Evangelho DominicalVersículos Bíblicos
 
 
 
 
 

48. Entre a continuidade e a ruptura: o discernimento na Sagrada Escritura

Ler do Início
27.03.2023 | 20 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Acadêmicos
48. Entre a continuidade e a ruptura: o discernimento na Sagrada Escritura
Na dúvida, fique do lado dos pobres
(Pedro Casaldáliga)

Em vários idiomas antigos, a capacidade de distinguir entre o bem e o mal ou entre a verdade e a mentira, entre a novidade que se apresenta sedutora e a conservação das tradições que dão segurança, foi comumente chamada de discernimento. O discernimento é aquela faculdade de ter clareza do que é certo ou errado, do que promove a vida e o que a maltrata, do que se deve fazer e o que deve ser evitado. Tarefa difícil essa quando sabemos que nenhum de nós é plasmado somente de luz ou de trevas e que ninguém possui a verdade; desta apenas nos aproximamos, pois na sua grandeza ela sempre nos escapa.
A consciência da fratura humana já levou muitos artistas a compor canções, pintar obras de arte, criar filmes e escrever poemas. O poeta brasileiro Ferreira Goulart escreveu: “uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira” . No hiato entre a ponderação e o desatino, vivemos. Equilibramo-nos no fio invisível do juízo, cercado de precipícios infinitos que nos causam vertigens. 
Quanto mais se sabe preso nas teias das contradições humanas e quanto mais se tem clareza das prisões da contingência, mais se torna fundamental o ato de discernir os caminhos para se viver uma vida autêntica. Não é à toa que o apóstolo Paulo, que admite não fazer o bem que queria e sim o mal que abominava (Rm 7,15), afirmou que o discernimento é um dom do Espírito (1Cor 12,8-10). Sem uma graça que nos transcenda, vivemos como crianças ao sabor das ondas de qualquer modismo que nos chega pelas janelas da TV, do smartfone e do computador (Ef 4,14), ou nos enrijecemos em posições obtusas, que não aceitam ventilação. Sem perceber, nos embrenhamos como Teseu no labirinto do Minotauro, e arriscamos a nunca sair de lá pois nos falta o fio de Ariadne.  
Um fio de fé, um fio de esperança, um fio de amor. É o que o Espírito nos oferece como sinal do amor apaixonado de Jesus pela humanidade. Sua oferta não é uma corda forte e grossa que atraca o nosso barco no porto da doutrina cristã e nos impede de navegar livres sobre as águas do mundo; também não é um brilhante farol que torna clarividente o cais do porto da moral, dispensando o exercício da consciência. Um Deus apaixonado nos criou livres e para a liberdade (2Cor 3,17; Gl 5,1). No mar da liberdade navegamos; é ela o nosso horizonte de possibilidade. 
O papa Francisco, na Evangelii Gaudium fala de aprender a “saborear o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de estarmos centrados em nós mesmos, escondidos em uma aparência religiosa vazia de Deus” (EG 97), um perigo que a todos os crentes ameaça. Daí a necessidade de cultivar uma sagacidade que perpasse os âmbitos da sabedoria e se desemboque no exercício do discernimento. O discernimento é fundamental, pois os seguidores de Jesus não se guiam por certezas dogmáticas ou por interditos morais, mas pelas inumeráveis dúvidas que os interpelam e os mantém abertos à ação do Espírito do Mestre. É isto que a fé cristã nos oferece no percurso da vida: uma chama que ainda fumega e nos alumia o caminho da existência, ou um caniço rachado que nos serve de apoio diante do peso do mundo (Is 42,3). Dotados de razão e sensibilidade, somos capazes de discernir entre o bem e o mal, e basta isso para que o labirinto da vida não seja o lugar da morte, mas sim da vitória da vida. 
Desse modo, porque nem tudo que reluz é ouro, é preciso distinguir os espíritos (1Jo 4,1) e ser capaz de perceber por onde passeia a vida e onde campeia a morte (Jr 21,8). É preciso escolher entre a água e o fogo (Eclo 15,17) ou entre a bênção e a maldição (Dt 30,19). É importante optar entre se tornar um sábio ou um ímpio (Sl 1), entre construir a casa sobre a areia ou edificá-la sobre a rocha (Mt 7,24-27), entre enveredar-se pela porta estreita ou aventurar-se pela porta larga (Mt 7,13-14). É necessário saber o que queremos: cultivar o bem ou semear o mal (1Ts 5,21), abrir-se para o novo do Espírito ou fechar-se de forma obtusa sobre as antigas seguranças. 
Cada decisão, cada caminho escolhido, terá consequências para a própria vida e para o bem comum, para a paz universal ou para o império da violência, para a felicidade de todos ou para o conforto cômodo de alguns poucos. Pelo discernimento, somos capazes não só de ver mais além, de perceber o que se encontra atrás dos muros, mas também de abrir mão de vantagens e privilégios para a efetivação de um bem maior. Por meio dele, Deus nos guia no projeto da construção do Reino anunciado por seu Filho Jesus.

1. O discernimento e seus correlatos
O verbo discernir e o substantivo discernimento aparecem raras vezes na Escritura, mas sua prática é uma constante entre o povo que a escreveu. Seus correlatos, porém, marcam presença forte nos textos sagrados. 

