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21. O CREDO: Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria

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15.10.2015 | 8 minutos de leitura
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21. O CREDO: Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria

Concebido pelo poder do Espírito Santo


A encarnação de Jesus se realiza por obra do Espírito Santo (cf. Mt 1,20; Lc 1,35). O Espírito é o poder gerador de Deus. Nele, Jesus é gerado no seio de Maria. O que nela foi gerado vem do Espírito Santo (cf. Mt 1,20). O verbo no passivo afirma que a ação é de Deus – foi gerado. Deus gera seu Filho na nossa humanidade, na nossa fraqueza, simbolizada na virgindade de Maria. Afinal, uma virgem nunca poderia conceber. Há um impedimento real para que ela o faça. Não são poucos os autores que veem, nessa virgindade de Maria, o símbolo da miséria humana, sempre incapaz de gerar Deus por si mesma. Se, no seio de uma virgem, o Filho de Deus (cf. Lc 1,35) é gerado, só pode ser porque Deus se dá, além dos limites de nossas fraquezas humanas. Nasce, assim, um homem “que é Filho de Deus, porque Deus o gera do Espírito no seio de Maria”.


Esse artigo do Credo se centra na encarnação de Jesus, afirmando que ele é obra do Espírito em Maria. O verbo de Deus, se faz carne, gente como a gente. Ele se torna, assim, também Filho do homem, título que, segundo os evangelistas, ele gosta muito de usar (cf. Mc 10,45). Filho de Deus (um com Deus, da mesma natureza divina) e filho do homem (um conosco, da mesma natureza humana), graças à força do Espírito Santo. Aqui há um grave equívoco a evitar. Alguns pensam que Jesus é metade Deus e metade homem. Na verdade, Jesus é totalmente Deus e totalmente homem. Em Jesus, o Filho de Deus se fez homem. Deus é, desde sempre, Trindade, unidade de amor, o Filho faz parte da relação uma e trina do amor Divino. Temos, às vezes, a tentação de pensar que a divindade de Jesus absorve sua humanidade, como o mar (divindade) absorve a gota d’água (humanidade), mas se trata de um erro grave, que termina desprezando a humanidade de Jesus.


Nasceu da Virgem Maria


Quando falamos da virgindade de Maria, entramos num campo de batalha em que pululam hipóteses e opiniões teológicas. Era de fato virgem? E se Jesus fosse filho de José ou de algum outro homem, ele não teria sido concebido no poder do Espírito Santo? Não seria, por isso, o Filho de Deus? Maria precisava ser virgem para conceber Jesus? De fato, o nascimento de Jesus se dá num clima de mistério. E nenhuma pesquisa histórico-científica está em condições de dar uma resposta satisfatória. Nem mesmo as pesquisas bíblicas podem se aventurar a uma resposta definitiva, pois as Escrituras deixam lacunas nesse sentido, a começar pela palavra virgem, tradução um pouco duvidosa adotada desde a vulgata por são Jerônimo.


A Igreja afirma a virgindade de Maria. Não só a partir do texto lucano que põe na boca de Maria a expressão “Não conheço homem algum” (Lc 1,34-35), mas a partir de uma antiga tradição dos cristãos. É sabido que o verbo conhecer significa muitas vezes ter relações sexuais. Em Mateus (cf. Mt 1,18-25), Maria se encontra grávida antes de coabitar com José. A Igreja viu nessas expressões uma concepção que se dá por obra do Espírito Santo (cf. Mt 1,20).


Sabemos que a virgindade de Maria tem, nos textos dos Evangelhos, um significado teológico. Esse é, sem dúvida, o sentido mais importante, afinal as Escrituras Cristãs não tinham preocupação mariológica, mas cristológica quando foram redigidas. Na verdade, esses textos falam mais de Jesus que de Maria. Eles dizem que Jesus é puro dom de Deus e não resultado da virilidade (força) dos homens. Não é por justiça de alguém (José, o esposo de Maria, é justo), nem por potência sexual do esposo, que Jesus é dado ao mundo. A iniciativa é de Deus; Jesus é dado, na mais pura gratuidade do Pai. Mas, apesar de saber desse teor cristológico e não mariológico, a tradição da Igreja também afirmou, além do significado teológico, a virgindade biológica de Maria, acreditando que essa pertence à esfera do mistério de Deus. Os reformadores Lutero e Calvino, tão críticos à Igreja, não puseram em questão a virgindade de Maria, como pensam hoje alguns da corrente protestante. A virgindade de Maria aparece sumariamente afirmada em todos os Símbolos (Credos) da Igreja primitiva, mas as afirmações não entram em detalhes sobre essa virgindade. Tais Símbolos foram o modo mais original em que a Igreja expressou sua fé nos seus inícios. Atualmente, porém, esse tema da virgindade se apresenta controvertido, mesmo dentro da teologia católica.


