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42. Rumo a uma conversão catequética: De preparação para os sacramentos a encontro com Jesus Cristo

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26.07.2021 | 36 minutos de leitura
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Acadêmicos
42. Rumo a uma conversão catequética: De preparação para os sacramentos a encontro com Jesus Cristo
Solange Maria do Carmo
Rafael Alves

RESUMO
Durante muitos séculos a catequese se configurou como curso preparatório para a primeira comunhão e a crisma. Cabia a ela burilar a fé que os catequizandos traziam da família e da sociedade. Com a secularização, a fé cristã foi exculturada e a catequese – se quer ser fiel ao projeto evangelizador da Igreja – precisa se reinventar. Trata-se de uma verdadeira conversão catequética e não apenas de uma remodelagem do paradigma tradicional, que ainda permanece vivo nas comunidades eclesiais. De curso para recepção dos sacramentos, a catequese deve passar a um processo permanente de evangelização e acompanhamento dos cristãos; uma verdadeira tarefa missionária que exige da Igreja saída de si mesma e de seu lugar de conforto. No coração dessa catequese, encontra-se a Palavra de Deus – não um livro ou um texto de oráculos religiosos – mas uma palavra viva e eficaz que é dirigida a todo homem e a toda mulher de todos os tempos. Deus, que nos falou por meio de seu Filho Jesus Cristo, continua interpelando nossos contemporâneos à comunhão com ele e é tarefa da catequese propor e facilitar esse diálogo. Por meio de revisão bibliográfica, especialmente de peritos da atualidade, a catequese é repensada de modo a enxergar suas próprias luzes e sombras. O pontapé inicial é o resgate dos aspectos evangelizador e missionário da catequese, que exigem um processo continuado de transmissão da fé, capaz de proporcionar verdadeiro encontro com o Cristo e não somente de oferecer conteúdos religiosos a fim de preparar para os sacramentos. 
 
Palavras-chave: Missão. Evangelização. Catequese Tradicional. Transmissão da fé.

TOWARDS A CATECHETICAL CONVERSION: 
From preparing for the sacraments to a meeting with Jesus Christ.
ABSTRACT
For many centuries catechesis was configured as a preparatory course for the First Communion and Confirmation. It was up to it to sharpen the faith that those to be catechized brought from family and society. With secularization, the Christian faith was deculturized and catechesis - if it wants to be faithful to the Church\'s evangelizing project - needs to reinvent itself. It is a true catechetical conversion and not just a remodeling of the traditional paradigm, which still lives on in ecclesial communities. From a course to receive the sacraments, catechesis must pass on to a permanent process of evangelization and accompaniment of Christians; a true missionary task that requires the Church to leave itself and its place of comfort. At the heart of this catechesis is the Word of God - not a book or a text of religious oracles - but a living and effective word that is addressed to every man and woman of all time. God, who spoke to us through his Son Jesus Christ, continues to challenge our contemporaries to communion with him and it is the task of catechesis to propose and facilitate this dialogue.
Keywords: Mission. Evangelization. Traditional Catechesis. Transmission of faith.

INTRODUÇÃO
O processo de iniciação cristã encontra-se em crise e exige da catequese profunda revisão e transformação. Essa mudança não diz respeito apenas à didática dos encontros catequéticos ou aos métodos usados para transmitir a fé cristã. Trata-se de uma mudança mais radical, pois não só a linguagem e os métodos catequéticos envelheceram e caducaram, mas hoje é colocado em xeque o próprio conteúdo da fé cristã. A boa nova da salvação em Cristo foi reduzida a um conjunto de normas e preceitos, dogmas e definições de fé, que não falam mais ao coração humano. Para nossos contemporâneos, a fé cristã tornou-se em um lenga-lenga (VILLEPELET, 2000, p. 83), um discurso inodoro e insípido que nada acrescenta à vida . Ou, pior ainda, a fé cristã tem sido experimentada por nossos contemporâneos como um alimento indigesto e amargo graças aos interditos impostos, especialmente no campo da moral sexual. 
Diz Jesus nas palavras do evangelista Mateus: “Não se põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Antes, o vinho novo se põe em odres novos; assim ambos se conservam” (Mt 9,17). O tempo presente pede que se repense a fé, seu conteúdo, sua linguagem e seus métodos de transmissão e recepção . É preciso fazer a passagem de uma catequese doutrinal para uma catequese existencial, cuja marca registrada seja a vida humana e sua possibilidade de ser mais: mais bela, mais fraterna, mais alegre, mais feliz. Sem essa abertura para a mudança, mumificamos a fé e a Igreja se transforma em “uma instituição anacrônica, inassimilável para a nova sensibilidade democrática (o melhor dela, aliás), tão lenta e duramente conquistada. E não só ‘tira sua credibilidade’ para fora, como também cria gravíssimos problemas para dentro” (QUEIRUGA, 2003, p. 250).