1.1 O discernimento
Do latim discernere, o verbo discernir significa separar, dividir, distribuir; distinguir, perceber. É composto por “dis”, que tem o sentido de separação, dispersão, dissipação, negação e oposição, e de cernere, que deriva da raiz krei, cujo significado é “peneirar” e de onde também derivou a palavra “critério”. Assim, discernir equivale a ter critérios para separar o bem do mal, para distinguir os sinais da vida dos rastros da morte.
No grego, discernir vem do verbo διακρίνω (diakríno). É resultado da junção entre o prefixo διά (diá), que significa “através” mas também pode ser utilizado para dar intensidade, e o verbo κρινω (krino), que significa “julgar” mas também pode ser usado no sentido positivo de “descriminar” ou no sentido negativo de “julgar demasiadamente ou vacilar”. Portanto, διακρίνω significa literalmente “separar por completo ou totalmente”. 
Encontramos dezoito ocorrências do verbo διακρίνω (diakrino) no Novo Testamento, apesar de nem todas terem o sentido de discernir. Em algumas, διακρίνω significa também distinguir, duvidar, hesitar, julgar, confrontar ou lutar contra algo. Eis as ocorrências: Mt 16,3; Mt 21,21; Mc 11,23; At 10,20; At 11,2; At 11,12; At 15,9; 1Cor 4,7; 6,5; 11,29; 11,31; 14,29; Rm 4,20; 14,23; Jd 1,9; 1,22; Tg 1,6, sendo que, nessa última, o verbo aparece duas vezes. A mais famosa delas encontrasse em Mt 16,3: “Sabei, pois, discernir muito bem os aspectos do céu, mas não reconheceis os sinais dos tempos”. Quanto ao substantivo διάκρισις (diákrisis) tem três ocorrências no Novo Testamento: Rm 14,1; 1Cor 12,10 e Hb 5,14.
No Antigo Testamento, o termo que normalmente é traduzido do hebraico por discernir pode advir de várias raízes distintas. A primeira refere-se a shaphat, que significa “julgar”, ou seja, decidir especificamente uma controvérsia, distinguir questões civis, políticas, domésticas e religiosas entre pessoas em conflito (cf. Ez 34,20). Discernir pode vir também da raiz nakar, que significa “tomar conhecimento por observação”, mas pode ser traduzido também por reconhecer, distinguir ou examinar. Exemplos podem ser encontrados em Esd 3,13; Sl 19,13; Jó 4,16. Uma terceira possibilidade é a raiz shama\', que significa “ouvir”, mas que pode significar discernir quando tem o sentido de “dar atenção”, de “considerar com atenção”. Nesse caso, ele aparece em 2Sm 14,17. A quarta possibilidade é sakal, que significa “agir sabiamente”, empregado em Gn 3,6, no episódio do fruto da árvore proibida. Por fim, discernir pode vir da raiz bin, cujo sentido é “ser prudente”, empregado em 1Rs 3,9.11; 1Sm 3,8 e Dt 32,29.
Como se vê, o verbo discernir não tem significação única, mas transita no campo do conhecimento existencial, abrangendo desde a capacidade de duvidar e ouvir, até a capacidade de distinguir o bem do mal, e de tomar decisões a partir dessa clareza. Daí a importância de conhecermos um pouco os seus correlatos.

1.2 A sabedoria 
Do latim sapere, literalmente “o que tem sabor”, a sabedoria está atrelada à sagacidade ou à sapiência que dá sabor à vida. Assim, pode tanto ser considerada uma habilidade intelectual, um acúmulo de saberes, ou uma capacidade de viver uma vida com sabor, que a localizaria mais no âmbito existencial. 
Em hebraico, a palavra mais comum para designar sabedoria é hokma.  A princípio, o termo diz respeito a um tipo de habilidade, perícia ou destreza necessária para a realização de atividades específicas. Normalmente refere-se à capacidade ímpar de artistas, artesãos, tecelões, marinheiros, administradores e de outros trabalhadores, cujos ofícios exigem um saber-fazer que nem todos conseguem alcançar.
Da arte do saber-fazer, hokma migrou para a arte de saber-viver. No livro dos Provérbios, o termo indica a habilidade necessária para conduzir a vida em conformidade com as normas divinas, encaixando-se no funcionamento harmônico da criação. O contrário da sabedoria é a insensatez, atitude que prejudica a vida e promove o caos. Aíla Pinheiro Andrade define hokma como 
O esforço para colocar ordem na vida do ser humano em sua busca de autocompreensão em relação com as coisas, com as pessoas e com o Criador. Trata-se da sabedoria em sentido prático, tendo por objetivo a sobrevivência humana e seu bem-estar. É um conhecimento que vem da experiência existencial sobre o que rege a vida e o universo (ANDRADE, 2017).
Com o tempo, a sabedoria passou a ser compreendida como a arte de discernir os caminhos, de distinguir o bem do mal, que nem sempre são tão distintos. A expressão migrou do campo semântico do trabalho para o campo da vivência. Passou a significar a arte de enxergar além dos fatos corriqueiros, descobrindo as razões que os sustentam e as consequências nas quais podem desembocar. Por enxergar por trás dos bastidores, ultrapassando as cortinas do óbvio, o sábio toma decisões acertadas quando é posto diante de escolhas. A sabedoria lhe confere intuições preciosas, uma sagacidade positiva ou uma santa esperteza, que lhe permite discernir os caminhos da vida dos atalhos da morte.

1.3 O entendimento
O verbo sakal é comumente traduzido para o português como ser prudente, ser circunspecto, compreender sabiamente, considerar, ponderar ou ter um insight. É a qualidade principal dos sábios e daqueles que têm o ofício de ensinar. Apesar de essa ser uma qualidade dos mestres, no Sl 119,99 encontramos a afirmação que a pessoa que medita a Lei do Senhor tem mais entendimento que os mestres. Assim, o entendimento deixa de ser um atributo natural para se circunscrever no campo religioso, tornando-se uma qualidade daqueles que se esforçam por considerar com atenção e zelo a palavra de Deus.
O entendimento é dito sobre aqueles que têm estratégias, que sabem arquitetar planos e achar caminhos viáveis para executá-los. Essa qualidade se mostra em Davi, que, no embate contra os filisteus, obtém a vitória, apesar de seu exército ser bem menos numeroso e poderoso que o do rei oponente. Devido às estratégias de guerra que lhe eram inatas (1Sm 18,30), Davi ganhou notabilidade e se tornou temido pelo rei Saul (1Sm 18,14-15), seu antecessor e opositor. O entendimento, quando comparado aos bens materiais, tem superioridade. Nenhuma riqueza deixada como herança tem valor inestimável quando colocada ao seu lado (Pr 19,1). 
O substantivo sêkel se refere ao bom entendimento das coisas, à perspicácia. Trata-se da capacidade de considerar uma situação de modo a ser bem-sucedido, como também da capacidade de aprender e de ensinar, por isso é exigida daqueles que desejam entender e explicar as Escrituras (Ne 8,8), assim como dos governantes que devem atuar de acordo com a Lei de Deus (1Cr 22,12; 2Cr 2,12). 
O termo é usado também para descrever Abigail, a esposa de um homem rude (1Sm 25,3). Abigail soube lidar com o exército de Davi, evitando o massacre de sua gente, que teria sido provocado pelas palavras ofensivas de Nabal, seu marido. Dela se diz que é tôbat-sêkel, boa de entendimento, cujo entendimento supera o do estrategista Davi. O entendimento se aproxima do discernimento quando uma boa compreensão das reais possibilidades da vida leva a distinguir os desafios e a enfrentá-los com estratégias bem calculadas.

