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45. Evangelii Gaudium: Luzes para a Catequese

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30.12.2021 | 20 minutos de leitura
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Acadêmicos
45. Evangelii Gaudium: Luzes para a Catequese
Rafael Alves
Solange Maria do Carmo
RESUMO
Esta pesquisa estuda a Exortação Apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium, garimpando intuições para um novo paradigma catequético. Há tempos, muito se fala da ineficiência do processo de iniciação cristã em vigor, que dá mostras de caducidade e falência. A Evangelii Gaudium levanta questões pertinentes para a ação catequética e traz luzes para mudanças. Trata-se de um texto rico em possibilidades teológicas e pastorais, especialmente no campo da evangelização e da missão, no qual se enquadra a catequese da Igreja. Os princípios da Exortação sugerem uma verdadeira conversão catequética, propondo a passagem da catequese tradicional, focada na doutrina e nos sacramentos, para uma catequese querigmática, mistagógica e com acompanhamento personalizado dos catequizandos. Tal conversão exigirá das comunidades eclesiais uma coragem audaciosa, cujas raízes se encontram na ação evangelizadora do próprio Jesus de Nazaré. 
Palavras-chave: Iniciação Cristã. Catequese. Paradigma catequético. Conversão Catequética. Papa Francisco.
 
A crise do processo tradicional de iniciação cristã é fato que salta aos olhos; não há como negá-la. Diversos autores têm trabalhado esse tema e não faltam esforços para delinear um novo paradigma para a catequese atual. Diante da constatação da ineficácia da catequese atual, o que é possível fazer? O processo catequético se tornou dispensável nos dias de hoje? Será realmente o fim da catequese? Por suposto que não. A crise do processo tradicional de iniciação cristã não decretou a morte do processo catequético, mas, com certeza, chama toda a Igreja a repensar a sua ação evangelizadora. Nesta esteira, surge como uma possível via a proposta do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, que sugere o modelo de uma “Igreja em saída” (EG 27). Assim como toda a Igreja, o processo catequético também precisa sair dos moldes já conhecidos para aventurar-se a falar ao coração dos contemporâneos.

1 Conversão pastoral, conversão catequética 
Se por um lado a crise do processo tradicional de transmissão coloca em evidência as inúmeras debilidades da transmissão da fé cristã na atualidade, por outro ela abre novos horizontes, que, se bem aproveitados, podem trazer novo vigor à catequese. Para Libanio (2006), o cenário é de chances para o cristianismo:
A chance do Cristianismo depende de profundo mergulho no Jesus histórico, relendo-o sobre o crivo de sua infinita humanidade. [...] A chance maior do Cristianismo não virá de seu conteúdo doutrinal – ele mesmo maravilhoso –, nem de eficiência organizativa das atuais formas de Igreja, mas da maneira como as comunidades viverão os valores do futuro da humanidade: solidariedade, paz, convivialidade humana, esperança nas tribulações, fé-confiança no ser humano malgrado as terríveis decepções e perversidades (LIBANIO, 2006, p. 134-135)
À nossa frente abre-se um leque de possibilidades para uma nova primavera do cristianismo. Mas, para isso, é preciso perscrutar os sinais dos tempos e saber responder a eles. Só haverá uma nova primavera do cristianismo, se o processo de iniciação cristã iniciar de fato, ou seja, se ele conduzir ao mistério pascal de Cristo. Faz-se necessária uma catequese que promova um encontro com a pessoa de Jesus, que gere adesão a ele e à sua causa; um processo que favoreça o discipulado dos catequizandos. 
Atento aos sinais dos tempos, o Papa Francisco, desde o início de seu pontificado, tem ressaltado a importância de revigorar a evangelização. Ele convida todos os cristãos a uma nova etapa evangelizadora marcada pela alegria: alegria do encontro pessoal com o Senhor que suscita o ardente desejo de anunciá-lo (EG 1). Conclama todos os cristãos a renovarem o seu encontro pessoal com Jesus Cristo (EG 3). No início do caminho de fé, está o encontro com Jesus. É a partir desse encontro que se desenrola toda a vida cristã. Ao acolher o amor de Deus manifestado em seu Filho Jesus pela ação do Espírito, o cristão se torna capaz de comunicá-lo aos outros (EG 8). Portanto, o que deve ser promovido, em primeiro lugar, é o encontro com a pessoa de Jesus Cristo. Esse encontro é fruto não de uma doutrinação, de algo pronto e imposto aos catequizandos, cujo comportamento seria de meros ouvintes e observadores de prescrições, mas, ao contrário, ele acontece de maneiras diversas, na liberdade do Espírito Santo. 
Para Francisco, a realidade atual convoca a Igreja a uma conversão pastoral e missionária (EG 25). 
Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação. A reforma das estruturas, exigida pela conversão pastoral, só se pode entender neste sentido: fazer que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta; que coloque os agentes pastorais em atitude constante de “saída” e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece sua amizade (EG 27).
O papa convida a Igreja a uma profunda transformação. Deseja que sua pastoral esteja aberta a novas possibilidades e que seus pastores e agentes pastorais não tenham medo de errar. Nos seus dizeres, estes devem ser “ousados e criativos na tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades” (EG 33). Francisco entende que hoje não se vive mais diante do horizonte da fé cristã como em tempos de outrora; ele sabe que o núcleo essencial do evangelho se tornou desconhecido aos contemporâneos (EG 34). Por isso, insiste na necessidade de uma conversão pastoral que dialogue com a realidade e que apresente Jesus de Nazaré e sua proposta de vida aos homens e às mulheres de nosso tempo, não de maneira imposta, mas de forma atrativa e oportuna. 
