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19. O CREDO: Creio em Deus Pai [...] criador do céu e da terra

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28.08.2015 | 8 minutos de leitura
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19. O CREDO: Creio em Deus Pai [...] criador do céu e da terra
Criador do céu e da terra

O Credo contém a síntese da nossa fé, mas representa uma armadilha quando entram em cena nossas projeções inconscientes, que o deturpam e não nos deixam ter uma fé adulta e madura. O Credo quer despertar nossa confiança em Deus e eliminar o medo que, às vezes, temos dele. O Irmão Emmanuel de Taizé nos alerta para um perigo: “Muitos medos, desejos e transferências inconscientes correm, de fato, o risco de identificar o Deus ‘todo-poderoso’ com um Deus que decidiria tudo aqui embaixo e controlaria particularmente os eventos, bons e maus, da vida de cada um; o Deus ‘criador do céu e da terra’ com um Deus que poderia, com um toque de varinha mágica, realizar instantaneamente seus projetos e resolver todos os problemas; o Deus ‘Pai’ com um Deus que adotaria um comportamento exclusivamente paternal no masculino; o Deus que vem ‘julgar os vivos e os mortos’ com um Deus que puniria ou rejeitaria um ou outro”. Nesse caso, corremos o risco de adorar a um Deus ídolo – um falso Deus – feito à nossa imagem e semelhança. Uma visão de Deus só é autêntica quando nos humaniza, ou seja, nos arranca do medo e nos imerge numa experiência de liberdade e de amor solidário.


O Credo, depois de afirmar que Deus é Pai todo poderoso, afirma que Ele é criador “do céu e da terra” (símbolo apostólico); a expressão quer dizer “tudo o que existe para além de Deus”. Muitos pensam que Deus criou o mundo e os seres vivos tais quais existem hoje, interpretando o relato da criação no Gênesis (cf. Gn1, 1-2,4) em sentido literal, como descrição exata do primeiro acontecimento do universo. Acontece que o livro do Gênesis não apresenta a criação numa perspectiva paleontológica ou arqueológica; nem o Credo tem essa pretensão. Nesse sentido, o Credo não está discordando das modernas teorias da evolução, como se o cristão devesse escolher entre aceitar a teoria da evolução ou acreditar na criação do universo por parte de Deus. O Credo não se opõe à teoria da evolução; ele apenas propõe como artigo de fé que tudo aquilo que existe tem seu fundamento último no dom gratuito de Deus.


Os cristãos acolhem as informações que lhe chegam através da ciência, segundo a qual o universo tem, calcula-se, 15 bilhões de anos. A terra surgiu há 4,54 bilhões de anos, ou seja, 10 bilhões de anos depois. Houve um tempo no universo em que a terra não existia. No planeta, a vida começou há 3,5 milhões de anos. A vida humana é recente. O homem consciente, livre e responsável teria surgido entre 150 a 35 mil anos atrás. A história humana, diante da história do universo e da própria terra, é ínfima. Espécies se extinguiram antes do surgimento da vida humana. Cientistas estimam, mas aqui se trata apenas de uma hipótese, que o sol aquecerá a terra numa temperatura suportável por mais uns 5 bilhões de anos. Nós podemos, portanto, ser cristãos e acolher a teoria da evolução. “Cremos que Deus criou através da evolução”. Mas Deus é uma causa transcendente, não detectável pela ciência. A criação tem causas imanentes, explicáveis pela ciência, e causas transcendentes, que a ciência não atinge, porque Deus não é uma causa entre as outras; ele atua no mundo como seu fundamento, dando o ser a tudo o que existe.