1.4 A inteligência 
Bynah ou inteligência é um substantivo feminino. Sua significação mais básica é a habilidade da mente e das mãos para construir algo. Tem a mesma raiz do verbo utilizado para falar da construção de edifícios.. As construções na Antiguidade exigiam muito planejamento, logo era uma ciência que se pautava sobre a inteligência. Era preciso considerar cuidadosamente o clima, o tipo de terreno de pedras, os cálculos matemáticos etc. Construir era um exercício de grande inteligência. 
Algumas vezes o Antigo Testamento traz o par sêkel ûbynah (entendimento e inteligência). A expressão aparece em 1Cr 22,12, quando Davi decide que Salomão reinará em seu lugar e pede a Deus que dê ao seu filho, o novo rei, entendimento e inteligência para que ele possa reinar sobre Israel de acordo com a Lei do Senhor. Também em 2Cr 2,11, o rei de Tiro saúda Salomão como alguém que tem entendimento e inteligência. Entendimento, porque Salomão é um estrategista, sabe comprar e vender; é um exímio comerciante. E inteligência, porque Salomão é o idealizador da construção do Templo. 
Bynah, no entanto, não se encontra apenas no campo da construção, mas também no campo da arte, que geralmente dizia respeito à escultura e aos trabalhos artesanais com metais e madeira, o que exigia sensibilidade e percepção apurada. Como, para os hebreus, a inteligência reside no coração (Jó 38,36), sensibilidade e inteligência não são atributos distantes. É nesse sentido que Deus diz a Jó que não adianta tentar ter inteligência para o sofrimento ou para compreender o mal no mundo. Para entrar na dinâmica do mistério do mal, Jó precisaria de uma inteligência sensível; precisaria contemplar a grandeza do Criador no universo que ele próprio construiu (Jó 38,4). Se a sabedoria é louvada pelos escritores sagrados, a inteligência também tem seu lugar reconhecido. A sabedoria é melhor que o ouro, mas a inteligência é melhor que a prata (Pr 16,16).
Desse modo, a inteligência se aproxima do discernimento. Para discernir os caminhos a seguir, é preciso penetrar nos mistérios de Deus inscritos na história e especialmente na vida humana. Sem inteligência emocional, sem capacidade de empatia e sem sensibilidade para o belo e o nobre, o discernimento tombará comprometido. Estará reduzido a cálculos matemáticos frios e desumanos que regem a economia e o mercado. Será automatizado por lógicas de algoritmos que decifram os gostos e as preferências de um consumidor sem rosto. Discernir é ação que exige uma inteligência sensível e não o acúmulo de informações sobre um tema.

1.5 O bom senso 
Em hebraico, o bom senso é ṭa‛am, um substantivo feminino com a conotação de comportamento, no sentido de ser discreto, ter sanidade mental, autodomínio e equilíbrio. O contrário do bom senso é a insensatez, a loucura, a falta de juízo e a perda do domínio de si.
Em 1Sm 25,33, Davi diz para Abigail: “Bendito seja teu bom senso”, pois Davi se revelou centrado, de posse de seu juízo perfeito. O salmista pede a Deus que lhe ensine o bom senso e o conhecimento, pois ele crê nos mandamentos divinos (Sl 119,66). Assim, o bom senso se aproxima da fé; dos que creem se espera um perfeito juízo e não uma cabeça maluca e tresloucada.
No Novo Testamento, ter bom senso é dito com o verbo sofronéo, que é formado por duas palavras: sōos, que quer dizer “segurar”, e phrēn, que significa “o que regula a vida”. Logo, ter bom senso significa segurar o equilíbrio da vida sem jamais perdê-lo. A palavra “diafragma” tem a mesma raiz de phrēn. Um cantor de ópera, por exemplo, controla a duração de seus tons pelo diafragma e é pelo diafragma também que se pode controlar a respiração e até mesmo os batimentos cardíacos. Como a respiração é regulada pelo diafragma e isso traz segurança ao corpo, do mesmo modo o bom senso regula a psique e dá estabilidade ao indivíduo. 
 Assim, o verbo sofronéo tem o sentido de ter a mente sóbria, ser sóbrio, estar com a mente sã, ser sensato, estar em sã consciência, estar no exercício do autocontrole, ter o controle de si mesmo e de seus desejos e suas paixões. O termo reflete o verdadeiro equilíbrio e dele deriva o substantivo feminino sofrosyne, que é usado para dizer do estado de sanidade mental, do autocontrole, da sobriedade. 
Do possesso que foi libertado de uma legião por Jesus, diz-se que ele recuperou o bom senso. Em vez de insano, agitado e perambulando por lugares ermos, o ex-endemoninhado estava sentado e vestido (Mc 5,15). O mesmo termo foi usado em Lc 8,35, no paralelo da narrativa marcana. O autor da Carta a Tito pede que os jovens sejam exortados a ter bom senso (Tt 2,6) e a Primeira Carta de Pedro pede que seus leitores tenham bom senso, pois aproxima-se o fim dos tempos (1Pd 4,7). E ainda, diante de Festo, Paulo faz sua defesa afirmando que não está louco, mas diz palavras de bom senso e verdade (At 26,25).
Como se pode ver, o discernimento tem parentesco também com o bom senso. Uma pessoa sem bom senso não tem o domínio de si para discernir os fatos. Ela está afetada por um turbilhão de tormentos que não permitem que enxergue os fatos com clareza, muito menos perscrute os mistérios da vida. Toda pessoa passional, sem razoabilidade ou equilíbrio emocional, está impedida de ver com clareza; tropeça em suas paixões e escorrega no discernimento. 