Retraduzir-se para um novo marco civilizacional não significa vender-se no mercado religioso. Ao contrário, “significa exercer o primeiro direito e o fundamental dever de toda vida, que é conservar-se mediante a transformação no tempo e (no caso da humana) mediante a criação de nova história. [...] Agarrar-se às formas do passado – parece continuidade, mas significa mumificação; parece assegurar a vida, mas equivale a vender-se à morte” (QUEIRUGA, 2003, p. 246. Grifos do autor).
O desafio atual não é vestir o velho processo de iniciação cristã com roupagens novas. A catequese escolar, doutrinal, despersonalizada, direcionada a preparar crianças e jovens para a recepção dos sacramentos, não corresponde mais às necessidades atuais pois tem sinais claros de falência . Essa catequese já teve seu lugar na história da Igreja, especialmente quando vivíamos no regime de cristandade. Pressupondo que as famílias e a sociedade cuidavam da iniciação de seus membros, principalmente das crianças, cabia à comunidade eclesial completar esse processo com uma breve formação religiosa que culminava na crisma ou na primeira eucaristia. “Criou-se, assim, um paradigma que, com pequenas mudanças, vigorou por séculos sem ser questionado” (GRUEN, 2004, p. 398). Mas a cristandade virou quimera e, agora, vivemos num mundo pós-cristão, no qual a fé cristã foi exculturada , ou seja, ela não direciona mais os rumos da sociedade; foi colocada na periferia da organização social e migrou para o âmbito da subjetividade. Tornou-se “incompreensível até para a maioria dos cristãos” (GRUEN, Novos sinais, p. 404) e a catequese não pode mais se contentar em acompanhar ou burilar uma fé que não existe (GEVAERT, 2005, p. 5-16).
Esse modelo de catequese se preocupava pouco com a transmissão da fé e bem mais com o ensino da doutrina. O querigma, núcleo duro da fé e seu eixo principal, ficava de fora do processo. O ato catequético era pouco ou quase nada querigmático; importava ensinar aos destinatários as particularidades da fé cristã católica, tais como os sacramentos, os mandamentos, as orações, a liturgia etc. Hoje, porém, isso mudou completamente. No mundo atual, plural e multirreferencial, a fé não é mais uma evidência social. Daí a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação à vida cristã (DAp 289) que 
comece pelo querigma e que, guiado pela Palavra de Deus, conduza a um encontro pessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à conversão, ao seguimento em uma comunidade eclesial e a um amadurecimento da fé na prática dos sacramentos, do serviço e da missão (DAp 289).
Assim, o tempo presente impele a catequese a se lançar, sem medo, no mar bravio de ondas fortes que é o mundo, no desejo de se reinventar. Essa aventura comporta riscos e carrega muitos desafios, como afirma o papa Francisco na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (EG 49). Mas, para se chegar a águas tranquilas e a prados verdejantes (Sl 23), não resta alternativa senão enfrentar a tormenta e o vale sombrio da morte. Como disse Mateus sobre a multidão, também hoje a sociedade está repleta de homens e de mulheres que vivem cansados e abatidos “como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), ávidos da água da fonte da vida (Jo 4,14). 
Eis o desafio: Como pensar um novo caminho para a iniciação cristã? O que é essencial nesse novo caminho? Quais são os eixos orientadores em torno dos quais a catequese deve girar? É o que nos propomos a refletir neste artigo. Embora não consigamos analisá-los por completo devido à amplitude do tema, buscaremos apontar alguns elementos comuns, quando se trata de pensar um novo paradigma catequético para o mundo atual. 

1 CONVERSÃO MISSIONÁRIA DA CATEQUESE
Desde muito, algumas vozes na Igreja têm insistido na necessária coragem para uma verdadeira conversão catequética (DAp 289; ALBERICH, 2013, p. 55; CARMO, 2016, p. 237; ÁLVAREZ, 2004, p. 199-200)). A nostalgia do passado e o medo do novo impedem a catequese de se lançar em águas mais profundas. Assumir o hoje com suas controvérsias, desafios e dissabores é atitude para corajosos, para audaciosos.
Diante dos novos desafios à catequese hoje, é importante colocá-la, antes de tudo, no contexto de um projeto pastoral corajoso e aberto, numa perspectiva de evangelização e de diálogo cultural. Isto, seja para evitar que a catequese fique isolada no conjunto da ação pastoral, seja para ressaltar a urgência de uma ação programática e global a serviço de um projeto pastoral bem elaborado. Somente desse modo a catequese poderá dar uma contribuição válida à obra da evangelização (ALBERICH, 2013, p. 55).
Uma dose de ousadia rompe paradigmas e estruturas cujas raízes são profundas, mas não impossíveis de serem arrancadas. Para isso, só há um caminho a ser trilhado, ou seja, o da necessária conversão pastoral que coloca a catequese no panorama da tarefa evangelizadora da Igreja.
