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54. Da Sacristia e da Secretaria à Academia

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17.01.2024 | 48 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Acadêmicos
54. Da Sacristia e da Secretaria à Academia

Resumo

Não é de hoje que as mulheres lutam por um lugar de reconhecimento na Teologia e na Igreja. Essa luta se torna visível no empreendimento feito por diversas teólogas, especialmente biblistas, para tornar conhecida a Teologia Bíblica Feminista. Nesse rol, destaca-se Elisabeth Shüsler Fiorenza, cuja hermenêutica crítico-feminista da libertação tem ganhado destaque na Academia. O documento da Pontifícia Comissão Bíblica, A Interpretação da Bíblia na Igreja, dentre os métodos e abordagens bíblicas, reconhece a abordagem feminista como possível e aconselhável. Reconhecimento mais que bem-vindo mas insuficiente segundo as reinvindicações das biblistas. Para comemorar os 30 anos de publicação desse documento, este artigo revisita diversas obras sobre o tema, especialmente as produções de Fiorenza, e faz um balanço entre o reconhecimento dado pelo documento e o caminho já percorrido até agora. O objetivo é apresentar um pouco da história da Teologia Bíblica Feminista e tornar o método mais conhecido, dando voz e vez às mulheres num campo ainda tão masculino, androcêntrico e patriarcal, o mundo dos estudos bíblicos. 

Palavras-chave: Hermenêutica. Feminismo. Teologia Bíblica. Fiorenza. Interpretação da Bíblia.

Abstract
It is not new that women are fighting for a place of recognition in Theology and in the Church. This struggle becomes visible in the work made by several theologian women, especially biblical scholars, to make Feminist Biblical Theology known. In this list, Elisabeth Shüsler Fiorenza stands out, whose Critical Feminist Interpretation for Liberation gained prominence in the Academy. The document of the Pontifical Biblical Commission, The Interpretation of the Bible in the Church, among the biblical methods and methodologies, recognizes the feminist approach as possible and recommendable. Recognition more than welcome, but insufficient, according to the claims of biblists. In commemoration of the 30th year of that document, this paper revisits several works on the subject, especially Fiorenza\'s productions, and shows the recognition given by the document and the path so far. The aim is to present a little of the Feminist Biblical Theology history and make that method better known, giving voice and space to women in a field that is still so masculine, androcentric and patriarchal, the world of biblical studies.
Keywords: Hermeneutics. Feminism. Biblical Theology. Fiorenza. Interpretation of the Bible. 
Introdução

Não é de hoje que as mulheres têm lido a bíblia, ocupando-se do ofício pastoral da Igreja – especialmente da catequese e dos círculos bíblicos – e feito, a seu modo, teologia. No entanto, os Institutos Teológicos – que se dedicam ao estudo, à pesquisa e à extensão – demoraram a abrir as portas para as mulheres. Um ambiente totalmente generificado, impregnado de testosterona,  teve dificuldades de reconhecer o olhar feminino lançado sobre a Escritura Sagrada e as contribuições dessa reflexão para a Teologia Cristã. Foi preciso muito esforço e muito “pé na porta” para que as mulheres fossem reconhecidas no seu lugar de fala, que não é mais a sacristia, nem a secretaria paroquial, mas a sala de aula e os eventos acadêmicos da área teológica. 
A conquista não veio por benevolência dos varões, presbíteros celibatários, mas do atrevimento e da intrepidez, próprios das mulheres, que desde muito se aventuram corajosamente a desobedecer os interditos religiosos, como é o caso da primeira mulher no relato de Gn 2–3. Minha experiência como biblista mostra que as portas não se abrem generosamente pelos que ocupam lugar de privilégio na Teologia ou apenas porque somos capazes intelectualmente, mas porque somos inconformadas com o monopólio teológico dos homens, que por muito tempo nos excluíram desse lugar. Eu mesma entrei para a Academia quando me abriram uma greta na porta para me dizer: “Não; aqui não é seu lugar”. Sem esperar que a abertura fosse suficiente para eu entrar, sentei o pé na porta entreaberta e passei por ela, antes mesmo que os varões dessem conta do acontecido. Assim como eu, outras teólogas e biblistas têm rompido o status quo de suas eclesias, aventurando-se na árdua tarefa de fazer teologia, especialmente teologia bíblica.
Começo, pois, este artigo agradecendo a todas que me antecederam e me sinalizaram que esse era um caminho possível, apesar das dores que lhe são próprias. Agradecimento especial à biblista Elizabeth Shüssler Fiorenza,  cuja teologia feminista iluminou e ilumina a vida de tantas mulheres.

1. Reconhecimento insuficiente, mas bem-vindo

O documento da Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja (IBI), foi apresentado ao papa João Paulo II, em 23 de abril de 1993. No discurso proferido pelo pontífice, já se vislumbra uma linguagem timidamente inclusiva, por meio da qual homens e mulheres são citados distintamente e não de forma genérica como era o costumeiro: “O modo de interpretar os textos bíblicos para os homens e as mulheres de hoje têm consequências diretas sobre a relação pessoal e comunitária dos mesmos com Deus, e está estritamente ligado à missão da Igreja.” 
Assim, logo de início, o leitor ou a leitora do documento já fica prevenido de que entrou no âmbito da reflexão um dado novo: as mulheres que também interpretam a bíblia, que também fazem teologia bíblica. Honrando essa profecia inicial, parte da obra está dedicada à reflexão acerca de Abordagens Contextuais da Escritura, colocando no seu bojo a Abordagem Feminista  em paralelo ou juntamente com a estigmatizada e mal compreendida Abordagem Libertadora.  Em meio aos consolidados e reconhecidos métodos de análise bíblica, apareceram abordagens de leitura que partem do leitor e não necessariamente do autor e de seu contexto, como fazem os métodos diacrônicos, mais conhecidos como métodos histórico-críticos.  Valeu o esforço, pois, apesar de insuficiente, esse reconhecimento contribuiu, ainda que timidamente, para tirar a teologia bíblica feminista da marginalidade e mostrar o estatuto do qual ela goza: um método (ou abordagem? Sobre essa temática, ver nota 29 deste artigo) de leitura necessário e possível da bíblia, como tantos outros que a Igreja tem difundido.

2. Compreendendo os termos

Para chegar à hermenêutica crítico-feminista da libertação, comecemos pelo termo mais geral Teologia Bíblica Feminista. O nome talvez tenha que ser explicado, apesar de a teologia androcêntrica não ter necessitado de explicações. Reimer ajuda nessa reflexão. Trata-se de uma verdadeira teologia porque reflete sobre a relação com Deus e como ele atua na história; é bíblica porque parte da Escritura, dos registros considerados sagrados; e pode se dizer feminista porque está comprometida com as causas das mulheres, tantas vezes oprimidas pelo machismo,  patriarcalismo,  andocentrismo,  sexismo  e até pela misoginia. 
Provavelmente, como lembra a pesquisadora, a expressão feminista cause estranheza em alguns, por estar ligada a um movimento de mesmo nome, o feminismo. 