2. Um caso exemplar: At 10,1–11,18 

Tendo conhecido um pouco da origem e do uso dos termos discernir e discernimento, e tendo feito rápido passeio por seus correlatos, resta agora investigar um caso exemplar no qual o discernimento é a chave mestra do relato. Tomemos a trama que envolve Pedro e o centurião Cornélio como possível paradigma do discernimento cristão. Apesar de a palavra discernimento não ser frequente no vocabulário da narrativa, pois tem uma única aparição em At 10,20, esse é um dos textos mais paradigmáticos do Novo Testamento a esse respeito. Só depois de muito sofrimento e do obrigatório discernimento dos caminhos a tomar, a comunidade cristã pode experimentar a paz do respeito e do amor fraterno. 

2.1 Movidos pelas exigências da história
Era o primeiro século da era cristã e os seguidores de Jesus se espalhavam por todo canto anunciando a boa nova do Crucificado-Ressuscitado. A princípio, formada apenas de cristãos de origem judaica, a comunidade seguia com dificuldades por causa de perseguições vindas de Roma e também do judaísmo, mas sem maiores embates internos. Esses começaram quando a palavra da salvação chegou também aos gentios. Considerados impuros e, por isso, impossibilitados do convívio com os judeus, os gentios convertidos à fé cristã encontraram barreiras para sua admissão nas comunidades nascentes. A mentalidade judaica, fortemente arraigada nas comunidades das origens, impedia a convivência fraterna entre os cristãos de origem judaica e os recém-convertidos das mais diversas origens. Tudo ficava ainda mais difícil por causa da ceia eucarística, a refeição fraterna dos crentes para fazer memória do mistério do Senhor e atualizar sua presença. Estava posto o problema da comensalidade entre os cristãos de origem judaica e os cristãos advindos do mundo pagão. 
Para mostrar os caminhos do discernimento, Lucas escreveu a perícope de Pedro na casa de Cornélio, texto também conhecido como conversão de Cornélio (At 10,1–11,18), mas que seria bem melhor nomeado se fosse chamado de conversão de Pedro. Numa descrição didática, Lucas mostra aos seus leitores que é preciso discernir os caminhos da história, sem se agarrar ingenuamente a costumes e práticas milenares, sem se deixar convencer por velhas convicções. O caminho do discernimento levou a bom termo a comunidade cristã, mas não foi fácil dar os primeiros passos. Só a muito custo, os gentios foram aceitos nas comunidades e, enfim, todos puderam se sentar juntos para comer juntos e celebrar a partilha da vida (COMBLIN, 1988, p. 194).
Assegurados pela legislação da Torá e confortáveis no espaço religioso que discriminava os gentios, os judeus não tomaram a iniciativa de romper com as barreiras que impediam os pagãos de ter livre acesso à fé cristã, em pé de igualdade com eles. Segundo Lucas, foi preciso que o Espírito do Senhor agisse. Foi ele quem impeliu os próprios gentios a lutarem por seus direitos e também foi ele quem moveu os judeus para sair da mesmice e ver a vida e os outros povos com bons olhos. Essa saída da zona de conforto para a inquietude própria da fé é descrita no episódio do encontro de Pedro e Cornélio.

