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55. Silêncio e anonimato feminino, uma palavra sobre a importância da hermenêutica bíblica feminista

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14.05.2024 | 33 minutos de leitura
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Acadêmicos
55. Silêncio e anonimato feminino, uma palavra sobre a importância da hermenêutica bíblica feminista
Solange Maria do Carmo 
Rosana Caiafa

Introdução

A Sagrada Escritura foi gestada numa cultura patriarcal e se mostra construída por uma retórica-literária androcêntrica, que silenciou e excluiu as mulheres. Só depois de longo e tenebroso inverno eclesial, as mulheres foram enxergadas na Bíblia por outras mulheres também invisibilizadas na Igreja. O movimento bíblico-feminista, com a abordagem feminista da Bíblia, teve origem nos movimentos feministas do século XIX, que buscavam uma transformação nos campos familiar, social, cultural, político e religioso, em vista de igualdade, dignidade e liberdade da mulher. Utilizando-se do método de desconstrução e reconstrução dos textos, a Bíblia ganhou um olhar diferenciado graças à lente hermenêutica feminista. Trata-se de uma verdadeira “dança hermenêutica”, conforme elaborou Elisabeth Shüsler Fiorenza, em sua obra Em Memória Dela.
O objetivo deste texto é despertar o leitor e a leitora para a importância de um estudo hermenêutico crítico-feminista, a fim de resgatar as vozes das mulheres, silenciadas pelo poder patriarcal, e contribuir para a plena libertação das mulheres na Igreja e na sociedade contemporânea. 

1 Movimento bíblico-feminista

A fé e a religião sempre exerceram fortíssima influência sobre a família e a sociedade. Ignorar sua força é ignorar a história. Sabedor dessa realidade, o movimento social feminista alcançou a instituição eclesial, apesar de forças contrárias insistirem que as igrejas cristãs, a religião e a Bíblia deveriam ser neutralizadas por meio do desprezo e do descaso. A luta feminista não tinha tempo a perder com instituições petrificadas, diziam umas. Mas, apesar dos ventos contrários, o movimento feminista entrou nas igrejas cristãs, especialmente na Teologia Cristã, fazendo uma severa crítica à Sagrada Escritura e à Tradição, que, autorizadas por um pretenso “direito divino”, exerciam opressão e sujeição às mulheres. 
Publicações de obras feministas, como a Bíblia da Mulher, da sufragista Elisabeth Cady Staton, no final do século XIX, proporcionaram a inserção dos estudos bíblicos feministas no mundo acadêmico do século XX. Voltando-se para os textos sagrados, biblistas mulheres passaram a questionar a opressão de gênero presente nos relatos e, especialmente, na tradução e na interpretação dos mesmos. Esforçaram-se por buscar uma libertação das estruturas androcêntricas e patriarcais de dominação que, durante séculos, silenciaram e excluíram as mulheres, como ainda o fazem na atualidade. Elas, que durante muito tempo se dobraram a esse processo de subordinação nas igrejas cristãs, passaram a expressar a consciência de sua marginalização, fazendo surgir um sentimento de revolta e de indignação. 
A Alemanha, no final do século XIX e início do século XX, protagonizou o desenvolvimento da exegese histórico-crítica (STRAUMANN, 2015, p. 139). O desenvolvimento se deu inicialmente no campo protestante, enquanto que, no âmbito católico, permanecia um silêncio imposto aos seus estudiosos, realidade que só achou caminhos de mudança depois da II Guerra Mundial.
No continente latino-americano e caribenho, o movimento bíblico-feminista surgiu no final da década de 70, impulsionado pela Teologia da Libertação. Em solo fortemente marcado pela pobreza e pela violência, o movimento feminista brotou de maneira emergencial e revolucionária, na concretude das lutas populares contra as ditaduras, na libertação dos pobres e oprimidos. Juntamente a esse movimento libertador, as mulheres feministas biblistas, conscientes da opressão sofrida não apenas pela sua classe social mas em consequência do seu gênero, “se conceberam como sujeitos de produção teológica” (TAMEZ, 2015, p. 45, tradução nossa). A partir dos anos 80, por meio do trabalho intelectual de teólogas feministas, deu-se um grande florescer hermenêutico; mesmo que de forma tímida, as mulheres começaram a fazer teologia bíblica a partir de outro lugar e se engajaram em movimentos sociais e políticos. 
Neste campo de pesquisa, sobressai com grande notoriedade a teóloga católica Elisabeth Schüssler Fiorenza. Suas obras despertam a consciência crítica feminista e exercem grande influência em diversos grupos de mulheres cristãs, que buscam uma interpretação libertadora das Escrituras (SALAS, 2015, p. 180). Sua obra Em Memória Dela é reconhecida como um marco histórico na interpretação feminista da Bíblia, sendo a obra mais citada em relação à hermenêutica bíblica feminista cristã. 
Dentre as estudiosas feministas, encontram-se posturas distintas. O documento da Pontifícia Comissão Bíblica A Interpretação da Bíblia na Igreja (2009, p. 78-79) fala de três formas principais de hermenêutica bíblica realizadas pela abordagem feminista: 1) a radical, na qual há uma recusa total pela autoridade bíblica, pois entende-se que ela se encontra totalmente marcada pelo androcentrismo; 2) a neo-ortodoxa, que se debruça sobre a Escritura mas deixa-se orientar pelo “cânon no cânon”, ou seja, compreende os textos bíblicos como proféticos e libertadores dos oprimidos e, neste caso específico, libertador da mulher; 3) a crítica, utilizada para redescobrir e reconstruir o lugar das mulheres no movimento de Jesus e nas comunidades primitivas paulinas, época em que se pode falar de um “discipulado de iguais”.
Essa última se esforça para produzir uma mudança de paradigma na leitura da Escritura. Busca transformar, através da crítica e da imaginação criativa, os pressupostos disciplinares, os métodos e os discursos institucionais religiosos. Deseja redescobrir o lugar e o papel das mulheres na Escritura e, em consequência, realçar seu protagonismo nas comunidades religiosas históricas, como também nas comunidades contemporâneas (FIORENZA, 2015, p. 22).