A chamada primeira onda do feminismo aconteceu a partir das últimas décadas do século XIX, quando as mulheres, primeiro na Inglaterra, organizaram-se para lutar por seus direitos, sendo que o primeiro deles que se popularizou foi o direito ao voto. As sufragetes, como ficaram conhecidas, promoveram grandes manifestações em Londres, foram presas várias vezes, fizeram greves de fome. 

 O movimento teve como leitmotiv a emancipação da mulher, passando depois para uma nova fase em que se buscou não só a emancipação, mas também a libertação das mesmas, pois percebeu-se que ter direitos iguais não era suficiente, uma vez que a sociedade continuava a ser o lugar do varão e não de ambos os sexos. Era preciso pôr em questão o mundo androcêntrico, com suas estruturas machistas e patriarcais. 
No Brasil, a primeira motivação feminista também foi o direito ao voto. Lideradas por Bertha Lutz, bióloga, cientista reconhecida, formada no exterior e com retorno ao seu país em 1910, um grupo de mulheres reivindicava o direito de eleger seus representantes. Tal conquista veio somente em 1932, quando foi promulgado o Novo Código Eleitoral Brasileiro.  A segunda onda do feminismo chegou tardiamente ao Brasil. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos o clima era propício a essas revoluções e reviravoltas, no Brasil a ditadura militar relegava ao ostracismo toda iniciativa revolucionária e a esquerda se via reprimida violentamente pelo Ato Institucional n. 5 (AI5), instituído pela ditadura militar depois do golpe de 1964. Só em 1980, o feminismo no Brasil alçou voos, muitas vezes incentivado pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pelos movimentos ou pastorais sociais. 
Alguns teólogos, sabedores dos vínculos da Teologia Bíblica Feminista com o movimento de emancipação e libertação da mulher, desejam substituir a expressão feminista por feminina, termo que trabalha as características sociais atribuídas às mulheres, tais como ternura, docilidade etc. No entanto, é preciso insistir no termo feminista, mantendo o vínculo com a luta por direitos empreendida por tantas mulheres na história, algumas pagando o preço com a própria vida .

A Teologia Feminista é uma visão que dá forma a um método e a um conteúdo da produção teológica em geral e se distingue das produções masculinas, ensinadas em igrejas, sinagogas e seminários. A experiência religiosa, o discurso e a prática de uma mulher são bastante diferentes da experiência religiosa de um homem, pois ambos vivem em contextos diferentes. 

Como a leitura bíblica feminina proposta por alguns teólogos não rompe com a opressão imposta às mulheres pelo sexismo, nem promove sua libertação – ao contrário, reafirma o status quo, pois vê como inerentes ao feminino características que foram forjadas pela sociedade patriarcal –, faz-se necessário manter o termo feminismo que, diferentemente também do femismo,  não quer inverter a opressão social dando às mulheres voz e vez mais que aos homens. A teologia bíblica feminista deseja romper com as estruturas de poder que massacram o gênero feminino, sem no entanto repetir os mesmos erros da cultura patriarcal e androcêntrica. O que se almeja é construir novas relações de fraternidade, o que, na linguagem de Fiorenza, é dito como “um discipulado de iguais.”  
Trata-se de romper com a unilateralidade da Teologia dominante, pois a Teologia feita pelos homens até agora mostra-se incompleta, pois elimina a participação das mulheres. O que se deseja é a paridade de gênero e não uma oposição entre ambos; busca-se a fraternidade e não a competição. Daí a importância da mudança de linguagem, mas não somente isso. É preciso modificar também a forma de pensar e fazer teologia, pois teologia se conjuga no plural, se é que se deseja ser fiel ao Espírito que sempre traz o novo às igrejas.

Para a teologia feminista os caminhos das relações são igualmente equivalentes e justos, não apenas na linguagem, mas a forma de pensar, fazer e conviver se tornam questões fundamentais nessa variedade de expressões e produções teológicas que são diversificadas, mas não se reduzem a um sistema rígido e acabado como muitas vezes a teologia propõe. 

Toda rigidez teológica, especialmente a que parte do exercício teologal dos varões, é limitada e redutora. O Espírito não aceita cadeias e sopra sem obedecer ao sistema patriarcal e sexista ao qual a Escritura e sua interpretação foram submetidas.

3. Um pouco de história

A Leitura Feminista da Bíblia teve como precursora a sufragista Elizabeth Cady Stanton, estadunidense do século XIX, que reuniu um grupo de mulheres conhecedoras das línguas maternas da Escritura para a aventura de traduzir e publicar a Bíblia das Mulheres, trabalho que durou de 1895 a 1898.  Sua iniciativa fora influenciada pelos movimentos feministas do mesmo século. Diversas mulheres se mostravam inconformadas com o papel que lhes era atribuído em ambientes tais como a família, a sociedade, a política e a religião, e buscavam assim sua libertação. 
Sabendo que a religião cristã exercia forte influência sobre a família e sobre a sociedade e que o cristianismo contribuía para reafirmar o lugar de subalternidade da mulher, não demorou para que o movimento feminista rompesse os muros das eclesias e se instalasse no interior das igrejas. Era importante não só mudar o direito civil, mas desfazer o chamado “direito divino”, que outorgava aos homens lugar de privilégio e dava-lhes poder sobre as mulheres. Assim, “a leitura feminista cria uma primeira ruptura básica com o exclusivismo patriarcal.” 
Para realizar tal façanha, era preciso mergulhar no livro sagrado dos cristãos, a bíblia, e lê-lo com outros olhos: a ótica feminista. Partindo desse princípio, mulheres biblistas se colocaram a vasculhar os textos da Escritura, decifrando-o por meio de uma nova consciência crítica, notando em cada escrito a mão pesada do patriarcalismo, que impunha sistemas que subtraíam as mulheres de seu protagonismo. Surgiu um esforço para ler o cânone sagrado, ainda que delimitado por varões, com o intuito de destacar a importância das mulheres e desvelar seu ocultamento.

Ainda que o texto do cânone sagrado tenha sido delimitado a partir da imposição do ponto de vista androcêntrico, para destacar a importância das mulheres em tal texto é preciso partir da experiência atual das mulheres para identificar seu ocultamento ou encobrimento, além de destacar aqueles relatos em que elas são claramente excluídas. 

