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1. Batismo, crisma e personalização da fé

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29.09.2013 | 5 minutos de leitura
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1. Batismo, crisma e personalização da fé

A existência cristã, segundo os mestres da espiritualidade, tem etapas, ou seja, acontece dentro de um processo, com seus altos e baixos, suas crises, e só termina na glorificação. Os autores postulam a existência das seguintes etapas: batismo, personalização da fé, interiorização da fé, crise ou noite escura, maturidade provisória, morte e glorificação. O batismo nos mergulha no mistério pascal de Cristo. “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20), afirma São Paulo sobre a realidade nova que emerge na vida do batizado. De fato, no batismo o Espírito Santo cria uma comunhão indelével entre o cristão e Cristo. “Vós não estais na carne, mas no espírito, se é verdade que o Espírito de Deus habita em vós, pois quem não tem o Espírito de Cristo não pertence a Ele” (Rm 8,9). O batismo filializa o ser humano, fazendo-o participar da própria filiação de Jesus, à qual ele está ontologicamente orientado, pois Deus criou o homem e a mulher para si. Esse destino último do ser humano inscreve-se no mais profundo do seu ser e se concretiza com o batismo. Em Cristo, por graça do Espírito, o homem se torna “filho no Filho”. A filiação expressa a sua mais alta dignidade e sua inserção no mistério trinitário. A existência cristã tem, pois, uma dimensão trinitária. Ser cristão significa participar, por graça, da vida íntima de Deus, em Jesus, nosso “lugar” na Trindade. E quem nos comunica a graça de Cristo é o Espírito Santo.


Crisma e eucaristia completam a iniciação cristã. A crisma acentua a tarefa consciente de construir o Reino na força do Espírito. A eucaristia, memorial da páscoa do Senhor, atualiza a entrega de Jesus por nós para nos imergir cada vez mais no seu mistério pascal. Somos transformados em Cristo para formar a Igreja, seu corpo, em comunhão com todos os que são membros do Corpo de Cristo. O batismo transforma nossa vida, mas depende de nós atuarmos a graça que recebemos. Os sacramentos de iniciação são apenas o início de uma longa trajetória espiritual. Cristãos pelo batismo, tornamo-nos cristãos ao longo de nossa existência. É como se, depois do batismo, Jesus dissesse a cada um de nós: “torna-te aquilo que és”. Tal imperativo exige personalização da fé, considerada a segunda etapa da trajetória espiritual.


Trata-se de uma etapa obrigatória para todos: tanto para os que passam da incredulidade à fé cristã quanto para aqueles que, tendo recebido os sacramentos de iniciação, vivem na indiferença religiosa. Quantos cristãos não vivem o seu batismo e estão longe da Igreja! Quando um adulto batizado na infância decide continuar sendo cristão, terá que fazê-lo por livre decisão da vontade, assumindo pessoalmente sua opção por Cristo. Por outro lado, há os que vivem na Igreja de modo meramente convencional, sem aprofundar sua fé, muitas vezes aceitando doutrinas claramente opostas ao evangelho e sem nenhum compromisso com os valores do Reino anunciados por Jesus. Portanto, a passagem de um cristianismo herdado a um cristianismo pessoalmente assumido se revela uma etapa decisiva para nosso crescimento em Cristo. Alguns a chamam de segunda conversão. A primeira se deu no batismo, através dos que nos transmitiram a fé. A segunda brota de nossa escolha, pessoal e intransferível. Por isso mesmo se diz que todo cristão adulto é um convertido. Tal opção pessoal por Cristo se define como opção fundamental, ou seja, Jesus e seu Reino se tornam os valores supremos da nossa vida, a partir dos quais fazemos nossas escolhas e enfrentamos os desafios e as crises da nossa existência. A opção fundamental por Cristo nos obriga, ainda, a estabelecer prioridades, fazer renúncias e, às vezes, tomar decisões dolorosas que nos ajudam a romper com estruturas que afastam do evangelho.


Normalmente, nesta etapa, surge o desejo de uma participação mais intensa na vida da Igreja, de uma participação mais profunda na eucaristia, de uma prática mais elaborada da oração e, é claro, de um serviço mais sério aos irmãos, porque não existe conversão a Jesus sem que seja acompanhada do serviço aos outros. Não há eucaristia, sacramento da comunhão com Cristo, sem lava-pés, “sacramento” da comunhão com o irmão. Alguns, nesta etapa, fazem sua escolha vocacional, para definir seu futuro de acordo com Jesus e o evangelho. Outros assumem ministérios na Igreja, querem ajudar, de alguma forma, com seus talentos, a construir a Igreja de Jesus. Exige-se a personalização da fé de todo cristão que exerce um ministério qualquer na Igreja, seja ele simples e humilde ou de maior responsabilidade. Esta mudança, embora nos transforme, não nos livra de certas fraquezas, que nos acompanham e contra as quais continuaremos a lutar. Mesmo depois de uma opção verdadeira por Cristo, o pecado permanece em nossa vida. Mas para perdoá-lo há o sacramento da reconciliação, que recria nossa comunhão com Cristo e com os irmãos, quando a perdemos por causa do pecado. Claro, quanto mais se cresce na comunhão com Cristo, quanto mais se ama, menos se peca. De qualquer modo, como o publicano do evangelho, sempre rezaremos, batendo no peito: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador” (Lc 18,13). Alguém talvez se pergunte: uma vez personalizada a fé termina a trajetória espiritual? Não, ela prossegue através de outras etapas ainda mais decisivas.







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