2 Abordagem feminista da Sagrada Escritura

A Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina (1965), do Vaticano II, afirma a relação intrínseca entre a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, pois ambas derivam da mesma fonte divina. Ao afirmar a inspiração da Escritura, a constituição conciliar lembra que a ação divina se dá em pessoas concretas e em contextos específicos, e não de forma mágica ou por intervenção divina direta, como um ditado de Deus. A verdade da Escritura não se encontra em cada texto ou em informações particulares, como frases soltas, mas na mensagem salvífica veiculada ao relato. O fato de a Sagrada Escritura ter sido produzida por pessoas humanas e à maneira humana mostra claramente que ela não é uma Palavra pronta e acabada, pois a inspiração não é um ditado de Deus e sim uma moção interior que não dispensa nem rejeita a vida do autor, seus costumes, suas compreensões e os limites de sua história. Assim, é preciso investigar atentamente os relatos bíblicos, levando em consideração os contextos histórico-culturais e os gêneros literários, a fim de descobrir a verdadeira mensagem salvífica (DV 9-11).
Sabendo que a Sagrada Escritura tem autoridade de Palavra revelada por Deus, ou seja inspirada pelo Espírito Santo, em dada época a Igreja chegou a falar em inerrância bíblica, como se na Bíblia não houvesse nenhum erro, de nenhum estilo, nem erros científicos. O Vaticano II, com a Dei Verbum, veio consertar isso, lembrando que a inerrância diz respeito à mensagem da salvação consignada no texto e não ao texto em si mesmo. Diante desta realidade, surge uma pergunta: Haverá um paradoxo entre conceber a Sagrada Escritura como Palavra de Deus e em desconstruir e reconstruir os textos bíblicos permeados de uma linguagem androcêntrica e patriarcal?
As biblistas feministas, considerando que o cânon bíblico1  encontra-se vinculado à autoridade da Tradição, questionam e criticam a formação e a interpretação desse cânon, pois entendem que a seleção dos livros sofreu influência do poder patriarcal. Apesar de o cânon bíblico gozar de autoridade especial para os cristãos, é preciso admitir que, devido ao seu teor androcêntrico, ele impõe limites de interpretações e também cerceia ações libertadoras feministas, que são legítimas. Assim, algumas biblistas feministas, apesar de aceitar o cânon bíblico, ousam transgredi-lo em prol de uma conciliação das tradições bíblicas com a libertação das mulheres.
A identificação do cânon bíblico como um lugar privilegiado de autoridade divina, segundo Buell (2015, p. 319), produz resultados desiguais. Apesar de muitos textos bíblicos propiciarem uma experiência positiva na vida das pessoas e de contestar situações opressivas, muitos deles foram invocados para amparar práticas opressivas, como, por exemplo, a supremacia branca, a escravidão, a exclusão da mulher das funções de liderança, a subordinação da mulher ao homem etc.
Duas questões atravessam a proposta de um paradigma feminista de interpretação bíblica: a autoridade da Bíblia e a desconstrução/reconstrução dos contextos bíblicos cristãos. Salas (2015, p. 181) enfatiza que em diversos locais onde a religião cristã tem presença marcante, a autoridade da Bíblia tem sido usada para subalternizar as mulheres, colocando-as em um status secundário na sociedade. Situações diversas de violência exercida contra as mulheres, até mesmo hoje no presente, encontram justificativas nas Sagradas Escrituras. Então, como seria possível extrair dos textos bíblicos os fundamentos da luta da mulher por sua dignidade, pela participação nos espaços de “poder” e de tomada de decisão tanto no âmbito eclesial, como na sociedade (p. 186)?

É por isso que nos perguntamos sobre a autoridade da Bíblia. É por isso que nos aproximamos do texto bíblico e nos perguntamos sobre sua autoridade, sobre o papel que desempenhou e qual papel pode desempenhar na formação de nossas sociedades. Podemos continuar considerando a Bíblia revelada por Deus? Que tipo de autoridade ela tem? Quem ou o que dá esta autoridade são algumas das questões da hermenêutica feminista cristã (SALAS, 2015, p. 186, tradução nossa).