2.2 A iniciativa de Deus
Observam-se, na narrativa, dois movimentos distintos de Deus na história: em Cornélio, o gentio, e em Pedro, um dos líderes da comunidade nascente.
2.2.1 Fora da Igreja (At 10,1-8)
Tudo começa com Cornélio, um centurião romano que deseja ardentemente conhecer a fé cristã. Cornélio não faz parte da comunidade cristã ainda; encontra-se fora dos muros da ecclesia.  É no mínimo curioso que Lucas começa seu relato mostrando a ação divina fora dos ambientes eclesiais. Para o autor de Atos, antes mesmo de Deus agir na comunidade de fé, ele age no mundo. É no mundo que ele se encontra; é nele que sua ação salvífica acontece, ação que a Igreja apenas reconhece e difunde, mas da qual não é proprietária.
Cornélio é apresentado como um homem religioso e temente a Deus; ou seja, um gentio que – apesar de não estar sujeito à Torá, pois não recebeu a circuncisão – revela traços de uma piedade admirável (v. 2). Sua fé é descrita por meio da prática das esmolas e pela oração constante (v. 3). Um incircunciso no corpo, mas circunciso no coração, assim era Cornélio. Sua fé e sua piedade suplantam a de muitos judeus. Pouco a pouco, de forma didática, Lucas ajuda seu leitor a perceber como a ação divina não está circunscrita nas delimitações da ecclesia e muito menos nas definições legais da mesma. De fora para dentro, o Espírito obriga a comunidade a se repensar, pois coloca em xeque suas convicções e aponta caminhos do bem que antes não eram reconhecidos. O Deus da liberdade age livremente, sem a permissão dos crentes; não se deixa encapsular em definições dogmáticas nem em práticas e conceitos milenarmente formulados.
Lucas descreve Cornélio em atitude de oração. Certo dia, lá pelas três da tarde – uma das horas litúrgicas em que o judeu fazia suas preces –, Cornélio teve uma visão e contemplou um anjo do Senhor que o chamava pelo nome (v. 3). O anjo do Senhor na Sagrada Escritura representa o próprio Deus, uma vez que, na cultura judaica, não se pode ver Deus ou a morte é certa. Interpelado por Deus pelo nome, Cornélio ocupa o lugar daqueles que Deus ama e conhece (v. 3). Intrigado com o chamado, prontamente responde: “Que há, Senhor?” (v. 4). No diálogo que segue, o mensageiro divino diz a Cornélio que Deus ouviu suas preces e que suas esmolas foram reconhecidas como agradável ao Senhor (v. 50, coisa nem sempre certeira na cultura bíblica, pois Deus podia abominar preces, cultos e oferendas, caso não se alinhassem ao comportamento ético exigido pela fé (Is 1,13-17).  
Na aparição do anjo a Cornélio, vê-se mais uma vez a ação livre de Deus, que não admite ser controlado por regras religiosas. Sendo o gentio um impuro, entendia-se que Deus, o santo, não teria comunicação com ele. Em vez de confirmar as práticas discriminatórias dos gentios em nome da fé, Lucas provoca um discernimento. Faz pensar: Como é possível um gentio ser tão piedoso e temente a Deus se Deus não estiver com ele? Por que Deus entraria em comunhão com um gentio se esse fosse abominável aos olhos divinos? Ou Deus perdeu o juízo ou a compreensão da ação divina havia se tornado obsoleta e precisava ser repensada.
O anjo deu ao centurião uma ordem: mandar alguns homens a Jope, cidade vizinha, onde se encontrava Pedro, na casa de Simão o curtidor (v. 5-6). Depois disso, o anjo partiu (v. 7). Cornélio fez conforme lhe fora dito e mandou seus empregados mais piedosos a Jope para falar com Pedro (v. 7-8). Na obediência decidida de Cornélio, o texto aponta para a boa disposição do coração humano, o sacrário onde Deus habita. Não importa se judeu ou gentio, vale mais a capacidade de acolher a ação divina no movimento da consciência que obedecer a regras e leis caducas que não cooperam para o bem de todos. Fica desde o começo da perícope uma certeza: ninguém controla a ação divina e ela se dá num movimento de dentro para fora que dispensa os estereótipos religiosos. A comunidade cristã não tem a prerrogativa da verdade nem o monopólio do bem. Assim, será preciso discernir os caminhos para bem responder ao apelo de Deus.
2.2.2 Dentro da Igreja (At 10,9-16)
A narrativa começa com Pedro, um importante líder da comunidade cristã. Ele estava rezando em Jope, na casa de um tal Simão, o curtidor. A casa de Simão representa a ecclessia, o lugar dos convocados pelo Senhor. Conta Lucas que Pedro, subiu para o segundo andar (v. 9) e, ao meio dia, faminto, viu uma coisa estranha descer do céu, cheia de toda espécie de quadrúpedes, répteis e aves (v. 11-12). A palavra usada para descrever esse pano, toalha ou lençol – como aparece nas traduções mais conhecidas – remete o leitor à vela de um barco. Os animais aí encontrados têm a mesma classificação dos reunidos por Noé na sua arca. Na escolha da palavra para designar o pano que desce do céu e para indicar a variedade de animais, Lucas já aponta para a universalidade da salvação, estendida a toda a face da terra, a todos os povos de todas as nações. A comunidade cristã, como a arca de Noé, não é lugar somente de puros, mas de todos.
Depois de ver o pano descer, Pedro escutou uma voz que ele distinguiu como divina (v. 13). A voz o incitava a sacrificar ou imolar um animal e comer. Como sabido, não era permitido imolar animais fora do Templo. Toda vida deveria ser devolvida a Deus num ritual próprio realizado por pessoas autorizadas. A tradução do verbo grego por “matar”, como normalmente aparece nas traduções, elimina essa nuance sacrificial, mas originalmente o que Pedro devia fazer é uma infração litúrgica. Em nome da fome, deveria romper com a prescrição judaica de ir ao Templo adquirir uma carne pura para o consumo. A liturgia e suas exigências são colocadas sob a custódia do bem-viver.
Pedro reagiu negativamente, pondo obstáculo à voz (v. 14). Estava tão preso a ritos e prescrições legais que não foi capaz de discernir naquela visão a necessária superação de costumes já antiquados, nem nenhuma conexão com a vida. Foi preciso que a voz insistisse três vezes, ordenando àquele obstinado coração que se rendesse ao novo de Deus (v. 15-16). A ordem reiterada três vezes simboliza que o que fora dito não teria volta, mesmo com toda argumentação petrina em nome da tradição. Pedro é colocado como antítese de Cornélio pois recusou-se a obedecer a voz de Deus, enquanto que o centurião não resistiu à ordem recebida. Apesar de discernir a voz de Deus, Pedro não foi capaz de dar passos concretos, pois suas consequências poderiam ser pesadas. O discernimento encontra barreiras práticas, pois as decisões têm seu preço. 

2.3 Refletir para mudar de posturas (At 10,17-23a)
Passado o susto da visão e da ordem inusitada que recebera, Pedro se pôs a matutar o que significava aquela visão (v.17). Nota-se aí a clara necessidade de a razão humana ser posta a serviço do discernimento. É preciso interpretar os sinais dos tempos, notar o que eles significam para se deixar conduzir pela moção divina.
Mal Pedro se pôs a refletir e os mensageiros de Cornélio chegaram para lhe falar (v. 17). Ainda pensando sobre os acontecidos, o Espírito lhe diz para ir com aqueles homens sem hesitar, porque eles agem a mando do mesmo Espírito (v. 19-20). A ação concomitante do Espírito em ambos – Pedro e os comissários de Cornélio – indica claramente a ação divina na história, dentro e fora dos muros da ecclesia. Pedro se abre para dialogar com os gentios quando lhes pergunta o que fazem ali e, imediatamente, em docilidade ao Espírito, acolheu os gentios na casa onde se hospedava. Esse foi o primeiro passo de sua conversão (v. 21-23a).
Nesses detalhes, Lucas insinua de antemão que Pedro se encontra no caminho da superação de seus preconceitos. Como gentios e judeus não se misturavam, a hospedagem dos enviados de Cornélio era simplesmente inconcebível. Mas, se pela ordem da voz não se podia mais chamar de impuro o que Deus purificou, sob o benefício da dúvida acerca da pureza, os enviados ganharam hospedagem (v. 23a). 
Aparece no texto, uma indicação de que a experiência religiosa não é absoluta em si mesma. Ela, apesar de importante, está sujeita à reflexão e à hermenêutica (v.17.19). Não basta ter visto o pano descer do céu com os animais e ter escutado a voz de Deus dizendo que não há mais animais impuros. Mais importante é compreender o que isso significa, é dar-se conta de quais são as atitudes a que essa experiência de Deus leva e quais são suas consequências na história concreta da Igreja e da humanidade. A necessidade do discernimento prossegue. Ainda há muito a compreender, a perscrutar, a conhecer...

