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47. Judite, a viúva que salva seu povo

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07.11.2022 | 7 minutos de leitura
José Paulo Santos da Silva
Acadêmicos
47. Judite, a viúva que salva seu povo
Resumo
Esse artigo reflete e problematiza a experiência de libertação do povo israelita, por meio da ação intermediária de Judite. Legítima representante de Israel, Judite aparece como sinal de confiança e socorro de Deus. A metodologia utilizada consiste, primeiramente, em uma abordagem a respeito da legitimidade de Judite, enquanto representante de seu povo. Em seguida, buscou-se refletir acerca da ação aniquiladora de Deus para acabar a guerra. Buscou-se, então, realizar um breve mergulho em alguns autores e teóricos, que possibilitaram aprofundar ricamente os capítulos 8 e 9 do livro de Judite. Por fim, foram feitas algumas considerações sobre a ação intermediária de Judite, sobretudo como ela consegue proporcionar a liberdade de seu povo.
Palavras chaves: Guerra. Marginalizado. Liberdade. Povo. Judite.

Introdução
O presente artigo busca mostrar a personagem Judite como representante de Deus que age salvando seu povo. O foco está nos capítulos 8 e 9, localizados na segunda parte do livro em questão. Esse livro, possui um enfoque didático; não se trata de uma descrição exata de um período ou de fatos históricos. O conteúdo do livro de Judite avizinha-se muito do livro dos Juízes. Os fenômenos dessa piedosa e grandiosa judia são narrados como os feitos dos juízes maiores, os quais agiram em prol da libertação e conseguiram devolver a paz para os filhos de Israel (Jt 16,25).
Judite é uma jovem viúva protagonista do livro em questão. Seu nome significa Judia. Ela viveu em Betúlia e, por sua coragem e total confiança em Deus, conseguiu salvar o seu povo do extermínio.  Sua genealogia mostra que ela é de fato representante do povo Israelita.
Este artigo é composto de três partes. No primeiro momento, será refletido sobre a pessoa de Judite como legítima representante do povo de Israel; em seguida busca-se fazer uma abordagem sobre um Deus que aniquila a guerra, isto é, Deus que age por intermédio de Judite não permitindo que seu povo seja vítima de uma catástrofe; no terceiro ponto será pontuada a ação intermediária de Judite. Com efeito, “se, por um lado, existem forças contrárias e hostis ao povo de Deus, por outro lado, a ajuda salvífica surge através dos que a Ele se dirigem e vem como resposta à oração confiante” (AGOSTINI, sd, np).

1. Judite: legítima representante do povo de Israel.
O livro de Judite deve ser entendido como um livro de ficção, que com o passar do tempo se tornou uma história cheia de problemas. Provavelmente esse livro foi escrito em hebraico e traduzido para o grego (STORNIOLO, 1994, p. 8). Judite é apresentada como personagem principal no meio de seu livro. Uma figura feminina que fora decisiva na história. Parece que, ao se esgotar a força masculina, a força feminina aparece.
O livro pode ser dividido em duas partes. A primeira vai do capítulo 1 ao 7 e a segunda do capítulo 8 ao 16. Na primeira parte, é narrada a força bruta e masculina de Nabucodonosor e Helofernes, que chegam a ganhar algumas batalhas (LAMADRID, 2004, p. 373). Nos capítulos 8 a 16, “Judite, fortalecida por sua fé religiosa, por intermédio do uso de sua astúcia e sua beleza, ganha a guerra (LAMADRID, 2004, p. 373). No capítulo 8, desde o primeiro versículo encontramos os dados necessários acerca da biografia e do contexto da heroína. Judite mora na cidade de Betúlia, no Ocidente. Segundo Vílchez, o autor do livro de Judite se inspirou nos livros pós-exílicos, tais como Neemias, Crônicas, Esdras e outros (2006, p. 399). Judite é filha de Merari, que é da linhagem de Israel. É a mais vasta genealogia de uma mulher no Antigo Testamento, isso para lembrar que Judite é representante legítima do povo de Israel. Segundo Vílchez, ela é representante do povo proveniente do patriarca Israel-Jacó (2006, p. 397). 
Judite enfrenta a morte de seu marido, Manassés, que é da mesma tribo de Judá. O autor de Judite se detém na pessoa e na história dela, expondo detalhes expressivos. Ela é uma pessoa singular: viúva, jovem, exemplar, formosa e rica (VÍLCHEZ 2006, p. 397). Storniolo enfatiza que o nome Judite é um detalhe que comprova a relação dessa heroína com seu povo (1994, p. 47). 
Judite era viúva há três anos e quatro meses, ou seja, 40 meses, um número certamente simbólico (VÍLCHEZ, 2006, p. 401). A viúva em Israel era tida como fraca e marginalizada, sem voz para reivindicar seus direitos, sobretudo quando ela não tinha ao seu lado um filho (STORNIOLO, 1994, p. 47). A lei deuteronomista elenca quatro tipos de pessoas consideradas fracas e pobres: a viúva, o órfão, o estrangeiro e o levita peregrino (STORNIOLO, 1997, p. 47). Judite representa “a fragilidade do povo, mas também a confiança diante do poder e da força de Deus” (LAMADRID, 2004, p. 378). 