A leitura bíblica feminista utiliza uma lente hermenêutica própria, a fim de proporcionar uma releitura e reinterpretação dos textos bíblicos. Não se tem, é claro, a pretensão de chegar a uma verdade exata entre o que é narrado nos textos e os acontecimentos vividos na realidade, especialmente no que diz respeito ao protagonismo e à participação das mulheres (SALAS, 2015, p.182). A hermenêutica bíblica feminista não se propõe apenas a investigar a realidade por trás dos relatos, mas deseja, sobretudo, propor a emancipação das mulheres. A crítica da ideologia patriarcal gera uma nova consciência nas mulheres, mostrando-lhes que foram subjugadas pelo poder androcêntrico. Para Fiorenza, o estudo feminista não está interessado apenas em uma compreensão, através da ótica feminina, dos textos sagrados e de como eles foram utilizados para subjugar as mulheres no decorrer da história (2015, p. 12). Ele pretende principalmente analisar os poderes patriarcais da Tradição, autorizados e responsáveis pela interpretação bíblica, que geraram silenciamento e exclusão das mulheres. A abordagem interpretativa feminista da Sagrada Escritura busca bloquear a recepção predominantemente androcêntrica da história bíblica e romper as estruturas de dominação presentes nesta narrativa. 
Para a interpretação crítica feminista, a redação bíblica é uma construção retórico-literária edificada por uma sociedade patriarcal. Assim, além de os textos bíblicos terem sido escritos pelo patriarcado, eles promovem intencionalmente a prática da dominação patriarcal. Portanto, a tarefa das teólogas feministas consiste em desvendar nos textos bíblicos os artifícios literários e retóricos que contribuem para comunicar e manter a supremacia masculina, apregoada pelo patriarcalismo. A hermenêutica bíblica feminista ajuda a desconstruir e reconstruir historicamente os textos. 
Entre as décadas de 60 e 80, novas hermenêuticas críticas despontaram no cenário da academia teológica. Elas possibilitaram compreender o significado dos textos bíblicos em seu contexto histórico, a partir da análise literária e retórica2. Nesse sentido, a crítica literária (ou narrativa) feminista leva em consideração o autor com seu ponto de vista; a estrutura e o enredo do texto; o cenário e os personagens; e os termos retóricos e repetitivos. A hermenêutica crítica feminista tem contribuído para uma espécie de correção dos textos bíblicos, fazendo desabrochar tanto personagens femininas, quanto imagens femininas de Deus, antes impensáveis dentro do arcabouço patriarcal e androcêntrico. Por meio de diversas abordagens – social, cultural, étnica, confessionais etc. – a hermenêutica cristã feminista da Sagrada Escritura apresenta uma nova possibilidade de leitura dos mesmos textos tantas vezes já lidos.
Como lembra De Baufre (2015, p. 240), os textos bíblicos são mais eventos de linguagem do que um conjunto de signos. Como prática comunicativa, a linguagem faz sentido dentro de um determinado tempo e espaço; o texto encontra-se dentro de um contexto próprio e possui uma função específica. Deste modo, os textos podem ser relidos, reinterpretados e reutilizados, através de seus contextos sociais. Cientes da força que os atos da linguagem oral e escrita exercem nas realidades materiais, as teólogas bíblico-feministas insistem na importância de compreender o modo como essa linguagem patriarcal (kyriarcal) atua para manter as relações de poder patriarcal na Igreja e na sociedade.

Desde o início, as intérpretes feministas prestaram a atenção à natureza dos textos e o poder dos leitores, identificando e abordando problemas como os seguintes: 1) a natureza androcêntrica ou patriarcal (kyriarcal) dos textos bíblicos; 2) a história kyriarcal da interpretação feita pelas autoridades eclesiais, acadêmicas e sociais 3) o papel do texto bíblico na violência e dominação; 4) a exclusão da women das figuras de intérpretes autorizados da Bíblia nas comunidades religiosas e acadêmicas (DE BAUFRE, 2015, p. 240, tradução nossa).