Hoje se sente a urgência de uma mudança radical em vista de uma nova orientação pastoral na ação dos fiéis cristãos. Estamos diante de uma práxis pastoral tradicional, centrada preferencialmente sobre a sacramentalização e na prática religiosa, que não tem futuro, que não é capaz de assumir uma autêntica opção evangelizadora, nem de responder aos desafios da nova cultura. A conclamação à evangelização (ou a uma “nova evangelização”) projeta todo trabalho pastoral numa perspectiva missionária, para qual não estamos preparados (ALBERICH, 2005, p. 26. Grifos do autor). 
Indo ao encontro de Alberich, Álvarez afirma que “o desafio da iniciação cristã é tão urgente e decisivo quanto o da saída à missão” (2007, p. 363). Para ele, “tem-se que pensar como o homem de hoje entra na fé cristã, como trabalhar a sua conversão interior e não, unicamente, como melhorar a compreensão ou a explicação da mensagem” (ÁLVAREZ, 2007, p. 363. Grifos do autor. Tradução nossa). Para tal, é importante fazer “um verdadeiro giro histórico na abordagem e na prática da iniciação cristã”, pois o modelo de iniciação cristã que herdamos da cristandade e ao qual estamos tão afeiçoados não se mostra mais adequado aos novos tempos (ÁLVAREZ, 2007, p. 364-365). 
A opção pastoral a favor da iniciação cristã se justifica pois não são apenas alguns pontos que precisam ser revistos – por isso fala-se de uma conversão pastoral e, concomitantemente, uma conversão catequética –, mas é toda a vida eclesial que visa a um novo modelo de cristão, de comunidade e de Igreja (ALBERICH 2005, p. 25). O novo cristão “deverá ostentar, para ser convincente, uma nova relação com a fé, com a Igreja, com a cultura, com a sociedade” (ALBERICH, 2005, p. 26). E a nova comunidade cristã deve ser um “espaço de fraternidade vivida e de palavra liberada, de estatura humana, capaz de estabelecer verdadeiras relações humanas” (ALBERICH, 2005, p. 26), pois não se vive, nem se pensa ou se ama mais como antes. Mudados os tempos, mudam-se também os indivíduos e seu modo de se relacionar. A comunidade eclesial, primeira catequista e responsável pela transmissão da fé apostólica , se vê sob o imperativo da mudança ou se arrisca a transformar o tesouro da fé numa moeda antiga e rara, mas sem nenhum valor concreto. Sobre essa renovação, insistiu o Vaticano II e tem insistido exaustivamente o Papa Francisco.
Toda mudança requer um olhar sincero sobre a realidade. Basta uma visada atenta para notar que “os processos conhecidos de transmissão da fé dão sinais de falência” (CARMO, 2016, p. 237). A pós-modernidade, tão afeita à subjetividade, “já não admite uma fé herdada, mas exige uma fé pessoalmente assumida” (CARMO, 2016, p. 237). Trata-se, pois, de uma crise profunda que diz respeito à pertinência da fé e não somente aos métodos ou recursos tecnológicos que poderiam ser postos à disposição da evangelização.  
Não estamos diante de um problema que exige apenas novas iniciativas no campo catequético, com mais criatividade, temas mais atuais etc., como se o problema catequético estivesse no âmbito metodológico ou nos temas abordados. O problema catequético atual diz respeito à pertinência do que é anunciado. Eis a pergunta que não se cala: “Faz algum sentido para o homem pós-moderno a fé cristã que a catequese transmite ou trata-se de lengalengas desde muito anunciadas que já perderam sua pertinência, uma vez que nossa gramática existencial vê-se totalmente modificada? (CARMO, 2016, p. 237).
Catequetas e catequistas têm sido uníssonos no que diz respeito à conversão pastoral e catequética. A caducidade do processo é evidente, mas, na práxis, as repostas são incipientes. É preciso dar um ousado passo rumo à conversão catequética. O tempo não pede remendos, pirotecnias, catequeses repaginadas, mas que, no fundo, continuam reverberando os conteúdos e as práticas antigas. 
Inicialmente, dois passos parecem urgentes. O primeiro exige a retomada da dimensão evangelizadora da catequese, pois, embora evangelização e catequese estejam imbricadas, houve no decorrer da história certa separação entre elas . O segundo, por sua vez, solicita à Igreja o abandono de estruturas eclesiais que favorecem sua permanência numa redoma de vidro ou zona de conforto. É preciso ir ao encontro das necessidades dos homens e das mulheres de hoje; é imperativo colocar o trabalho pastoral em chave missionária, inclusive a catequese.