2.4 Dialogar para entrar em comunhão (At 10,23b-33)
No dia seguinte, Pedro e os enviados rumaram para Cesaréia, onde residia Cornélio (v. 23b). Com o líder cristão foi uma delegação para testemunhar os possíveis acontecimentos em terra de gentios (v. 23b). Ao chegar em Cesaréia, Pedro sinalizou que entraria na casa do centurião (v. 25a). No entanto, Cornélio – consciente dos interditos impostos aos judeus acerca do convívio com os pagãos – foi ao seu encontro e tentou impedi-lo (v. 25b). Cornélio se prostrou diante de Pedro reconhecendo que ele era um enviado de Deus (v. 25b). Pedro recusou a deferência (v. 26); não quer privilégios, não aceita culto à sua pessoa, atitude que serviria apenas para a afirmação narcísica de sua figura diante do espelho dos olhos de seu admirador. 
Porque, como diria Libanio, “a aceitação e o reconhecimento se exercitam em experiências concretas de vida em grupo” (2002, p. 74), em vez de lugar de privilégio Pedro ocupou o lugar de interlocutor de um diálogo fecundo que se desenrolou com Cornélio (v. 27). Pedro entrou na casa do incircunciso, afinal o anjo foi seu precursor sinalizando que era preciso superar essa visão separatista (At 10,3). Em seguida, se põe a falar sobre suas dificuldades de superação, afinal estava impregnado de uma certeza inamovível de que um judeu não deve relacionar-se com os gentios (v. 28a). Mas suas certezas foram abaladas depois da visão que tivera (v. 28). Da pureza dos animais que fora declarada pela voz, o líder cristão passou à pureza das pessoa (v. 28). Foi preciso um longo caminho hermenêutico para se chegar a esse ponto. A voz que ele ouvira nada dissera sobre a pureza dos incircuncisos, mas Pedro se arriscou a ir mais além do que vira e ouvira. Fica posta a certeza que a reflexão feita ainda na casa de Simão, o curtidor, surtira efeito. A experiência religiosa do segundo andar da casa fez Pedro fincar os pés na história, em vez de deixar sua cabeça no mundo celestial. Olhos e voz atentos aos sinais de Deus resultam em abertura para a história e na capacidade de encarnação dos desafios postos por ela. Pedro passou no primeiro teste do discernimento, mas ainda havia um longo caminho a percorrer pois os preconceitos e as convicções equivocadas não são superados de supetão: exigem tempo para degustar a ação divina e digerir as suas consequências. 
Porque “a escuta é um encontro de liberdades, que exige humildade, paciência, disponibilidade para compreender, compromisso de elaborar respostas de modo novo” (SÍNODO DOS BISPOS, n. 6), era preciso dar vozes as duas partes. Cornélio relatou a visão que tivera e se mostrou pronto – ele e todos os seus – para ouvir o que Pedro tinha para lhes anunciar (v. 30-33). Na fecundidade desse diálogo, o discernimento avançou mais um passo. E a palavra foi dada a Pedro. 

2.5 O discurso de Pedro (At 10,34-43)
Com a assembleia pronta para a escuta, Pedro tomou a palavra para dar seu recado. Logo de início, foi avisando que estava mudando seu modo de pensar e que estava em processo de êxodo (v. 34-35). O líder cristão migrava de uma compreensão da circuncisão como uma marca externa, na carne, para a compreensão de circuncisão como uma atitude de vida, uma marca nas entranhas do coração. 
Em seguida, Pedro anunciou o querígma, uma espécie de mini-evangelho que vai desde o batismo de Jesus até sua ressureição, conforme apresentado no Evangelho de Marcos. É bom reparar que Pedro não pregou doutrinas, nem normas morais, nem preceitos litúrgicos. Anunciou o Cristo, sua vida, paixão, morte e ressurreição (v. 36-43). É ele o núcleo duro da fé, pois ninguém se torna cristão em contato com leis e preceitos, mas no encontro pessoal com Jesus Cristo. Como afirmou o papa Bento XVI, na sua Carta Encíclica Deus caritas est, “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas através do encontro com um acontecimento, com uma pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” (DCE, 12). Carlos Palácio, teólogo jesuíta, insiste que a essência do cristianismo não é uma doutrina nem um conjunto de regras, mas uma pessoa: Jesus Cristo, diante de quem tudo é decidido (PALACIO, 1994, p. 132). Ou como escreveu Libanio, outro jesuíta, “este núcleo kerigmático tem de ser o critério dos critérios” (2000, p. 15-16). Só essa experiência do mergulho no mistério de Cristo pode ressignificar a vida dos gentios de modo a justificar a grave infração de pureza que Pedro infringira. Não seria razoável se arriscar à recriminação de seus irmãos judeus a não ser por uma causa mais do que nobre: possibilitar a experiência cristã de Deus de que os gentios se mostravam ávidos.  
Mais um passo do discernimento: é no Cristo morto e ressuscitado que se encontra a máxima luz capaz de guiar os caminhos e as decisões, e não nas formulações dogmáticas, que são sempre precárias apesar de revelarem uma compreensão possível de Deus e da fé. É no leque dessa experiência cristã de Deus que o cristão se movimento sem amarras e sem preconceitos.