Na visão da pesquisadora (2015, p. 242), há perguntas que são inegociáveis na leitura e estudo da Bíblia: Há uma mulher ou, ao menos, um ponto de vista de uma mulher no texto? Como as mulheres são apresentadas no relato? Elas falam ou são silenciadas? É possível ter acesso ao ponto de vista delas; é possível alcançar seu lugar de fala? Quem tem o poder no texto? Como esse poder é distribuído? As mulheres alcançam o que desejam? Elas têm desejos? O que elas desejam? Como o relato representa experiências exclusivamente femininas, como a do parto, ou aquelas tradicionalmente atribuídas a ela, como criar os filhos? A vida e a voz das mulheres foram suprimidas ou aparecem explicitamente nas Escrituras? Que oposições ocultas de gênero estão por trás do texto? A que interesses o texto serve?
Diante de tantas questões, surgem algumas estratégias de recuperação do texto. Matthews (2015, p. 256-258) sugere alguns caminhos: 1) mudar as "lentes" para encontrar as mulheres na Sagrada Escritura, pois estas estão escondidas "à vista de todos", ou seja, há mulheres líderes que aparecem claramente no Cristianismo primitivo (ex. Rm 16,1-16) e que tiveram seu protagonismo silenciado e apagado por uma tradição patriarcal; 2) fazer um reconhecimento retórico dos textos bíblicos, lendo-os como prescritivos e não como descritivos, ou seja, a linguagem do texto não reflete necessariamente e em primeiro lugar a realidade social da época, mas sim uma tentativa tendenciosa dos varões de impor a exclusão e a subordinação às mulheres; 3) fazer um reconhecimento retórico, desconstruindo a linguagem kyriarcal e patriarcal dos autores bíblicos e, em consequência, reconstruir outras vozes no texto a partir da ótica das mulheres. 
Para Mattews (2015, p. 259-260), é preciso ainda buscar estratégias de recuperação que vão além do cânon. São elas: 1) recuperar a história das mulheres em textos deuterocanônicos3 e não canônicos (apócrifos); 2) apropriar-se de materiais não textuais e métodos das ciências sociais, como por exemplo, a antropologia, a sociologia, a arqueologia, a epigrafia4, que podem revelar o protagonismo e a presença marcante das mulheres na sociedade do período bíblico.
Para falar do sistema de dominação masculina presente nos pilares da Sagrada Escritura e da Tradição, Fiorenza (2015) faz uso do neologismo kyriárquico. O termo grego kyrios se refere ao imperador, ao senhor dono de escravos, pai, marido ou homem que controlava todos os membros da casa e os colocava sob sua subordinação. O termo kyriarchy traduz um sistema de governo imperial que excluía todas as mulheres e escravos da plena cidadania e da tomada de decisões. Este sistema kyriarcal não foi determinado por uma biologia, por uma inferioridade inerente ou ordenada por Deus, mas por uma construção social histórica, contextualizada geograficamente, ou seja, as relações de dominação e de subordinação foram socialmente institucionalizadas por um poder kyriárquico. 
Fiorenza (2015, p. 24) insiste em mostrar que, em todas as três religiões abraâmicas (Judaísmo, Islamismo e Cristianismo), as Sagradas Escrituras e as Tradições foram formuladas e interpretadas sob o viés de homens privilegiados e poderosos. Logo, não refletem as experiências vividas das mulheres, dos pobres e dos escravos, mas sim do varão, senhor, proprietário de terras e bens. Por isso, não raro as imposições, proibições e práticas religiosas eram usadas para legitimar comportamentos opressores contra as mulheres. Enxergando-as como sub-humanas, o poder kyriarcal explorou-as, excluiu-as e silenciou-as. Daí a necessidade de desconstruir a linguagem de dominação e exploração que perpassa as Escrituras e reconstruí-la.

As diferenças de sexo/gênero, raça, classe e etnia são construções socioculturais, não desejadas por Deus e, portanto devem ser alteradas. Deus, que criou a pessoa à imagem divina, chamou cada indivíduo de uma forma diferente. A sabedoria divina deve ser encontrada dentro e entre as pessoas que são iguais (FIORENZA, 2015, p. 23, tradução nossa).

A fim de libertar as mulheres do patriarcalismo-kyriarcalismo e reconstruir a história, a hermenêutica feminista de Fiorenza recorre ao método exegético histórico-crítico, cuja característica é a “hermenêutica de suspeita”. Os estudos de Fiorenza questionam a autoridade dos textos bíblicos, construídos por uma hermenêutica hegemonicamente masculina; além disso, recorrem à investigação sociológica. Com o objetivo de aumentar a “imaginação histórica” e recuperar a história das mulheres, Fiorenza (1992, p. 17) insiste que as fontes bíblicas do Novo Testamento são suficientes para indicar o discipulado feminino; todavia, é necessário fazer uma releitura das fontes existentes, como também redescobrir novas fontes. De acordo com ela, reconstruir a história primitiva das mulheres cristãs acarreta uma grave problemática hermenêutica, textual e histórica. Portanto, é necessário incluir nessa reconstrução “um arcabouço heurístico feminista que permita perceber a opressão e a atuação histórica de mulheres no cristianismo primitivo” (FIORENZA, 1992, p. 11). 
Para Reimer (2005, p. 9-10), a Sagrada Escritura é composta de inúmeras vozes, muitas vezes sem a devida harmonia, causada pelo contraste de culturas, etnias, classes, idades e gêneros. Saber escutar todas as vozes, principalmente as vozes que foram silenciadas, é condição sine qua non para ler e interpretar bem as Escrituras. E, no caso das mulheres, resta entender o silêncio que lhes foi imposto devido à opressão androcêntrica. Em uma perspectiva feminista, Reimer desenvolveu o método de “cavar” os textos do Novo Testamento para reconstruí-los. O método consiste em uma verdadeira escavação dos textos, que se dá a partir de uma análise sustentada em estudos extra-bíblicos sociais, históricos, culturais e arqueológicos, no caso de não poder se extrair nada dos textos por intermédio da análise exegética. Dessa forma, escava-se o texto, mergulhando no contexto sócio-histórico-cultural para conhecer, de fato, a real situação das mulheres nas comunidades primitivas, ou seja, faz-se um resgate dos “corpos históricos” das mulheres, que ficaram no anonimato ou foram propositalmente silenciadas e apagadas pelo poder patriarcal.