1.1 Catequese evangelizadora
Parece pleonasmo falar de catequese evangelizadora, mas se hoje se insiste nisso é porque ao longo da história da Igreja essas duas dimensões tão intimamente unidas foram separadas. Tal divórcio comprometeu a vida de ambas, como pode acontecer na separação de gêmeas siamesas. Num mundo cada vez mais secularizado, a evangelização ganha destaque e ocupa a ribalta para onde os holofotes são direcionados. Com a exculturação da fé, “não faz mais sentido continuar agindo como se a Boa-Nova já fosse conhecida e inscrita naturalmente na memória cultural dos indivíduos” (CARMO, 2016, p. 156). É preciso assumir que “há um inegável apagamento da fé cristã no horizonte da pós-modernidade” (CARMO, 2016, p. 156). A passagem de uma catequese que mantém e consolida a fé para uma catequese que propõe a radical novidade do Evangelho é urgente (CARMO, 2016, p. 156). O pressuposto atual é que precisamos evangelizar os próprios batizados (ALBERICH, 1978). 
A onda secularizante da cultura moderna, a falência das utopias sustentadas pelas promessas do Iluminismo e a força desagregadora do processo de globalização, balizado por critérios puramente econômicos, voltados para o consumo, geraram um vazio tal, de esperança e de valores, que a missão de evangelizar nos aparece cada vez mais como a urgência das urgências (CNBB, 2005, p. 22).
Emílio Alberich fala de uma Igreja em estado de evangelização (1978, p. 56), que revolucione “a lógica interna das tradicionais funções pastorais” (ALBERICH, 1978, p. 56). Na prática evangelizadora da Igreja, a força motriz é centrífuga, isto é: “a Igreja se sente enviada para todos os homens e sai continuamente de suas instalações a fim de tornar presente e acreditável a mensagem de salvação que ela traz no coração” (ALBERICH, 1978, p. 57), ou seja, o que se espera é uma pastoral projetada para fora, cujo impulso evangelizador evita a todo custo “cair no perigo de instrumentalizar as pessoas com o fim de proselitismo ou de doutrinação” (ALBERICH, 1978, p. 58). 
Uma catequese evangelizadora centra seus esforços não nos sacramentos a serem recebidos, mas no primado da evangelização (ALBERICH, 1978, p. 62). Se há um apagamento da fé cristã no horizonte da pós-modernidade (CARMO, 2016, p. 156), o trajeto a ser feito é o de apresentar Jesus Cristo e seu projeto de vida com sua força transformadora, libertadora e salvífica. 
1.2 Catequese missionária 
As estruturas atuais da Igreja não favorecem uma catequese missionária. A pastoral de conservação debilita radicalmente a ação catequética. A Igreja, ainda hoje, vive como se estivesse no regime de cristandade (ALBERICH, 2013, p. 71), no centro do mundo orientando sua rotação. Quem está no centro faz o convite e espera que os ouvintes venham para acolher o que se tem a dizer (SANDER, 2015, p. 137). Contudo, o mundo pós-moderno, secularizado, indiferente ao cristianismo, não gira mais em torno da fé cristã e não admite mais esta geografia pastoral. Agentes evangelizadores, catequistas e ministros da Igreja, cuja missão é anunciar Jesus Cristo, não podem mais esperar que os contemporâneos venham à procura da fé. 
Deve-se superar, por isso, a obsessão eclesiocêntrica (Igreja preocupada consigo mesma, com sua conservação e expansão), para assumir uma orientação missionária, própria do povo messiânico que se sente enviado ao coração do mundo para testemunhar e servir. O mundo de hoje, com seus problemas e com os seus anseios mais profundos, deve constituir o programa operativo de base, a “ordem do dia” das urgências eclesiais (ALBERICH, 2013, p. 71).
A necessidade atual da Igreja é a saída de si mesma, do seu conforto, da sua segurança, para ir ao encontro daqueles que estão fora de seus muros, como afirma o papa Francisco (EG, 27). Os bispos da América Latina e Caribe convidam os cristãos a abandonar a “pastoral da manutenção”. Insistem que é preciso arriscar em novas práticas evangelizadoras, cujo foco seja o despertar da fé, possibilitando a experiência pessoal com Deus: uma verdadeira conversão pastoral (DAp, n. 365; 366; 370). A Igreja é convidada a deixar, “como Abraão, a própria terra e a parentela, e caminhar para um futuro aberto e novo, num mundo desconcertante e difícil” (ALBERICH, 2013, p. 71).
São inúmeras as periferias existenciais que ainda precisam ouvir a boa nova ou aguardam um novo recomeço. Não é nessas periferias existenciais que a Igreja deveria estar? Para que sua presença seja efetiva nesses ambientes, é imprescindível um processo de descentralização, de abertura, de diálogo.
As diversas áreas e momentos do processo evangelizador (ação missionária, ação catecumenal, ação pastoral, presença e ação no mundo) devem ser encaradas com seriedade. A percepção da necessidade urgente da evangelização põe em xeque o estilo tradicional da pastoral intraeclesial. Abre-se o vasto mundo da missão, pois é muito flagrante o divórcio entre fé e vida e a desproporção entre a massa dos fiéis oficialmente cristãos e a verdadeira dimensão da comunidade cristã (ALBERICH, 2013, p. 74-75).
