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18. O CREDO: Creio em Deus Pai Todo-poderoso (2)

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15.07.2015 | 7 minutos de leitura
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18. O CREDO: Creio em Deus Pai Todo-poderoso (2)

Deus todo-poderoso - onipotente


Creio em Deus Pai todo-poderoso”, rezamos no símbolo apostólico. Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, no símbolo niceno-constantinopolitano. No último número, nos ativemos à designação Pai para Deus que aprendemos com e de Jesus Cristo. No Evangelho de João, os termos Pai e Deus são praticamente sinônimos. Os gregos chamavam Deus de Zeus, o pai de todos os deuses e dos os seres humanos; os babilônios o denominavam Marduk, que os protegia. Jesus nos revelou o verdadeiro nome de Deus: Pai. Em seu mistério, Deus é Pai e nos envia seu Filho para nos revelar quem ele é e o que espera de nós: que sejamos seus filhos e filhas, no Espírito Santo, que foi enviado por Jesus em sua ressurreição.


Quando rezamos o Credo, afirmamos que nosso Deus, o Pai, é todo-poderoso. Afirmação que traduzimos, de maneira espontânea, do seguinte modo: Se Deus pode tudo e me ama, ele necessariamente me dará tudo o que eu quero. Ou seja, resolverá todos os meus problemas e transformará a minha vida num verdadeiro oásis, sem sofrimentos e dificuldades. Infelizmente, muitos hoje coisificam a graça de Deus. Ela se transforma em presentes materiais, de todos os tipos, que Deus nos dá. E, quando não recebemos exatamente aquilo que pedimos, nossa fé diminui e esmorece. É comum ouvirmos: - Perdi a fé porque Deus não me deu o que eu queria; pedi tanto, rezei tanto, fiz tanta novena, promessa, peregrinação, mas não consegui nada e acabei descobrindo que Deus não é bom, pois se fosse, teria me concedido o que eu pedi.


Esse raciocínio, de maneira mais sofisticada, faz com que muitos desistam de acreditar em Deus, pois, se é bom, como permite que haja guerra, fome, opressão, doença, desastre ecológico, tragédia etc.? Se fosse realmente bom e todo-poderoso, o mundo seria uma maravilha. De fato, para muitos, o problema do mal dá origem ao ateísmo, ou seja, leva muitos a não acreditarem em Deus. Por trás dessa visão, há uma forma equivocada de pensar a onipotência de Deus. Aliás, se Deus pudesse tudo, mas não acabasse com a guerra, ele seria pior do que nós, que não acabamos com a guerra por falta de meios eficazes. Nós queremos e não podemos; Deus pode e parece não querer.


Deus oni-impotente – todo sem poder?


A afirmação central do cristianismo é esta: Deus é amor. O poder de Deus se encontra, portanto, numa doação que não conhece limites. Ele é Pai que, no amor (o Espírito Santo), gera o Filho e o envia para que assuma nossa humanidade para nos reconduzir a Ele. Deus é eterna comunicação amorosa. Seria um erro pensar o poder de Deus como possibilidade de fazer o que quiser, ou seja, como se ele tivesse um poder indeterminado e arbitrário. O atributo todo-poderoso cabe a Deus, do nosso ponto de vista, porque ele é a origem permanente de todo o criado. Nele se encontra a origem do nosso ser; porque do nada nos chamou à vida, merece ser chamado todo-poderoso. Por outro lado, Deus não pode jamais negar-se a si mesmo (cf. 2Tm 2,13). E, se Deus é essencialmente amor, então ele só pode amar. Deus só faz amar, eis o que aprendemos de Deus com Jesus.


A justiça de Deus no NT significa que ele é fiel às suas promessas e as cumpre com misericórdia e amor. Nas parábolas da misericórdia (cf. Lc 15), Jesus revela o que é mais próprio de Deus: amar e amar, e só amar. Em que sentido Deus é oni-impotente, ou seja, sem poder? Há uma coisa que Deus não pode? Sim, ele não pode odiar, não pode fazer o mal. Jesus fez só o bem. Jesus nos ensinou a fazer o bem a quem nos faz o mal. Morreu intercedendo pelos seus algozes. São Luis Orione tem uma frase que resume qual deve ser o comportamento do cristão a exemplo de Cristo: “Fazer o bem a todos, sempre. O mal nunca, a ninguém”. Deus nunca faz o mal. Ele é, portanto, oni-impotente, porque sua onipotência é, na verdade, o frágil poder do amor. O que pode o amor? Só amar e mais nada. Sua onipotência é seu amor sem limites. Ele é poderoso em amor.


Deus nos fez pessoas livres, porque quis construir conosco uma relação de amor. Só na liberdade é possível amar verdadeiramente. O amor não se confunde com obrigação, por isso carrega a marca da vulnerabilidade. Santo Agostinho dizia: “Quem te fez sem ti não te salva sem ti”. Quer dizer que Deus nos criou para ele (salvação), mas deseja que acolhamos o seu amor, sem nos constranger. Respeitou a liberdade de Jesus e a dos pecadores que o crucificaram. Não desceu o Filho da cruz. Não é que ele tenha permitido a morte do Filho, como afirmam alguns. Não. Ele apenas não interferiu na liberdade dos homens, que fazem a história. Mas, no seu amor grandioso, deu vitória a Jesus sobre a morte e o pecado, ressuscitando-o dos mortos.


Podemos afirmar, então, que Deus respeita a autonomia do mundo que ele mesmo criou com suas próprias leis imanentes. Não somos marionetes que ele manipula a seu bel-prazer. Seu desejo é construir conosco uma relação de amor e, para isso, precisamos ser livres; só assim nos tornamos aptos para acolher sua revelação em Jesus Cristo. Mas porque tanta miséria no mundo, se Deus é bom? Não é, certamente, culpa de Deus, pois seu projeto para nós é outro, como nos mostra Jesus com o anúncio do Reino de Deus, que é justiça, paz, amor, fraternidade e liberdade. Jesus revela quais as intenções de Deus para as relações humanas, o que significa viver segundo o senhorio de Deus.Se o mundo vai mal, a culpa não é de Deus, mas nossa, porque não realizamos a vontade de Deus manifestada no seu Filho. Nosso problema é que queremos contemplar, passivos, o agir maravilhoso e poderoso de Deus no mundo, quando, na verdade, ele nos pede para, com sua graça, construir um mundo melhor, como lemos em Mt 25. Ele quer e só pode agir através de nós. Depende, portanto, de nossa liberdade transfigurar o mundo em Reino de Deus. Esse é, aliás, o distintivo dos santos, que viveram em sua vida uma solidariedade desinteressada e ilimitada, como Jesus.


Se o poder de Deus é amor que se expressa na misericórdia, então não há lugar para termos medo de Deus. Ele não veio chamar os justos (cf. Mt 9,13). A ideia de uma perfeição de nossa parte que dispense a bondade e misericórdia de Deus não encontra lugar no cristianismo. Em Jesus, o próprio Deus assumiu a fragilidade do nosso corpo para nos amar com um coração humano. Diante de um Deus que sofre na pessoa do Filho crucificado, não precisamos nos sentir condenados pelo poder de uma grandeza e perfeição sem misericórdia. Ele se compadece de nós na fragilidade do amor e o seu desejo é enxugar nossas lágrimas (cf. Ap 21,4). Resta-nos apenas nos deixar amar e perdoar por Deus.







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