A Teologia Bíblica Feminista não apenas estuda os textos bíblicos, mas também busca, criativamente, transmiti-los e torná-los vivenciáveis hoje. Por isso, as diversas formas de comunicação, celebração, reconstrução de textos são características importantes para esta teologia. Além de “escavar” os textos, também “reconstruímos” os fragmentos encontrados e os trazemos para nossa vida com a linguagem própria de cada contexto (REIMER, 2005, p. 15).

De acordo com Reimer (2005, p. 16), a invisibilização das mulheres foi tal na Sagrada Escritura que a impressão que se tem é de que elas não eram integrantes do Povo de Deus, destinatárias do seu projeto salvífico. Por isso, é fundamental que os estudos bíblico-feministas desenvolvam métodos de interpretações teológicas críticas das Escrituras (FIORENZA, 2015, p. 23), como também de suas interpretações. Ao revisitar os textos sagrados com olhar feminista, percebe-se que as mulheres sempre estiveram ativamente presentes nas comunidades cristãs primitivas e que havia um “discipulado de iguais”. É necessário reinterpretar os textos sagrados a fim de que as mulheres hoje sejam libertadas de qualquer forma de subordinação em nome das Escrituras. Esse método hermenêutico contribui para o rompimento do silêncio imposto às mulheres, obtendo uma igualdade de direito de voz e poder de decisão. Em memória das que foram silenciadas e até mesmo tornadas invisíveis, é urgente lutar por novos caminhos libertadores de justiça, buscando ferramentas que permitam desconstruir e reconstruir as mensagens que são utilizadas para oprimir as mulheres.
A interpretação bíblica feminista lança luzes sobre as estruturas de poder patriarcal geradoras de opressão na sociedade (SALAS, 2015, p. 182). Ela leva a uma compreensão não apenas da Bíblia, mas às suas tradições interpretativas essencialmente patriarcais e, consequentemente, opressoras para as mulheres. Capacita as mulheres em suas lutas pela liberdade, igualdade e dignidade de direitos; caso contrário, o estudo bíblico-feminista corre o risco de ficar reduzido a apenas leituras e discussões acadêmicas (FIORENZA, 2015, p. 13).

3 “Dança hermenêutica” de Fiorenza

Fiorenza, em sua obra Em Memória Dela, propõe uma revisão do cristianismo primitivo a partir de uma hermenêutica feminista crítica, subdividida em duas abordagens: a) um “discipulado de iguais”; b) o poder kyriarcal. A memória das mulheres não tem a função de revelar algo que de fato aconteceu, mas trazer à tona aquilo que foi esquecido ou escondido propositalmente. Consciente de que a história delas foi apagada, o que se deseja é fazer uma memória para obter fragmentos históricos verídicos ou imaginários para uma reconstrução.
Fiorenza propõe uma hermenêutica que não é apenas uma metodologia, mas sim um projeto teórico (SALAS, 2015, p. 184). A tarefa interpretativa da Sagrada Escritura é eminentemente política; tem mais do que finalidade histórica. O caminho hermenêutico é a “suspeita” dos textos bíblicos, isto é, suspeita-se que os relatos sagrados foram construídos para manter a ideologia patriarcal. Ao despatriarcalizar a Sagrada Escritura, revela-se e transforma-se a realidade opressora que sufoca e anula as mulheres. 
Para isso, não basta assumir o ponto de vista sociopolítico no qual a Bíblia é interpretada. É preciso estar ciente de que a Escritura Sagrada não é um livro neutro, ao contrário ela tornou-se uma arma política contra as mulheres e sua luta por libertação. Para Fiorenza (1992, p. 35), é importante fazer uma interpretação feminista e científica da Bíblia, a partir de três argumentos: 1) no decorrer da história, a Bíblia é utilizada para subordinar as mulheres, impedindo sua emancipação; 2) são as mulheres, sobretudo, que assumem fielmente a Bíblia como Palavra de Deus; 3) não é possível transformar um contexto isolado na sociedade, sem que todas as esferas e contextos sejam transformados simultaneamente (inclusive o religioso), pois existe uma interdependência entre eles na sociedade. “Se as feministas pensam que podem negligenciar a revisão da Bíblia, porque existem problemas políticos mais urgentes, não reconhecem então o impacto político da Escritura nas igrejas e na sociedade, e também na vida das mulheres” (FIORENZA, 1992, p. 35).
A hermenêutica feminista se situa na perspectiva do método histórico-crítico, que leva a interrogar o texto para reconstruir sua estrutura de eventos. No entanto, Fiorenza sabe que tal método, apesar de suas possibilidades, possui também muitas fragilidades; ele não corrige o preconceito de gênero: foca no discipulado masculino e evita o discipulado das mulheres. Se o método histórico-crítico tem uma função científica, cujo objetivo é encontrar a “verdade” do texto, a hermenêutica crítico-feminista se afasta desse objetivo. Fiorenza não tem a intenção de descobrir o que a Bíblia diz de fato; quer apenas realizar uma interpretação “válida” dos textos bíblicos. Sua hermenêutica carrega um caráter aberto; sua tarefa é interessada: quer libertar as mulheres da subordinação, partindo do pressuposto que elas fazem parte da mesma história bíblica (SALAS, 2015, p. 193-194).
O esforço hermenêutico de Fiorenza resultou num método de leitura bíblica chamado Hermenêutica crítico-feminista da libertação. Tal método exige dos biblistas uma conversão epistemológica, ou seja, uma mudança de mentalidade investigativa da Escritura. Não se trata da aplicação de um método, que leva automaticamente a resultados favoráveis às mulheres. Trata-se de uma mudança no fazer teológico, uma verdadeira metanoia bíblica.
Em sua obra Caminhos de sabedoria (2009), Fiorenza sintetiza seu método em sete passos. Fala de “dança hermenêutica” (2009, p. 187), com diversas coreografias capazes de arrancar as mulheres do esquecimento e subalternidade e fomentar sua libertação. Essa “dança hermenêutica” pode ser esboçada em sete passos: 1) experiência; 2) dominação e localização social; 3) suspeita; 4) avaliação crítica; 5) imaginação criativa; 6) relembrança e reconstrução; e 7) transformação social. Os passos utilizados por Fiorenza para compor sua coreografia são dados a partir do modelo de interpretação retórico-crítico, ou seja, a autora entende a pesquisa bíblica como uma tarefa comunicativa. Eis os passos dessa “dança hermenêutica”