O cristão de hoje é chamado a estar no coração do mundo e nele anunciar a fé e dar testemunho do Cristo Ressuscitado. A catequese deve ser o espaço no qual ressoa a mensagem de Jesus a seus discípulos: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos” (Mt 28,19-20). Se a Igreja se debruça sobre si mesma, com medo do mundo e de seus desafios, nega-se a anunciar o Evangelho a todas as pessoas (Mc 16,15). Mas não é sua missão essencial?
Cumpre lembrar que, se a evangelização foi redescoberta como “a missão essencial da Igreja”, “a graça e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda” (EN n. 14), a catequese participa da mesma dignidade e importância, como momento vinculado, de forma essencial, ao dinamismo da evangelização. Sendo anúncio e aprofundamento da mensagem evangélica para o amadurecimento da fé, a catequese encontra-se no próprio coração da missão eclesial, instrumento da existência da Igreja como sacramento do Reino (ALBERICH, 2013, p. 99).
A catequese “encontra-se no próprio coração da missão eclesial” (ALBERICH, 2013, p. 99). Também ela deve se colocar em estado de saída: saída das formas herdadas de transmissão da fé, saída das estruturas eclesiais para ir ao encontro daqueles que vivem nas periferias existenciais e que aguardam ansiosamente a boa nova da libertação. Quando a Igreja se fecha em si mesma, enclausurando-se nos seus comodismos sem se atentar para as necessidades e realidades atuais, trai a sua vocação missionária.

2 A CATEQUESE COMO PROCESSO PERMANENTE DE TRANSMISSÃO DA FÈ
Outro desafio imposto pela atualidade é quanto ao tempo da catequese. Quanto tempo deve durar a catequese? Ela tem início, meio e fim? Ela deve ser encerrada quando acontece a recepção dos sacramentos da iniciação cristã? A crise do processo catequético tradicional revelou que a catequese sacramental está em queda livre; ela dá mostras de prazo de validade vencido. Nessa catequese deveria aparecer a inscrição “válida somente no período da cristandade”. Desfeita a casa da cristandade com a tempestade da secularização, a catequese ficou desabrigada e não pode mais criar seus filhos ao relento. Precisa se reinventar e achar outro aconchego, mesmo em meio a hostilidades e rejeições.
Sabemos por observação da história que a catequese de cunho sacramental não é capaz de iniciar eficazmente na fé; ela tornou-se um curso direcionado à recepção dos sacramentos, sem implicações profundas na vida dos catequizandos. 
Ao se firmar como processo de preparação para os sacramentos da iniciação cristã, a catequese tornou-se um contrato provisório cujo fim expira com a recepção dos sacramentos. Párocos, catequistas, pais, catequizandos e a comunidade eclesial em geral entenderam a catequese como um curso preparatório para os sacramentos e, como todo curso, a catequese também precisaria ter começo, meio e fim. A catequese foi assimilada como uma etapa provisória, cuja finalidade não se encontra em si mesma, mas em um prêmio alcançado ao final do percurso. [...] ao solicitar da Igreja um sacramento, o cristão mergulha temporariamente nas suas águas, mas não faz parte desse mundo, não depende dele para respirar, para comer, para viver (CARMO, 2016, p. 226). 
Na concepção de Alberich, essa catequese dá mostras de ser “uma práxis pastoral paralisada de certo modo pela inércia operativa, que se encontra deslocada diante dos desafios do mundo atual” (ALBERICH, 2013, p. 39). Portanto, continua o autor, “parece necessário difundir uma nova mentalidade e conceber um renovado projeto pastoral” (ALBERICH, 2013, p. 39).
O desafio atual é, pois, superar a prática catequética do modelo de curso preparatório para a primeira comunhão e a crisma, que põe termo à iniciação cristã em vez de realmente cumprir seu papel de iniciação. A fé, antes entendida como pronta e acabada, hoje é compreendida como uma “eterna iniciante” (CARMO, 2016, p. 226), pois Deus não cessa de nos dirigir sua palavra e nos interpelar para entrar no seu projeto. Se assim o é, o processo catequético deve ser contínuo, permanente. Ele deve favorecer um espaço de convivialidade, de experiência do mistério pascal, no qual o catequizando encontra forças para viver e se realizar como pessoa (CARMO, 2016, p. 226). 
O mistério pascal que a comunidade eclesial anuncia, celebra e vive é o meio no qual o cristão encontra a vida, o Ressuscitado que a nutre. A fides qua, a eterna iniciante, depende desse meio para fazer seu movimento. Ela não é um ponto de partida nem de chegada, mas uma busca contínua, um devir, o que nos faz pensar em uma catequese permanente. [...] Ninguém atinge a maturidade da fé a ponto de poder se dispensar de continuar buscando. [...] A catequese não pode se dar por satisfeita por levar crianças, jovens e adultos até os chamados sacramentos da iniciação. Somos todos eternos iniciantes, peregrinos da fé, que não encontram sua alegria a não ser em fazer esse caminho permanente (CARMO, 2016, p. 226).