Uma pastoral em chave missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que tentam se impor por força de sua ortodoxia. Quando se assume um estilo missionário que visa falar ao coração humano sem exceção ou exclusão de qualquer pessoa, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa (EG 35). 
Dentro da conversão pastoral proposta por Francisco, encontra especial lugar a catequese. Moraes realça essa necessária conversão catequética a partir da Evangelii Gaudium
A Evangelii Gaudium faz-nos perceber que a nossa atividade catequética se encontra dentro de uma experiência cristã que está sendo chamada à conversão (EG 25-33). A experiência catequética cristã está sendo convidada a deixar-se interrogar pelas transformações culturais que tornaram a fé e sua transmissão problemáticas (EG 52-75) e que exigem nossa reflexão profunda e, principalmente, uma nova forma missionária de conceber o perfil da atividade catequética e de sua fundamental importância pastoral na ação evangelizadora atual (MORAES, 2014, p. 274. Grifos do autor).
A transmissão da fé não consiste no ensino de doutrinas, de regras a serem cumpridas sem se entender o porquê e o para quê, mas consiste em transmitir o núcleo essencial e mais importante da fé cristã: “a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado” (EG 36). A questão não está em descreditar o valor da doutrina, mas em perceber que ela só tem sentido quando compreendida como um caminho de discipulado, afinal a revelação de Deus é encarnada na história e toma contornos conforme as necessidades do tempo. Se os catequizandos não tiverem um encontro com a pessoa de Jesus e se não brotar em seus corações o desejo de segui-lo e anunciá-lo, o mero ensino da doutrina cristã, entendida como conjunto de normas e de dogmas, dificilmente despertará a fé cristã no interlocutor. Pelo contrário, corre-se o risco de haver, por falta de compreensão dos conteúdos e ou por imposição da doutrina, um distanciamento da fé e não uma aproximação. 
Francisco pensa numa evangelização que penetre a cultura, a sociedade, a totalidade do ser, e que promova a “cultura do encontro”: encontro do ser humano com Jesus Cristo e encontro dos irmãos entre si. Sua proposta é levar o catequizando a perceber o quanto Cristo acrescenta à sua vida e às sociedades humanas. No centro de todo o processo de conversão pastoral, está o encontro pessoal com Jesus Cristo (EG 7). Esse retorno a Jesus, Francisco chama de volta às fontes, ao “primeiro amor” (Ap 2,5). Para ele, faz-se necessário sair e oferecer a todos a vida de Jesus, mesmo que isso signifique acidentes na caminhada:
Prefiro uma igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às suas próprias seguranças. Não quero uma igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos (EG 49).
Nesse caminho evangelizador proposto por Francisco, não há espaço para uma catequese tradicional, cuja meta é a preparação para a recepção dos sacramentos. Os métodos dessa catequese não levam em consideração a sociedade e a cultura, muito menos o indivíduo com suas necessidades reais, pois ainda se revela afeiçoada à cristandade que já virou fumaça, queimada pelo fogo da secularização. Como, então, pensar o processo de iniciação cristã nos moldes de Francisco a partir da Evangelii Gaudium
Para Moraes (2014, p. 267), a identidade da atividade catequética consiste em “toda forma de serviço eclesial à Palavra de Deus, dirigida ao amadurecimento pessoal da vida cristã mediante e dentro da comunidade eclesial”. Segundo ele, a identidade da atividade catequética é o alicerce da Exortação Apostólica de Francisco, e a noção da catequese “como anúncio e aprofundamento” (MORAES, 2014, p. 267) leva Francisco, na Evangelii Gaudium, “a elencar dois traços catequéticos característicos de seu rosto renovado: querigmática e mistagógica” (MORAES, 2014, p. 265). 
Para o papa, o querigma, entendido como anúncio principal e prioritário da fé cristã, faz parte da atividade catequética. “A Exortação preconiza que a catequese, sustentada pelo querigma, deve assumir uma função insubstituível no processo de evangelização” (MORAES, 2014, p. 268-269). O desejo de Francisco é que, nas diversas formas catequéticas, a centralidade querigmática não seja perdida (MORAES, 2014, p. 270). 
Além do caráter querigmático da catequese, o papa fala, também, da iniciação mistagógica. Para Moraes, a Exortação Apostólica coloca a mistagogia como característica constitutiva da catequese e permite afirmar que a atividade catequética é “uma instituição eclesial de tipo pastoral-litúrgico” (MORAES, 2014, p. 270). A iniciação mistagógica é afirmada na EG como “a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã” (EG 166). 
Deixando-se interpelar por sua dimensão mistagógica, a catequese torna-se um tirocínio ou noviciado de vida cristã, através de uma experiência que compreende e integra o conhecimento (aspectos doutrinários) do mistério com a celebração (liturgia) da fé, em vista de uma experiência comunitária (vivência eclesial) e do exercício do empenho (ética) cristão no mundo (MORAES, 2014, p. 271).
Se o querigma e a mistagogia na Evangelii Gaudium são elementos fundamentais da catequese, torna-se necessário compreender bem o que significam e suas implicações na catequese.

2 O Processo catequético: do querigma à mistagogia
A evangelização cristã centra-se no querigma (EG 160). Toda transmissão da fé parte do anúncio da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Dele a fé se nutre e nele encontra sua plenitude. Baseando-se em Mateus 28,19-20, Francisco fala do processo de acolhida da fé como um crescendo. Tendo acolhido a Palavra do Senhor e se tornado seu discípulo, o catequizando é convidado também a conformar sua vida a Jesus: deve observar tudo o que ele ensinou. “O mandato missionário do Senhor inclui o apelo ao crescimento da fé” (EG 160). Portanto, faz-se urgente “uma pedagogia que introduza a pessoa passo a passo até chegar à plena apropriação do mistério para se chegar a um estado de maturidade, isto é, para que as pessoas sejam capazes de decisões verdadeiramente livres e responsáveis” (EG 171).
