantar, como Maria, a salvação: \"[...] derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes [...]\" (Lc 1,52).
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