Se a busca contínua da maturidade é condição sine qua non da fé cristã, ou seja, se o cristão é um eterno aprendiz ou iniciante, não há razões para continuar insistindo numa catequese que se organiza como um curso preparatório para a recepção dos sacramentos. A catequese tem estatuto próprio e não depende dos sacramentos. Ela deve ser pensada para todas as idades, sobretudo para aqueles que já receberam os primeiros sacramentos da fé, pois a fé é devir, uma “busca permanente de maturação da qual nenhum cristão está dispensado” (CARMO, 2016, p. 226). 
Encarar a catequese como um processo permanente exige repensar a prática eclesial evangelizadora com  os adultos. 
Ainda hoje, a catequese, na maioria das nossas comunidades, é, sobretudo, catequese infantil. Há muitos anos se insiste na urgência e no primado da catequese para adultos e na necessidade de a catequese favorecer o crescimento de uma fé adulta numa Igreja adulta. Mas a realidade encontra-se ainda muito longe dessas proclamações solenes. A catequese para adultos nunca consegue tomar impulso, enquanto se despende a maior parte dos esforços catequéticos na catequese das crianças e dos adolescentes. Explica-se, destarte, o caráter muitas vezes infantilizante da práxis catequética, ainda distante das exigências e características de uma fé adulta no mundo de hoje (ALBERICH, 2013, p. 39). 
Demasiada energia é gasta na catequese infantil, o que não significa – é claro – que ela deve ser esquecida. Enquanto isso, faltam investimentos na catequese com os adultos, quando esta existe. Mas também o adulto não tem necessidade de aprofundar a sua fé, dado que, na grande maioria das vezes, seu processo catequético foi ainda no período de sua infância? Não se pode esquecer que “para cada idade há um estágio próprio de maturação e que a maturidade cristã é contínuo devir” (CARMO, 2016, p. 227). A catequese com adultos, 
Não diz respeito somente ao aprofundamento das questões doutrinárias, de corrigir uma ou outra representação de Deus – apesar de isso ser de máxima importância. Podemos cair no risco de pensar que todo o mal da Igreja ou da catequese se resume no pouco esclarecimento dos fiéis, como se um bom curso de teologia para leigos resolvesse o problema. A questão é bem mais exigente. O que está em jogo, como lembra Lacroix , é a retomada de um caminho de fé que foi interrompido prematuramente; o recomeço de uma iniciação mal acabada – ainda que sacramentalmente ela tenha ido até seu limite máximo na recepção de todos os sacramentos da iniciação. Estamos lidando com um percurso que exige mais do que formação intelectual. Essa caminhada exige experiências pessoais significativas, acompanhadas por ritos e etapas litúrgicas que marquem o itinerário de forma profunda, por experiências de fraternidade e engajamento (CARMO, 2016, p. 227-228).
A catequese de adultos se revela como uma oportunidade para recomeços, para dar continuidade à caminhada que fora interrompida tão precocemente na infância. Urge criar oportunidades, espaços e tempos, para que todos tenham ocasião de continuar sua formação e aprofundamento na fé em Cristo. Trata-se de uma verdadeira marcha dos recomeçantes.
Essa catequese permanente, que acompanha o catequizando nas diversas fases de sua vida, só faz sentido se for entendida como querigmática e mistagógica. Deve ser uma “evangelização geral e acessível a toda a comunidade eclesial, rica em linguagem simbólica e realizada de forma litúrgica, participativa, celebrativa” (CARMO, 2016, p. 233).

3 A PALAVRA DE DEUS NO CORAÇÃO DA CATEQUESE
A catequese doutrinal, predominante há séculos na práxis da Igreja, tinha um único objetivo: transmitir, por meio da doutrina, as verdades da fé. Nessa compreensão catequética, “ser catequizado significava conhecer e aprender a doutrina tal qual ela era anunciada” (CARMO, 2016, p. 70). Assim, a Palavra de Deus consignada na Escritura tornou-se algo periférico na prática catequética, pois servia apenas para justificar e fundamentar a doutrina. Foi lançada ao exílio (ALBERICH, 2013, p. 103), enquanto a doutrina e os preceitos morais se tornaram as pupilas dos olhos da catequese. 
Com o Concílio Vaticano II, a Escritura ganhou destaque na transmissão da fé. Retornamos ao audire verbum das origens (ALBERICH, 2013, p 103) e a catequese recuperou sua identidade perdida. 
A catequese é uma forma peculiar do ministério da palavra na Igreja, é serviço da palavra. Frequentar a catequese era, antigamente, audire verbum, ouvir a palavra. Depois que o Concílio Vaticano II resgatou, em certo sentido, a palavra de Deus do “exílio” forçado a que ficou relegada por tanto tempo (cf. DV cap. 6), a catequese recuperou sua identidade mais profunda, sua nova face, em relação às épocas passadas: passa-se da “doutrina” à “mensagem”, do “ensinamento” ao “anúncio”, do “catecismo” à “catequese” (ALBERICH, 2013, p. 103). 