O mundo existe porque Deus quis e ele o quis por amor, eis o que professamos no Credo. A criação de Deus é pura gratuidade, pois não existe nada que possa obrigar Deus a fazer isto ou aquilo. Em Deus não há necessidade, ele é pura liberdade. Acreditamos que ele criou do nada, ou seja, não havia o universo e o tempo antes que Deus os criasse. Os seres humanos só podem criar a partir de uma matéria prévia. Na verdade, eles produzem a partir do criado. Deus produz a partir do nada, ou seja, ele cria. Só ele é, em sentido estrito, criador, ou seja, a origem de tudo, do espaço, do tempo e da possibilidade de vida. Mas o mundo não foi criado como existe hoje. Deus deu ao criado a possibilidade de ser mais, de evoluir rumo aos surgimento dos seres humanos, seus representantes na terra, os únicos com os quais ele estabelece um diálogo salvífico-amoroso.  No Gênesis, lemos que Deus criou os animais “segundo sua espécie” (cf. Gn 1, 25), mas o ser humano ele criou “à sua imagem e semelhança” (cf. Gn 1,27). O ser humano é, pois, o ápice da criação. Deus o criou para si, para fazê-lo participante de seu amor. O amor se revela a razão última da criação. Deus quis sair de si para difundir o seu amor, para que outros fossem felizes com ele.


O poder criador e recriador de Deus acompanha a história. Esta criação na qual nós estamos sempre recomeça, porque Deus não apenas criou; ele cria, recria, sustentando o universo com seu poder misericordioso. Deus é infinitamente criativo. Não se repete em nenhuma de suas criaturas. Cada folha que caié diferente de todas as outras que já existiram. Cada ser é único. Mas o ser humano, infelizmente, tem poder para destruir o planeta pelo uso indevido dos bens naturais. O Papa Francisco, na sua encíclica sobre o cuidado com a casa comum (Laudato Si’/Louvado sejas) faz um apelo à humanidade inteira para que salve a terra através de uma solidariedade globalizada. Precisamos salvar a terra, criação de Deus, para garanti-la às gerações futuras. Mas não só. Toda a obra de Deus está destinada a honrá-lo e glorificá-lo para sempre. A criação de Deus, por si mesma, merece ser respeitada, pois participa do plano salvífico de Deus e está destinada a participar da plenitude que ele é. Ela tende à “glória dos filhos de Deus” (cf. Rm 8,21). Enquanto querida e desejada por Deus, a criação não pode falhar, porque, não obstante a maldade que possa haver no mundo, a obra de Deus é boa (cf. Gn 1, 4.10.12.18.21.25) e a ela está reservado um final feliz. A criação de Deus não fracassará.


De todas as coisas visíveis e invisíveis

O Credo (símbolo niceno-constantinopolitano) afirma, ainda, que Deus é criador do “universo visível e invisível”. Hoje não gostamos muito de falar do mundo invisível. Ele nos parece irreal; somos, às vezes, por demais materialistas. O Credo, no entanto, propõe a existência do invisível. Em primeiro lugar, a expressão “de todas as coisas visíveis e invisíveis” faz alusão à totalidade do mundo criado. Mas a expressão se mostra libertadora ao descontruir as representações de um mundo invisível que manipula o ser humano à custa de sua liberdade. O mundo invisível emerge na cultura popular – às vezes também na erudita – como o mundo dos espíritos, dos mortos, das energias ou mesmo de deuses do bem e do mal que lutam entre si. Na antiguidade, o maniqueísmo pregava a existência de um Deus bom, origem do bem, e a de um Deus mal, causa de todos os males. Há os que acreditam na existência de gnomos, extraterrestres, almas penadas etc. Representações ainda muito presentes em nossa cultura e que mantêm muitas pessoas no medo e na dependência, adeptas de ritos supersticiosos que visam manipular as forças invisíveis para obter proteção contra os poderes maléficos e bênçãos dos poderes benéficos. Mesmo no cristianismo, essas práticas supersticiosas estão presentes, afastando as pessoas do essencial. O Credo cristão nos liberta destas representações supersticiosas. Quando rezamos no Credo que Deus é criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, estamos afirmando que a totalidade do mundo, visível e invisível, está submetida ao poder criador de um Deus de bondade e misericórdia. Assim, a mensagem cristã expressa no Credo nos liberta do medo do mundo invisível e nos leva a confiar na radical bondade de Deus, porque, como diz São Paulo, “eu tenho certeza que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem as dominações, nem as coisas presentes, nem as coisas futuras, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza e nenhuma outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 8,38-39). O mal existe, mas sabemos que não há um Deus do mal. Não há poder maléfico capaz, por ele mesmo, de nos separar da bondade e do amor de Deus manifestados em Cristo.







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