2.6 O indomável Espírito de Deus (At 10-44-48)
Apesar de toda a abertura de Pedro, Lucas insiste em nos mostrar que a iniciativa da mudança é mesmo de Deus. Pelo andar da carruagem do discurso, depois de anunciar Jesus, Pedro encontraria ainda um empecilho para batizar os gentios e para acolhê-los em pé de igualdade como convocados pelo Senhor. Permaneceriam os não judeus como uma espécie de “baixos cristãos” ou cristãos de segundo escalão? Teriam eles o direito de abraçar definitivamente a fé ou essa seria uma concessão da generosidade dos judeus? Seria essa uma atitude isolada de um líder ou deveria ser regra geral na comunidade cristã? Para evitar esses equívocos, o Espírito entra em ação mais uma vez.
Pedro ainda falava, diz Lucas, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que escutavam o anúncio (v. 44). Sem respeitar a autoridade de Pedro, o Espírito achou caminho para introduzir definitivamente os pagãos na eclesia. Batizou-os sem pedir permissão às autoridades eclesiais e eclesiásticas (v. 44). O batismo dos gentios não ficou sujeito à generosidade de um líder ou da bondade de uma comunidade cristã. Os direitos dos pagãos à fé foram asseverados por Deus, que ignorou completamente os interditos que foram colocados pela comunidade nascente. 
Os fiéis de origem judaica, que acompanhavam Pedro nessa aventura, ficaram pasmados, pois o Espírito fora derramado também sobre quem era de origem pagã (v. 45). Exatamente como acontecera no dia de Pentecostes (At 2,1-13), o Espírito mais uma vez superava os obstáculos das línguas levando cada qual a ouvir a palavra em sua própria língua (v. 46). Num sinal claro de que a palavra é para todos, como já ensinado pelos rabinos sobre as 70 vozes da Torá, o evangelho ou a nova Torá não aceita cercas e se expande por mundos diversos. 
Pedro não teve mais o que fazer. Poderia ele se opor à ação do Espírito que batizara os gentios sem lhes exigir a circuncisão? E, para adequar a bagunça do Espírito às práticas eclesiais, Pedro rendeu-se definitivamente e mandou batizar os gentios (v. 47-48). Não era possível mais fazer frente ao Espírito. Pedro entendeu uma vez por todas que Deus age na história e não aceita interdições impostas pela comunidade de fé. Restava a Pedro se hospedar com os novos irmãos e celebrar a festa da fraternidade (v. 48).
Os caminhos do discernimento foram completados pela ação do Espírito e não pela boa vontade humana. Não por acaso ele é dito como um dom do Espírito. A palavra definitiva da história não é da Igreja nem de seus líderes, mas do Espírito que, como o vento, não aceita gaiolas.

2.7 Os entraves dos conservadores (At 11,1-18)
Tendo se convertido a um novo modo de pensar e de ser, Pedro foi colocado no tribunal dos conservadores, que tiraram satisfação do acontecido em Cesaréia (v. 1-4). As notícias se espalharam rapidamente, mesmo sem redes sociais ou WhatsApp. Os irmãos vindos da Judéia, ao saberem da notícia, quiseram explicações (v. 1). Como Deus poderia se contradizer? Não estavam prescritas na Torá as regras de pureza? Ou Deus mudou de ideia – coisa pouco provável para os obtusos na fé – ou Pedro e sua delegação fizeram algo muito grave. O caminho do discernimento trilhado pelo líder cristão deveria também ser realizados por muitos outros irmãos. Era preciso ajudá-los a fazer o processo.
Pedro contou-lhes o que havia acontecido tim-tim por tim-tim; seu êxtase em Jope, a visão de Cornélio, a chegada da delegação, a ida a Cesaréia, sua pregação, a ação do Espírito que interrompeu os planos de Pedro (v. 4-17). Ao final, recordou a palavra de Jesus: “João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (v. 16; Lc 1,5;3,16; At 11,16). Para encerrar, Pedro não deu um parecer final. Deixou o discernimento como tarefa para seus ouvintes, lançando a pergunta que insistia em incomodar: “Se Deus concedeu a eles o mesmo dom que a nós, quem seria eu para me opor à ação de Deus?” (v. 17). Diante da força do testemunho, não foi possível ficar indiferente. Não há argumentação teológica capaz de convencer mais que a fecundidade da prática pastoral. Os fiéis de origem judaica se acalmaram, pois discerniram no acontecido na casa de Cornélio a mão invisível de Deus a conduzir a história (v. 8). Foi preciso humildade e consciência da própria pequenez para acolher a novidade de Deus. Como afirma Schiavone, “o espírito superficial, cheio de si, é incapaz de discernimento: ele se deixa fascinar pela aparência de verdade que ostentam todos os profetas da mentira e da vaidade” (SCHIAVONE. Apud SERVAIS, 2018).