Para Alberich, a identidade mais profunda da catequese é o serviço à Palavra, serviço ao Evangelho, comunicação da mensagem cristã e anúncio de Cristo (ALBERICH, 2013, p. 94). Assim, “podemos chamar de catequese toda forma de serviço eclesial da palavra de Deus orientada para fazer amadurecer, na fé cristã, as pessoas e as comunidades” (ALBERICH, 2013, p. 94).
Também, o Diretório Nacional da Catequese (DNC 106), fazendo eco à Catechese Tradendae de João Paulo II (1979), lembra-nos de que a palavra de Deus é a fonte da catequese. 
A fonte na qual a catequese busca a sua mensagem é a Palavra de Deus: Jesus mesmo nos deu o exemplo. “A catequese há de haurir sempre o seu conteúdo na fonte viva da Palavra de Deus, transmitida na Tradição e na Escritura, porque a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito inviolável da Palavra de Deus, confiada à Igreja” (CT 27) (DNC 106). 
Assim, Palavra de Deus e catequese estão intimamente ligadas. Esta está à serviço daquela. No centro da catequese, encontra-se a “Palavra de Deus revelada em Jesus Cristo” (ALBERICH, 2013, p. 107). E o serviço à Palavra nada tem a ver com determinismos, fundamentalismos bíblicos ou o uso de textos específicos para justificar algo de nosso interesse (CARMO, 2016, p. 73). Por se tratar da revelação divina ou da autocomunicação de Deus, não é possível obrigar a Palavra a dizer o que cremos e defendemos, nem é razoável reduzi-la a um objeto de estudo apenas. “Superada uma consciência predominantemente intelectual da revelação (nos moldes da transmissão magisterial de verdade) hoje se propõe uma visão mais existencial e pessoal, mais cristológica e aberta à história” (ALBERICH, 2013, p. 107). 
O Diretório Nacional da Catequese, retomando uma fala de João Paulo II, recorda-nos o perigo de reduzir a Palavra de Deus a um conjunto de normas morais e de doutrinas, anulando sua força. 
Na catequese, quando se fala em conteúdo, pensa-se em geral na doutrina e na moral. Essa visão afeta o encaminhamento do processo catequético. Mensagem é comunicação de algo importante. João Paulo II afirmou enfaticamente: “Quem diz mensagem diz algo mais que doutrina. Quantas doutrinas de fato jamais chegaram a ser mensagem. A mensagem não se limita a propor idéias: ela exige uma resposta, pois é interpelação entre pessoas, entre aquele que propõe e aquele que responde” (DNC 98). 
Um paradigma catequético que tenha a pretensão de enfrentar os desafios da sociedade pós-moderna não pode considerar a Palavra de Deus como algo periférico, dispensável, mas deve devolver-lhe o status de coração da catequese. Conforme o Diretório Geral para a Catequese,
a Igreja quer que, em todo o ministério da Palavra, a Sagrada Escritura tenha uma posição proeminente. A catequese, em síntese, deve ser “uma autêntica introdução à Lectio divina, isto é, à leitura da Sagrada Escritura feita ‘segundo o Espírito” que habita na Igreja’. [...] Nesse sentido “falar da Tradição e da Escritura como fonte da catequese, quer dizer sublinhar que esta última deve embeber-se e permear-se com o pensamento, com o espírito e com as atitudes bíblicas e evangélicas, mediante um assíduo contato com tais textos” (DGC 127. Grifos do autor).
Na mesma perspectiva, o Diretório Nacional da Catequese insiste:
Dentro da Tradição, a Bíblia ocupa lugar especial: nela, a Igreja reconhece o testemunho autêntico da Revelação divina.[...] No centro das Escrituras estão os evangelhos, que apresentam Jesus, sua vida, mensagens e suas ações salvíficas. Exprimem a base dos ensinamentos das primeiras comunidades cristãs, o primeiro livro de catequese desde as origens da Igreja (cf. DGC 98; TM 24) (DNC 107).
Se a catequese, como afirma Alberich, é “um caminho de fé sempre aberto, longe de uma visão triunfalista com a pretensão de ter respostas prontas e quase pré-fabricadas para todos os problemas religiosos e humanos” (ALBERICH, 2013, p. 105), sua alma deve ser a Escritura Sagrada, na qual está consignada a Palavra de Deus. E é na realidade concreta da história que essa Palavra se faz carne, se faz vida. “No centro da catequese está a necessidade da integração entre fé e vida. O anúncio da Palavra se faz a partir das situações e dos problemas da vida” (SOUSA, 2014, p. 639). Assim, a Bíblia é muito mais que um conjunto de normas morais e de doutrina. Não é também um livro de oráculos religiosos, que devem ser cumpridos ao pé da letra. Ela é um testemunho de fé dos que nos antecederam nessa aventura da busca do sentido da vida. Por isso, contém uma mensagem de Deus capaz de interpelar o ser humano a uma vida plena, pois nos apresenta não apenas um conteúdo, mas uma pessoa, Jesus Cristo, que é a Palavra de Deus por excelência (ALBERICH, 2013, p. 108).