O primeiro anúncio desencadeia um caminho de formação e de amadurecimento, por isso a catequese busca seu sustento nas fontes cristãs e alimenta-se do nutritivo mistério da fé, cujo núcleo duro é a vida, paixão, morte e ressureição de Cristo, ou seja, o querigma. A ação catequética querigmática provoca no catequizando o desejo de conhecer e amar mais a Jesus. Uma catequese querigmática não se contenta em transmitir conteúdos, tais como dogmas e preceitos morais etc. Ela é fundamentalmente vivencial e experiencial. É um percurso de fé e não um curso preparatório para receber os sacramentos. Esse trajeto catequético conduz o catequizando a uma aproximação da verdade, que é Cristo, cujo mistério não pode ser apreendido ou abarcado. Quanto mais se aproxima da verdade, mais ela escapa e mais desejo se tem de conhecê-la.
Agostinho de Hipona fala dessa experiência de sede e fome de conhecimento do Cristo:
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste a tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste e agora estou ardendo no desejo de tua paz (AGOSTINHO, 1984, p. 295)
O Senhor, que chama cada pessoa para junto de si, é o mesmo que desperta o ardente desejo de conhecê-lo mais profundamente. Nas palavras de Agostinho (1984, p. 295) quem saboreia o Senhor pela primeira vez vê sua fome e sede aumentar ainda mais. Esse encontro é na realidade o início de um caminho que, quanto mais se aprofunda, mais se deseja conhecer. Mas como se dá o conhecimento de Deus, o crescimento da fé? Certamente não se dá exclusiva ou prioritariamente como formação doutrinal, mas como modo de viver:
Trata-se de “cumprir” aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos: “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12) (EG 161). 
Uma boa formação doutrinal, apesar de importante, não garante o despertar da fé nem seu crescimento. A fé diz respeito a um processo de transformação interior: “é deixar-se transformar em Cristo, vivendo progressivamente ‘de acordo com o Espírito’ (Rm 8,5)” (EG 161). Cabe à catequese “fazer ressoar a Palavra de Deus no diálogo da comunidade crente com os que estão sendo iniciados à vida de fé” (GOPEGUI, 2005, p. 328). 

2.1 Catequese querigmática 
Na catequese, o querigma tem um papel fundamental (EG 164). Conforme ensina a Evangelii Gaudium, “na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: ‘Jesus Cristo ama-te, deu sua vida para te salvar e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar’” (EG 164). Francisco compreende que o querigma é o primeiro anúncio em sentido qualitativo, não cronológico. Ou melhor, não é um conteúdo que se anuncia como pré-requisito para se passar posteriormente ao ensino da doutrina. É o primeiro no grau de importância, pois ele orienta todos os outros. Sem ele, nenhum conteúdo é pleno, nenhum dogma faz sentido, nenhuma prescrição moral encontra razão de ser. É o anúncio ao qual se deve sempre voltar; é uma constante na catequese. Deve ser ouvido de diferentes maneiras e repetido em todas as etapas e momentos da transmissão da fé (EG 164). Deve estar em primeiro plano e ser o elemento principal da catequese.
Não se deve pensar que, na catequese, o querigma é deixado de lado em favor de uma formação supostamente mais “sólida”. Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consciente e mais sábio que esse anúncio. Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo coração humano (EG 165. Grifos do autor). 
A centralidade da catequese deve se encontrar inquestionavelmente em Jesus Cristo (GONZÁLEZ, 2004, p. 195). A formação continuada da catequese nada mais é que o aprofundamento do primeiro anúncio, como lembra Francisco. Este primeiro anúncio aponta para outra realidade não menos importante que é a pessoa humana, aquele que escuta a Boa Nova. Para González (2004, p. 195), na catequese, junto à centralidade de Jesus Cristo, está a centralidade da pessoa. Esta carrega consigo toda sua experiência humana e religiosa, que deve ser levada em conta no percurso da fé. O papa Francisco segue na mesma linha. Para ele, a verdade da fé não deve ser imposta, pois a liberdade humana é princípio irrenunciável da fé cristã:
A centralidade do querigma requer certas características do anúncio que hoje são necessárias em toda parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade, mas faça apelo à liberdade, que seja pautada pela alegria, pelo estímulo, pela vitalidade e por uma integralidade harmoniosa, que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isto exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena (EG 165. Grifos do autor). 
O caminho catequético não obterá resultados positivos se não levar em consideração o catequizando em sua integralidade. A palavra de Deus interpela o ouvinte e reverbera no íntimo de seu ser. Ela desperta cada vez mais o desejo de conhecer o Deus de Jesus Cristo, aquele que afirma as subjetividades, valoriza os caminhos pessoais e respeita as decisões das consciências. Para que essa palavra encontre aconchego no coração humano, é muito importante cuidar da linguagem utilizada no anúncio. É preciso “procurar uma pedagogia simples, que ajude na comunicação e na vivência interior da mensagem no aqui e agora de cada pessoa e cada grupo” (GONZÁLEZ, 2004, p. 197). 
A catequese querigmática não se contenta em anunciar o Deus vivo, em ensinar os meandros de sua ação no mundo e de repetir que ele salva. 
Deve fazer muito mais do que afirmar que Deus quer a salvação do gênero humano. Ela deve ser um sinal eficaz desta salvação. Em outras palavras, se apresenta não como aquela que diz que Deus salva, mas como o sinal em atos da própria salvação de Deus: uma ação catequética que não se separa da diaconia (MORAES, 2014, p. 274. Grifos do autor).