Assim, da subordinação passiva das Sacristias ou das Secretarias paroquiais, lugares majoritariamente femininos, as mulheres passaram a ocupar a Academia, lugar majoritariamente masculino, pleiteando o direito de fazer teologia e de também interpretar as Escrituras. 
Mary Daly, uma das pioneiras nessa trajetória nos USA, em 1968, interpelou a Igreja Católica a se deslocar do seu lugar de conforto. Sua obra Igreja no Segundo Século balançou as colunas robustas da instituição, pois apontou uma série de relatos que deixavam claro como a Igreja contribuía para ferir e anular as mulheres.
Na América Latina e no Caribe, o movimento bíblico-feminista deu o ar da graça na década de 70, por influência da Teologia da Libertação, que veio à luz em tempos de ditadura militar. As mulheres feministas se compreenderam oprimidas não só por causa de sua classe social (a pobreza), mas em função de seu gênero. A vida lhes impunha dor e sofrimento simplesmente pelo fato de serem mulheres, nada mais! Desde então, mulheres latino-americanas “se conceberam como sujeito de produção teológica.”  Pouco mais tarde, na década de 80, a produção da Teologia Bíblica Feminista floresceu de forma que hoje há boa literatura acerca do tema. Mais tarde, na década de 90, a categoria de gênero entrou de cheio na reflexão, tornando-se “instrumento analítico da construção sociocultural das relações entre homens e mulheres e suas variantes.”  No Brasil, a religiosa católica, Ivone Gebara,  e a pastora da Igreja Luterana, Ivoni Richter Reimer, destacam-se na pesquisa.
No cenário mundial, destaca-se a alemã Elisabeth Shüssler Fiorenza que, com sua obra Em memória dela,  tornou-se referência na área. A pesquisadora recorreu à exegese histórico-crítica para encontrar respostas para questões colocadas pelo movimento feminista. Leu a Escritura com os olhos das feministas, fazendo um apurado trabalho de escavação dos terrenos nos quais os relatos se sustentam.  Foi aí que cunhou a famosa expressão “discipulado de iguais,”  hoje tão comum na teologia. Para ela, a comunidade cristã primitiva experimentou essa realidade, que logo depois fora desfeita por causa da união da religião cristã com o império romano. O modelo imperial androcêntrico e patriarcal foi facilmente absorvido pelas lideranças da Igreja e o discipulado de iguais, sonhado e gestado nas primeiras comunidades cristãs, foi abortado antes de poder firmar seus passos.
Tepedinho segue na mesma esteira de Fiorenza. Para ela, o ponto de partida de uma Teologia Feminista não seria somente a experiência de opressão, a experiência de Deus na luta pela justiça, senão também a práxis do carinho, quer dizer, criar relações fraternais que são as que deveriam existir entre homens e mulheres, entre anciãos, jovens e crianças, entre todas as pessoas. 
Apesar de alguns pontos em comum, a pesquisa bíblico-feminista não encontrou unanimidade entre as cristãs feministas. Três correntes se distinguem.  A primeira afirma que é melhor abandonar a bíblia, pois seu arcabouço androcêntrico, machista e sexista não permite uma leitura libertadora para as mulheres. O segundo grupo entendeu que a Bíblia faz parte da cultura ocidental e que ela influencia tanto homens quanto mulheres, não devendo, pois, ser ignorada. Assim, aceita-se a Bíblia naquilo que ela tem de libertador do feminino, criando uma espécie de “cânon no cânon”. A terceira corrente quer escavar as profundezas da Escritura para ver, no dito e no não-dito do texto, o verdadeiro papel da mulher no seguimento de Jesus Cristo.
Apesar do novo olhar lançado sobre a Escritura, a hermenêutica bíblica feminista não foi considerada pelo documento da Pontifícia Comissão Bíblica como um novo método de leitura bíblica, mas como uma abordagem  que acrescentou aos métodos já consagrados dois importantes critérios de investigação: a) o critério hermenêutico da suspeita, que leva a leitora a questionar os registros, uma vez que eles foram concebidos por uma cultura patriarcal e  androcêntrica; b) o critério social, que se baseia nos estudos acerca das sociedades que deram suporte ao texto escriturístico e do papel que a mulher ocupava nas mesmas. Iluminadas por Gl 3,28, “Não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher; todos são um só em Cristo”, as biblistas seguem analisando a organização da sociedade judaica e greco-romana da época em comparação à comunidade cristã das origens, a fim de ver o hiato entre ambas e ainda criar um novo paradigma de leitura bíblica.
Para Salas, o paradigma bíblico deve ser repensado a partir de duas questões: uma diz respeito à autoridade da Bíblia, ou seja, à afirmação de que ela é inspirada pelo Espírito Santo e contém a revelação de Deus, e a outra trata da desconstrução/reconstrução dos contextos bíblicos cristãos. A estudiosa afirma que a Sagrada Escritura tem sido instrumentalizada para subalternizar as mulheres e favorecer o processo de sua anulação ou exclusão, apesar de os relatos bíblicos estarem impregnados de elementos que favorecem a emancipação e a libertação feminina.  E não só a Escritura, mas também a maioria dos ensinamentos cristãos se sustentam numa perspectiva patriarcal, em que o poder é conferido aos homens e, às mulheres, foi dado o espaço da subalternidade, tal como a tarefa da pastoral, da secretaria e/ou do lar.

4. Objetivos e metas

Se tem algo que não é pretensão das biblistas femininas é chegar a uma verdade única, imutável e total. O movimento bíblico feminista já nasce plural e entende que a Bíblia comporta muitas leituras, apesar de algumas não serem aceitáveis pois pecam contra as bases da fé cristã.  Sabe-se que, por mais que se investigue o texto, jamais haverá uma verdade exata acerca de como viviam as comunidades nascentes e de qual era o papel da mulher nas mesmas.  O que se deseja é desmitificar o texto, instrumentalizado para a conservação do status quo masculino, a fim de promover a emancipação e a libertação das mulheres. O desconhecimento das estruturas patriarcais dos relatos bíblicos leva à perpetuação da subalternidade feminina. No entanto, uma nova consciência a respeito dessa realidade pode engrossar o movimento de libertação das mulheres.  
Fiorenza chega a afirmar que não basta apenas compreender os relatos bíblicos sob nova ótica, nem mesmo saber como eles foram instrumentalizados para subjugar as mulheres. É preciso tomar ciência de que os poderes patriarcais da Tradição, legalmente autorizados a interpretar a bíblia, contribuíram enormemente para que as mulheres fossem silenciadas e excluídas.  O que se deseja, pois, é interromper a leitura androcêntrica dominante e levar à falência as estruturas de dominação ainda vigentes.
Nota-se comumente um esforço em desvendar os recursos literários e retóricos que são mormente utilizados pelo patriarcado para dar continuidade ao poder dos varões. Grande contribuição dará a análise narrativa e retórica das décadas de 60-80 para desconstruir e construir os textos bíblicos. Como escreveu Johnson-DeBaufre, os relatos bíblicos são, como qualquer outra literatura, eventos de linguagem bem mais que somente um conjunto de signos. Trata-se de uma prática de comunicação, que só pode ser compreendida dentro da história, num determinado tempo e espaço. A comunicação revela o intuito do relato de preservar as estruturas do poder patriarcal e manter o lugar de privilégio dos homens.  Analisar, como se diz hoje, o cotexto  do texto é fundamental para conhecer de fato a mensagem da Escritura.