3.1. Hermenêutica da Experiência

Tudo começa com (e na) experiência feminina (FIORENZA, 2009, p. 191-194). A luta empreendida pelas mulheres em busca de sua dignidade e de seu reconhecimento frente às sociedades e às religiões marcadamente patriarcais é o primeiro passo da dança que as arranca da inércia que lhes fora imposta (SALAS, 2015, p. 194).
Num processo contrário ao que vem sendo feito ao longo da história das igrejas cristãs, que usaram a Escritura para domesticar e subjugar as mulheres, o que se deseja é encontrar na mesma Escritura a fonte de libertação e emancipação das mulheres. Não se trata somente de uma experiência feminina, mas de uma experiência feminista, aquela que se caracteriza marcadamente pela luta por direitos das mulheres e de tantos outros subalternizados (SALAS, 2015, p. 194). Sob as lentes do feminismo, a Bíblia se torna instrumento de libertação e emancipação feminina.
Trata-se de realizar um verdadeiro “avanço decisivo” (FIORENZA, 2009, p. 192), de promover um impulso que obriga à mudança de hábitos e atitudes. Se ao investigar a Escritura a estudiosa não está possuída da consciência das estruturas opressoras do feminino, ela perpetua o patriarcalismo. Sabe-se que as experiências da vida não são isentas de condicionamentos. Elas se assentam sob a sombra da linguística e da cultura; estão impregnadas de sentido político, ultrapassa o âmbito do privado. Assim, para irradiarem sua luz, devem ser analisadas criticamente. Mas vale lembrar: apesar de serem o pontapé inicial da hermenêutica crítico-feminista, não convém que as experiências sejam consideradas isoladamente.

3.2. Hermenêutica da dominação e da localização social

A hermenêutica feminista sabe não só o local político, econômico e cultural do qual se lê o texto, mas também o lugar a partir do qual ele foi escrito (FIORENZA, 2009, p. 194-197). Para isso, é fundamental desvendar a ideologia que sustenta a Escritura, mostrando o serviço que ela presta ao patriarcalismo e à manutenção do status quo do varão em detrimento da mulher (SALAS, 2015, p. 195). Para desvelar o potencial libertador dos relatos bíblicos, é necessário conhecer os valores que eles defendem, notando se esses promovem a ascensão social da mulher ou se a aniquilam e silenciam. Por isso, Fiorenza defende que se faça uma investigação ordenada e crítica das ideologias patriarcal e kyriarcal, predominantes na Escritura. Não basta reler os textos; é preciso revisitar a Bíblia com clara e objetiva suspeita de que neles há inegáveis pressupostos patriarcais e kyriarcais. A verdade escriturística só pode vir à baila se esses pressupostos forem desmascarados (SALAS, 2015, p. 195). Enquanto se perpetuar o sistema androcêntrico, que coloca o homem como paradigma de ser humano e a mulher como uma exceção à regra, ou seja, como “o outro” ou um caso à parte, não será possível progredir na interpretação bíblica (FIORENZA, 1984, p.56). Se tal arcabouço é ignorado, tem-se como resultado uma leitura rasa da Escritura. A ingenuidade nata com que o texto é lido e recebido como Palavra de Deus camufla interesses escusos de um grupo dominante. 

