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46. Espiritualidade do Advento - Noite da Vigília de Natal

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25.12.2019 | 8 minutos de leitura
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46. Espiritualidade do Advento - Noite da Vigília de Natal

Noite da Vigília de Natal


Encontrareis um Menino recém-nascido. (Lc 2, 12)


É este o sinal derradeiro: um menino recém-nascido, envolto em panos, deitado numa manjedoura. É preciso (re)encontrá-lo. “Encontrareis um menino”, diz-nos o anjo. Mas não há encontro sem procura, não há achado sem busca. Para achá-lo é preciso caminhar, pôr-se em marcha. O caminho, a busca só é possível se superarmos:




  1. A paralisia. Ela é sinônimo de desistência. É quando deixamos de persistir no passo. Podemos estar paralisados por causa de nossos perfeccionismos e idealismos que é quando pleiteamos uma vida sem falhas, sem quedas, sem cansaços, sem imperfeições. Depois de percebermos a fragilidade de nossas fantasias, paramos de lutar pelo possível, de abraçar a vida com seus dilemas; deixamos de avançar. A paralisia é o mesmo que deixar a vida perder o brilho, só porque ela tem suas opacidades.

  2. A desesperança. Vivemos quatro domingos para alimentar nossas esperanças. A esperança é uma tarefa de polimento. Nem toda graça está às vistas, algumas delas estão escondidas sob o desgaste do tempo e da repetição. A esperança nos ensina a polir o desgaste do tempo, para que a vida volte a brilhar. E volte a ter graça.

  3. A acomodação. Acomodar-se é o mesmo que esperar. Mas essa espera não é a mesma de quem tem esperanças. Quem tem esperanças não cruza os braços; quem se acomoda, ao contrário, o faz. Os acomodados estão sempre à espera dos outros: que os outros resolvam, que os outros façam, a responsabilidade, a culpa é sempre alheia. Assim, alienam-se de suas próprias responsabilidades. Acomodar-se não é não escolher, é escolher a apatia, é escolher não se comprometer.

  4. A indiferença. Ser indiferente é uma maneira de se ausentar. Ausência com peso de definitividade. É o amor às avessas. O amor é pressuroso, é um jeito de fazer memória; a indiferença é um jeito de esquecer. Um jeito de não ir...


Hoje o evangelho também alerta sobre um impedimento para a busca, para o encontro do menino. O medo!


Cuidado com o medo. O medo do caminho é paralisia. O medo de encontrar é desesperança. O medo de comprometer-se é acomodação. O medo de amar é indiferença.


“Não tenhais medo!”, diz o anjo. Curiosamente, os pastores estavam na noite fria, cuidando dos rebanhos. Homens que cuidam de bichos, variando-se por turnos. Considerados impuros, certamente pobres. É aí que lhes aparece o mensageiro de Deus. Deus é engenhoso. Não chega primeiro aos palácios nem vai primeiro aos templos; não fala primeiro aos reis, tampouco aos sacerdotes. O anúncio da grande alegria da salvação, a de que Deus veio ao nosso encontro, chega primeiro aos homens que vivem impuros entre os animais, exauridos dos trabalhos, dentro da noite. Que esse seja o retrato da vida humana, ninguém duvida: entre trabalhos e desgastes, dentro da noite sem brilho e sem luz, vendo os nossos cansaços não redundarem em nada, cercados de animais, nós mesmos tão pobres e sem sentido como eles o são. E é para nós que também se dirige o anjo: Não tenhais medo!


Mas os pastores não temiam a noite; não era a escuridão que os envolvia que os assustava. O que os assustou foi a luz. Foi o clarão, a luz rasgando as trevas, a noite dissipada que levantou o temor daqueles homens. Ter medo da noite é até justificável, ter medo dos perigos é até aconselhável, mas temer a luz; como se explica?


Talvez se explique pela surpresa: como Deus pode se avizinhar do sujo, do indigno, do impuro? Como Deus pode abrir espaço e clarão no meio das trevas e apontar caminhos? Que Deus é esse que decide falar aos que jamais o escutaram, não porque não merecessem, não porque não o pudessem, mas porque a eles nunca lhes foi dado o direito de ouvir? Por isso: Não tenhais medo! Portanto, todo aquele que hoje também se acha excluído, todo aquele que se acha preterido, todo aquele que se acha impuro; índios, negros, homossexuais, prostitutas, minorias: não tenhais medo! O medo é a arma dos fortes, a arma dos grandes. A arma dos que querem nos ver paralisados, acomodados, indiferentes, sem voz, sem vez, sem lugar, sem caminho. 