Catequese querigmática é aquela que facilita a experiência cristã de Deus, aquela que proporciona ao catequizando ocasiões para sentir, perceber, experienciar e tematizar a presença do Ressuscitado. 

2.2 Catequese mistagógica
Uma catequese querigmática é também mistagógica, pois a mistagogia nada mais é que o aprofundamento do querigma, mistério no qual o catequizando foi iniciado. Nas palavras de Francisco (EG 166), a iniciação mistagógica significa duas coisas: “a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã” (EG 166). Deus chama cada um pelo nome, interpela individualmente cada indivíduo para o seguimento de seu Filho. Essa experiência não se ensina, se faz. O mistério do amor de Deus revelado em Cristo pela ação de seu Espírito não se esgota. Na liturgia, por meio de palavras, gestos, ritos e símbolos, ele é experimentado, degustado, sem jamais perder seu encanto.
É atribuição da catequese favorecer uma experiência vivencial da singularidade cristã, que não é algo ensinado, mas absorvido, degustado, experimentado. Assim, a liturgia – lugar do mergulho dos cristãos no mistério pascal – reivindica a centralidade no novo paradigma catequético. Aflora deste modo o caráter celebrativo da fé na catequese: a antiga aula de catequese transfigura-se em encontro com o mistério de Deus em Jesus Cristo pela ação de seu Espírito presente entre nós; e mais: encontro com o mistério da vida humana refletida na presença dos irmãos que partilham conosco essa experiência e de tantos outros que ainda não conhecem essa boa-nova (CARMO, 2010, p. 20).
Quando se trata de catequese mistagógica, parece imprescindível realçar a importância da comunidade eclesial. Infelizmente, atualmente, o processo de iniciação está reduzido quase que exclusivamente à ação do catequista, traduzida em um encontro semanal ou quinzenal com os catequizandos. Diminuída a mero ensinamento de preceitos e de doutrinas, a catequese acontece independente da comunidade que professa, celebra e vive a fé. Mas como isso é possível se a fé transmitida é a fé da comunidade? Uma catequese mistagógica é também uma catequese de responsabilidade da eclesia, que encarna e vive o mistério que celebra. Nessa comunidade, catequistas e catequizandos encontram ocasião para aprofundar os mistérios experimentados. 
Sem negar o ministério específico dos catequistas para as diversas idades, a comunidade eclesial – paróquia ou comunidade de base – deve tomar consciência de ser ela, como um todo, o sujeito da catequese. Isto significa que toda sua vida – sua estruturação comunitária, suas celebrações litúrgicas, sua ação missionária, seus serviços sociais e atitudes políticas – deve ser catequese viva, contribuindo para o crescimento da fé de cada membro da comunidade. Exige também que todos esses aspectos da vida da comunidade reflitam o que é transmitido nas catequeses específicas (GOPEGUI, 2005, p. 332).
Quem de fato inicia o catequizando nos mistérios da fé é a comunidade eclesial (EG 166). É ela a mistagoga por excelência, aquela que toma o aprendiz pela mão e o mergulha cotidianamente no mistério que ela professa, celebra e vive. Sem a comunidade eclesial, a mistagogia fica comprometida; passa a ser simplesmente repetição de ritos e de ensinamentos que não tocam de fato a vida do catequizando. 
Mas o que é mistagogia? Buyst ajuda a melhor compreender esse conceito. 
O que está em jogo na mistagogia? Nada mais, nada menos que a nossa relação com o mistério de Deus e de seu Reino, que é o mistério de nossa própria vida e da história, revelada em Jesus Cristo. Ninguém consegue “explicar” Deus e o seu Reino. É impossível reduzir estas realidades a conceitos racionais. É impossível reduzir a fé à aceitação de dogmas ou a um código de moral. É necessário que sejamos “iniciados” nos conhecimentos do mistério, na comunhão com Deus, não somente com palavras, mas principalmente através de uma experiência e – no caso da fé cristã – através de uma experiência eclesial e ritual do mistério de Cristo, que nos leva a uma vida de fé, centrada na pessoa dele (BUYST, 2011, p. 116. Grifos da autora)
Uma fé pautada exclusivamente na razão está envolta em lacunas, pois não é possível esgotar a riqueza do mistério de Deus em Cristo com argumentação racional, doutrinal. A mistagogia é a responsável por conduzir o iniciando num caminho que aprofunde o seu encontro com Deus. As explicações racionais cooperam no processo de crescimento, mas é a mistagogia que permite ao cristão sentir-se próximo de Deus, em comunhão com ele (BUYST, 2011, p. 116). Daí a importância da comunidade eclesial como mistagoga no processo catequético.
A comunidade eclesial é chamada a ser testemunha, guardiã e anunciadora deste mistério, não somente pela pregação e missão, mas principalmente pela sua vida, sua existência, seu crescimento na fé. É chamada a revelar e introduzir no mistério da fé, a colocar outras pessoas no caminho de Jesus. Assim, a vida eclesial como um todo se torna “mistagógica”, fazendo com que seus próprios membros cresçam no conhecimento do mistério e se tornem sinal para os “de fora”, oferecendo uma iniciação no caminho de fé para os “simpatizantes” que pedem uma aproximação e futuramente uma adesão como membros da comunidade (BUYST, 2011, p. 118. Grifos da autora).