5. Perguntas e estratégias

Segundo Mary Ann Tolbert, citada por Salas,  a Hermenêutica Bíblica Feminista é profundamente paradoxal, pois, ajudada pelo próprio Deus, ela deve lutar contra Deus mesmo como principal inimigo, e ainda deve rechaçar a bíblia como autoridade patriarcal, ao mesmo tempo em que a utiliza como principal fonte de libertação da mulher. Assim, pelo seu próprio princípio e método, pode-se afirmar que, nesse caminho investigativo, há mais perguntas que respostas. São elas que movem a pesquisa, fazem a investigação progredir, empurram o estudo para a frente. E as perguntas colocadas pelas mulheres não são as mesmas que intrigaram os varões e os levaram a escavar a Escritura. Elas surgem a partir de uma nova visão de mundo e alteram o resultado da investigação.
Segundo Johnson-DeBaufre, é importante que algumas questões sejam postas. Ao deparar com o texto, as biblistas devem se perguntar: “Há uma mulher no relato? Se há, qual o seu ponto de vista? De que forma é feita a apresentação das mulheres no texto? Elas têm voz e vez ou são apenas figurantes no relato? Será possível conhecer o ponto de vista delas? A quem pode ser atribuído o poder no texto? Esse poder está centralizado em uma figura ou é equitativamente distribuído? As mulheres têm sucesso em seus empreendimentos e suas vontades são consideradas? Como o texto relata experiências exclusivamente femininas, como a do parto, ou aquelas tradicionalmente conferidas a elas como a tarefa de criar os filhos? Que relações de gênero estão ocultas no relato e a quais interesses esse texto serve?”  Essas são algumas questões que impulsionam a pesquisa bíblica feminista. Conferem carne a uma epistemologia própria, por meio da qual as biblistas leem a Escritura. Sem essa lista de perguntas não é possível aproximar-se corretamente do texto. Sem a suspeita de que os registros têm interesses patriarcais, qualquer leitura bíblica ficaria com a verdade comprometida.
Para Fiorenza, “a Bíblia não é um livro ‘neutro’, mas arma política contra a luta de mulheres pela libertação.”  O androcentrismo, o sexismo e o patriarcalismo são arcabouços dados; não são pontos facultativos que podem ser dispensados. São constitutivos do texto ou fazem parte de seu sistema estrutural. Esses pressupostos se fazem presentes em cada linha da Escritura, seja reforçando o sistema de dominação das mulheres, seja combatendo-o. Como afirma Buell,  apesar de todo potencial libertador da Escritura, muitos textos bíblicos propiciam práticas opressoras, tais como a supremacia branca e a subordinação da mulher. A autoridade da bíblia tem sido invocada para relegar a mulher a um lugar secundário, sempre em subalternidade em relação ao varão.
O que se põe em questão não é a inspiração bíblica, mas como e em que sentido o texto é inspirado. A Dei Verbum (DV), do Vaticano II, ajuda a compreender melhor esse conceito de inspiração quando afirma que, na Escritura, não há erros somente no que diz respeito ao que Deus quis ensinar acerca da salvação, nada mais do que isso (n. 11). Todo o resto deve ser posto em suspenso, pois a cultura kyriarcal,  patriarcal e androcêntrica, que são seu pano de fundo, não colaboram para a salvação da mulher, ao contrário, favorecem sua subordinação e sua anulação. Uma crítica da ideologia patriarcal é condição para que as mulheres tomem consciência do necessário processo de libertação que a fé cristã oferece também a elas, sempre subjugadas e dominadas pelos machos. 
Na leitura dos textos canônicos, Matthews  sugere algumas estratégias para recuperar a mensagem original salvífica, sem deixá-la ofuscada pelo patriarcalismo. São elas: a) procurar com investigação microscópica as mulheres que estão no texto bíblico, especialmente aquelas do Novo Testamento, que foram ofuscadas ao longo da história da Igreja, majoritariamente dominada por varões; b) entender que diversos textos carregam uma intenção de apagamento das mulheres, que está muito além do patriarcalismo e do androcentrismo da realidade social da época – há uma intencionalidade de impor exclusão às mulheres e de subjugá-las; c) investigar e descontruir a retórica patriarcal, de modo a reconstruí-la  a partir da ótica feminina.
Uma das estratégias da hermenêutica feminista é trazer à luz textos esquecidos, relegados ao abandono por homens que, durante séculos de investigação bíblica, privilegiaram alguns relatos em detrimento de outros. Além disso, é preciso prestar atenção nos textos em que as mulheres aparecem, dando à sua figura o destaque que merecem, contra toda cultura patriarcal que se esforçou para apagá-las.
Para Salas,  trata-se de um esforço para despatriarcalizar a bíblia. Enxergando as mulheres como sub-humanas, o poder patriarcal e kyriarcal as explorou, excluiu e silenciou. Há, pois, uma necessidade de desmontar o arcabouço de dominação e exploração feminina que perpassa as Escrituras, para em seguida reconstruir os textos a partir do princípio da igualdade e do respeito entre os gêneros, como escreveu Paulo em Gl 3,28.
Como afirma Fiorenza, 

As diferenças de sexo/gênero, raça, classe e etnia são construções socioculturais, não desejadas por Deus e, portanto, devem ser alteradas. Deus, que criou a pessoa à imagem divina, chamou cada indivíduo de uma forma diferente. A sabedoria divina deve ser encontrada nas pessoas e entre elas, que são criadas iguais. 

É preciso insistir em uma teologia bíblica que seja crítica ao patriarcalismo e possa contribuir para a emancipação e para a libertação das mulheres. E essa é uma tarefa de todos, inclusive dos homens, que até hoje usaram as Escrituras para subjugar a condição feminina. Como canta Chico Buarque: “Você que inventou esse estado [...] que inventou a tristeza ora tenha a fineza de desinventar”. Cabe também aos homens a tarefa de combater o machismo e a leitura sexista da Escritura para libertação não só das mulheres, mas também deles próprios.