2. Um Deus que aniquila a guerra
Situada no ano 587 aC, reinado de Nabucodonosor, Judite enfrenta, juntamente com seu povo, uma grande opressão e cancela um eminente massacre, mostrando esperança, amparo e coragem ao seu povo. Nabucodonosor planejara dominar a terra de todo Ocidente e contava com Holofernes nessa empreitada.
O desfecho que se segue mostra a fúria de Holofernes contra a porção de Israel localizada na montanha de Betúlia. Por decisão de Ozias, Israel não fizera um acordo de paz. Holofernes prepara uma cilada cercando Betúlia com seus soldados, especialmente a fonte que abastecia a cidade. Sem água e sem alimento, à beira de uma catástrofe, os israelitas se voltaram contra Ozias. Ozias responde colocando Deus à prova, alegando que, se em cinco dias não tivessem o auxílio de Deus, eles se entregariam.
Ao saber de tudo isso, que se passara em Betúlia, Judite toma a decisão de agir por conta própria. A autoridade moral de Judite é reconhecida e respeitada por todos, chefes e povo. O próprio Ozías reconhece dizendo que “desde o princípio de teus dias, todo o povo reconheceu a tua inteligência e o teu bom coração” (8,29). A confiança incontestável de Judite em Deus faz com que ela se coloque à disposição, correndo o perigo de perder sua honra. Nesta segunda parte do livro, nos deparamos com dois tipos de fé. Temos de um lado a fé “dos chefes do povo, que tentam a Deus exigindo-lhe uma intervenção extraordinária num prazo determinado de cinco dias, e a de Judite, que espera confiantemente na misericórdia e ajuda do Senhor” (VÍLCHEZ, 2006, p. 405).
Três momentos norteiam a ação de Judite em sua casa, dentro dos muros de Betúlia. No primeiro momento (8,9-10), Judite convoca os chefes de Betúlia; em seguida, encontra-se com os chefes de Betúlia (8,11-36) e, no terceiro, faz uma oração a Deus (9,1-14) (VÍLCHEZ, 2006, p. 405). Desses momentos, dois encontros aconteceram com os chefes de Betúlia (8,11-36) e um encontro se deu com Deus na oração (9,1-14). Este último é o centro e o mais importante. No encontro com os chefes Judite age com uma postura de autoridade, pois está imbuída do espírito de um povo que crê fielmente no Deus da aliança e espera dele a salvação (VÍLCHEZ, 2006, p. 408).
O autor coloca na boca de Judite um discurso teológico sobre a transcendência divina e a liberdade imperante de seus intentos em face da pequenez do homem. Quatro cenas se dividem nessa perícope.
Na primeira, Judite repreende os chefes de Betúlia por serem temerários e ignorarem o mistério de Deus (8,11-27); na segunda, Ozias responde, justificando-se (8,28-31); na terceira, Judite anuncia misteriosamente uma ação memorável (8,32-34); finalmente, Ozias e os chefes dão sua aprovação ao plano de Judite e se retiram para seus postos (8,35-36) (VÍLCHEZ, 2006, p. 405). 
O autor sagrado coloca na boca de Judite uma linguagem direta com a qual ela se dirige aos chefes de Betúlia em tom recriminatório. Judite repreende severamente as autoridades de Betúlia por colocarem Deus à prova, fazendo de Deus alguém igual ou inferior a eles (v. 12). A teologia que sobressai da boca de Judite é de que “o poder e a misericórdia do Senhor se sustentam em si mesmos, não no que Deus faça ou deixe de fazer com relação a nós e à história em geral” (VÍLCHEZ, 2006, p. 413). Segundo Vílchez, para Judite a atitude certeira que deve ser tomada diante de Deus é a de esperança confiante. Uma esperança que é paciente pois Deus é aquele que ouve a voz, os gritos, os gemidos dos corações sofredores.
Ozias responde, justificando-se (8,28-31). Ele reconhece a prudência, sabedoria e bondade de Judite (vv. 28-29), mas tenta justificar o modo de proceder dos chefes da cidade (v. 30), uma vez que ele é o chefe supremo de Betúlia. Por fim, exorta Judite a ser a intermediária entre o Senhor e o seu povo (v. 31). A ajuda que Ozias esperava era uma esperança limitada e oposta à ação realizada posteriormente por Judite. Ao perceber a impotência de Ozias, a heroína assume a responsabilidade de salvar o seu povo (8,32-34), isto é, em meio à dificuldade expressada pelos homens de Betúlia, Judite, uma mulher viúva e jovem, utiliza-se de suas armas e talentos, de seu valor e confiança em Deus, para libertar seu povo do massacre.