Para Gopegui e Buyst, assim como também para Francisco (EG 166), o processo catequético é dependente da comunidade eclesial. É nela que o querígma é apresentado e assim o catequizando é iniciado nos mistérios da fé. Sem uma comunidade que anuncie a Boa Nova, acolha e acompanhe os catequizandos, fica difícil uma experiência verdadeiramente cristã, pois a fé cristã é partilha, convivialidade e compromisso com o outro. Ela é fé transmitida e recebida e não elaboração pessoal ao “gosto do freguês”. Apesar de atualmente a personalização da fé ser uma exigência da subjetividade contemporânea, a catequese não pode ignorar o caráter eclesial da fé. Ao contrário, ela se personaliza a partir da eclesia, que a professa, celebra e vive. Uma catequese querigmática e mistagógica tem como ponto de partida a fé da Igreja; sem isso torna-se apenas repetição de jargões tais como “Deus é amor” e “Jesus te ama”, mas sem nenhuma implicação real na vida dos catequizandos.

3 Acompanhamento pessoal: urgência do processo catequético
A Evangelii Gaudium oferece grandes contribuições não só no âmbito da constatação das dificuldades enfrentadas pela catequese. Ela apresenta também novas perspectivas catequéticas e novos caminhos a serem trilhados (MORAES, 2014, p. 274). Dentre suas contribuições, um elemento específico chama bastante atenção: o acompanhamento pessoal dos processos de crescimento dos catequizandos (EG 169). 
Em uma civilização paradoxalmente ferida pelo anonimato e, simultaneamente, obcecada com os detalhes da vida alheia, descaradamente doente de morbosa curiosidade, a Igreja tem a necessidade de um olhar solidário para contemplar, comover-se e parar diante do outro, tantas vezes quantas forem necessárias. Neste mundo, os ministros ordenados e os outros agentes de pastoral podem tornar presente a fragrância da presença solidária de Jesus e o seu olhar pessoal (EG 169).
A proposta de um acompanhamento pessoal rompe com o paradigma tradicional da catequese. Nem a catequese tradicional, nem mesmo a catequese pós-vaticano II conseguiu dar um acompanhamento personalizado aos catequizandos. Por mais que a renovação catequética tenha avançado nesse sentido, a subjetividade humana não fora levada devidamente a sério. Houve grande avanço em relação à valorização do processo de aprendizagem e da realidade social dos catequizandos, mas – acostumada a Igrejas cheias de pessoas sem rosto e sem nome – a catequese seguiu sem ajudar os cristãos no processo de personalização da fé. Interessava a realidade das pessoas como Igreja, como povo de Deus em marcha, possuidor de dignidade e de direitos. Suas necessidades foram percebidas; por elas a catequese lutou. Mas a pessoa nas suas necessidades individuais, seus dramas e conflitos, suas esperanças e angústias, seus sonhos e fracassos, ainda não encontrou abrigo no coração da catequese renovada. Prova disso é a evasão dos católicos para as igrejas neopentecostais, cujo esforço de acompanhamento pessoal e de afirmação da identidade dos que ali congregam é visível.  Nelas, o ex-católico, anônimo na sua comunidade de origem, ganha nome, função, narrativa e lugar de destaque.
Nesse sentido, Francisco dá um passo adiante. O papa propõe que a Igreja não se preocupe com números, mas com os nomes e os rostos; deseja que não se massifique o processo, mas que o anúncio da fé acompanhe cada pessoa com proximidade, com compreensão e paciência (EG 171), percebendo os passos dados e o crescimento de cada um. Sua proposta exige uma “pedagogia que introduza a pessoa passo a passo até chegar à plena apropriação do mistério” (EG 171), se é que do mistério alguém pode se apropriar . Continua o pontífice:
A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta “arte do acompanhamento”, para que todos aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3,5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã (EG 169).
O papa realça que, “diante da terra sagrada dos outros” (EG 169), é preciso “tirar sempre as sandálias” (EG 169). Todavia, essa atitude é exigente e comprometedora, pois não basta “traduzir doutrinas” para uma linguagem acessível ou ensinar lições do catecismo em linguagem popular. O momento catequético exige bem mais que esse esforço de tradução da linguagem, apesar de ele ser necessário. O acompanhamento pessoal exige que o outro seja levado em consideração na sua pessoalidade, individualidade. Ele não deve ser mais um na multidão. Tem necessidade do olhar atento daquele que serve como ponte, daquele que conduz ao caminho do mistério. É bom lembrar o que fez Jesus quando interpelado pelo cego Bartimeu. Apesar de a multidão ignorar e até tentar abafar a voz daquele que gritava “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (Mc 10, 47), o Mestre de Nazaré não se fez omisso; fez-se atento ao clamor do mendigo cego “sentado à beira do caminho”. Aproximou-se do marginalizado, sem voz e sem vez na sociedade, chamou-o para perto de si, escutou-o e o curou (Mc 10,46-52). 
Só um caminho marcado pela proximidade permite ao acompanhador reconhecer “que a situação de cada pessoa diante de Deus e a sua vida em graça é um mistério que ninguém pode conhecer plenamente a partir do exterior” (EG 172). O profeta Isaías assegura que Deus chama a cada um pelo nome (Is 43,1b). Essa verdade da fé deve ser clara na vida de quem se põe a caminhar com o Senhor. É importante que o catequizando perceba que ele não é dispensável, que é alguém importante para Deus, como se lê em Isaías: “És precioso aos meus olhos” (Is 43,4). Para tanto, o catequizando precisa ter rosto, nome, sobrenome e endereço. Afirma o papa:
Hoje mais do que nunca precisamos de homens e mulheres que conheçam, a partir da sua experiência de acompanhamento, o modo de proceder onde reine a prudência, a capacidade de compreensão, a arte de esperar, a docilidade ao Espírito, para, no meio de todos, defender as ovelhas a nós confiadas dos lobos que tentam desgarrar o rebanho (EG 171)
Por meio da escuta atenta e respeitosa do outro torna-se possível conhecer sua realidade, seus dramas, expectativas e necessidades. Assim, intrinsecamente entranhada no processo de transmissão da fé, está a arte da escuta, isto é, o acompanhamento pessoal do catequizando. 