6. A hermenêutica crítico-feminista da libertação 

Nesse esforço de despatriarcalização, destacam-se Rosemary Radford Ruether, Letty Russell e especialmente a romênia Elisabeth Schüssler Fiorenza, posteriormente estudante e professora na Alemanha e casada com um americano. O esforço de Fiorenza tem sido sem igual, pois concentra-se não somente no confronto das interpretações padronizadas por homens, mas também na busca de lentes interpretativas que capacitem as mulheres no processo de luta por igualdade, liberdade e dignidade de direitos.  Não basta apontar os equívocos interpretativos da leitura tradicional feita por varões; é preciso ajudar as mulheres a se reconhecerem na Escritura e a capacitá-las com ferramentas, inclusive acadêmicas, na luta de sua própria libertação.
Sabedora do impacto político da Escritura nas igrejas e na sociedade,  a biblista defende a necessidade de uma interpretação feminista e científica da Bíblia, a partir de três argumentos. São eles: a) no decorrer da história, a Bíblia foi utilizada para subordinar as mulheres, impedindo sua emancipação; b) de forma especial, as mulheres creem que a Bíblia é Palavra de Deus, logo a Escritura não pode ser relegada ao ostracismo como se não influenciasse a caminhada feminina; 3) para se ter uma mudança de mentalidade, não basta um esforço isolado na sociedade; todas as esferas e contextos devem ser transformados simultaneamente, inclusive a esfera religiosa, pois existe uma interdependência entre elas na sociedade. 
A teóloga elaborou a Hermenêutica Crítico-feminista da Libertação. Para ela, é preciso se empenhar em uma compreensão hermenêutica feminista que não perpetue a continuação da tradição bíblica; ao contrário, é fundamental fazer uma avaliação crítica da mesma. Tal hermenêutica deve trazer à baila, assim como rejeitar, os elementos da tradição e dos textos bíblicos que, em nome de Deus, perpetuam a subordinação patriarcal, o silenciamento e a anulação das mulheres, de forma a erradicar a violência sofrida por elas. Ao mesmo tempo, a hermenêutica crítico-feminista se empenhará em recuperar aqueles elementos dos textos e da tradição bíblica que geram libertação e emancipação feminina. 
Assim, a estudiosa considera que é urgente a produção de todo conhecimento que desarticule as várias expressões de subordinação social e a invisibilidade política feminina. Nesse rol, encontra-se o conhecimento bíblico-teológico, pois também a religião cristã cooperou, e muito, para a dominação jurídica e econômica das mulheres, impondo-lhes uma obediência ideológica e psíquica ao masculino.
Fiorenza insiste que o patriarcalismo e o machismo não estão presentes apenas na interpretação do texto, como sugerem algumas biblistas ansiosas por salvar o texto e sua inspiração. Para ela, as deturpações já estão presentes no próprio texto, pois são constitutivas da sociedade daquele tempo. Apesar de serem declarados textos inspirados, os relatos da Escritura são uma composição sociocultural advindos de interesses da classe dominante: os homens senhores. Logo, textos cujo arcabouço é claramente patriarcal e gera opressão e dominação de uns em prol de outros não podem ser lidos como inspirados a não ser que sejam antes desconstruídos. Tais textos não podem ser normativos e considerados atemporais sob o argumento da inspiração divina ou da revelação contida na Escritura, sem antes uma análise crítica séria que aponte sua própria tecitura.
A Hermenêutica Feminista da Libertação se difere da Teologia da Libertação, tão conhecida no continente latino-americano. Para Fiorenza, a Teologia da Libertação não distinguiu as mulheres, tomando-as num grupo genérico de excluídos ou oprimidos.  Essa teologia, segundo Fiorenza, excluiu de sua análise a condição feminina; assim como não foi suficientemente radical para romper com os textos fundantes do cristianismo.
Sua hermenêutica também não se confunde com as teologias que trabalham exclusivamente sobre a categoria de gênero, pois essas deixam no esquecimento outros elementos importantes como a questão do kyriarcado. Para a biblista, essa visão binária não contribui para uma análise mais específica, pois categoriza as mulheres num único bloco, deixando de lado as diferenças dos múltiplos grupos de mulheres. Há uma diversidade enorme de experiências femininas que devem ser levadas em conta. Ser mulher indígena não é o mesmo que ser mulher branca ou negra. Ou ser mulher pobre, latino-americana, não é o mesmo que ser uma mulher abastada e europeia. Essas diferenciações devem ser levadas em conta na hora de fazer hermenêutica, ou haveria o risco de uma universalização feminina ideal, sem considerar as realidades específicas, como se houvesse uma espécie de eterno feminino ou uma feminilidade atemporal.
O esforço hermenêutico de Fiorenza desembocou num método de leitura bíblica, que exige de qualquer biblista uma mudança de mentalidade, ou seja, uma conversão epistemológica. Não basta aplicar seu método para se chegar a resultados favoráveis. É preciso uma mudança no modo de fazer teologia bíblica, de pensar teologicamente.
Em sua obra Caminhos de sabedoria (2009), a autora descreve seu método em sete passos.  Fiorenza fala de “dança hermenêutica,”  com diversas coreografias capazes de emancipar e libertar as mulheres. 

7.1. Hermenêutica da Experiência 

O começo de tudo é a experiência das mulheres ou, melhor ainda, a experiência de luta empreendida pelas mulheres em busca de sua dignidade e de seu reconhecimento frente às sociedades e às religiões marcadamente patriarcais. 
Não é de hoje que as mulheres notam que a Escritura tem sido utilizada para domesticá-las e subjugá-las, tornando-se um instrumento de subtração de sua autonomia e de seus direitos. Paradoxalmente, a mesma Escritura tem sido fonte de libertação e emancipação para muitas mulheres. Assim, não se trata somente de experiência feminina, mas de experiência feminista, aquela que se forja sob a luta por direitos das mulheres e de tantos outros subalternizados.  A interpretação da bíblia com as lentes do feminismo torna-se instrumento de esperança e de libertação.
Para que as experiências das mulheres sejam de fato pertinentes, é preciso que haja o que Fiorenza intitula de experiência de “avanço decisivo,”  ou seja, um impulso que força à mudança de hábitos e atitudes. Trata-se de adquirir consciência das estruturas às quais as mulheres estão submetidas; sem isso, a experiência feminina perpetua o patriarcalismo. Para a autora, as experiências da vida não são quimicamente puras, isentas de condicionamentos. Elas se encontram sob a égide da linguística e da cultura; carregam um sentido político, que vai além do âmbito privado. Por isso, devem ser analisadas criticamente para irradiarem sua luz; mas, apesar de se constituírem o ponto de partida da hermenêutica crítico-feminista, as experiências não podem ser consideradas isoladamente.