3. Aprendendo com a Escritura
O autor dos Atos dos Apóstolos criou um relato muito oportuno para falar dos entraves da história e mostrar a importância de discernir os caminhos a serem tomados. Com fineza de escrita, juntou algumas tradições, selecionou as palavras, criou seus personagens... Tudo para dizer que a vida é feita de rupturas e continuidades e que, somente com bom senso e discernimento, é possível perceber por onde Deus passa, para saber se conservamos o já estabelecido ou se rumamos para águas mais profundas e arriscamos no novo. 
No mundo complexo de hoje, discernir os caminhos de Deus não é tarefa fácil. São muitas incógnitas ou variáveis intrincadas com inúmeras equações. Tal matemática não é resolvida à primeira vista como x+2=5. A sociedade atual, tão plural e multirreferencial, não oferece mais uma voz única que deva ser ouvida e seguida. Uma multiplicidade de vozes ecoa ao mesmo tempo, sem que uma se sobressaía sobre as demais. Assim, as decisões, que em outras sociedades já foram mais óbvias pois eram dadas por uma instituição hegemônica, hoje exigem a tarefa trabalhosa do discernimento. Só um sistema complexo de pensamento, que leve em conta as diversas ciências e a sabedoria da fé, pode dar conta desse desafio. Bem mais cômodo e confortável é fazer vistas grossas e tocar a vida agarrados a frágeis convicções quando o barco das certezas se espatifou. Mas não foi isso que Lucas achou mais conveniente e mais fiel ao evangelho. Mesmo sabendo que mexeria em caixa de marimbondo, o autor de Atos prosseguiu no seu intento. 
Para o autêntico exercício do discernimento, uma primeira exigência é não ignorar os apelos da história. Fingir que está tudo bem e continuar como se nada acontecesse é atitude anticristã. Lucas viu que a atitude de ignorar o problema da entrada dos gentios na comunidade cristã e de reconhecer sua cidadania não era condizente com a fé. Se alguém está oprimido, se vive descartado e se tornou um entrave para a sociedade, esse é um problema da fé cristã cuja defesa da vida tem primazia. Para o cristão, os apelos dos vulneráveis não podem ser ignorados, pois Deus é o Deus dos abandonados. Ele é o go\'el, o advogado dos vulneráveis. Ele é o libertador que não se conformou em ver o povo hebreu oprimido pelos egípcios.  
Assim, não é possível ao cristão fazer ouvidos de surdo ao apelo de multidões de empobrecidos hoje que clamam por ser acolhidos e reconhecidos, na sociedade e na Igreja. Não é coerente com a fé ficar inerte enquanto a terra arde em chamas, enquanto as matas e os mares são destruídos e as populações originárias vão se extinguindo por causa da ganância humana. Se há um problema – e há milhões deles – a primeira atitude cristã é ter olhos para ver o que acontece e ouvidos para ouvir o clamor dos sofredores. 
Quando uma pessoa de fé está atenta às exigências da história, acaba percebendo a mão de Deus nas realidades terrenas. Deus age dentro e fora da comunidade eclesial; seu Espírito não pode ser aprisionado e o mundo é o seu templo. A Igreja não possui a verdade, nem tem a palavra final sobre a vontade de Deus. Deus age no íntimo dos corações, como foi o caso de Cornélio, pois a consciência humana tem primazia, como humildemente lembra o Vaticano II: “A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem, onde ele está sozinho  com Deus e onde ressoa sua voz (...) Pela fidelidade à consciência, os cristãos se unem aos outros homens na busca da verdade e na solução justa de inúmeros problemas morais que se apresentam”(Gaudium et Spes, 16).
Se temos conhecimento da amplitude da ação divina, logo é preciso ficar atento para mapeá-la. Um pouco de reflexão pode ajudar. O discernimento não dispensa o árduo exercício da razão, o estudo, o entendimento, a ampliação de horizontes. Foi o que aconteceu com Pedro que se pôs a matutar o que significava aquela visão do pano com os animais.
No caminho do discernimento, está o diálogo: condição essencial para alargar os horizontes e ver mais além. Pedro e Cornélio entram em franca conversa, ambos dispostos a ouvir o que o outro tem para falar. Não dá para discernir os caminhos sem diálogo, sem abertura para o outro, sem o compromisso da escuta atenta e caridosa. Aqueles que são os donos da verdade não fazem discernimento. Entendem que tudo já está discernido e esclarecido à luz de um conhecimento prévio. 
Quando entramos em diálogo com o outro, quando o outro é acolhido como pessoa e não como objeto sobre o qual exercemos um juízo, então há uma fresta para o Espírito arejar as ideias e apontar novos horizontes. O indômito Espírito de Deus se manifesta fazendo pontes e mostrando a caducidade dos muros. Basta acolher o Espírito para saber de que lado Deus está na história: do lado dos fracos e excluídos, como era Cornélio e sua gente. 
Resta, depois disso, enfrentar as consequências do discernimento e ajudar os outros a também fazerem o caminho. Virão acusações, pessoas tirando satisfação de nossas atitudes, de nossas escolhas e de nossos posicionamentos. Mas é preciso confiar: o mesmo Espírito que nos tem guiado nos caminhos do discernimento há de se revelar, por força de nosso testemunho, àqueles que estão fechados em suas certezas dogmáticas. Não há nada mais fecundo que a força da práxis pastoral. Todos os entraves caem por terra quando o Espírito de Deus age. Para que os entraves interiores não se mostrem maiores que a ação do Espírito, resta rezar como Osvaldo Montenegro: “Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Pois metade de mim é o que eu grito a outra metade é silêncio” . 
Depois de todos esses passos do discernimento, se a dúvida persistir e nós ainda assim não soubermos por onde Deus passa, resta a o conselho de Pedro Casaldáliga: “Na dúvida, fique do lado dos pobres”. Esta receita é tiro e queda. Os pobres e seus direitos são o melhor farol para guiar os peregrinos nas suas decisões. Se uma decisão vai significar acolhida dos vulneráveis, proteção dos pequenos, amparo aos desvalidos, então Deus se inscreve nessa ação. 

Referências:
ANDRADE, Aíla L. Pinheiro de. Em busca da sabedoria. Disponível em: https://silo.tips/download/em-busca-da-sabedoria-aila-l-pinheiro-de-andrade-nj. Acesso dia 07 de ag. de 2010.
BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica Deus caritas est. São Paulo: Paulinas, 2001.
BÍBLIA Sagrada: tradução da CNBB. 5ed. São Paulo/Brasíla: Editora Canção Nova/CNBB, 2007.
CARMO, Solange Maria do. Jesus, boa nova universal de Deus: estudo bíblico-catequético de At 10,1-11,18. Goiânia: Scala, 2014. v. 1 e 2.
COENEN, Lothar; BEYREUTHER, Erich; BIETENHARD, Hans. Diccionario Teologico del Nuevo Testamento. Sa-lamanca: Ediciones Sigueme, 1990. v. 2.  
COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. São Paulo: Vozes/Metodista/Sinodal, 1988. v. 1.
GAUDIUM et Spes. Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II. In COMPÊNDIO do Vaticano II: constituições, decretos e declarações. 18ed. Petrópolis: Vozes, 1986.
LIBANIO, João Batista. A arte de formar-se. São Paulo: Loyola, 2002.
LIBANIO, João Batista. O discernimento espiritual revisitado. São Paulo: Loyola, 2000.
NESTLE-ALAND. Novum Testamentum graece. 28ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2013.
PALÁCIO, Carlos. A originalidade singular do cristianismo. Perspectiva Teológica, Belo horizonte, v. 26, n. 70, p. 311-339, 1994.
SERVAIS, Jacques. Reconhecer a obra de Deus: o discernimento em um livro do jesuíta Pietro Schiavone. Site IHU. 2018.Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/581167-reconhecer-a-obra-de-deus-o-discernimento-em-um-livro-do-jesuita-pietro-schiavone. Acesso dia 06 de nov. de 2020.
SÍNODO DOS BISPOS. Os jovens, a fé e o discernimento vocacional: Documento final, carta aos jovens. Disponível em: http://www.synod.va/content/synod2018/pt/documento-final-del-sinodo-dos-bispos--os-jovens--a-fe-e-o-disce.html. Acesso dia 06 de nov. de 2020.
STRONG\'S Exhaustive Concordance of the Bible. Disponível em: https://biblehub.com/strongs.htm. Acesso dia 23 de ag.de 2020.