Para Francisco, o acompanhamento espiritual deve conduzir “cada vez mais para Deus, em quem podemos alcançar a verdadeira liberdade” (EG 170). A escuta, que é bem mais do que ouvir, torna possível a proximidade (EG 171), condição sine qua non para um verdadeiro encontro espiritual (EG 171).
Escutar ajuda-nos a individuar o gesto e a palavra oportunos que nos desinstalam da cômoda condição de espectadores. Só com essa escuta respeitosa e compassiva é que se pode encontrar os caminhos para um crescimento genuíno, despertar o desejo do ideal cristão, o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus e o anelo de desenvolver o melhor de quanto Deus semeou na nossa própria vida (EG 171).
A escuta tem força transformadora. Quando respeitosa e compassiva, tem a capacidade de encontrar caminhos para um crescimento genuíno na fé, desperta o desejo do ideal cristão e suscita o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus (EG 171). A escuta sincera e despretensiosa proporciona proximidade, respeito, paciência e, sobretudo, confiança. 
Aquele que fala do Cristo, ou seja, o iniciador ou catequista, testemunha que ele próprio fora cativado por Jesus. Coloca-se em diálogo com os catequizandos, demonstrando que aquilo que fala não é “da boca para fora”, como algo meramente “proforma”, mas fala com propriedade, como alguém próximo, que foi ouvido pelo Senhor e se fez ouvir, numa reciprocidade sincera. Sua palavra amorosa testemunha a experiência de seu encontro, ou de seus reencontros, com Deus (EG 8). Desse encontro, brota não só o desejo de comunicar algo, mas de escutar aquele que se põe no caminho, quiçá este mais do que aquele. 
Acompanhante e acompanhado não devem ficar presos a medos, comodismos e fatalismos da vida. Faz-se necessário a ambos uma abertura sincera para a ação divina. 
Um acompanhante de verdade não transige com os fatalismos nem com a pusilanimidade. Sempre convida a querer curar-se, a pegar o catre (cf. Mt 9,6), a abraçar a cruz, a deixar tudo e partir sem cessar para anunciar o Evangelho. A experiência pessoal de nos deixarmos acompanhar e curar, conseguindo exprimir com plena sinceridade a nossa vida a quem nos acompanha, ensina-nos a ser pacientes e compreensivos com os outros e habilita-nos a encontrar as formas para despertar neles a confiança, a abertura e a vontade de crescer (EG 172).
O acompanhamento pessoal tem efeito libertador e não se confunde com uma relação intimista, autoreferencial e de autorrealização isolada (EG 173). Esse tipo de relação em nada coaduna com o que Francisco expõe acerca do acompanhamento pessoal. Sua proposta quer levar o catequizando “a um estado de maturidade”; deseja que as pessoas acompanhadas “sejam capazes de decisões verdadeiramente livres e responsáveis” (EG 171), sem dependência do acompanhador. Para ele, “o acompanhamento espiritual autêntico começa sempre e prossegue no âmbito do serviço à missão evangelizadora” (EG 173). Como exemplo, o papa cita a relação de Paulo com Timóteo e Tito. “Ao mesmo tempo em que Paulo lhes confia a missão de permanecer em uma cidade concreta para ‘acabar de organizar o que ainda falta’ (Tt 1,5; Tm 1,3-5), dá-lhes os critérios para a vida pessoal e a atividade pastoral” (EG 173). 
A ideia do acompanhamento não é nova entre os catequetas, mas o realce que ela ganha na EG é importante. Saborido Cursach usa a expressão “caminhar com” (2007, p. 13). Para ele, o catequizando deve ser acompanhado pessoalmente no processo e respeitado nos seus passos, pois o anúncio cristão brota de uma atitude amistosa e dialogal, que não tem como finalidade o proselitismo, mas a partilha e o diálogo, sem qualquer espécie de imposição (CURSACH, 2007, p. 13). 
A atitude de “caminhar com” permite a absoluta liberdade da pessoa para acolher ou não a mensagem que lhe é ofertada (CURSACH, 2007, p. 13). O autor entende que a proposta da fé deve privilegiar o testemunho, o diálogo, os interesses vitais do outro e o serviço em vez do poder. Trata-se da mesma atitude do Ressuscitado com os discípulos de Emaús e com a samaritana (CURSACH, 2007, p. 13). Quem está no centro é o outro; o caminho que importa não é o que a catequese traçou, mas aquele que o catequizando – na sua realidade pessoal – consegue fazer. 
Todo esse processo supõe “uma atitude prévia fundamental e global: uma lógica missionária que vá além de um simples saber fazer” (CURSACH, 2007, p. 13. Tradução nossa). Não basta adotar uma técnica nova para transmitir a fé; é necessário colocar-se em uma nova atitude que começa por perguntar-se por que é bom anunciar o evangelho no nosso mundo hoje (CURSACH, 2007, p. 13) e que contribuições ele traz para a vida concreta do catequizando, ajudando-o a ser mais autêntico e a viver melhor. 