7.2. Hermenêutica da dominação e da localização social 

Além de ser importante saber o local político, econômico e cultural do qual se lê o texto, é fundamental saber também o lugar a partir do qual ele foi escrito. Trata-se de desvendar a ideologia que sustenta o relato escriturístico, de mostrar o serviço que ele presta ao patriarcalismo e à manutenção do status quo do varão em detrimento da mulher.  Busca-se descobrir o seu potencial libertador. Para isso, é necessário conhecer os valores que o texto defende, saber se ele projeta socialmente a mulher ou se a deprecia etc. Por isso, fala-se em investigação da dominação. Faz-se uma investigação ordenada e crítica das ideologias patriarcal e kyriarcal, de modo a mostrar o potencial libertador do texto. A função desse passo é revisitar os relatos da Escritura com a suspeita de que neles há inegáveis pressupostos patriarcais e kyriarcais, no intuito de desmascará-los para que a verdade venha à tona, uma vez que ela se encontra camuflada por eles.  Para Fiorenza, nesse sistema androcêntrico, o homem é colocado como paradigma de ser humano e a mulher é concebida unicamente como uma exceção à regra, ou seja, “o outro”, um caso à parte.  Desconsiderar esse arcabouço é fazer uma leitura rasa da bíblia. O que se nota é que há uma ingenuidade nata em relação ao texto, uma recepção ingênua da Escritura como palavra de Deus, como se ela não pudesse também esconder interesses escusos de um grupo dominante. 

7.3. Hermenêutica da suspeita 

Desde muito, as mulheres aprenderam que devem se aproximar da Escritura Sagrada com respeito e reverência. Qualquer atitude diferente dessa era vista como rebeldia e heresia, coisa de bruxas inconformadas com a religião e seus ensinamentos sagrados. Fiorenza, no entanto, defende a ideia de que a suspeita é ferramenta hermenêutica útil e totalmente necessária para uma boa aproximação do texto. A superação da empatia e do consentimento deve dar lugar a uma desconfiança metodológica.
Por meio da suspeita, encontra-se um caminho de escavação do texto na sua estrutura kyriocêntrica, de modo a trazer à tona as suas intenções ideológicas, com os seus interesses de dominação.  Coloca-se a inspiração da bíblia em suspenso, sem no entanto eliminá-la. Trata-se apenas de um método; não de uma recusa deliberada da inspiração divina por heresia ou atitude cismática. Tal atitude evita uma leitura emocional, apologética, por meio da qual se quer salvar o texto a todo custo. A hermenêutica da suspeita não tem medo de trazer à luz as intenções ideológicas de submissão dos pequenos, especialmente das mulheres, que servem de pano de fundo do escritor sagrado. Ao contrário da hermenêutica de apreciação e consentimento, que perpetua as leituras já cristalizadas, a hermenêutica da suspeita dá vazão a novas possibilidades, pois sabe que a linguagem kyriocêntrica não só “encobre a realidade, mas a constrói de uma determinada maneira e depois desmitifica suas próprias construções ao declará-las naturais,”  comprometendo a mensagem salvífica do texto. Para que o texto diga a mensagem libertadora que lhe é própria, é preciso expor seu caráter kyriocêntrico sem medo de trair a Escritura.

7.4. Hermenêutica da avaliação crítica 

Esse passo da hermenêutica feminista avalia a retórica dos textos a partir de valores feministas. O que se deseja não é classificar os textos em opressores e libertadores, mas encontrar um ponto de luz a partir da luta das mulheres feministas, cuja consciência de subalternidade encontra-se amplamente aflorada. 
A pergunta que move esse passo é: “Que resultados a leitura desse texto escriturístico provoca?” O que se faz é submeter o texto ao crivo dos valores feministas para desvendar suas armadilhas mais ocultas e rechaçá-las como vontade de Deus ou verdade salvífica. Para Fiorenza, esse passo “avalia textos bíblicos e suas interpretações em termos de uma escala feminista de valores e visões emancipatórias que pode ser inspirada pela bíblia, mas não precisa necessariamente derivar dela.”  O que se pergunta é o que o texto provoca nas mulheres hoje, se é um relato libertário para elas ou se perpetua sua submissão. Procura-se padrões emancipatórios que possam ser valorizados e elementos de esperança para a luta das mulheres, pois, para Fiorenza, a exegese não é um padrão fixo sem relação com um grupo efetivo e concreto de pessoas, mas sempre um compromisso explícito com as mesmas, no caso, com as mulheres.

7.5. Hermenêutica da imaginação criativa 

Esse passo diz respeito ao ato de sonhar livremente com um mundo sem opressores e subalternizados. As perguntas que orientam esse momento poderiam ser assim elencadas: “E se esse relato tivesse sido escrito por mulheres? E se ele fosse produzido dentro de um arcabouço de justiça e fraternidade em vez de um sistema patriarcal e kyriarcal? Ele seria o mesmo? Como seria o relato em outras condições? Como ele se daria se as pretensões não fossem de manter o status quo dos varões?”   O objetivo é colocar a mulher no centro do relato, reconstruir o relato sobre outras bases, dar voz e vez a milhões de mulheres caladas nos textos escriturístico, numa espécie de atitude hermenêutica subversiva, que reconstrói os laços de solidariedade entre mulheres do passado, do presente e do futuro.  Para Fiorenza, não é possível fazer hermenêutica feminista libertadora sem uma atitude empática com as irmãs sofredoras do passado e sem rechaçar todo sofrimento de silenciamento e anulação com o qual elas foram açoitadas.  Conhecendo a situação passada, assinala-se para um futuro possível de bem estar e fraternidade e sonha-se com um mundo de iguais.

7.6. Hermenêutica da relembrança e da reconstrução 

Esse passo hermenêutico contribui não para demarcar o abismo entre o tempo presente em que o texto é lido e o tempo passado em que ele foi escrito, distância que o positivismo construiu, mas sim para aumentar os conhecimentos e a imaginação históricas. O que se quer é recuperar a história religiosa das mulheres e de sua vitimização. Por meio dessa hermenêutica se faz um resgate histórico do texto, assim como uma reconstrução religiosa do mundo. Trata-se de uma tarefa não só desconstrutiva, mas especialmente construtiva. Ela rejeita “o positivismo textual que entende o texto como uma janela para o mundo, como reflexo e notícia da realidade histórica, e que trata suas fontes como dados objetivos e evidências que indicam como as coisas realmente foram.”  Sabe que a história não é uma descrição da realidade, nem mesmo uma transcrição e relato do que de fato aconteceu. Em outra linguagem, esse passo hermenêutico distingue o relato factual (real/acontecido) do fato teológico (ficcional/com intenções teológicas). Compreende que a narração é um refazer da realidade e não a própria realidade.  Assim, a relembrança histórica recupera o texto sagrado como história das mulheres, de suas lutas e sobrevivências, recuperando o que ficou afundado no abismo do anonimato feminino.