3.3. Hermenêutica da suspeita5

O vetor que guiou a leitura bíblica das mulheres de fé sempre fora o respeito e a reverência à Escritura. Somente as bruxas inconformadas com a religião e as hereges se arriscavam a ir contra esse princípio norteador. Fiorenza, no entanto, propõe a hermenêutica da suspeita como ferramenta útil e absolutamente necessária para uma boa aproximação do texto. No lugar da subserviência e do assentimento imediato às palavras da Escritura, irrompe majestosa a desconfiança metodológica.
Essa desconfiança não tem conotação moral ou ética, como rebelião à Palavra divina; trata-se de um caminho epistemológico que arranca as cortinas patriarcal e kyriarcal do texto, de modo a desvelar suas intenções ideológicas ocultas e, consequentemente, seus interesses de dominação (FIORENZA, 2009, p. 197). A inspiração da Bíblia é colocada em suspenso não para desmerecê-la ou eliminá-la. Essa atitude investigativa se protege de uma leitura apaixonada, por meio da qual se deseja salvar os registros bíblicos de forma acrítica. Esse caminho investigativo quer trazer à luz as intenções ideológicas que servem de pano de fundo do escritor sagrado. As leituras cristalizadas no decorrer do cristianismo são questionadas, e a hermenêutica da suspeita vislumbra novos horizontes de possibilidades, pois é sabedora de que a linguagem kyriarcal encobre a realidade e a justifica como absolutamente natural, praticamente de direito divino.

3.4. Hermenêutica da avaliação crítica

Como toda dança, a hermenêutica feminista pede outro passo. Não é possível dançar apertado nas margens estreitas do patriarcalismo, coagido por uma coreografia decorada, sem espaço para os valores feministas que ressoam aos ouvidos das mulheres. A hermenêutica da avaliação crítica (FIORENZA, 2009, p. 199-201) não classifica os textos bíblicos em opressores e libertadores, pois esse seria um enquadramento ingênuo do exercício do pensar. Por meio de uma avaliação crítica, a luta das mulheres feministas, especialmente a consciência de sua opressão e anulação culturais, se transforma em alavanca poderosa que desinstala o status quo masculino. 
A leitura dos relatos bíblicos, sob essa ótica, provoca mudança, ou seja, leva a uma saída do aconchego da subalternidade masculina. Submetido ao crivo dos valores feministas, o texto mostra suas armadilhas mais ocultas e a hermenêutica os rechaça como vontade divina ou verdade salvífica. Para Fiorenza, uma escala feminista de valores e visões emancipatórias pode ser inspirada pela Bíblia, apesar de não precisar necessariamente derivar dela (FIORENZA, 2009, p. 199). O que se investiga é se o texto é um relato libertário para elas ou se perpetua o regime androcêntrico opressor. Nenhuma subalternidade feminina imposta pelo patriarcalismo e kyriarcalismo sobrevive ilesa à uma investigação crítica criteriosa.

3.5. Hermenêutica da imaginação criativa

Sonhar com um mundo sem opressores e subalternizados é um direito das mulheres e uma obrigação de toda criatura humana. Por isso, ao investigar criticamente a Escritura, é preciso deixar livre a imaginação criativa (FIORENZA, 2009, p. 201-205) e se perguntar como seria o mesmo relato escriturístico caso ele fosse escrito por mulheres e não por homens. O que se faz é usar a imaginação criativa para pensar como seriam os relatos caso estivessem sob a proteção não do patriarcalismo opressor, mas de uma estrutura fundante que favoreça a justiça e a fraternidade. Como a mesma experiência de fé relatada na Escritura seria dita sem a pretensão de manter o status quo dos varões? (SALAS, 2015, p. 195). Reconstruir o relato sobre outras bases, dando voz e vez a milhões de mulheres caladas nos textos escriturísticos, é uma atitude hermenêutica subversiva, que unifica mulheres do passado, do presente e do futuro (FIORENZA, 1995, p. 19). Afinal, não se faz hermenêutica feminista libertadora sem uma atitude empática com todas as mulheres sofredoras do passado e sem recusar veementemente o silenciamento e a anulação com os quais elas foram mortificadas (FIORENZA, 1984, p. 59). Situando-se bem no presente, a hermenêutica feminista faz memória do passado e semeia esperança de um futuro sem subalternidades.

3.6. Hermenêutica da relembrança e da reconstrução

Conforme Fiorenza (2009, p. 205-208), esse passo hermenêutico contribui para recuperar a história religiosa das mulheres e de sua vitimização. Faz-se um resgate histórico do texto, por meio de uma reconstrução religiosa do mundo. Além de todas as tarefas desconstrutivas do método, sobressai uma tarefa construtiva. Fiorenza sabe que a história não é uma descrição da realidade, nem mesmo uma transcrição ou relato do que de fato aconteceu. Por isso, esse passo hermenêutico não confunde o relato factual (real/acontecido) com o fato teológico (ficcional/com intenções teológicas), pois a narração é um refazer da realidade e não a própria realidade (FIORENZA, 2009, p. 207). Assim, a relembrança histórica realiza a proeza de recuperar o texto sagrado como história marcadamente feminina, uma história de luta e de sobrevivência das mulheres em meio ao patriarcalismo opressor. Recupera-se, assim, o tesouro perdido da jornada feminina sob os entulhos das narrativas de teor androcêntrico.