Temer a luz talvez se explique, porque a luz abre os nossos olhos para a verdade. A verdade é difícil, custosa, doída, mas sempre libertadora. Tememos a verdade. A verdade de nosso coração pode ser incômoda, a verdade de nossa face descoberta pode ser desagradável, a verdade de nossas palavras, sem amor, pode ser cruel. Como é mais fácil preferir a máscara, a inautenticidade, a mentira ou as inúmeras armaduras com que nos defendemos de nós e dos outros. Não tenhais medo da verdade que lança luzes entre trevas, que faz recuar a noite pesada e triste!


Temer a luz talvez se explique, porque a luz abre caminhos. A noite embala nosso sono, mas também esconde os caminhos. E caminhar é exigente. Muita gente prefere a zona de conforto, o que está acostumado a fazer; nunca os riscos, jamais os caminhos que se abrem à luz.


Não temer, então. O anúncio que o anjo faz é motivo de alegria. É o de encontrar um menino, recém-nascido, envolto em faixas, deitado numa manjedoura. É ele o Messias, da casa de Davi, nascido na casa do Pão (Belém), para ser alimento de vida e coragem.


Um Menino. Não um guerreiro. Não um rei. Não um Deus forte abrindo os céus para fazer o seu juízo. Ele toca a nossa história, a nossa vida, com mãos e pés de carne. Frágil. Nós temos um Deus cuja onipotência está deitada numa manjedoura, embalado nuns paninhos e que chora! Que grunhe! Nosso Deus não é o velho carrancudo das imagens, não é o razinza que a gente pinta, não é o mal-humorado azedo que a gente desenha; Deus é em sua primeira aparição na carne: menino. Abandonem uma criança recém-nascida à própria sorte: ela não sobreviverá! Deixem de lhe prover os cuidados necessários: ele não resistirá. Que engenho: o Deus de que precisávamos é um Deus que precisa de nós. E que clama: cuida de mim! Ele o pede com seu silêncio, velado por sua mãe e por seu pai: cuida de mim! O mistério de Deus revelado nessa criança, seu filho, pode ser traduzido assim: Deus se faz frágil e com seu rosto pede cuidado! E como uma mãe e um pai nascem quando geram um filho, nós somos chamados a nascer como homens e mulheres que cuidam.


O cuidado se dá na simplicidade. Num estábulo. Simplicidade é “aquilo que ainda não se perdeu nas encruzilhadas de nossas sofisticações e de nossas complexidades, disso que às vezes quase parece que é autenticamente humano, mas no fundo é uma espécie de falseamento do que nós somos de verdade. Porque no fundo aquilo que nós somos mesmo, aquilo que, de fato, torna-nos quem nós somos e faz com que a gente se sinta inteiro, autêntico e em paz são situações muito simples, são familiaridades íntimas... A simplicidade é o menino que desce do céu; um Deus que pode ser amado (porque não assusta)” (Frei João Júnior). Ou poderíamos dizer, com o poeta: o único Deus possível é o Deus menino. Aquele com quem podemos brincar e, no fim de tarde, podemos despi-lo, banhá-lo e embalá-lo em nossos cuidados.


Embalar esse menino é também deixar-se cuidar. É o que vamos descobrir: acolhendo a Deus com cuidado, embalando o próprio cuidado que veio ao nosso encontro, na manjedoura de nossa vida, perceberemos, mais cedo ou mais tarde, que foi Deus quem nos tomou no colo e nos guardou no seu coração de Pai.


Cuidado é sinônimo de amor. Ele rompe a indiferença, faz-nos sair da acomodação, ajuda-nos a vencer o desespero, nos arranca da paralisia. Faz-nos caminhar!


Esse menino, deitado na manjedoura, sem lugar na hospedaria, é o contra-caminho de nossas buscas por poder, de nossas lutas sanguinárias, de nosso derramamento de sangue, de nossa acomodação diante da injustiça, da retirada silenciosa dos direitos, da guerra armada ou sem armas, da violência. Esse menino, ali quietinho, naquela noite, envolto de simplicidade, quer ser caminho para restabelecer o direito e a justiça.


Que o jugo, o madeiro e o bastão do opressor sejam quebrados. Que todo calçado de guerra e toda veste manchada de sangue seja jogada no fogo! Porque um menino nasceu para nós, desapareça do nosso meio todo anteprojeto, em relação ao cuidado.


Amém.







Para pensar:    45. Espiritualidade do Advento – IV Domingo