A tarefa de um caminho catequético que leva em consideração o acompanhamento personalizado do catequizando, o “caminhar com”, como deseja o Papa Francisco, é, ao mesmo tempo, ousado e desafiador, pois requer tempo, paciência e não pode haver imediatismos. Afinal, para se chegar a um estado de maturidade no qual as pessoas sejam capazes de decisões verdadeiramente livres e responsáveis (EG 171) não são necessários tempo e muito labor? O papa é consciente das implicações de suas propostas; sabe que tudo isso requer mudanças drásticas (EG 171-172). Por isso, insiste inúmeras vezes sobre a necessária conversão pastoral de toda a Igreja (EG 25-26). As estruturas que estão estabelecidas não são capazes de corresponder às necessidades da ação evangelizadora hoje, muito menos à necessidade de acompanhamento pessoal dos catequizandos. Resta ter muita coragem – e coragem audaciosa – para a Igreja se arriscar em novos caminhos da evangelização.

4 Coragem audaciosa: condição para uma catequese em saída 
Nas entrelinhas da Evangelii Gaudium perpassa um tema que parece ser caro a Francisco. Trata-se do tema da coragem, mas não qualquer coragem, uma coragem audaciosa, atrevida. 
Em diversas circunstâncias, o papa incita toda a Igreja a repensar sua ação. Fala que a Igreja precisa sair da própria comodidade (EG 20); sair para evangelizar (EG 23). A iniciativa de sair sem medo deve ser da Igreja (EG 24). Ela deve empenhar-se com destemor na aventura de uma “conversão pastoral” (EG 25). Francisco convida os cristãos a terem coragem, ousadia e criatividade na ação evangelizadora (EG 33). “Arrisca-se a falar de uma Igreja de portas abertas (EG 46-47), que procura estar onde fazem mais falta a luz e a vida do Ressuscitado” (EG 30) e que vai ao encontro do rosto do outro, como nos pede o evangelho (EG 88). Todas essas ações cobram da Igreja uma coragem audaciosa para abandonar suas estruturas, seus comodismos, seu modo de pensar e agir, e até mesmo para repensar o seu status quo. Desafio imenso, mas que não intimida o papa latino-americano. 
Moraes, comentando a proposta de Francisco, afirma: 
Se a evangelização foi redescoberta como a missão essencial da Igreja, “a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda” (EM 14), uma “eterna novidade” (EG 11-13), a catequese participa da mesma dignidade e importância enquanto momento essencialmente ligado ao dinamismo da evangelização (MORAES, 2014, p. 273).
Ainda na mesma perspectiva, continua o autor:
A Evangelii Gaudium faz-nos perceber que a nossa atividade catequética se encontra dentro de uma experiência cristã que está sendo chamada à conversão (EG 25-33). A experiência catequética cristã está sendo convidada a deixar-se interrogar pelas transformações culturais que tornam a fé e sua transmissão problemáticas (EG 52-75) e que exigem nossa reflexão profunda e, principalmente, uma nova forma missionária de conceber o perfil da atividade catequética e de sua fundamental importância pastoral na ação evangelizadora atual (MORAES, 2014, p. 274).
O Papa Francisco incita a catequese a caminhar nesta perspectiva: a de corajosamente fazer uma mudança de estruturas, mentalidade, costumes, estilos, linguagens, horários (EG 27). Seu desejo é que toda a estrutura eclesial se torne um canal que proporcione “mais a evangelização que a autopreservação” (EG 27). Seu convite direciona-se a uma mudança profunda de atitudes e mentalidades; pede que a Igreja abandone o frequente argumento “fez sempre assim” para assumir uma atitude de ousadia e criatividade que se arrisque a repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores (EG 33). O papa conclama a Igreja para que saia das suas confortáveis estruturas e vá oferecer a todos “a vida de Jesus Cristo” (EG 45).
Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba preso num emaranhado de obsessões e procedimentos. [...] Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos (EG 49). 
A preocupação primária de Francisco está em anunciar a Boa Nova da salvação, em ir ao encontro daqueles que estão famintos da Palavra, sedentos de conforto, de esperança, de encontro com o Ressuscitado (EG 49). Mas isso só será possível se houver um processo de descentralização da catequese, na qual a igreja matriz não seja o espaço mais importante e o lugar de concentração de toda a atividade catequética. Se realmente a Igreja confia nas palavras de Jesus, “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estarei, no meio deles” (Mt 18,20), precisa arriscar-se a novos ambientes catequéticos, que vão além do lugar comum chamado centro paroquial. Um processo de descentralização geográfica também se torna urgente. 
A catequese pode e deve acontecer em todos os cantos do território paroquial, seja embaixo de uma árvore, numa garagem, na sala de uma casa. O primordial é que as distâncias sejam diminuídas e que ninguém seja excluído da Boa Nova de Cristo (EG 35). A ação catequética precisa se expandir de forma que atinja jovens e adultos, que, na esmagadora maioria das vezes, é deixada de lado, em detrimento da catequese infantil. 
A tarefa da catequese não é preparar para a recepção dos sacramentos, mas conduzir o catequizando a um estado de maturidade, tornando-a verdadeiramente livre; deve dar tempo ao tempo (EG 171); precisa ser um espaço acolhedor, que leve em consideração o sujeito em sua integralidade. 
Repensar a catequese, hoje, nos moldes de Francisco requer uma transformação profunda, a começar por uma virada de perspectiva. A Igreja não pode ficar à espera que todos venham ao seu encontro; é ela quem deve tomar a iniciativa de ir ao encontro das pessoas, sobretudo dos excluídos, marginalizados, que estão à beira do caminho (EG 24). O papa chama a atenção para a importância do investimento no processo evangelizador (EG 166; 171). Para ele, deve haver unidade e sentido no programa catequético (EG 166), pois a catequese não é algo secundário, mas de vital importância na missão da Igreja. 