7.7. Hermenêutica da transformação social 

O objetivo da hermenêutica feminista é um mundo transformado, um discipulado de iguais, uma sociedade fraterna e justa sem dominadores e dominados. Esse passo hermenêutico impulsiona as mulheres à luta por justiça e emancipação, ainda que esse mundo de iguais pareça utópico e impossível de ser realizado. Trata-se de uma rebeldia, uma inconformidade com esse mundo tal como ele se sustenta sobre bases patriarcais. A Hermenêutica Feminista Libertadora potencializa as mulheres para a luta e as encoraja à transformação das estruturas opressoras.  Não se tem, pois, a pretensão de uma exegese pura e neutra, pois sabe-se que toda ciência trabalha sempre com hipóteses e modelos que advém de uma imaginação bem informada.  

Conclusão

A presença da abordagem feminista no documento da Pontifícia Comissão Bíblica abre espaços para se pensar e reconhecer a Hermenêutica Bíblica Feminista, mas – apesar de representar avanços – como bem se notou, não dá conta da extensão do assunto nem do caminho já percorrido pelas mulheres no campo bíblico. 
O documento insiste que a Abordagem feminista não é um método, mas uma leitura possível, limitando o caminho hermenêutico traçado pelas pesquisadoras. A escolha do termo abordagem não é inocente. Enquanto outros métodos são reconhecidos como tal, com epistemologia própria e tudo mais, a Hermenêutica Bíblica Feminista não goza do mesmo estatuto, revelando mais uma vez o arcabouço patriarcal dos documentos magisteriais e o quanto há a se fazer nesse campo de superação do patriarcalismo e androcentrismo na Teologia Cristã.
Como afirma Ascuy, a Teologia Feminista é “um pensar perigoso”  e coloca em risco a supremacia dos varões, estabelecida desde os primeiros séculos da era cristã, depois da união da Igreja com o império romano. O mesmo seja dito da Hermenêutica Bíblico Feminista, que quebra paradigmas de interpretação tão antigos quanto a fé cristã e recoloca os textos sob a ótica do feminismo e da luta das mulheres por emancipação e libertação.
Nesse campo da Teologia, diversas biblistas têm dado contribuição volumosa e significativa. Destaca-se, porém, Elisabeth Shüssler Fiorenza, com seu método de leitura bíblica, intitulado Hermenêutica Crítico-feminista da Libertação. O discipulado de iguais, idealizado pela estudiosa, faz pensar o quão longe estamos do ideal cristão, que afirma em Gl 3,28: “Não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher; todos são um só em Cristo”. Oxalá Deus fortaleça as mulheres neste caminho libertador da Sacristia e da Secretaria Paroquial, onde vivem subalternizadas pelos presbíteros e subaproveitadas em seu potencial criativo, à Academia, onde possam fazer teologia em pé de igualdade com os varões!