3. Ação intermediária de Judite
Judite promete empreender uma ação sem igual. Seu plano acontece com umas atividades secretas e outras não. O primeiro passo não é secreto; Judite dando ordens à liderança de Betúlia: “Vós, as autoridades da cidade, ficareis à porta, dentro da cidade e ao abrigo de suas muralhas” (VÍLCHEZ, 2006, p. 421). É notório que o perigo ficará apenas com Judite e sua serva. A fé em seu plano é tamanha que Judite afirma sem hesitar que o Senhor, por sua mão, socorrerá Israel. Fica uma grande tensão na cidade por não saber o que Judite realizará, fazendo o texto adotar um tom de suspense.
Ozias e os chefes aprovam a ordem de Judite e se retiram (8, 35-36). “Ozias e os chefes disseram-lhe: ‘Vai em paz! Que o Senhor Deus esteja diante de ti para vingança dos nossos inimigos’” (v. 35). E, deixando o aposento, foram para seus postos (v. 36). Todos os chefes demonstram certa veneração à mulher corajosa que enfrentará o perigo em nome de sua fé. Após a saída de Ozias e dos outros chefes da cidade, Judite se prostra em oração. mostrando uma clara relação de intimidade com Deus. A oração de Judite ocupa o lugar central de seu projeto.
O ritual da oração de Judite é propício para fazer súplica esperando pela resposta. A atitude de Judite é de humilhação diante de Deus, de penitência: “cinza na cabeça, pano de saco, prostração” (STORNIOLO, 1994, p. 59). Judite se esvazia de si mesma para que Deus possa agir. Ela inicia sua prece fazendo memória de seu passado (9,2-4); confessa que apenas Deus é o Senhor da história (9, 5-6) e derruba a arrogância imperialista (9,7). Judite faz sua súplica (9,8-10), após recuperar o nome de Deus como o verdadeiro Senhor, dizendo qual é seu pedido: não é desejo de vingança, mas de justiça. 
O motivo do pedido de Judite remete à atitude de profanação do Templo por parte do império. Se o povo é obediente e demonstra respeito à Lei, Deus permanece com sua gente e luta a favor dela, mas, se o povo desobedece e profana seu nome Deus, Deus o entregará à destruição 
A confissão de fé (9, 9-10) vai de encontro ao poder imperialista. Judite “reconhece que seu Deus é o Deus dos pobres e dos fracos” (STORNIOLO, 1994, p. 61). Deus é a força de todos os pobres e fracos, de todos os tempos e lugares, o Deus que age, que luta pelo seu povo. Por fim, o que Judite pretende testemunhar é que o Deus de Israel é o único Deus verdadeiro. Sua oração dá voz a todo o povo de Deus que luta pela justiça em vista da libertação e da vida (STORNIOLO, 1994, p. 62).
No que se segue da narração desta novela, relata-se que Judite vence Holofernes (10,11-13,10a); ela e sua criada voltam a Betúlia (13,10b-11); depois Judite projeta a destruição do inimigo de Israel (13,12-16. 20) e, ao final, fica claro o destino de Judite (16,21-25). O desfecho mostra que Deus é quem vence a guerra, é ele quem luta e vence a batalha;  ele domina todo o povo. 

Conclusão
Diante desta novela, nos deparamos com uma dramática narrativa que tem o intuito de mostrar que o Deus de Israel é, de fato, um Deus que cumpre sua promessa, que luta com seu povo. Deparamo-nos com a pessoa de Judite, uma viúva, frágil, marginalizada, porém, formosa, sedutora e respeitada por todos. A figura de Judite é simbólica. Ela “personifica a resistência macabaica contra o domínio selêucida de Antíoco Epífanes” (STORNIOLO, 1994, p. 48). 
Judite, viúva e sem filhos, personifica o sofrimento do povo, aparentemente abandonado por seu Senhor Iahweh (Is 49 e 54). Além de mostrar a face crítica e profética do livro diante dos chefes religiosos de Israel, o livro faz crítica ao isolamento que aparenta caracterizar a corrente que se descobre em Es 9,1-2 e Ne 9,2; 13,1-3 (LAMADRID, 2004, p. 377). O livro exorta os fiéis “a resistir, a rezar e confiar em Deus, recordando o passado” (LAMADRID, 2004, p. 378).



Bibliografia
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
FUCHS Werner. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, , 2003.
LAMADRID, A. González; SANTIAGO, J. Campos; JULIÁN, V. Pastor; PUERTO, M. Navarro; ASURMENDI, J; SÁNCHEZ CARO, J. M.. História, Narrativa, Apocalíptica. Trad: José Joaquim Sobral. São Paulo, Ave-Maria, 2004.
AGOSTINI, Leonardo. Livros Históricos. In Teológica Latino Americana. Disponível em: http://theologicalatinoamericana.com/?p=1435. Acesso dia 09 de Novembro de 2019.
SALA, Francesc. El Mundo del Antigo Testamento. Espanha: Editora Verbo Divino, 2012.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Livro de Judite. São Paulo: Paulus, 1994.
VÍLCHEZ LÍNDEZ, José. Tobias e Judite. Trad: Pedro Lima Vasconcellos. São Paulo, Paulinas, 2006.