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30. Deus meritocrático

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22.11.2021 | 3 minutos de leitura
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Casos da vida
30. Deus meritocrático

Solange Maria do Carmo

Tânia da Silva Mayer


Amaro Furtado é homem de posses. Nasceu em berço de ouro e foi educado para ser o sucessor do pai, um grande empresário. O pai de Amaro cuidou da empresa do pai, que por sua vez abriu seu negócio com ajuda de incentivos do governo e acordos escusos com políticos. Agora, Amaro Furtado, formado em Direito e em Administração de Empresas, dá continuidade ao patrimônio da família que, ao contrário do que acontece com outros negócios, só prospera nessa pandemia. Acontece que a empresa trabalha com tecnologia e informática, que teve grande ascensão por causa do isolamento social e do sistema remoto de trabalho. Amaro não entende nada de tecnologia, nem de informática, só de investimentos, de fazer dinheiro render dinheiro. Quem faz tudo são seus funcionários. Ele manda e desmanda e fica com os lucros. Quando os funcionários pedem aumento dizendo que estão trabalhando muito, Amaro Furtado responde que, se eles não quiserem o emprego, tem muita gente na fila para ocupar o lugar deles. 
Seus empregados trabalham muito mais que a legislação permite e não ganham hora extra. No prédio onde funciona a empresa, os empregados não têm nem uma cozinha digna para fazer suas refeições, não há uma sala de descanso, nada... Amaro Furtado simplesmente rouba-lhes a dignidade e impõe-lhes uma jornada de trabalho desumana. Sem que se preocupe com a contaminação pela covid-19, o patrão lhes obriga ao trabalho presencial. O sobrenome da família Furtado sinaliza a atividade principal da empresa: furtar o direito alheio, sonegar impostos, roubar os pobres, tudo sob as dobras da lei. 
Na turma de faculdade onde Amaro estudou, também estudava um funcionário da empresa, de nome Benvindo, muito inteligente e esforçado, que entrara na Universidade por meio do sistema de cotas. Amaro achava um absurdo uma pessoa dessas estudar na mesma faculdade que ele, pois o moço era pobre, preto e favelado. Quando concluíram o curso, Benvindo ganhou medalha de destaque acadêmico por seu desempenho. Amaro se roeu de ciúmes e pensou “Quando eu administrar a empresa de meu pai, você vai ver o seu lugar, ‘negrinho’ metido!”. E dito e feito.
Assim que Amaro se tornou diretor da empresa, Benvindo, em vez de ser promovido, foi submetido a um festival de humilhações. O trabalho aumentou e o salário diminuiu com a desculpa da crise. Benvindo não deixava a empresa, pois era arrimo de família e ajudava a criar seus irmãos. Na firma, eles recebiam treinamento para aumentar a produtividade, mas os lucros não eram divididos. Amaro Furtado posava de bom e dizia: “Deus me abençoou. Eu fiz por merecer”. Esse discurso de meritocracia cansava Benvindo, ainda mais quando colocavam Deus como um pagador de contas. Essa noção perversa de Deus incomodava o jovem e ele não tolerava que o nome de Deus fosse usado para ofuscar a perversão das relações trabalhistas.
Certo dia, Benvindo e seus companheiros se organizaram para reivindicar melhores condições de trabalho. O padrão disse: “Coisa de ‘comunista sem-vergonha’, que não aceita a vontade de Deus”. Seu patrão o procurou às escondidas e ofereceu favores para que desarticulasse a organização dos funcionários. Benvindo rejeitou, pois sabia bem de que lado da história deveria ficar. A organização dos funcionários prosperou e ganharam na justiça os seus direitos. Na hora de dar a notícia aos amigos da empresa, Benvindo disse: “Ninguém mais use contra nós esse discurso perverso da meritocracia, ainda mais em nome de Deus. Deus é bom, fiel e justo e a todos distribui generosamente o seu amor. Já as relações trabalhistas são regidas pelo interesse econômicos dos perversos”. E foi aquela festa quando os funcionários receberam as hora-extras conforme determinação da justiça. Enquanto isso, a família Furtado planejava novas artimanhas para se enriquecer mais ainda.