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1  CARMO, S. M., A mulher na Igreja, p. 31-46. Por generificado, entenda-se o resultado da compreensão e da ação social a partir de dois gêneros humanos únicos e específicos, homem e mulher, sem nenhuma possibilidade de compreensão da sexualidade fora desse binômio. Aos homens é dado o poder, a força e a capacidade de liderança; às mulheres são atribuídas categorias de docilidade, cuidado e maternidade. Uma teologia estranha, inclusive ultimamente usada pelo papa Francisco para legitimar a negação dos ministérios ordenados às mulheres, tem sido a da presença de dois ministérios na vida cristã: o petrino, que se refere aos ministros ordenados, exclusivamente do gênero masculino; e o mariano, que se refere às mulheres e sua ação pastoral na Igreja. Tal argumentação reforça a generificação dos ambientes teológicos, não levando em consideração que a categoria de gênero é uma construção social. Sobre essa temática, vale conferir a entrevista de Jean-Francois Chiron em: https://www.ihu.unisinos.br/624596. Acesso em 09/07/2023. 
2  A autora defende que conhecimento é poder, daí a importância de as mulheres produzirem e divulgarem conhecimento. O título desse artigo Da Sacristia e da Secretaria à Academia se deve a essa premissa.
3  JOÃO Paulo II, PP., Discurso, p. 6. Grifo nosso.
4  IBI, p. 78-82.
5  IBI, p. 74-78.
6  CARMO, S. M., A Bíblia: métodos de leitura, p. 79-106.
7  Por machismo, entenda-se o efeito do sistema patriarcal que legitima a posição de inferioridade da mulher em relação ao homem, discriminando-a e atribuindo-lhe funções de subalternidade na sociedade.
8  Por patriarcalismo, entenda-se o sistema sociocultural que dá aos homens poderes e supremacia sobre as mulheres, crianças e demais dependentes (REIMER, I. R., Põe-me como um selo, p. 19).
9  Por androcentrismo, entenda-se o arcabouço mental que regulamente o masculino como o paradigma do humano (REIMER, I. R., Põe-me como um selo, p. 19).
10  Por sexismo, entenda-se o conjunto de preconceitos, discriminações e exclusões sociais que se baseiam-no sexo ou na orientação sexual e colocam o feminino (ou pessoas de outra orientação sexual que não se encaixam na heteronormatividade vigente) em situação de subalternidade. O sexismo não leva em conta que, para além da identidade sexual biológica, há uma série de significados sociais, culturais, psicológicos, religiosos e políticos atribuídos aos gêneros; nem leva em consideração a amplitude da sexualidade com todas as suas variantes; fixa-se apenas no sexo biológico. Fiorenza adverte que a categoria de gênero é social, política, econômica e teologicamente construída (FIORENZA, E. S., O chamado de Maria de Magdala).
11  Por misoginia, entenda-se o ódio ou aversão ás mulheres (REIMER, I. R., Grava-me como um selo, p. 16-18).
12  Por feminismo, entenda-se “a noção radical das mulheres como seres humanos” (FIORENZA, E. S., Changing Horizons, p. 7). Segundo Bedford, o feminismo se refere à firme convicção de que as mulheres não são ontologicamente menores ou menos que os varões; ao seja, trata-se de uma crítica ao androcentrismo, que coloca o varão como parâmetro do humano, relegando a mulher ao espaço da subalternidade (BELFORD, N., Dar razón de la fe). Com essas definições aproximativas, não se deseja catalogar o feminismo como expressão única, ao contrário, sabe-se que esse é um movimento amplo, multifacetado (COLARES, Antropologia do feminino, p. 59).
13  PINTO, M. C. J., Feminismo, história e poder, p. 15.
14  TABORDA, F., Feminismo e teologia feminista, p. 313.
15 PINTO, M. C. J., Feminismo, história e poder, p. 15-16.
16  PINTO, M. C. J., Feminismo, história e poder, p. 17.
17 FIORENZA, Para mulheres, p. 53.
18  EGGERT, E.; LUCAS, L., A contribuição da Teologia Feminista, p. 37.
19  Expressão que designa o contrário do machismo, ou seja, uma estrutura de poder exercido pelas mulheres e não pelos homens, uma espécie de sexismo às avessas, enquanto o feminismo “é a saída de mulheres da tutela e incapacidade impostas por outros e causadas por elas mesmas” (SCHOTTROFF, L.; SCHROER, S.; WACKER, M-T., Exegese feminista, p. 39). 
20  Título que Fiorenza dá a um de seus livros (Discipulado de iguais, 1995).
21  EGGERT, E.; LUCAS, L., A contribuição da Teologia Feminista, p. 39.
22  SCHOTTROFF, L.; SCHROER, S.; WACKER, M-T., Exegese feminista, p. 11.
23  EGGERT, E.; LUCAS, L., A contribuição da Teologia Feminista, p. 30.
24  CANDIOTTO, J. F. S., Teologia na perspectiva das relações de gênero, p. 93.
25 TAMEZ, E., Estudios bíblicos feministas, p. 45.
26  REIMER, I. R., Grava-me como um selo, p. 25.
27 GEBARA, I., Teologia ecofeminista.
28  FIORENZA, E. S., En memoria de ella. 
29 FIORENZA, E. S., As origens cristãs, p. 11.
30 FIORENZA, E. S., Discipulado de iguais.
31  TEPEDINO, A. M., Muyer y teologia, p. 61.
32 IBI, p. 79.
33  Sobre isso, há controvérsias. Para as biblistas feministas, trata-se de um método, com epistemologia própria, mas ainda assim um método hermenêutico, ou seja, de estudo e interpretação da Escritura. O documento, de 1973, chama tal estudo de abordagem bíblica, uma expressão redutora e insuficiente para as biblistas. Mas foge ao escopo desse artigo discutir isso; o que se deseja é apresentar a caminhada das mulheres da Sacristia ou Secretaria das paróquias à Academia, onde elas fazem também teologia acadêmica e não somente leitura popular da bíblia (não que esta seja menor que a outra).
34  SALAS, R. C., Hermenéutica feminista cristiana, p. 182.
35  FIORENZA, E. S., Bread not Stone, p. 3.
36  SALAS, R. C., Hermenéutica feminista cristiana, p. 182.
37  FIORENZA, E. S., Entre la investigación, p. 12.
38 JOHNSON-DEBAUFRE, M., Textos y lectores, p. 240-241.
39 O cotexto se refere à relação entre os “elementos textuais (sintaxe, semântica, gêneros literários, incoerências etc.) e inferências sugeridas pelo leitor (perguntas, hipóteses)” (GUIDI, M., Entrevista, p. 65).
40  SALAS, R. C., Hermenéutica feminista cristiana, p. 182.
41 JOHNSON-DEBAUFRE, M., Textos y lectores, p. 242.
42  FIORENZA, E. S., As origens cristãs, p. 30.
43 BUELL, D. K., Cánones no cerrados, p. 319.
44 O termo kyriarchy diz respeito a um sistema social que excluía mulheres e escravos do exercício da plena cidadania e da tomada de decisões. Daí a tradução da autora usar a expressão mulh*r em vez de mulher, para não identificar o termo somente com o gênero feminino, mas para designar que o kyriarcado não oprime só as mulheres, mas também muitos homens, aqueles que não fazem parte do poder dominante. Todos os dominados entram na categoria e são contemplados na reflexão teológica feminista. A autora insiste na importância de uma linguagem inclusiva e neutra, que não coloca o masculino como referência da língua. Nesse esforço, Fiorenza substituiu, por exemplo, as letras da palavra “Deus” por asteriscos (D**), para evitar o uso da categoria de gênero para se referir ao divino. Para ela, a linguagem convencional parte de interesses escusos de dominação. “A imagem divina não é nem masculina, nem feminina, nem branca nem negra, nem rica nem pobre, mas multicolorida e multigênero, e mais” (FIORENZA, E. S., O chamado de Maria Magdala).
45  MATTHEWS, S., Historiografia bíblica, p. 256-258.
46  SALAS, R. C., Hermenéutica feminista cristiana, p. 184.
47  FIORENZA, E. S., Dentre la investigatíon, p. 23.
48  FIORENZA, E. S., Para mulheres, p. 55.
49  FIORENZA, E. S., Dentre la investigatíon, p. 13. 
50 Fiorenza não faz parte do grupo de mulheres que trabalham com a hermenêutica da rejeição, ou seja, do grupo que entende que não há redenção para a revelação bíblica, pois essa está de tal modo impregnada pelo patriarcalismo e pelo androcentrismo que todo esforço para fruir daí a libertação e a emancipação da mulheres seria inútil. Segundo a biblista, “se as feministas pensam que podem negligenciar a revisão da bíblia, porque existem problemas políticos mais urgentes, não reconhecem então o impacto político da escritura nas igrejas e na sociedade, e também na vida das mulheres” (FIORENZA, E. S., As origens cristãs, p. 35). 
51  FIORENZA, E. S., As origens cristãs, p. 35.
52  FIORENZA, E. S., Para mulheres, p. 59-60.
53  Para Bingemer, essa distinção ainda não era culturalmente possível (BINGEMER, M. C., Teologia Latino-americana, p. 73-87.
54 Salas fala de cinco passos (Hermeneutica feminista, p. 194-196). Seguiremos aqui a própria autora Elisabeth Shüsler Fiorenza e não sua comentadora, apesar de recorrermos a esta para elucidar o método de Fiorenza.
55  FIORENZA, E. S., Caminhos da Sabedoria, p. 187.
56  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 191-194.
57  SALAS, R. C., Hermenéutica feminista, p. 194.
58 SALAS, R. C., Hermenéutica feminista, p. 194.
59  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 192. 
60  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 194-197.
61  SALAS, R. C., Hermenéutica feminista, p. 195.
62 SALAS, R. C., Hermenéutica feminista, p. 195.
63 FIORENZA, E. S., Para Mulheres, p. 56; FIORENZA, Bread not Stone, p. 16.
64 FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 197-199.
65 FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 197.
66  FIORENZA, E. S., Caminhos da sabedoria, p. 198. 
67  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 199-201.
68  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 199.
69 FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 201-205.
70  SALAS, R. C., Hermenéutica feminista, p. 195.
71  FIORENZA, E. S., Bread not Stone, p. 19.
72  FIORENZA, E. S., Para mulheres, p. 59.
73  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 205-208.
74 FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 206. 
75  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 207.
76  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 209-212.
77 SALAS, R. C., Hermenéutica feminista, p. 195-196.
78  FIORENZA, E. S., Caminhos de sabedoria, p. 203.
79  ASCUY, V. R. El método cualitativo, p. 25.