Os evangelistas Lucas e Mateus narram o nascimento de Jesus a partir do Antigo Testamento, mostrando que ele se insere no quadro da história da Aliança de Deus com a humanidade. Jesus realiza as esperanças de Israel. O AT conhece nascimentos que se dão pela força de Deus e esses determinam pontos cruciais da história da salvação. O nascimento de Isaac (cf. Gn 18), de Samuel (cf. 1Sm 1-3), de Sansão (cf. Jz 13) acontece apesar de as três mulheres serem estéreis. Nesses acontecimentos, Deus intervém em vista da salvação de Israel. Sabemos hoje que esses relatos extraordinários fazem parte de um gênero literário chamado relato de heróis. O autor dificulta o nascimento para dizer que aquela pessoa é especial e para afirmar que sua ação no mundo será por uma missão divina. O mesmo acontece com Isabel, mãe de João Batista (cf. Lc 1,7-25.36). Depois vem Maria, que concebe Jesus. Essas intervenções de Deus querem dizer que a salvação não depende de nenhum poder humano, mas é um dom absoluto de Deus, que realiza o impossível, exaltando os humildes e derrubando os poderosos (cf. Lc 1,52). A salvação se encontra na pura graça de Deus que exige acolhida simples e generosa. O relato do nascimento de Jesus é semelhante aos anteriores. Jesus é fruto do Espírito Santo e traz para a humanidade um novo início. Ele é um presente que vem do alto. Nele o ser humano reencontra o seu verdadeiro destino, por isso ele é o segundo Adão (cf. 1Cor 15,47). A origem de Jesus, segundo João, é o Pai. Ele é o Filho de Deus-Pai de um modo totalmente novo e inesperado. “E o Verbo se fez carne e veio morar no meio de nós. E contemplamos sua glória, a glória que recebe do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Ele é o dom mais precioso de Deus-Pai à humanidade.


Sempre houve objeções à concepção virginal de Jesus e foram sempre rejeitadas pela Igreja. Ora, por que os cristãos inventariam a concepção virginal de Maria se Jesus fosse realmente filho natural de José, o que seria perfeitamente compatível com a esperança judaica por um messias? Eles não afirmariam a virgindade de Maria se conhecessem um pai humano para Jesus. Não havia a expectativa por um messias nascido de um virgem, mas sim de um messias descendente de Davi, o que José garantirá a Jesus, como seu pai adotivo diante da lei (cf. Mt 1,25; 13,55; Lc 2,33.41.43.48; 4,22). A virgindade de Maria não significa, no entanto, negação da sexualidade humana. Mesmo não havendo participação de um varão no nascimento de Jesus,o ser humano permanece presente na mulher que diz seu sim a Deus. O varão, sobretudo na cultura de Jesus, era símbolo do poder dominador agressivo que dirige a história. Como afirma o grande teólogo protestante Karl Barth: “Deus não escolheu o ser humano em seu orgulho e sua obstinação, mas em sua debilidade e humildade, representada pela mulher”.


O próprio Deus originou a vida de Jesus em Maria, como um ato novo de criação dentro da história. Ela acolhe, em nossa humanidade presente nela, como puro dom,a graça de Deus que se encarna em seu Filho Jesus no poder do Espírito Santo. Ela aceita que se cumpra nela a Palavra do Senhor (cf. Lc 1,38). A virgindade de Maria aponta, pois, para a pura ação de Deus nela. Graça significa a ação misericordiosa de Deus que o ser humano é chamado a acolher. A concepção virginal anuncia ao mundo uma graça total e inesperada que destrói todas as pretensões do mundo. Deus cria do nada e salva a partir dos meios mais humildes. Ele se lembra da humildade de sua serva (cf. Lc 1,47-48) e a escolhe para ser a mãe do Salvador.


Maria nos convida a acolher a graça de Deus na estrutura fundamental do nosso ser, graça que nos chega pelo Espírito e nos configura a Cristo, Palavra viva do Pai. E o Pai,que gerou Jesus no seio de Maria, o gera em nós para que, através de nossa vida, possamos expressá-lo no mundo pelo amor. A geração de Jesus em Maria no poder do Espírito Santo é a mais alta demonstração do amor de Deus à humanidade, e a única forma que temos de gerar Jesus no mundo é assumindo uma vida em prol dos irmãos, pois assim viveu e morreu Jesus: em prol da salvação de todos.







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