4 DIMENSÃO CRISTOCÊNTRICA DA CATEQUESE
Se a catequese tem como centro a Palavra de Deus, ela é anúncio de Cristo – Palavra de Deus por excelência – e oferta de comunhão pessoal com ele, e não um curso de religião ou uma ocasião de doutrinação nos princípios religiosos do catolicismo. 
No plano global da comunicação de Deus, Cristo representa não uma palavra, mas a Palavra por excelência de Deus, o vértice da revelação, a suprema manifestação de Deus ao homem e a suprema revelação do homem ao homem (GS n. 22), “o mediador e a plenitude de toda a revelação” (DV n. 2). Cristo é, de fato, o logos, a palavra do Pai (Jo 1,1), a sapiência de Deus (1Cor 1,24), a imagem do Deus invisível (Cl 1,15), esplendor da glória e efígie de sua substância (Hb 1,3). Nele, suprema revelação de Deus ao homem, se concentra e se realiza o projeto de salvação para toda a humanidade (ALBERICH, 2013, p. 108).
Em Jesus Cristo, o ser humano encontra o sentido da vida (ALBERICH, 2013, p. 108) e nele se “concentra e se realiza o projeto de salvação para toda a humanidade” (ALBERICH, 2013, p. 108). Portanto, se a catequese é serviço à Palavra, cabe também a ela proporcionar, por meio da aproximação ao Evangelho de Jesus, uma experiência pessoal com o Cristo, plenitude da Revelação de Deus aos homens (SOUSA, 2014, p. 640). Trata-se de entrar em relação não com uma ideia, mas com uma pessoa, Jesus Cristo, o Filho de Deus na carne (Jo1,14).
Em Jesus Cristo, palavra de Deus feita condição humana, chega também ao seu momento culminante um aspecto fundamental da economia da revelação: a dimensão personalista. Nele a palavra de Deus se faz pessoa viva, na condição humana e histórica que permite o encontro e a comunhão. O encontro com Jesus Cristo se torna, portanto, o sacramento por excelência do encontro do ser humano com Deus, ao mesmo tempo em que manifesta a intenção personalista de toda a revelação. Se Deus “fala” e continua a falar na história, não o faz principalmente para informar ou para transmitir a verdade, mas antes de tudo para comunicar a si mesmo, convidar a um diálogo, a um encontro, a uma doação de si que obriga à doação de si, da parte de Deus e da parte dos seres humanos (ALBERICH, 2013, p. 109).
O ato catequético leva ao encontro com Jesus Cristo, que é a autocomunicação de Deus, e consequentemente com seu projeto de vida. “Jesus Cristo, na plenitude de sua pessoa e de seu mistério, é o centro indiscutível da comunicação catequética e ponto de referência de todo o seu conteúdo” (ALBERICH, 2013 p. 110). Nas palavras de Sousa,
A catequese apresentada como ministério da Palavra de Deus deve ter presente que a pessoa de Jesus Cristo é o centro do seu processo de evangelização. Nessa perspectiva, a catequese, por sua natureza e dimensão cristocêntrica, tem a missão de conduzir a um encontro pessoal com o próprio Cristo, que é a Palavra de Deus revelada. Desse modo, a Bíblia é o livro por excelência da catequese, pois o contato com a Sagrada Escritura favorece a compreensão do Cristo em toda a história da salvação. O acesso ao conhecimento bíblico na catequese favorece a compreensão da Revelação de Deus (SOUSA, 2014, p. 642).
A Palavra de Deus consignada nos textos bíblicos deve ocupar o centro da catequese, deve ser o seu coração, pois ela é a fonte reveladora de Jesus Cristo e de seu plano salvífico. E, embora o anúncio de Jesus Cristo não seja o único conteúdo da catequese (ALBERICH, 2013, p. 111), ele é seu núcleo central e tudo ganha sentido nele. 

CONCLUSÃO
Os desafios atuais da transmissão da fé levam a pensar na necessidade de uma conversão catequética, uma catequese com eixo evangelizador e missionário e não um curso de religião para ensinar doutrinas, dogmas e preceitos morais. Instalando-se no âmbito missionário da Igreja, a catequese se liberta do estigma de preparação para os sacramentos e passa a ser um processo permanente de transmissão da fé, pensado para todas as idades e não apenas para crianças. No seu centro encontra-se a Palavra de Deus, cuja expressão máxima é Jesus Cristo, o Filho de Deus na carne. Fica realçada a dimensão cristocêntrica da catequese, cuja urgência de recuperação é gritante. 
Toda a Igreja, cuja missão principal é anunciar a boa nova de Jesus, precisa experimentar essa conversão pastoral como sugere o Documento de Aparecida. Uma catequese missionária, permanente, com centralidade na Escritura e com foco no Cristo não se constrói somente com a boa vontade dos catequistas, mas com o empenho de toda a comunidade eclesial. 

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