3.7. Hermenêutica da transformação social

O objetivo da hermenêutica feminista não é uma revolta feminina na qual os homens são excluídos de seus direitos e subalternizados, como aconteceu com as mulheres durante milênios. O que se quer é um mundo estruturado sobre relações fraternas, um discipulado de iguais. O último passo da hermenêutica feminista (FIORENZA, 2009, p. 209-212) procura levar as mulheres a lutarem por justiça e igualdade de direitos, numa atitude de inconformidade com esse mundo de bases patriarcal e kyriarcal. A hermenêutica feminista libertadora desencadeia o processo de empoderamento das mulheres em favor de sua própria libertação e contra a opressão de todo vulnerável (SALAS, 2015, p. 195-196). 

Considerações finais

Este trabalho sobre teologia bíblica feminista possibilitou reconhecermos que a Sagrada Escritura e a Tradição foram drasticamente influenciadas pelo androcentrismo. Os textos bíblicos são construções retóricas-literárias da sociedade patriarcal que subordinou e marginalizou as mulheres, silenciando-as e excluindo-as da participação ativa nas comunidades primitivas. 
Daí a importância da trajetória dos estudos bíblicos feministas, que, desde o século XIX, busca uma transformação nos campos eclesial e social, em vista de alcançar igualdade, dignidade e liberdade da mulher. Através de várias abordagens investigativas e interpretativas, as biblistas feministas se esforçam para quebrar as estruturas de dominação patriarcal na qual os textos bíblicos foram construídos, resgatando as vozes silenciadas e esquecidas das mulheres. 
Apesar de a Tradição patriarcal ter apagado alguns vestígios da participação ativa das mulheres nas comunidades primitivas, é possível, a partir de uma lente hermenêutica imaginativa e de suspeita, “cavar” os textos bíblicos e encontrar fragmentos históricos verdadeiros que ajudam a reconstruir e a reescrever a história delas e, ao mesmo tempo, tornar seu protagonismo presente nas comunidades contemporâneas.
O fato de a Bíblia ter autoridade de “Palavra de Deus” serviu como sustentação para a subordinação das mulheres no decorrer da história eclesial e social, perdurando até a atualidade, mesmo que seja em menor grau. No âmbito eclesial, passos significativos já foram dados, principalmente no Pontificado de Francisco, contudo está longe de um “discipulado de iguais”, em que todos os batizados sejam realmente o “Povo de Deus”. 
No âmbito social, diversos males sofridos pelas mulheres, a exemplo da violência, encontram justificativas na Sagrada Escritura e, especificamente dentro do continente latino-americano, a situação das mulheres ainda se torna agravante pela marginalização econômica.
Urge redescobrir e reconstruir a história das mulheres. O estado de sujeição e opressão em que as mulheres foram inseridas pela Sagrada Escritura e pela Tradição implica em uma ação consciente crítica, principalmente por parte das mulheres, em vista de uma práxis libertadora. Da mesma forma que a Teologia da Libertação utiliza a Sagrada Escritura em prol de uma libertação sócio-política opressora, as mulheres devem buscar uma transformação libertadora do seu estado de subordinação nas igrejas e na sociedade contemporânea, contextos estes ainda marcados, infelizmente, pela marginalização das mulheres. A teologia bíblica feminista tem uma importante tarefa hermenêutica. No entanto, esse não é um ofício fácil, pois constata-se que a teologia feminista ainda é desacreditada por muitos, sendo vista com certa repulsa, inclusive por mulheres oprimidas pelo androcentrismo e subordinadas ao machismo e à misoginia. Muitas dessas se encontram “engessadas” pela fé e pela religião e relutam em fazer uma crítica às Sagradas Escrituras e à Tradição. 
Em memória das que nos precederam na luta, adotemos uma lente hermenêutica feminista, a fim de resgatar as vozes esquecidas e silenciadas pelo poder patriarcal. Em prol das mulheres de hoje, busquemos uma transformação eclesial que promova um “discipulado de iguais” e uma transformação social que as liberte de qualquer forma de subordinação e opressão.
 
Referências
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1 Lista dos livros considerados pela Igreja como inspirados.
2 Retórica entendida aqui como a "arte" de persuadir por intermédio da linguagem.
3 Por deuterocanônicos, a autora metodista, entende que são os sete livros presentes na Bíblia Católica (aceitos em um segundo momento) e ausentes na Bíblia Protestante, a saber: Tobias, Judite,  Eclesiástico, Sabedoria, Baruc, 1 e 2 Macabeus, acréscimos feitos aos livros de Daniel e Ester.
4 Ciência que estuda as inscrições antigas.
5 FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 197-199.