No mesmo sentido, encontra-se a reflexão de Moraes. Para ele, a catequese se encontra “no coração da missão eclesial” (MORAES, 2014, p. 273) e “a evangelização no mundo atual depende em grande parte da nossa capacidade de ‘repensar’, executar de maneira nova a atividade catequética em nossas comunidades e Igreja Locais” (MARAES, 2014, p. 275). Portanto, não se pode medir esforços para a transformação do processo catequético. 
Francisco deseja que a Igreja, no seu processo de iniciação cristã, ouse, corajosamente, em novos caminhos, sem ter receios do novo, dos desafios, das inquietações atuais (MIRANDA, 2017, p. 16). Ele não demonstra medo dos possíveis erros, dos acidentes e das feridas que possam advir dessa catequese em saída (EG 49). Seu medo é que a Igreja continue encerrada em si mesma, mais preocupada com suas estruturas, com a defesa da doutrina que com o anúncio de Jesus Cristo, o que torna o seu diálogo incompreensível para os contemporâneos e faz com que estes a vejam como algo que nada tem a dizer ou, até mesmo, como algo dispensável para sua vida. 

CONCLUSÃO
A conversão catequética não é tarefa fácil. Faz-se necessário compreender as linhas mestras dessa atividade evangelizadora, para ousar fazer mudanças. Não basta dizer “precisa-se mudar isso”; é preciso apontar como fazer as mudanças. Para que um novo paradigma catequético encontre chances de se efetivar, a mudança deve se dar não só no âmbito catequético, mas de toda a Igreja. Daí a importância de uma verdadeira conversão pastoral como nos fala o Documento de Aparecida e que é reafirmada por Francisco na EG. A catequese atual deve ser evangelizadora, missionária, aberta, processual e não um curso de preparação para os sacramentos. 
A partir da Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, levantamos algumas pistas para um novo paradigma catequético. Francisco conclama toda a Igreja a uma conversão pastoral, a colocar-se sempre em atitude de saída. Deseja que os evangelizadores possam ir ao encontro dos que estão fora, excluídos, marginalizados, esquecidos à beira do caminho. O bispo de Roma pede uma conversão catequética, solicita da catequese um caminho querigmático e mistagógico, no qual ninguém seja excluído, mas todos tenham a oportunidade de um encontro pessoal com o Ressuscitado. 
Para isso, a catequese deve se descentralizar, levar em consideração a realidade e a história de cada catequizando, que tem um rosto, um nome, um endereço. Para o papa, não faz sentido algum uma catequese que não opte por um acompanhamento pessoal. Resta aos líderes da Igreja, agentes de pastoral e ministros ordenados, encherem-se de coragem audaciosa, para sair de suas estruturas confortáveis e ir ao coração do mundo, sem medo de se enlamear, de errar. O objetivo que orienta a catequese, segundo o papa, é a iniciação na fé e o acompanhamento de cada cristão nesse itinerário belo e longo. 
A proposta de Francisco na Evangelii Gaudim é um caminho pertinente e possível. Resta, porém, admitir a falência do processo tradicional catequético. Sem isso, colocaremos remendo novo em pano velho, como disse Jesus (Mc 2,21). A Exortação Apostólica indica caminhos, meios e formas de tornar a fé palatável para os homens e as mulheres de hoje. É mais do que um texto para refletir, analisar, teorizar sobre a evangelização. Com linguagem simples e acessível, é um verdadeiro luzeiro para todos aqueles que se dispõem a anunciar o evangelho da alegria. Oxalá catequetas e catequistas encontrem nesse documento do Papa Francisco luzes para reorientar os rumos da catequese!

REFERÊNCIAS
AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo, Paullus,1984. (Coleção Patrística)
BÍBLIA Sagrada. Tradução oficial da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2018.
BUYST, Ione. O Segredo dos Ritos: ritualidade e sacramentalidade da Liturgia Cristã. São Paulo: Paulinas, 2011. (Coleção celebrar)
CARMO, Solange Maria do. Desafios da catequese no cenário da pós-modernidade. Vida Pastoral. São Paulo, v. 51, n. 272, p.16-32, 2010. 
CURSACH, José Luis Saborido. Evangelizacíon y primer anuncio em la transmission de la fe hoy. Catequetica, v. 48, n. 1, p. 2-18, 2007.
GONZÁLEZ, Maria Navarro. Catorce opiniones sobre el futuro de la catequesis y el nuevo paradigma. Revista Catequetica. Bilbao, v. 45, n. 34, p. 195-201, 2004. 
GOPEGUI, Juan A. Ruiz de. Catequese e comunidade cristã. Perspectiva Teológica. Belo Horizonte, v. 37, n. 103, p. 315-336, 2005. 
IGREJA CATÓLICA. Papa (2013- : FRANCISCO). Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica do Sumo Pontífice ao episcopado, ao clero, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus; Edições Loyola, 2013.
LIBANIO, João Batista. Qual o futuro do cristianismo? São Paulo: Paulus, 2006. (Coleção Temas da atualidade)
MIRANDA, Mário de França. A reforma de Francisco: fundamentos teológicos. São Paulo: Paulinas, 2017. p. 11-27. (Coleção Francisco). 
MORAES, Abimar Oliveira de. A catequese hoje: reflexões teológico-pastorais a partir da Evangelii Gaudium. In: AMADO, Joel Portella; FERNANDES, Leonardo Agostini. Evangelii Gaudium em questão: aspectos bíblicos, teológicos e pastorais. São Paulo/ Rio de Janeiro: Paulinas/PUC Rio, 2014. p. 263-275. (Coleção fronteiras)

NOTAS:
1 De agora em diante identificada pela sigla EG.
2 A expressão mais conveniente parece ser “até que no mistério seja plenamente mergulhado”, pois o mistério de Deus é maior do que nós e não pode ser objetivado. 

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